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Friday, January 21, 2011

Suma Irracional - O Tratado da Blogoesfera

Jiló mandou avisar que o novo palácio de todos está pronto. Eu por eu postarei devagar, mas já tem gente do bem ocupando os espaços vazios.

Chegou o Suma Irracional – O Tratado Público da Blogoesfera Sentimental!

Podem chegar, divulgar e comentar, que tudo vai ficando claro e mais ajeitadinho aos poucos.

“Oba, oba total”, como diz Jiló.

Abrax, vejo vocês lá!

RF

Friday, December 24, 2010

Retrospectiva 2010 - Parte 2

À frente da humanidade ainda atravessa a delicada e complexa missão de erradicar a violência institucionalizada de suas amostras e decisões de poder. O Presidente Barack Obama, nos Estados Unidos, exerceu seu papel positivista na política da hegemonia militar e escalou o número de tropas enviadas ao Afeganistão. A última conclusão do presidente segundo a Inteligência impecável que possui* aponta as conquistas “democráticas” obtidas contra o Talibã e os mais diversos grupos de mujahadin no Afeganistão, ainda frizando que são conquistas “frágeis”. Não há mais paz no Oriente Médio, é o que interessa. Este autor está cansado de discutir em defesa e contra todos os ângulos e lados desse conflito. Israel coleciona desastres públicos e humanitários com seu cerco à Faixa de Gaza, o que acarretou nos acontecimentos da flotilha pró-Palestina que tentava furá-lo, atacada, abatida e usada internacionalmente contra qualquer espécie de desculpa israelense. A Palestina ganha reconhecimento do Brasil e da Argentina, recentemente, como estado legítimo.Pela paz mundial, contudo, não há evolução. Rússia e República Tcheca ainda brigam como d’antes. A Coreia do Norte ressurge continuamente como o filho de Escarlate trancafiado no porão com seus planos maquiavélicos. Assusta a Coreia do Sul e a semi-onipotente China. Pelo passado militar sangrento, no entanto, a memória não falha. Brasil é acusado de crimes de guerra oficialmente pelas Nações Unidas pelos terríveis e abomináveis acontecimentos durante a Operação Araguaia. São guerras internas, civilizatórias, externas, globais, pessoais, étnicas, ideológicas e religiosas.

Confesso que perdi um pouco de minha “alma” nos seis anos de estadia nos Estados Unidos. Ainda milito pelo que acho certo, mas mais pragmaticamente. Esse pragmatismo, objetivismo quase morto de tão frio, não fazia parte de minha mente sonhadora. Não sei o motivo, nem tenho explicação. Eric Voegelin cunhou a expressão “salto em ser”, o que pode ser definido como uma atitude ou construção individual muito maior do que a pessoa que o fez ou construiu. Não sei se mestres como Albert Einstein, Sigmund Freud, William Shaekspeare, Martin Luther King, John Lenon etc pensavam nesse salto. Não sei se pensavam em ser mais, melhores, maiores mesmo que em seletas qualidades quando tornaram-se grandes. Pessoalmente, antes de 2010 tinha como objetivo ser, e não ter, do melhor. Em 2010 me preparei psicologicamente para criar uma familia, mas não foi somente esse lado materialista que me influenciou. Percebi que, depois dos 30, terminaram as colheres de chá e as pessoas esperam de mim simplesmente tudo o que não esperavam seriamente antes.


Foram guerras e mais guerras em 2010. Guerras contra meu inerente conformismo, por exemplo. Guerras anti-ideológica do princípio ao fim. Guerras com meu estar, guerras com o futuro, guerras com meus próprios ideais, o que enfim, agora em 2010, mais parecem favorecer a calmaria. Guerras contra outros, inclusive outros muito meus, amados e queridos. Guerras desnecessárias… Descobri em 2010 que meu maior desafio nessa vida, minha única chande de “saltar em ser”, é encontrar a tranquilidade, não na ausência de conflitos inevitáveis, mas na ausência de guerras, na ausência do conceito de itjihad muçulmano, na ausência da necessidade constante que tenho de brigar comigo e com todos. Acredito também que, justamente por perder a “alma”, ganhei “armas” psicológicas de reposição de ego. Se perdi a ideologia, ganhei na elasticidade mental. Continuo sabendo menos do que sei saber, sabendo saber menos do que gostaria ou penso que sei, é verdade, mas não consigo mais me prender a uma causa humanitária exclusivista, e considero isso uma grande vantagem. Na resolução, logo, de problemas de cunho emocional e intelectual preciso refinar a raiva, que é em si absolutista e exclusivista. É meu maior desafio aos anos que me restam nessa Terra. Quero, mais do que morrer tranquilo, viver representando uma pessoa tranquila, menos ciumenta e invejosa, mais concentrada e mais benevolente mesmo nas maiores adversidades.


O mundo vem rompendo com as antigas hegemonias. Quiçá em nenhuma outra área esta afirmação faz mais sentido do que no mundo esportivo. A Copa do Mundo realizou-se na África. Houve pequenos problemas (grandes, mas pequenos para quem está acostumado a conviver com maiores níveis de iniquidade social), como furtos e incidentes isolados, mas todo o temor do mundo “civilizado” não se confirmou. Não houve necessidade de colete à prova de balas, apesar do episódio trágico em Janeiro, quando radicais separatistas em Luanda, Angola, dispararam contra jogadores da Seleção Nacional do Togo deixando um morto (motorista) e nove feridos, incluindo dois jogadores. O evento mais assistido do planeta foi um sucesso relativo em termos de infra-estrutura, mas no contexto da exposição do Sul Global, da África nada menos, ao Norte Global, o sucesso é absoluto. Os Estados Unidos, já tendo perdido a hospedagem da Copa de 2014 para o Brasil, perdeu a oportunidade de realizar os jogos em 2018 e 2022 para Rússia e Qatar, respectivamente. No páreo também estavam Portugal e Espanha, antigas colonizadoras imperiais. A Espanha, aliás, que entrou para o clube seleto e elitista de vencedores de copas de mundo em 2010. O Brasil, grande hegemonia, já se despede da competição nas quartas de final há oito anos. No ramo dos clubes, o TP Mazembe, clube modesto do Congo, derrubou o Internacional de Porto Alegre para disputar a final contra o Internazzionale de Milão. Apesar de vice-campeão, entrou para história realizando algo anteriormente tido como impensável**.

Sorte no esporte, azar no amor? Entendo hoje que toda história só se define depois de completa e em 2010 minha história romântica de quatro anos terminou fazendo-se inteira. Todos os segmentos insólitos de minha personalidade adquiridos ou refinados no contexto do relacionamento hoje fazem sentido enquanto então padeciam do obscurecimento natural na iminência. Tenho a dizer sobre isto: É o que mais consome minha mente cotidiana. É o evento singular mais importante de minha história. É a maior transição de hegemonia egocêntrica que passo sempre que passo por essas fases.

Nunca conseguirei, acho, entender como é possível sentir e deixar de sentir, ter importância e deixar de ter importância na vida das pessoas que amamos. Se já é ultra-complexo quando se trata de nossa familia, infinitamente mais quando se trata de estranhos, e quando há sexo envolvido bota complexo nisso. Como a anedota que gosto de contar quando falo no assunto. Meu pai e tio foram ao Instituto Butantã de pesquisas biomédicas com meu irmão mais velho a mostrar-lhe cobras e outros répteis. Um dos profissionais ali presentes explicou ao grupo de homens do clã Frenkiel que estava prestes a realizar uma cirurgia “bipenal” em uma cobra. “Bipenal?” Perguntou meu tio, o médico psiquiatra. “Sim, as cobras tem dois pênis, é a operação de dissecar e examinar suas genitálias. Bi-penal, pois…” Abismado, meu pai disse a meu tio: “Nascer cobra nesse papo de carma budista eu to fora, guri.” Titio perguntou o motivo, ao que papai respondeu: “Se um pênis já dá todo esse trabalho, imagine dois!”


Espero que a associação sexual não ofusque o romantismo (para mim só contribui). É a coisa mais complexa do mundo relacionar-se com outros seres humanos, como diria o personagem “Dexter” da série estadunidense da Showtime. Só acrescentei que é especialmente complexa quando há sexo envolvido. Assim enlaço outro apelo a 2011, que a amargura que espeta meu peito enquanto ainda tento esquecer esse amor se dissipe e se torne doçura em minha busca ao crescimento.


Por hora, boas festas a todos e todas; paz, amor, carinho, muito carinho, companhia, amizade e dinheiro, sim, dinheiro que nunca é o problema, só a solução.

Forte abrax,

RF

*Só não previniu a tentativa do atentado do homem bomba-cueca nigeriano, no início do ano, apesar dos repetidos avisos do pai sobre a alinhação ideológica do filho; ou o ingresso penetra do casal Salahi no jantar presidencial icônico ao fim de 2009; e mais recentemente ajudou a não fazer nada contra a exposição ao ridículo imposta por Julian Assange, criador do Wikileaks, entre outras excelentes façanhas similares, isso contando apenas os últimos 14 meses.


**Há muitos outros eventos e modalidades a discorrer quando se trata de esporte, inclusive, para mim, modalidades antes tidas como chatas, como o Baseball. No entanto, nem é uma questão de espaço, mas de preferência pessoal da modalidade, e da importância política paralela que a Copa do Mundo representa nesse contexto.

Saturday, December 18, 2010

Eu pergunto e tu respondes!

No filme “American Beauty”, de um de meus diretores favoritos, Sam Mendes, o veterano de guerra e pai do introvertido e complexo namorado da protagonista esconde sua homossexualidade às últimas consequências. Se nascesse depois de hoje, Sam Mendes teria um personagem a menos em sua trama brilhante que, como poucas narrativas hollywoodianas, expõe a esquizofrenia estadunidense.

Sim, pois hoje no Senado duas batalhas foram travadas pelas minorias do país. Uma, perdida, a do Dream Act, tentava legitimar a cidadania de estudantes trazidos ilegalmente pelos pais enquanto ainda menores e que não recebem seus diplomas oficiais pelo status imigratório ainda ilegal. 55 a 41 votos ainda separaram os estudantes ora brilhantes, que procuram apenas obter o produto de seus árduos trabalhos, de seu sonho ainda inatingido. Estudantes como o ativista Felipe Matos, a quem tenho o privilégio de chamar de amigo pessoal e antigo, desde os 22 anos de idade, e à quem a revista Carta Capital homenageia em artigo que pode ser acompanhado aqui.

A segunda venceu-se, no entando, e isto apesar da advocacia opositora ferrenha de John McCain. Aquele que podia ser nosso presidente primeiro exigiu uma pesquisa sobre a opinião dos soldados das forças armadas do país. Quando obtida a pesquisa favorável à proposta massivamente popular, fez-se o insatisfeito e pediu uma pesquisa científica sobre os efeitos da lei anti-constitucional, mas institucionalizada nas forças armadas. Quando obtida a pesquisa, ainda positiva e condizente ao que agora chamamos de realidade, ainda insatisfeito, pediu mais pesquisas e nenhuma delas, nenhuma opinião provava-lhe o ululante, nem mesmo quando oficiais de todos os setores das forças armadas demonstraram quão banal, quão vil e quão estúpido era privar seus companheiros de guerra e de serviço militar da honestidade quanto a suas respectivas sexualidades.

A proibição, que não lei, pois leis devem ser justas, humanas e iguais, infame de “Não pergunte que não respondo” finalmente caiu no Senado por 65 a 31 votos.


Mesmo sendo contra a guerra, negar beneficios, forçar o retiro de oficiais honrosos, que serviram por uma causa que acreditaram ou por outros motivos, não dando menos de si por uma ideia que os antecede, é a antítese de qualquer pais que ainda quer dizer-se democrático. Aconteceu na era de Barack Obama, mas não por Obama, acreditem, contudo muitos menos por John McCain ou Sarah Palin, esta mais preocupada em estourar os miolos de animais alaskanos indefesos. O que importa é que aconteceu.

Felipe Matos, homossexual orgulhoso, apoia a vitória de seus irmãos e irmãs. Torçamos por sua vitória em 2011.

RF

Wednesday, October 13, 2010

Idiotas, Imbecís e Bobos – Escândalos Políticos Universais

Se algum dia se depararem com algum estrangeiro criticando personagens políticos como Tiririca, o finado Clodovil ou a reelegibilidade de políticos como Fernando Collor de Mello ou Paulo Maluf, citem os seguintes quatro casos de personalidades políticas nos Estados Unidos para traçar o parâmetro universal da estupidez humana. Está certo que essas figuras aqui não ganham tanto território quanto no Brasil (apesar da boa notícia da rejeição massiva de Collor no Alagoas, um bom passo adiante), mas existem e não são raras. Ao menos uma das “otoridades” aqui mencionadas pode chegar a cargos insustentáveis no poderio estadunidense, conforme podemos observar:

4 – Sarah Palin – A ex-candidata à vice-presidência no bilhete de John McCain é a epítome da banalidade política institucionalizada. Entre os casos aqui exemplificados ela é a personalidade que mais longe pode chegar em sua carreira política apesar de ter exposto todo seu brilho no último ciclo eleitoral. Nos meses seguintes à derrota, membros de sua campanha se pronunciaram e explicaram o quão difícil foi trabalhar com um dos atuais símbolos do Partido Republicano. Difícil justamente pela ignorância política da mesma, pela dificuldade de memorizar nomes corretamente e pela extrema dificuldade de discorrer sobre temas politicamente carregados. Palin é famosa por frases como: “Claro que sou capaz de lidar com a política externa do país, eu vejo a Rússia do quintal da minha casa!” Além disso, Palin já fazia parte de um inquérito sobre sua conduta ética quando governadora do Alaska. À época pressionou e pediu a demissão de um oficial de justiça por um caso pessoal envolvendo o oficial e a filha de Palin. Suas filhas, aliás, sempre dão o que falar. Enquanto Palin se gaba por ser mãe de familia e exemplo vivo de moralismo e ética familiares, suas filhas, especialmente Bristol, aparecem e expõem ao público quanto controle a mamãe tem em sua própria casa. Bristol já engravidou aos dezesseis anos, foi abandonada e depois re-assumida pelo jovem pai, e sempre reaparece como bom ou mal menino para infernizar a carreira pública de sua sogra.

3 – Christine O’Donnell – Candidata republicana ao Senado em um estado onde quase nunca houve incumbentes republicanos, O’Donnell foi a primeira política “desoberta” por Bill Maher. Aliás, no filme “Religulous” produzido pelo comediante, a candidata de Delaware torna-se um dos exemplos clássicos sobre a mistura de crenças individuais e a legislação de determinados estados é a história da candidata. O’Donnell já participou de um grupo de “bruxas” (Wiccans, uma religião pagã suficientemente popular em alguns estados do país), e apesar disso ser um detalhe sórdido em sua vida agora pública, não é o unico. O’Donnell é também contra a masturbação, algo que usou como mote em sua própria campanha eleitoral. Seus valores pesadamente religiosos tampouco fazem o fim de sua linha. A candidata ao Senado encontra supostamente recorreu a verbas de suas campanhas para uso pessoal. Na semana em que mais arrecadou verbas, inclusive, não teve uma única propaganda produzida. É, aliás, o único escândalo ao qual ela não quer referir-se e sobre o qual não dá mais entrevistas. Afinal, a primeira coisa que sai de sua boca em sua nova propaganda política é: “Meu nome é Christine O’Donnell, e não sou uma bruxa.”

2 – Carl Paladino – governador republicano de Nova York, criou uma aliança com um grupo de rabinos ortodoxos de seu estado para denunciar os impropérios do homossexualismo. Em seu discurso, rodeado de ultra-ortodoxos judeus com seus chapéus e roupas pretas e barbas selvagens, Paladino disse que não queria transmitir a imagem que seu estado considera homossexuais e “pessoas normais” o mesmo. O governador foi enfático ao dizer que seus valores familiares não compartilhados pelos liberais e progressistas em Washington lhe dão suficiente autoridade moral para condenar o homossexualismo, seus trajes inconvencionais e seu comportamento libertino. Ainda teve a coragem de citar, explicitamente, que o sucesso da comunidade heterossexual e o sucesso de indivíduos homossexuais não se equiparam. Em outras palavras, o homossexual jamais poderá ter uma vida bem sucedida pelo simples fato de assim sê-lo. O maior escândalo não está em suas palavras preconceituosas e o fato de que Paladino criticou os trajes de homossexuais rodeado por urubus ultra-ortodoxos que parecem ter saído da Holanda do século 18. Paladino teve uma corrente de e-mails exposta na qual o governador enviava fotos e vídeos de bestialidade (sexo com bichinhos inocentes) para seus colegas e amigos. Além disso, recentemente teve sua “segunda família” descoberta pelos rivais políticos. Sim, Paladino, o lider em questões de cunho moral não só tinha uma amante, mas uma família secreta.

1 – Rich Iott – É o segundo político republicano às vésperas das eleições gerais nos Estados Unidos “descoberto” pelo comediante Bill Maher. Rich Iott só leva o prêmio de primeiro lugar porque seu escândalo é imperdoável para qualquer base no país. O candidato a Representante do Congresso tem um hobby peculiar: Como gosta de história, pratica encenações de episódios épicos. No entanto, o personagem que encenava era o típico soldado da SS ou da Luftwaffe, o exército e a força áerea nazistas. Iott disse que iniciou seu ciclo no grupo conhecido como Wikings (wikings.or é seu portal, se é que já não foi retirado do ar), para conectar-se com o filho adolscente. O repórter de Bill Maher foi o primeiro a falar sobre o tema, e agora o candidato está queimado na via pública por todos os meios de comunicação. Apesar de Iott declarar que não é nazista e não simpatiza com sua filosofia, em sua entrevista consegiu cavar buraco ainda mais profundo quando disse que sempre esteve fascinado que um país geograficamente limitado tenha conquistado tantas coisas “incríveis” de um ponto de vista “estritamente militar”. Daí para “os nazistas foram incríveis” nos anais midiáticos foi menos de meio passo.

Claro que há outros casos, e certamente há casos envolvendo políticos de ambos partidos. Esses, no entanto, provavelmente resumem a espécie de ignorância política à qual temos de nos acostumar. Quem sabe essa imagem melhore o conceito que as pessoas tem pelos Estados Unidos. É um critério a menos a se emular, ao menos.

RF

Monday, October 04, 2010

Rápidas sobre as eleições rápidas; Cada vez mais rápidas

Eis que a CNN reporta na tarde de Sábado que uma candidata ex “guerrilheira marxista” deverá assumir - pela primeira vez uma mulher - o cargo presidencial.

Há dois anos, quando presente na redação do Estado de Minas dos Diários Associados, vi a ficha criminal de Dilma Rousseff pendurada em uma das divisórias. Desde então, ainda antes da quase consumação de sua vitória agora postergada ao segundo turno já sabia o que a ficha representava para a história brasileira.

Sabia que alguns usariam a informação para enquadrá-la como criminosa. Pois bem, seria praticamente impossível que um assaltante fosse eleito presidente nos Estados Unidos. Já diriam certos macacos que um afro descendente ainda vai lá, mas um assaltante? Jamais.

Porém, o contexto da ditadura militar (aprovada e parcialmente financiada pela política externa estadunidense da geração) e meu próprio relacionamento direto com o Brasil automaticamente me dão o conhecimento necessário para não enquadrar os crimes de Dilma naquela época no contexto dos crimes cometidos atualmente em sociedades ultra populadas e de cotidianos violentos. O que ela fazia, aliás, não pode ser sana ou remotamente comparado a atos terroristas categorizados como tal em sociedades ou contra sociedades mais ou menos livres. Digo mais:

Conheci outros “criminosos” anti-militares da época e sei que ao menos um ou dois seriam capazes de governar o país tão bem ou melhor do que Lula.

Ou seja, o contexto da revolução democrática no Brasil, especificamente mirando a atuação dos soldados de rua, não dos eventuais líderes corruptos, é completamente brasileiro. Citar que uma “guerrilheira marxista”, ex ou não, poderá ser a primeira mulher presidente do Brasil é no mínimo uma meia-verdade, ou um ângulo extrema e vexaminosamente reducionista da imprensa. Por aí segue o etnocentrismo da mídia no país:

Seu maior problema talvez seja sua precipitação constante em julgar outros países de acordo com seus próprios valores, utlizando-se desse julgamento para atingir objetivos geralmente mercantis. Apesar de ser uma característica midiática clássica, a importância do etnocentrismo nos Estados Unidos é ampla por dois motivos principais:

1 – Como hegemonia atual o regime do país interfere mesmo que indiretamente nas ocupações políticas e econômicas de outros países em outras regiões do planeta. A política externa dos Estados Unidos, como costumeiro, já é voltada a seus próprios interesses e muitas vezes ignora a realidade doméstica das regiões com as quais trata amistosamente ou não. A mídia nos Estados Unidos infelizmente segue a mesma linha cultural de seu governo – mesmo podendo, por mídia, tornar-se uma boa contrapartida, o que ocorre em apenas poucos e bons canais – e ignora, na maioria das vezes, a realidade doméstica das regiões das quais reporta.

2 – O que a população local pensa em uma república democrática representativa como os Estados Unidos – o Brasil também, nesse caso – é bastante relevante quanto aos eventuais resultados eleitorais. Vale lembrar que em Novembro temos as eleições para senadores, representantes e governadores (entre outros politicos) no país, portanto o que a mídia reporta ajuda a moldar a mentalidade eleitoral, inevitavelmente. No caso da CNN, o mero fato de mencionar que uma mulher marxista assumirá o poder causa uma associação imediata na mente dos televidentes, seja ela positiva ou pejorativa. Lembremo-nos, pois, que como os personagens no mundo fictício de George Orwell em “1984”, as pessoas tem geralmente memória curta, e não se lembram que Lula foi o maior militante esquerdista (leia-se marxista) da história contemporânea brasileira e ainda assim seu melhor presidente centralista. O objetivo seria, pragmaticamente falando, a comunicação rápida e imediata de algo muito mais complexo com menor número de palavras possível. A CNN, que clama ter mais notícias por minuto (mesmo não sendo melhores notícias em qualquer periodo), preza sua economia temporal. No mais, acredito que seja a única forma de conversar com os desacostumados e desorientados telespectadores do país.

Culturalmente falando, no entanto, a mentalidade nos Estados Unidos é quase totalmente voltada às forças mercadológicas. Não importa quão à esquerda esteja parte da população, já sabemos que é uma esquerda completamente diferente da latino-americana. Como a mídia brasileira deixa parecer que Dilma é mesmo a criminosa da estirpe mencionada nas curtas da CNN, a CNN compra a imagem do ponto de vista mercadológico da mídia brasileira. O interesse da CNN nas eleições brasileiras, afinal, pode ser mais extenso do que parece. A companhia Time Warner, Inc., matriz da CNN, tem mais de um canal seu apresentado nos serviços a cabo em vastas regiões brasileiras. O resto, como diriam por aqui, é história.

Mais rápida: Ao contrário das eleições passadas à presidência dos Estados Unidos, a imagem do presidente que se retira contribuiu, no Brasil, imensamente à aprovação popular da provável próxima presidente. Enquanto a aprovação de George W. Bush atingiu o menor nível na história moderna, a aprovação de Lula não podia ser maior. No entanto, ao contrário de outros momentos na história brasileira, há melhoras concretas a ostentar em troco dessa aprovação. Espero que os eleitores brasileiros sejam sábios e, no mais, a “sorte” está lançada.

RF

Friday, September 24, 2010

Ideias Essenciais

(Alerta de estraga-prazeres para quem não viu o filme “Inception”: Não darei detalhes sobre o filme, mas discutirei um aspecto central do mesmo, assim que, estejam avisados).

Não sou o maior fã do trabalho de Leonardo Di Caprio, mas devo admitir que, por suas conexões em Hollywood, geralmente o escolhem para excelentes papéis. É o que penso sobre seu papel em “Inception”, de Christopher Nolan, 2010, mas do qual não discorrerei para não estragar ainda mais a trama aos que não assistiram. A ideia central, no entanto, dessa fantástica obra de ficção científica-psicológica nos interessa no contexto de uma questão que sempre me intrigou e ainda intriga, assim como às massas:

Um indivíduo pode mudar o mundo?

Em “Inception”a pessoa torna-se uma ideia. A ideia define a pessoa. O depósito de uma ideia “estrangeira” em mente alheia é a forma de definir essa pessoa contra sua vontade sem violar sua própria vontade. É o crime do filme, em poucas palavras. Complicado? Nem tanto.

Apesar do método complexo usado para atingir o objetivo de influenciar a mente de uma pessoa de modo a parecer que não houve influência externa alguma, na vida real uma ideia, mesmo frágil, pode atiçar fogo no mundo. Ideias das mais simples, palavras das mais simples representando ideias complexas ou ideias mais sofisticadas em si são como uma doença viral altamente contagiosa. Uma vez encontrando o anfitrião tomam conta de seu corpo. Caso se aprofundem o suficiente, definem a vida de sua vítima.

“Liberdade”. “Igualdade”. “Fraternidade”. “Paz”. “Nação/Nacionalismo”.

John Lennon era um jovem rebelde e um adulto bastante desvinculado de uma única percepção da realidade. Desvinculado até demais para ser mais do que um vocalista, mesmo de uma banda como os Beatles. Quando conheceu Yoko Ono, a união gerou uma ideia: “Paz”. Essa ideia definiu John Lennon mais do que sua música. Para os Estados Unidos o fato de um artista famoso investir na campanha dos cartazes simples pedindo chance à paz é mais lembrado do que o artista em si, ou sua morte nas mãos de um esquizofrênico.

Ghandi podia inspirar-se em sua própria história religiosa para atravancar o Império Britânico como um guerreiro de sua tribo. Não fosse a concepção de uma simples ideia, provavelmente conheceríamos outro Ghandi: “A resistência à violência deve ser pacífica”. Logo, o símbolo de Ghandi certamente mudou a história do planeta, nem que seja como um exemplo nem tão vastamente seguido, mas emulado por figuras importantes como Martin Luther King.

O mesmo ocorre em desvirtudes históricas, como as ideias de Adolf Hitler e todos os demais tiranos que Hitler acaba personificando tão bem. Ideias definem comportamentos. Às vezes além da capacidade consciente da própria mãe da ideia vislumbrar o processo que lhe toma.

As ideias acima mencionadas foram e são compradas por indivíduos ao longo da história. Pelo teor do construtivismo (já mencionado
aqui anteriormente), a mesma ideia pode determinar atitudes e realidades diferentes. Um exemplo da cultura popular:

Quem já jogou e terminou o jogo “Red, Dead*, Redemption” (Rockstar, 2010, para sistemas de Playstation 3 e X-Box 360) testemunhou uma certa veemência histórica do oeste norte-americano e das cidades mexicanas fronteiriças do século 18. A vida de John Marston se desenvolve na fronteira dos Estados Unidos com o México (omitindo a segregação racial vigente e as disputas entre americanos e mexicanos, é certo), inicialmente em seu país de origem, e termina em uma jornada às terras sulistas dos hispanos de Montezuma. Nos Estados Unidos o conceito de “liberdade” ainda vinha ligado à libertinagem criminosa e, ao mesmo tempo, independência individual da influência direta de qualquer governo, seja ele local ou federal. Nos Estados Unidos a população precisa de mais atividade coletiva, mais interesse pelo bem estar do público, e não só do indivíduo, para aparar os efeitos da libertinagem. No México, a noção de liberdade é diretamente ligada à revolução armada e à destruição do governo vigente para trocá-lo por outro. O público disputa o território consigo mesmo, e a troca de governo é necessária para que o novo esteja tão envolvido quanto o passado na vida dos indivíduos, não mais nem menos.

O Presidente estadunidense Barack Obama também teve seu confrontamento e papel direto no reino das ideias. À época das preliminares ainda foi abordado pela camapanha eleitoral de Hillary Clinton como um professor de palavras, sem experiência necessária para concretizar a mudança verdadeira. Obama contestou usando um discurso escrito com seu ex aliado político, Deval Patrick, entitulado “Só Palavras”, questionando se as palavras acima citadas, “liberdade”, “igualdade”, “fraternidade” e “paz” são mesmo apenas palavras. Como um bom democrata, seu ideal que aqui encontra o construtivismo é que palavras expressam ideias e ideias mudam o mundo. Por suas palavras ganhou o prêmio Nobel da Paz. As atitudes, no entanto, são outros milhões.

Fatidicamente, ao procurar uma melhor análise dos papéis de nações-estados, indivíduos e o cenário global nas relações internacionais, nos deparamos com dezenas – se não centenas – de ideias diferentes. O mesmo ocorre com a ilusão ótica democrática, pois todas não podem estar concomitantemente certas. O que o construtivismo oferece de diferente é justamente o reconhecimento quase exclusivo do papel das ideias na construção da realidade, e não vice-versa. Portanto, se as ideias de Nicolau Machiavelli ainda influenciam o pensamento realista neo-conservador nos Estados Unidos não é porque a realidade é “realista” e sim porque o “realismo” desses indivíduos, sociedades e governos alimenta a realidade.

E então, leitoras e leitores: Individuos podem mudar o mundo? Ideias podem mudar o mundo?

RF

PS:

Para quem quer ainda mais estraga-prazeres ou para quem viu o filme, linko
aqui um exemplo de "Inception" pelos quadrinhos de Tio Patinhas da Disney (Ingles).



Thursday, September 23, 2010

De Fora para Dentro

Na camada das ideias democráticas também existe ilusão ótica. O que uns enxergam redondo, outros vem quadrado. De fato, às vésperas das eleições nos Estados Unidos e no Brasil, as experiências sensoriais – apesar de aparecerem as percepções em conglomerações de ideias – diferem uma da outra. Em seis anos de moradia contínua fora do Brasil cada vez que converso sobre a situação brasileira com brasileiros na terra natal, fora dela e em foros de debates virtuais encontro opiniões extremamente diferentes uma da outra. Um grita branco, o outro vermelho, e sempre tem um imbecíl que atiça fogo em pano rosa só para causar pânico.

Parte da população brasileira, por exemplo, parece satisfeita com os avanços sociais e políticos brasileiros dos últimos dez anos. Já outra parte demonstra o desejo sórdido de fugir para as colinas em pio temor ao fim do mundo. Caso estivessemos falando de classes sociais diferentes opinando, compreenderia melhor o disparate. Entretanto, o que vemos é que pessoas de situações financeiras idênticas, níveis educacionais idênticos e participações diretas no processo democrático idênticas opinam o oposto quando singelamente abrem as janelas de suas casas e atiram o olhar para a rua. Cão sem dono…?

É impossível que ambos os lados estejam certos, e as perspectivas opostas traçam-se nos mesmos setores. Há pessoas que acreditam que a igualdade social no Brasil realmente cresceu e outros que dizem que a desigualdade aumentou. É impossível que ambas visões estejam concomitantemente certas. Há os que dizem que o Brasil está em processo acelerado de desenvolvimento, equiparando condições de vida nos Estados Unidos a condições de vida no Brasil. Outros dizem que o Brasil está se tornando um estado totalitário e criando pessoas preguiçosas e improdutivas. Ambos não podem, ao mesmo tempo, estarem certos. Impossível.

Mitos

Nesses últimos três anos perdi a capacidade sentimental de devanear ideologias, o que me entristece, de certo modo, mas quando só estou com meus chips entre quatro paredes e a luz apagada consigo dormir mais tranquilo. Ainda assim, ignorar posições ideológicas é simplesmente impossível. Mesmo quase completamente por fora do que ocorre politicamente no Brasil para essas eleições (salvo opiniões de amigos conceituados quando estive no Brasil e uma ou outra notícia pingada), leio as maiores estapafúrdias em discursos ideológicos em foros de debate virtuais. Mesmo aquém da ideologia, ou além dela, as opiniões às vezes parecem tiradas de um livro de ficção científica, uma moderna e fabricada “torre de Babel”. É o que ouço nas mesas dos botecos brasileiros, nas casas de meus amigos e familiares nos Estados Unidos e no Brasil. Três pessoas juntas conversando em três idiomas.

São esses absurdos proferidos que me fazem perguntar se estar tão sentimentalmente “perto” de uma situação não nos faz perder a objetividade e justo juízo. Afinal, muito pode haver de errado na conduta política brasileira (acreditem, eu sei e opino isso fortemente), mas nunca em trinta anos vi um governo menos corrupto e menos “oligárquico” do que o próximo ou o passado. Todos monopolizaram, roubaram e enganaram seus constituintes. O de Lula sequer recorde em calamidades conquistou, logo por favor com esse desespero infantil.

Nos setenta dias que passei em solos mineiros e paulistas em seis anos não senti um país menos livre, e sim mais livre. Não senti um país menos patriota, e sim significativamente mais respeitoso à própria dinâmica de propriedade pública do que antes.

A violência, é claro, piorou. Assim também a falta contínua na infraestrutura ainda apresenta graves problemas - mesmo com o gargalo da infraestrutura melhor abastecido - que somados à explosão populacional geram mesmo mais violência, mais problemas relacionados ao trânsito social comum e mais problemas de super-crescimento urbano. Não vi, no entanto, um país pior do que o que antes via. Até admito que há alguns detalhes que tornam minha vivência no Brasil mais difícil depois de ter me mudado para os Estados Unidos, mas mesmo em detalhes há clara melhoria.

Além disso, a experiência nos Estados Unidos de total desapego ao próximo e péssima intra-identificação social parece querer invadir a mente de indivíduos de camadas sociais mais abastadas. Agora é moda dizer que quem está feliz com Lula “quer mamar nas tetas do governo”.

Pois, no Brasil conversei com taxistas (especialmente em São Paulo, como muitos sabem, ótimas referências políticas), porteiros de edifícios e empregadas domésticas, nenhum “mamante das tetas do governo”, todos trabalhadores árduos por salários melhores do que os que ganhavam no passado, e todos satisfeitos com a assistência social do governo de Lula. Se esse populismo é bom para o Brasil nos próximos anos é outra conversa, mas dizer que o Brasil está “sequestrado pela esquerda” é justamente enxergar-se de tão perto que embaçado.

A esquerda, no entanto, não é isenta. Com clamores de que a “mídia golpista” isso e aquilo apenas perdem a compostura. Se a mídia fosse mesmo golpista, Lula não teria sido eleito. Golpes que falham mediante a capacidade de um não-governo não são golpes, são gases. A mídia brasileira é, realmente, mercantilista e anti-mercantilista, dependendo do dia e de seus próprios interesses.

Mas golpista… Novamente, golpista seria se às portas de Outubro Dilma não estivesse com a bola que está, e se Lula não regozijasse da popularidade que tem. A camada majoritária agora aceita e quer esse populismo, e não o contrário. A minoria agora é “os outros”.

Que vês?

E o estrangeiro no exterior (o estrangeiro no Brasil também é importante, mas falemos sobre os que jamais sequer pisaram o solo brasileiro)? Em minha terceira aula de especialização na América Latina, encontro perspectivas de norte-americanos, europeus e latino-americanos de outros países do sul das Américas que percebem um crescimento ululante no país. Exaltam o investimento em educação (a tão criticada educação) nos últimos trinta anos, a capacidade inovativa brasileira, o crescimento tecnológico especialmente no setor energético com a disseminação do etanol, o crescimento econômico relativamente estável da última década e a participação mais ativa do Brasil como hegemonia Sul-Americana. Não que essa exaltação não possa partir da mesma motivação da exaltação de Pinochet no passado, pois pode, mas ao mesmo tempo há motivos concretos para que a percepção leve à admiração pública:

- A educação brasileira é provada nas faculdades profissionais, por alunos que cada vez mais populam as mais renomadas instituições em busca de mestrados e doutorados em todas as áreas.

- A economia brasileira é provada por profissionais que encontram oportunidades diretas de mercado no Brasil em relações que antes eram realmente de “centro” e “periferia” (com bastante sacanagem e exploração), mas que agora chegam de igual a igual.

- A tecnologia brasileira é provada no setor energético com o etanol, especialmente, mas também em outras áreas como a descoberta de petróleo no pré-sal, algo, geopoliticamente falando, essencial.

A própria revista The Economist publicou uma matéria recente sobre a explosão latino-americana, e o Brasil, segundo jornalistas do veículo, se destaca e sobressalta na região. É a mesma revista, aliás, que há menos de três meses anunciou que o Brasil deverá erradicar sua miséria absoluta em dez anos. Sem isso podemos falar de algo mais?

Essa disparidade absoluta na percepção do “risco país” (em alusão ao Risco Brasil) domesticamente torna-se ainda mais paradoxal quando justaposta à percepção generalizada de estrangeiros no exterior. É justamente aqui que o cão está enterrado.

No cenário de relações internacionais uma das maiores dificuldades é atravessar o ruído da estática e compreender, de fora para dentro, o que ocorre em uma determinada região. Um dos erros mais graves de nossos conflitos civilizatórios é enxergar um grupo de pessoas de uma nação-estado como fosse homogêneo, o que raramente (se é que) ocorre dentro das nações-estado atualmente erguidas.

Por outro lado, às vezes me pergunto se não seria preciso estar fora do país para entender o que ocorre dentro dele além de percepções geralmente parciais a filosofias políticas específicas, e interesses específicos de pessoas que concretamente dependem de uma decisão política ou outra. Um exemplo que me ocorre é o da menina que dizia querer um político no governo por seu posicionamento em relação aos bingos, já que trabalhava em um.

Não podemos, é claro, perguntar ao estrangeiro qual é a natureza e o teor do país observado, nem mesmo qual é a base de sua cultura ou quais sentimentos melhor se expressam nela. Todavia, talvez haja mesmo tempos em que compreender o desenvolvimento vis a vis o cenário internacional de uma região não pode ser baseado no que as pessoas da própria região dizem. A objetividade da análise dependeria, assim, exclusivamente de dados frios e positivistas, e não de opiniões ou sensações políticas. Por outro lado, sem compreender que parte da população rejeita um sistema sobre o outro, a análise externa torna-se humanamente pífia. Portanto ambos lados, o humano e o pragmático, precisam ser considerados, de dentro para fora certamente… Talvez também, necessariamente, de dentro para dora.

E você, bravo leitor e corajosa leitora a chegar até aqui, o que pensa disso? É possível enxergar a situação de fora para dentro com melhor objetividade quando a pergunta é “qual é o nosso papel no mundo”?

RF

Friday, September 10, 2010

Pastor Jones v. Imam Rauf

Não sei o quanto a notícia repercutiu no mundo, mas aqui nos Estados Unidos o planejamento de uma demonstração de intolerância contra o Islã ganhou espaço central nos noticiários e na veia política pré-eleitoral. O pastor Terry Jones, de Gainesville, Florida, marcou para o dia 11 de Setembro uma reunião de fiéis anti-islâmicos para a queimada de livros do Alcorão. Conforme disse à âncora da CNN, Soledad O’Brien, “até mesmo muçulmanos moderados deveriam nos apoiar”, pois “é uma demonstração anti-extremismo” e não anti-Islã.

Às vésperas das eleições que podem ceifar o partido Democrata da maioria em ambas casas do Congresso conquistada pós-Bush, a polarização das duas ideologias extremas dos Estados Unidos atinge seu ápice. A presidência de Barack Obama, marcada pelo tórrido clima econômico que parece não querer melhorar e por mais fracassos do que sucessos democráticos – especialmente considerando pedidos de democratas progressistas – parece enredar-se cada vez mais em arame farpado. A controvérsia da construção de uma mesquita justamente onde o atentado do 11 de Setembro ocorreu acabou criando ainda mais pânico na direita fanática, que procura líderes em um momento típico de uma genuína Idade das Trevas do sul, oeste e sudeste estadunidenses.

A extrema direita religiosa do país não representa a maioria de seus habitantes tal como extremistas muçulmanos não representam a maioria em suas religiões. É importante lembrar que nos Estados Unidos há centenas de mesquitas construídas, algumas mais controversas do que outras, mas a liberdade de expressão é ainda massivamente respeitada, salvo em casos de indivíduos arruaceiros, assassinos e não menos extremistas do que seus criados inimigos. Portanto, queimar livros santos para muçulmanos foi considerado abominável até mesmo pela base republicana, e mesmo assim ninguém pôde ou pode vetar a reunião. O mesmo ocorre com a mesquita onde derrubaram as Torres Gêmeas, a liberdade de capital, no caso, do Imam responsável pela escolha do local é absoluta.


Comparar, entretanto, a construção de um templo religioso com a queimada de livros de uma outra religião seria a soberba estapafúrdia. A liberdade é comparável, mas os atos partem de pessoas com diferentes perspectivas e motivações além da fé, ou de sua intensidade, comum. Já havia uma mesquita integrada ao mesmo sítio onde o Imam pretende construir um melhor ponto referencial aos seus seguidores. Apesar do próprio Imam Rauf apresentar argumentos etnocêntricos para defender seu direito mesmo podendo politicamente utilizar-se de uma assimilação perfeita à cultura dos Estados Unidos e defender-se com o puro direito do livre investimento, liberdade de expressão e de adoração de qualquer deidade ou religião, os direitos em si existem e serão respeitado caso assim decidir o lider. Jones, no entanto, incita um conflito diretamente étnico, ausente de direitos maiores do que o “porque quis” típico de uma libertinagem ainda permitida, e mesmo tendo esse direito, a liberdade acima comparada, seu uso seria exclusivamente conflituoso.


Quem posicionou-se contra a construção da mesquita de Imam Rauf citou a potencial ofensa à memória de vítimas do maior atentado islâmico contra o Oeste de nossa história contemporânea. É compreensível que o desconhecimento generalizado de uma cultura de diversas etnias e segmentos religiosos realmente traga uma suspeita generalizada – ora chamada de preconceito – contra a prática da mesma religião à qual um grupo de terroristas clamou pertencer. Porém justificar o preconceito ao invés de aproveitar a oportunidade de estender as mãos a representantes desta dita religião é justamente o que mais agrava a opinião pública contra o Oeste e contra a democracia que neo-conservadores estadunidenses querem espalhar por todas as curvas e pontas do planeta. Filosofia, aliás, adotada pela nova administração supostamente liberal de Obama.

É impossível deixar de pensar em Samuel Huntington quando escreveu o famoso texto sobre “O Conflito das Civilizações”, um prisma neo-realista sobre conflitos étnicos e a inevitabilidade de guerras entre membros de distintas raças. Justamente pensando nessa inevitabilidade sob a luz do contraponto da aparente facilidade de se resolver esses conflitos é que entendo quão ignorantes podemos ser. Mesmo que a maioria se oponha veementemente à atitude de Imam Rauf ou do Pastor Terry Jones, a maior demonstração de nossa suposta democracia (considerando que ela falta em tantos outros setores da civilização ocidental) é justamente permitir a alimentação de combustível ao conflito. Um protesto em massa no Afeganistão já esclareceu que habitantes daquele país recebem apenas a notícia do evento de Jones, entitulado “Dia Internacional da Queimada do Corão”, e não o que a opinião pública doméstica considera. De modo similar muitos cidadãos estadunidenses ainda pensam que todos os muçulmanos simpatizam com Bin Laden, e jamais saberiam, mesmo se todos os muçulmanos assim simpatizassem, suas causas e motivos pela mesma tendência etnocêntrica.

Não seria impossível evitar conflitos entre civilizações e etnias diferentes. Tecnicamente não precisaria nem ser tão difícil. Mas é...

RF

Monday, August 23, 2010

Famosos no Exterior, Famosos na Terra Natal

Neste passado Sábado me juntei à plateia de imigrantes brasileiros no Sul da Flórida no Colony Theater, localizado no coração da movimentada Lincoln Road no centro de Miami, para prestigiar o encerramento do décimo-quarto Festival de Cinema Brasileiro na Flórida e a apresentação da impecável Maria Gadu. Foi paixão à primeira vista, bem como foi, no melhor dos sentidos, a apresentação de Lenine encerrando o mesmo evento há quatro anos atrás. Na ocasião, meu texto sobre o espetáculo me rendeu a oportunidade de ter meus textos publicados periodicamente no maior jornal para imigrantes da região, o Achei USA. Pudera, a presença de Lenine me inspirara e transcendi a inspiração ao texto. Não conhecia o artista antes disso, mesmo vivendo no Brasil nos anos antecedentes.

Maria Gadu, nascida Mayra Aygadoux, me causou a mesma excelente impressão. Perguntando aos amigos e amigas ainda morando no Brasil descobri que a intérprete de 23 anos é relativamente conhecida no país. Nascida em São Paulo, no entanto, em 2007 foi convidada pelo amigo e percussionista de sua banda, Doga, à Europa, onde verdadeiramente iniciou sua carreira. Gadu já cantava suas composições e interpretava canções internacionais ou regionais desde a infância. Foi no início de sua adolescência que compôs um de seus maiores sucessos, “Shimbalaiê”, enquanto contemplava um por-do-sol. Apesar de sua raíz brasileira forte, apenas voltando da Europa e juntando-se a amigos de infância ligados a Jayme Monjardim Matarazzo e fazendo-se ouvir pelo diretor, produtor e cineasta “herdeiro” de Maysa, a diva brasileira, é que sua carreira decolou.

Foi convidada por Monjardim para interpretar a canção “Ne Me Quittes Pas” de Jacques Brel (1959), também cantada por Maysa, na minissérie da Rede Globo, além de fazer uma ponta como atriz na mesma obra. Primeiro conquistou e aprendeu a Europa, e só depois fez o mesmo no Brasil. Lenine tem um conto parecido. Apesar de ter arrebentado entre brasileiros e estrangeiros especialmente na Europa, só fez sucesso no país natal algum tempo depois.
Enquanto a fama de artistas dos mais originais da terra da “Independência ou Morte” borbulha fora da pátria, a pátria às vezes demora a pescar as bolhas.

Assisti ao bloco do CQC em que Rafael Cortez entrevistava Lenine e em tom sarcástico acusava a “auto-venda” do compositor às novelas que mal assiste. Não fossem as novelas, contudo, Lenine jamais seria famoso. E aqui não há intenção de degradar nenhum estilo musical, apenas elevar alguns que por qualquer motivo acabam rendendo mais fora do Brasil do que dentro mesmo representando o melhor que há nele. No caso dos estilos MPB, Bossa Nova, Jazz e Blues, a arte parece primeiro romper a barreira do exterior para respingar de volta ao interior da nação.

De certo modo, isso me remete ao futebol e aos acontecimentos esportivos no Brasil nos próximos seis anos. Desde que o santista Neymar recusou ofertas do exterior a polêmica sobre a exportação de talentos esportivos ao invés de seu maior rendimento dentro do país aumentou, e esquentou ainda mais com a declaração de Felipe Scolari, técnico do Palmeiras: “Se fosse meu time, eu vendia.”

No futebol existe a questão da valorização tanto física quanto financeira do atleta quando joga em equipes de prestígio na Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Itália, especialmente. No entanto, como a próxima Copa do Mundo e as futuras Olimpíadas serão hospedadas pelo Brasil existe também a questão da identidade do atleta e sua valorização regional. Mesmo assim, parece ocorrer algo similar a outros campos, como o artístico: A valorização precisa vir de fora para que haja o reconhecimento interno, como o reconhecimento da FIFA e do COI.

Porém, o outro lado da navalha contribui ao reino das ideias no liberalismo institucional e construtivismo. Segundo o primeiro paradigma, a arte brasileira (ou seu futebol) são instituições que incrementam as relações internacionais e contribuem a uma certa organização através da comunicação e assimilação de ideias novas em um ambiente global caótico. Já para construtivistas não há como “mudar” o mundo sem que ideias novas sejam suficientemente difundidas, e no caso da arte brasileira descoberta fora do Brasil é exatamente o que ocorre, a difusão de novas ideias através de novas vozes, nomes, escritos e atletas. Nesse reino “abstrato” de relações humanas o Brasil não de hoje consegue vender-se em estilo ao exterior, projetando assim uma imagem cada vez mais clara da hegemonia Sul-Americana.

Nós, que por hora ou para sempre vivemos no exterior agradecemos a globalização nesse sentido. É um enorme privilégio apreciar Maria Gadu mesmo não a tendo apreciado desde seu lançamento real em 2008, mesmo tendo visitado o Brasil duas vezes e acumulando mais de dois meses nesse período. Posso falar de Gadu para brasileiros que vivem nas capitais do país e que jamais souberam de sua existência, mesmo que conheçam, nem sabem exatamente de onde, sua interpretação de “Ne Me Quittes Pas” através da minissérie Maysa.

A inspiração, ao menos, nada tem de abstrata. Tenho o coração, a mente e o corpo mais leves e mais apaixonados depois de ouvi-la. Sei que é essa a reação causada quando todos veem o que melhor tem a oferecer os brasileiros em qualquer lugar do planeta.

RF

Thursday, June 03, 2010

S.O.S. Gaza

O ataque das tropas armadas de Israel a uma flotilha de aproximadamente 600 ativistas que levava mantimentos e outros bens de assistência social a Gaza, bloqueada pelo exército de Israel, dá todos os argumentos necessários e atuais contra o conservadorismo realista vigente. Por esse ataque, liberais e progressistas no mundo todo assumiram uma posição geralmente dicotômica, e ganharam armas humanas para combater com empiricismo o que chamam de “causa justa”.

O Brasil de Lula e Celso Amorim assumiu uma postura forte sobre o tema Irã e o consenso internacional sobre a potencialidade de armas nucleares nas mãos de líderes de estado como Ahmadinejad. Ao lograr encontrar um acordo diplomático (renegando, é claro, a suspeita comum que existe entre países que pouco se conhecem) com o Irã, chefes de estado da Europa e dos Estados Unidos chiaram, e não sem razão. Apesar de que algumas pessoas prevem um desenvolvimento diplomático distinto do qual experimentamos até hoje, o mundo segue sendo caótico e ainda não é oficialmente regido por nenhuma instituição inter-governamental, como a ONU. As suspeitas existem, e negá-las seria como negar a existência das minorias que alguns querem esmagar. O disparate entre a realidade e a perspectiva de Lula, portanto, é concreto e iminente, bem como a perspectiva de Lula pretende ser.

Quando o tema é social, no entanto, a verdade, se existe, faz um excelente trabalho se escondendo. Já vão tempos em que a comunidade internacional pressiona Israel para seguir uma linha de conduta projetada desde a resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, viSando a devolução de territórios ocupados no conflito Árabe-Israelense de 1967, a Guerra dos Seis Dias. Há ao menos dois assuntos que intensificam os conflitos na região ligados especificamente a atitudes israelenses. Tratam-se da construção de casas em territórios palestinos e o bloqueio recorrente da Faixa de Gaza utilizado pelo governo de Israel para certificar-se de que o partido do Hamas, com ligações cada vez mais fortes com o Irã, não receba armas, munição ou bombas de seus aliados externos.

Posso, pessoalmente, posicionar-me a favor ou contra qualquer dessas atitudes governamentais, mas mesmo assim não teria a capacidade de prescrever a Israel qual seria sua melhor conduta. Isso porque seus argumentos (que são mais pragmáticos do que idealistas em princípio) fazem tanto sentido quanto os meus. Ninguém garante a Israel que um corpo mais mole com a Faixa de Gaza não contribuiria a uma série de atentados letais. Do mesmo modo, quando alguns membros da comunidade israelense expandem suas terras, inicialmente não se pode culpar toda Israel por isso (a população secular é massivamente contra essa expanSão) e, secundariamente, alguns argumentarão que Israel precisa de mais território para garantir sua segurança. Pois, qual seja minha perspectiva sobre o tema, ignorar as razões do outro lado seria sintomático da ideologia irracional. Se quero ver menos mortos ou menos violência; se quero paz, pragmaticamente falando, não tenho prescrições, só objetivos.

Os tripulantes da frotilha que se aproximava de Gaza são ativistas sociais com causas próprias, mas pretendiam passar somente por ativistas humanitários. Com 600 tripulantes, podemos assumir que os integrantes da ação sabiam exatamente o que ocorreria caso seguissem o percurso.

O exército israelense já admitiu que seus soldados não estavam preparados para a resistência. Jornais e ativistas locais condenaram a ação e exigiram investigação imediata ao próprio governo. Aqui surge a questão: Que país soberano, impondo bloqueio marítmo ou terrestre às fronteiras de seu país ou à extenSão de seu território, como no caso da Faixa de Gaza, permitiria que a frotilha se aproximasse sem interferência militar? A crise cubana de 1962 iniciava da mesma suspeita mútua de que a União Soviética fosse aniquilar os Estados Unidos e vice-versa. Por muito pouco um episódio similar ao visto nos mares médio-orientais não terminou em guerra nuclear*.

A cineasta brasileira a bordo da flotilha no navio Marmara, Iara Lee, afirma que os tripulantes esperavam outra reação, mais amena. O exército israelense afirma que esperava outra reação, mais submissa. A ideologia da cineasta expõe seu ressentimento por Israel. Para a cineasta, a causa de Israel não é legítima e, para Israel, a causa da cineasta não é legítima. Caso os tripulantes agiram ingenuamente, o que não acredito, o problema é maior do que o pensado. Eles não apenas desafiaram o exército israelense, mas o fizeram com o mesmo conhecimento e preparo que recebem as tropas armadas estadunidenses quando enviadas ao Iraque e Afeganistão, ou seja, próximo de zero. Se são ativistas humanitários, o mínimo que se espera é que entendam o governo oposto melhor do que o entendimento diplomático tão ofuscado pelas suspeitas e dúvidas mútuas.

Assim, caso soubessem que o exército israelense reagiria como reagiu, uma das conclusões mais tentadoras à razão é que o fizeram com esse exato intuito, com esperanças meticulosamente planejadas de que o ataque colocaria Israel contra a parede na questão do bloqueio da Faixa de Gaza. Pelo número de tripulantes, pela reação à abordagem israelense e pelas consequências internacionais, tudo indica que essa era mesmo a intenção. Condenar Israel em sua conduta atrapalhada é fácil, e é o certo. Condenar o bloqueio a Gaza já não é, e todos que bem se informam sabem disso. Em outras palavras, condenar o ataque desproporcional é supra-ideológico, mas condenar o governo israelense é puramente ideológico.

Enquanto a situação não se resolve é impossível saber qual lado a humanidade permitirá prevalescer. Israel situa-se em águas cada vez mais tórridas, alienando-se da Turquia e dos Estados Unidos a cada investida catastrófica como a discutida no texto. Mas se o mundo todo condena Israel pelo ataque desproporcional, permitam-me condenar também a atitude dos ativistas. Se eles querem que a paz prevaleça, não assumirão atitudes bélicas, ou que provoquem reações bélicas internacionais. Caso suas exigências sejam direitos humanos iguais, não falta trabalho a fazer por todo o planeta, e não faltam regiões desoladas e solitárias a visitar e contribuir. O que esses ativistas fizeram não foi ajudar ninguém, só atrapalhar e intensificar o clima de suspeita, ódio e insegurança no Oriente Médio, mesmo porque outras flotilhas anteriores conseguiram aportar em Ashdod e tiveram seus mantimentos levados à Faixa de Gaza após inspeção.

Se o governo israelense calcula suas atitudes equivocadamente pela paz, a população, que não apoia a guerra majoritariamente, condena essas atitudes copiosa e intensamente. Ativistas humanitários são sempre bem vindos na mediação, mas ativistas ideológicos apenas polarizam os extremos. Só muito espero que a situação não se agrave para nenhum lado, mas esperar, infelizmente, não é saber.


*A comparação, que incluí como provocação não bem sucedida, só se dá em dois aspectos claros:
1 – A suspeita mútua de que o país adversário atacaria, sendo que nenhum dos países queria atacar, mas foram mutuamente forçados a escalar armas espelhando-se nas ações do próximo. Essa suspeita advém do desconhecimento que ambos tinham um sobre o outro. Nem a União Soviética nem os Estados Unidos sabiam ao certo que espécie de “louco” estaria do outro lado. Análises pós-fato indicam que a União Soviética nem tinha suficiente armamento para vencer, em um só instante da Guerra Fria, o conflito com seu arqui-rival.

2 – Israel justifica o bloqueio como forma de impedir a entrada de armamentos e explosivos na Faixa de Gaza. Apesar de que todos já sabemos que o navio não trazia armamentos, e que as intenções eram puramente sociais e humanitárias, sejam elas ideológicas ou não, Israel ainda segue a linha de powerpolitik e auto-interesse de acordo com suas necessidades “sentidas”, não necessariamente as “reais”, o que não é exclusivo de Israel, e sim particular a muitos estados-nações.



Monday, April 19, 2010

Intolerância de Ambiguidades (2)

Ao fim do curso de relações internacionais e o Oriente Médio os alunos foram convidados a propor uma lei do ponto de vista dos Estados Unidos ou das Nações Unidas visando a resolução de algum dilema ou conflito regional. O mesmo ocorreu ao fim do curso sobre o Islã e seu papel na dinâmica das relações externas contemporâneas. Logo, quando as fichas caíram, apresentei um único problema e duas propostas diferentes.

Pesquisando, descobri dois fatos que me assombram sobre o Departamento de Estado dos Estados Unidos. A primeira, é que não há nenhum grupo inter-governamental ou pertencente ao departamento que lide com as questões religiosas no Oriente Médio. Segundo, que as tropas armadas estadunidenenses tem preparação mínima sobre as diferentes religiões, etnias e culturas encontradas no local. Com apenas três horas obrigatórias sobre reconhecimento do terreno ocupado, soldados e soldadas viajam ao Iraque, Afeganistão e Arábia Saudita com uma ideia caquética da situação local.

Sobre a necessidade do reconhecimento das diversas religiões locais, precisamos entender, como já compreenderam diplomatas estadunidenses desde a Guerra Fria (a exemplo de James C. Campbell, diplomata do país ao fim dos anos ’50, que já pedia que o governo apagasse sua imagem de imperialista, mesmo que precisasse perder a fama de hegemonia global), que a religião islâmica é intrinsecamente política em sua natureza e na conduta da esmagadora maioria de muçulmanos no planeta. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o início do revivalismo islâmico contemporâneo, a maioria dos estados criados tornaram-se oligárquicos e massivamente mais étnicos do que religiosos. Saddam Hussein e o regime do Baath, Hosni Mubarak e o Egito, o parlamentarismo rústico do Pakistão e até mesmo o califato da Arábia Saudita fazem parte desse grupo.

Mesmo assim, com o surgimento do terrorismo multi-nacional da al-Qaeda (a base) de Osama bin Laden, e após a bem sucedida Revolução Iraniana de 1979, a consciência popular tende a encontrar refúgio das injustiças cometidas pelas ditaduras pseudo-seculares do Oriente Médio no próprio Islã. Mais de 80% das populações muçulmanas, sejam shi’itas ou sunnitas ou kurdas, exigem um estado Islâmico baseado nas leis da religião, ou a Shariah, o que não se trata necessariamente de um modo específico de segui-las, nem mesmo que as leis de hijab (discreção e modéstia nas vestimentas) sejam as mais rigorosas. No entanto, para a maioria dos muçulmanos no Oriente Médio, um estado justo e baseado em justiça e igualdades sociais só pode ser um estado Islâmico.

O grande problema é a imagem dos Estados Unidos aos olhos de países como Irã, Egito, Síria, Líbano e Jordânia, sem contar na cada vez mais desgatada imagem no Iraque e Afeganistão. Ao mesmo tempo, a imagem decadente dos Estados Unidos reflete-se perfeitamente no tratamento do próprio país aos países mencionados, algo que em grande parte também encontra raízes na imagem do Oriente Médio construída pelos Estados Unidos. Sobre isso, James K. Glassman, em seu discurso de aceitação do cargo de sub-secretário das relações externas no Departamento de Estado em 2008, pede aos seus colegas e ao presidente que o país comece a liderar a “guerra de ideias”. De fato, é esta guerra a única que pode contribuir na reconstrução de uma imagem mútua melhor, segundo Glassman, e a enfática mudança do uso de “poder rígido” bélico ao “poder suave” da diplomacia.

Para liderar a guerra de ideias diplomatas e demais políticos estadunidenses precisam, primeiro, demonstrar que não são totalmente ignorantes sobre a realidade regional nos países que os Estados Unidos visam interferir, e nos dois que as forças armadas do mesmo invadiram. A intolerância de ambiguidades no Oriente Médio (que muitas vezes, como escrito no texto anterior, expande-se à intolerância de ambiguidades em outras regiões quando julgam, quase às cegas, que um lado é mais certo do que o outro) ganha corpo quando as faces mais representativas dos Estados Unidos, soldados e soldadas que convivem diariamente entre os variados grupos étnicos e seus valores religiosos e éticos, caminham sem noções básicas da realidade que os circunda pelas estradas do local.

Claro que o objetivo principal é a retirada das tropas do Iraque e Afeganistão o mais rápido possível. No entanto, a mera retirada das forças armadas de dois países jamais será suficiente para a al-Qaeda de bin Laden que, baseada nas palavras do lider militante, reage contra qualquer espécie de interferência estadunidense na Arábia (todos os países árabes), Iraque (especificamente, uma interferência que não terminará com a retirada das tropas) e Jerusalém (o apoio dos Estados Unidos a Israel). Enquanto todas as retiradas não ocorrem supostamente pela necessidade de reconstruir o que foi localmente destruído, as tropas precisam representar um país menos ignorante, no mínimo.

Do mesmo modo, criando uma instituição inter-governamental religiosa, na qual os 1.3 a 7 milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos encontrarão um canto para vociferar suas preocupações e perspectivas sobre o assunto, o Dep. de Estado poderia legitimar suas causas e associá-las ao Islã, algo não de todo irreal, e desde que a conduta não seja imperialista (algo que os nativos perceberão com imensa facilidade), a publicidade do Islã encontrando as portas dos Estados Unidos abertas e convivendo em plena harmonia dentro de suas fronteiras poderia ajudar a forjar uma espécie de tolerância dessa ambiguidade explícita.

De todos os modos, a lição não difere do texto passado. Sem o conhecimento da história, dos grupos étnicos, dos cultos religiosos, das raças e das identidades locais, qualquer opinião, seja ela interna ou externa, é necessariamente falida.

RF

Monday, March 29, 2010

Mortes Racionais

Já demorava algum tempo, surpreendentemente, desde que despertamos pela última vez a ouvir as notícias tenebrosas à televisão: Mais um atentado terrorista devasta uma cidade estrangeira. Conforme afirma o prefeito de Moscow, Yuri M. Luzhkov, há evidências imediatas que indiquem que as supostas irmãs gêmeas suicídas sejam do norte do Cáucaso, rebeldes chechenas, região problemática para a Rússia e que já gerou escandâlos internacionais e conflitos fronteiriços na era de Vladimir Putin. No dia 3 de Setembro de 2004, rebeldes chechenos invadiram uma escola em Beslan, na Ossétia do Norte, matando mais de 300 pessoas, majoritariamente crianças. Os ataques por grupos chechenos clamando independência total do julgo da Rússia e a desocupação de seus territórios pela tropas do país não são raros, e os motivos dos conflitos estão longe de uma resolução satisfatória para ambos lados.

Há duas perspectivas vigentes quando o assunto é terrorismo. A primeira, por Robert A. Pape, busca comprovar em base de dados colhidos a partir de 1980 que a maioria dos terroristas não são extremistas religiosamente; não são jovens ignorantes cuja mente pode ser “lavada” facilmente por figuras influentes em suas respectivas comunidades; não foram diagnosticados, e não apresentam sinais de transtornos mentais; foram geralmente educados a nível superior ou técnico antes de aderirem a grupos terroristas; e que a intenção principal (ou, segundo Pape, o valor estratégico) dos atentados suicídas é muito mais cultural, sócio-econômica e geo-política do que religiosa. Marc Sageman não discorda das características e personalidades acima citadas (em níveis na casa dos 50-60% dos pesquisados), mas conclui que a religião tem sim um papel essencial e providencia uma base transcendental à justificativa e ao valor pessoal percebido em ataques suicídas.

Segundo Pape*, analista de relações externas norte-americano baseando-se em uma pesquisa estimulada pelos acontecimentos inesquecíveis do 11 de Setembro de 2001 em Nova York, o crescimento do terrorismo pode ser atribuído ao fato de que “atentados moderados produzem concessões moderadas”. Para Pape a atividade desses grupos tem um objetivo comum: Combater a ocupação imperial (na maior parte dos casos física, como no caso de tropas russas ocupando a Chechênia ou tropas israelenses ocupando a Faixa de Gaza ou a Cisjordânia), e retomar o senso nacionalista que unifica povos através de uma identidade cultural e étnica comum em fronteiras delineadas.

Assim, Pape traça alguns exemplos históricos de concessões que, segundo evidências um tanto quanto obscuras (e Pape admite isso, de certo modo), parecem coincidir com uma série de atentados terroristas. Hamas, por exemplo, pressionou Israel a desocupar a Faixa de Gaza enquanto já havia assinado o Acordo de Oslo com a Organização para Libertação da Palestina de Yasser Arafat. A intenção, segundo oficiais do Hamas, era levar a cabo cinco ataques terroristas no cerne israelense, mas apenas dois foram necessários. Apesar do acordo, Israel havia ignorado os dois prazos úteis para a desocupação e, Pape conclui, após os dois ataques, a retirada militar ocorreu. Para Pape, o aumento não só do número de atentados, mas de sua natureza violenta advém de pequenos, mas significantes sucessos das causas dos variados e ultra segmentados grupos terroristas. A maior falha estratégica desses ataques passa pelo excesso de choque. Pape diz que “atentados extremos não parecem findar em concessões.”

Sageman procura comprovar que a maioria das concessões citadas não foram nem duradouras nem atribuíveis aos ataques mencionados. Israel ainda voltou a ocupar a Faixa de Gaza na segunda intifada, fato que Sageman usa para fomentar sua conclusão de que ataques suicídas não são necessariamente baseados em um senso estratégico concreto, nem baseados em concessões que para o psiquiatra criminal simplesmente não ocorrem.

O limite que Pape delinea serve para aumentar a necessidade de encontrar qualquer motivo para justificar, empiricamente, o motivo de grupos que atuam em violência extrema - que de todos os modos não surte o efeito esperado. A religião, alinhada a um senso histórico, étnico e cultural providenciam os ingredientes prediletos para quem recruta seus soldados terroristas. A religião em si, explica Sageman, não garante nem justifica a violência e a ética por trás da necessidade da mesma em cada situação, mas alinhada a um senso de violência cultural e histórica, encaixa-se como uma luva na equação, somando legitimidade aos atos mais calamitosos. O budismo, por exemplo, não tendo em sua história uma saga de reação budista violenta como os hindus e os Sikhs ou muçulmanos e judeus (o primeiro grupo terrorista estudado por Pape foi judaico), não vê atos de extrema violência feitos em seu nome.

Rebeldes chechenos também encontram alguma identidade (sunitas muçulmanos) que os separe essencialmente dos vizinhos russos (cristãos ou totalmente seculares), mas a causa, como a causa Palestina, a causa de Sikhs contra Hindus e dos judeus terroristas que formavam um grupo clandestino opondo-se à ocupação de Jerusalém pelo Império Romano, parece realmente ser muto mais pragmática do que meramente religiosa. No entanto, ignorar a religião não como a causa principal de ataques suicídas, mas como um fator importante na fomentação de atitudes violentas minoritárias seria um “grande pecado”. Apesar da dificuldade de encontrarmos causa mesmo encontrando muitas relações entre fatores históricos e análises políticas, é óbvio que a religião contribui para a legitimação do terrorismo islâmico, mas é mais óbvio (só não tão falado) que a maior parte dos seguidores desta religião não são terroristas.

Ainda assim, conforme disse Scott Atran, especialista no Oriente Médio a uma classe de estudantes universitários, talvez seja “olhando para o Leste” que o Oeste começará a vencer o terrorismo. Talvez meramente enxergar seus pedidos, seus dilemas e suas causas já seja o suficiente para amenizar a violência. A diminuição da violência, em outras palavras, geraria paz. Paz gerando paz, e não o oposto. Infelizmente, por enquanto só nos resta ouvir as quarenta badaladas das vítimas russas na manhã de Março.

RF

* A Lógica Estratégica dos Ataques Suicídas

** Entrevista de Marc Sageman para a New American Foundation

Monday, March 08, 2010

A mulher

Antes de mais nada, feliz dia internacional da mulher. Hoje, sem grandes loucuras acadêmicas, mas claro está que gostaria de deixar minhas homenagens.

O dia é de todas as mulheres. A importância das mulheres na humanidade vai infinitamente além das palavras que qualquer pessoa, independente de sexo, possa expressar, portanto não me arrisco nas poesias vazias do dia a dia. É interessante, no entanto, levantar a questão da relevância da identidade feminina dentro do mecanismo sistemático e caótico do funcionamento mundano. Tal ainda mais para nós, homens, que ainda mal compreendemos a questão mais simples: O que é “mulher”?

No texto de Novembro, Conceitos e Ideias 1 – Pós-positivismo e Feminismo, citei a visão de Francis Fukuyama sobre o pacifismo inerente à natureza biológica da mulher. Um ramo predominante de feministas discorda dessa lógica. Simone De Beauvoir, por exemplo, minha feminista e existencialista predileta, dizia que a mulher não nasce mulher, torna-se por escolha, e assim cria a mulher. A “mulher”, no caso, não teria conotação fixa apesar dos aspectos físicos distintos. Ao contrário do que pensa Fukuyama, muitas feministas argumentam que definir o conceito “mulher” externamente atrofia possibilidades das mais variadas, e acaba oferecendo os melhores argumentos àqueles que insistem em super-definir o conceito “mulher” somando adjetivos como “pura”, “verdadeira”, “santa”, ou contribuindo à construção de atributos ao conceito principal: A mulher deve ser discreta. A mulher não pensa em sexo como o homem. A mulher não é capaz de fazer trabalhos braçais. A mulher deve ficar em casa cuidando das crianças enquanto o homem sai ao trabalho do sustento familiar.

Como bem disse e escrevi a Micaella, sobrinha minha das mais recentes (tem mais pela frente, pessoal, mas só conto quando for certo), o mundo atual permite que os devaneios se tornem realidade. Mais do que nunca somos quem queremos ser, não só quem podemos ser. Obviamente que não podemos, nem homens nem mulheres, desejar a riqueza ou o sobrenome “Rotschild” ou “Gates”, mas homens que querem ser mulheres e mulheres que querem ser homens podem, hoje em dia, para quase todos os efeitos, fazê-lo. Se sua interpretação for religiosa, compreendo sua relutância em admitir que até mesmo essa mudança descomunal das fronteiras naturais da humanidade básica de cada indivíduo possa se concretizar. Para quem não tem deus, no entanto, ou para quem criou deuses mais flexíveis ou assim os escolheu, as interpretações variam novamente. Repito: Somos quem queremos ser. Temos, isso sim, apenas o que podemos ter.

Hoje mesmo recebi uma mensagem eletrônica do poeta e amigo mineiro, André di Bernardi, comentando o filme Preciosa – baseado no livro Push de Sapphire, com tamanha emoção que apesar de não tê-lo assistido já o recomendo de olhos fechados. O filme, como muitos devem saber, trata-se de uma menina obesa, pobre e analfabeta, repetidamente violentada pelo pai, que a engravidou duas vezes e, para piorar, a tornou soropositiva. Ainda por cima convive com os abusos da mãe que a culpa, ciumenta, pelo abandono do marido. Como uma luva, Preciosa, nomeada a quatro categorias na cerimônia de premiação do Oscar deste passado Domingo, dia 7 de Março, encaixa-se preciosamente às palavras de Beauvoir. Vencida pela vida e pelo mundo, a menina Preciosa jamais desistiu de construir-se e recriar-se. Mesmo que não encontrasse espaço para perfurar os céus, crescia para os lados mais psiquica do que fisicamente. Sua beleza interna e sua auto-imagem como a Preciosa que carregava no nome nos fornecem o melhor exemplo do que significa ser uma mulher em nossos tempos.

Ser qualquer minoria já é difícil, e sempre foi, mas antes desse “sempre” foi difícil ser mulher, seja em cantos do planeta que mais violentam, abatem e contagiam mulheres com enfermidades alheias, ou outros de forras machistas em qualquer das minorias. Em cantos mais, em cantos menos. A mulher sobrevive e se recria como nós, homens, mas em sociedades patriarcais, machistas e criadoras supremas de estereótipos podres, a recriação e o crescimento feminino são maiores do que os nossos, ao menos nas medidas que importam. Ontem, por exemplo, foi premiada com o Oscar a primeira diretora (do filme The Hurt Locker, que muito recomendo) na história de Hollywood, Kathryn Bigelow. Justo Hollywood, a cidade californiana que clama estar à frente do resto do mundo em seu liberalismo extremo, apenas ontem, quase década a dentro em um século 21 de terremotos e guerras banais, elegeu a primeira diretora ao prêmio máximo. Prova o discurso.

Por fim, o dia internacional das mulheres requer seus cuidados especiais. Não por mães, nem por amigas, esposas ou irmãs, mas por mulheres, que decidam sê-las, comportar-se como tais, e que assim criem novos “tais” e novas “mulheres” em conceitos que lhes cabem mais do que a qualquer um de nós. Tudo isso pelo sonho de Micaella, pelas palavras inclusivas de Beti Timm, pelo amor que sinto por minha Lilith, pelo amor e respeito à mamãe e à nova mamãe-irmã, de que chegue logo o dia, e chegará, em que andaremos lado a lado sem melhores ou piores, só iguais.


RF

Tuesday, February 23, 2010

O Grande Satanás contra os Mullahs Doidos

O título do texto é o mesmo de um ensaio de William O. Beeman falando sobre as principais características das relações “diplomáticas” entre o Irã e os Estados Unidos. Ao contrário do que muitos imagina, desligados do histórico rico existente entre os dois estados-nações, o relacionamento sempre foi vivo e necessário para ambas as partes. De acordo com o paradigma realista de Charles F. Doran, a “teoria da estabilidade hegemônica”, o papel dos Estados Unidos como hegemonia, de certo modo, dita o papel do Irã como anti-Imperialista. Similar ao contato implícito em agressões e comunicações acalantadas entre Israel e seus vizinhos da Faixa de Gaza e Cisjordânia, o diálogo existe mesmo desapercebido a olho nu.

Contudo, Beeman faz um interessante traçado entre as respectivas percepções dos Estados Unidos e do Irã e em seu estudo, que inclui uma análise fascinante sobre o diálogo internacional embasado no sistema de diálogos individuais e pessoais, conclui que não apenas Mahmoud Ahmadinejad caracteriza a super-potência pejorativamente, mas o oposto também ocorre na mesma frequência. Resumidamente, para o Irã, Estados Unidos é o Grande Satanás e para os Estados Unidos, Irã é um país de “Mullahs Doidos”.

A desconfiança norte-americana será provavelmente melhor compreendida pelos leitores locais, acostumados à retórica da política estadunidense. No madrugar da década de 50, o governo do país com sua instituição da Agência Central de Inteligência (CIA) contribuiu algo à derrubada de Mohhammad Mussadiq, primeiro ministro do shah que se alinhava "perigosamente" à mentalidade comunista. Mussadiq assumiu o cargo quando decidiu nacionalizar o petróleo iraniano, assim desafiando acordos com a Grã-Bretanha. A CIA agiu pelo pressentimento estadunidense de que o grupo comunista emergente no Oriente infiltrasse a monarquia iraniana, assim contribuindo a algum retorno de estabilidade ao sistema governamental monárquico do país Persa, que substituia a Dinastia de Qajar em 1925 com Reza Khan a assumir o poder. O sistema do shah prevaleceu até a Revolução Iraniana de 1978-79, quando Reza Pahlavi foi destituído com a ajuda de guerreiros islâmicos conhecidos como mujahedeen (que formam o atual grupo terrorista pan-islâmico Al Qaeda), e Ayatollah Khomeini assumiu a liderança.

Apesar de déspota, o sistema do shah garantiu algum desenvolvimento secular no Irã, que via um lider leal aos Estados Unidos em Pahlavi. Em seu próprio ritmo e de acordo com a sensibilidade cultural da região, o último shah modernizou seu governo até o coup d’etat dos fundamentalistas islâmicos, ocorrido em grande parte em base na secularização que assolava o imaginário religioso da população majoritariamente shiita. O governo norte-americano, em sua percepção falha de culturas alheias, e em sua total falta de sensibilidade às necessidades gerais de cidadãos estrangeiros, “traduziu” a reação de Khomeini como imprópria ao Irã e caracterizou seu governo como extremista e radical, fechando assim todos os possíveis diálogos existentes (que prosseguiram apenas indiretamente).

Khomeini, de fato, procurava balançar seu poder contra o poder dos Estados Unidos. De fato, para a classe média iraniana sua reforma foi tida como extremista e anti-evolutiva. No entanto, para grande parte da população, a instituição de um sistema islâmico governamental não necessariamente “caiu mal”. Nesse sentido o governo totalitário iraniano ganha legitimidade doméstica quando se opõe aos Estados Unidos. Conforme explica Beeman, quando Ahmadinejad chama os Estados Unidos de O Grande Satanás, não dialoga com os Estados Unidos, e sim com seus constituintes, que apoiam o desafio e que entendem através dessa metáfora específica (já que ligada à própria religião) o que Ahmadinejad quer dizer. Do mesmo modo, a falta de diálogo do governo estadunidense com o governo iraniano (em si uma espécie de comunicação baseada na não-comunicação) não é, necessariamente, uma provocação de governo a governo, e sim um apelo a constituintes conservadores dentro dos Estados Unidos que não querem seu governo ligado a fiéis religiosos de outra religião com outras bases éticas.

Beeman explica que, ao contrário da interlocução direta nos Estados Unidos, onde oficiais do governo e outros diplomatas chamam-se pelos nomes próprios sem prostrar-se e sem indiretas nem titubeios, iranianos conversam discretamente, com certo excesso de boas maneiras, curvando-se verbalmente e auto-inferiorizando-se perante o próximo. Logo, é comum que a interrupção do processo comunicativo ocorra da própria falta de compreensão do sistema comunicativo de cada um dos interlocutores. Além disso, iranianos no geral não tem nenhuma richa com a população estadunidense, e sim com seu governo, do mesmo modo que conscientemente rechaçaram o shah em sua própria casa, assim entendendo perfeitamente a diferença entre o ódio pessoal e o ódio direcionado ao regime vigente. Outra surpresa a muitos estadunidenses é que iranianos não são, nem bem se relacionam com, árabes, mas isso é tema para outros textos.

Há problemas reais e severos a se resolver no Oriente Médio, e como hegemonia (ainda), o papel dos Estados Unidos e sua influência às Nações Unidas e à comunidade internacional pode ser de fato essencial para a resolução de algumas crises. Talvez a questão é que não são todas as crises que podem ser resolvidas com o etno-centrismo americano e, sendo assim, o governo estadunidense precisaria saber onde faz bem sendo chamado, e onde apenas faz mal. Enquanto os diálogos estiverem fechados entre o Irã e os Estados Unidos por crises que a política externa dos Estados Unidos não pode resolver, haverá mesmo o que temer em um potencial conflito nuclear, ou conflitos preeminentes entre Israel (que tem muito mais a temer da falta de comunicação entre seu próprio estado-nação e o iraniano) ou Estados Unidos contra o Irã.

Talvez o primeiro passo para a paz seja simples e até mesmo um tanto quanto pueril: Párem de se xingar, meninos. Meninos: quietos! Quando um fala o outro cala e vice-versa. Pois, às vezes o mais simples é o mais complicado.

RF