Showing posts with label John McCain. Show all posts
Showing posts with label John McCain. Show all posts

Saturday, December 18, 2010

Eu pergunto e tu respondes!

No filme “American Beauty”, de um de meus diretores favoritos, Sam Mendes, o veterano de guerra e pai do introvertido e complexo namorado da protagonista esconde sua homossexualidade às últimas consequências. Se nascesse depois de hoje, Sam Mendes teria um personagem a menos em sua trama brilhante que, como poucas narrativas hollywoodianas, expõe a esquizofrenia estadunidense.

Sim, pois hoje no Senado duas batalhas foram travadas pelas minorias do país. Uma, perdida, a do Dream Act, tentava legitimar a cidadania de estudantes trazidos ilegalmente pelos pais enquanto ainda menores e que não recebem seus diplomas oficiais pelo status imigratório ainda ilegal. 55 a 41 votos ainda separaram os estudantes ora brilhantes, que procuram apenas obter o produto de seus árduos trabalhos, de seu sonho ainda inatingido. Estudantes como o ativista Felipe Matos, a quem tenho o privilégio de chamar de amigo pessoal e antigo, desde os 22 anos de idade, e à quem a revista Carta Capital homenageia em artigo que pode ser acompanhado aqui.

A segunda venceu-se, no entando, e isto apesar da advocacia opositora ferrenha de John McCain. Aquele que podia ser nosso presidente primeiro exigiu uma pesquisa sobre a opinião dos soldados das forças armadas do país. Quando obtida a pesquisa favorável à proposta massivamente popular, fez-se o insatisfeito e pediu uma pesquisa científica sobre os efeitos da lei anti-constitucional, mas institucionalizada nas forças armadas. Quando obtida a pesquisa, ainda positiva e condizente ao que agora chamamos de realidade, ainda insatisfeito, pediu mais pesquisas e nenhuma delas, nenhuma opinião provava-lhe o ululante, nem mesmo quando oficiais de todos os setores das forças armadas demonstraram quão banal, quão vil e quão estúpido era privar seus companheiros de guerra e de serviço militar da honestidade quanto a suas respectivas sexualidades.

A proibição, que não lei, pois leis devem ser justas, humanas e iguais, infame de “Não pergunte que não respondo” finalmente caiu no Senado por 65 a 31 votos.


Mesmo sendo contra a guerra, negar beneficios, forçar o retiro de oficiais honrosos, que serviram por uma causa que acreditaram ou por outros motivos, não dando menos de si por uma ideia que os antecede, é a antítese de qualquer pais que ainda quer dizer-se democrático. Aconteceu na era de Barack Obama, mas não por Obama, acreditem, contudo muitos menos por John McCain ou Sarah Palin, esta mais preocupada em estourar os miolos de animais alaskanos indefesos. O que importa é que aconteceu.

Felipe Matos, homossexual orgulhoso, apoia a vitória de seus irmãos e irmãs. Torçamos por sua vitória em 2011.

RF

Friday, November 07, 2008

McCain teve a menor chance?

A resposta à pergunta-título da postagem de hoje é: Sim, John McCain teve a menor chance de vencer contra Barack Obama nas eleições do 4 de Novembro, mesmo tendo em conta o clima anti-republicano testemunhado nas urnas, e a baixíssima aprovação nacional do presidente.

Desde 2006, com as eleições congressionais, a nação já dava um recado ao partido ao eleger, por maioria, a nova lider, Nancy Pelosi, ao Congresso.

O partido Republicano enfrenta uma crise interna que partiu do distanciamento de seu segmento moderado e conservadores mais fiscais do que sociais de George W. Bush, e culminou expressadamente nas preliminares republicanas, quando a maioria da essência de sua base teria optado por qualquer candidato, menos McCain.

O candidato republicano venceu as preliminares, quiçá, por ser o menos protegido pelo partido. Suas qualificações históricas como herói de guerra, e seus anos no Senado, mesmo tendo sido um dos famigerados Keating 5 (escândalo envolvendo cinco senadores e um rico empresário), geraram um senso de segurança entre conservadores justamente moderados, e deram aos independentes bons motivos para flertarem com o veterano candidato em sua segunda empreitada presidencial. Flertaram, na realidade, durante as preliminares e nas primeiras semanas após as convenções partidárias.

Seus planos, mais detalhados e confiados em quesito de política externa do que economia, seduziram aqueles que se preocupam com a “guerra ao terror” da doutrina Bush. Seus planos econômicos encaixaram-se classicamente nos padrões republicanos.

Há oito anos atrás, quando concorreu contra George W. Bush, McCain era tido como um verdadeiro “ás”. Seu desgosto pelo atual presidente, como aqui mencionado há pouco, sempre foi evidente. Muitos democratas e republicanos que votaram em Barack Obama na passada Terça-Feira, teriam votado pelo John McCain de 2000. O fato é que, em 2000, Bush conseguiu ofuscar a decisão dos eleitores plantando sementes de dúvidas sobre o caráter do senador pelo Arizona, difamando-o de todos os modos possíveis e imagináveis, inclusive contra seus anos militares, o que contribuiu, apenas, à desconfiança do candidato republicano em 2008 ao então candidato à presidência em 2000.

Porém, algo aconteceu este ano. Além da má fama de Bush, o que realmente contribuiu mais para sua derrota foi a persistência em posicionar-se favorável ao presidente em temas consecutivos. Primeiro, favorecendo um “feriado” do imposto à gasolina, logo apoiando o presidente a retirar a moratória que proibia escavações petrolíferas nas costas marítimas do país, e mesmo tendo sido contrário aos cortes tributários da era Bush, posicionando-se favorável aos mesmos alguns meses depois. McCain era contra o retiro da moratória duas semanas antes de assumir a posição do presidente.

A campanha impecável de Obama salientou a desordem da campanha de McCain. Ao invés de assumir os temas mais importantes, o candidato republicano começou com os mesmos ataques que Hillary Clinton tentara nas preliminares, mas sem sucesso. Ataques à inexperiência do candidato democrata também cairam por água a baixo.

Acima de tudo, McCain errou gravemente, na opinião do bloguista que vos relata, ao convidar Sarah Palin à vice-presidência. Por mais que a governadora do Alaska tenha contribuido para a energização da base de extrema direita, e talvez, de início, para a união de todo o partido, em poucos dias suas gafes, a evidência de sua despreparação, a incapacidade de responder às questões mais simples pesaram contra a governadora e alienaram os conservadores fiscais e republicanos moderados.

Poucos dias antes do dia 4 de Novembro, Palin recebeu um trote de dois disk-jockeys canadenses, que a chamaram com sotaque francês fingindo tratar-se do presidente Nicolas Sarkozy. Palin atendeu, e conversou com a figura sem suspeitar, nem por um instante, que o presidente da França jamais ligaria pessoalmente a um candidato, quanto menos vice-presidencial. O campo de McCain sofreu admitidamente. Na noite da derrota de McCain, Palin queria discursar à nação, mas foi logo calada pelo diretor da campanha: “Vá perder suas próprias eleições.”

A querida autora do blog Contemporary Cinderella escreve que McCain “voltou” em seu discurso derrotado. Concordo. McCain viu-se tendo de defender Obama pela segunda vez, depois do episódio com uma senhora em uma assembléia em Minnesota, quando teve de explicar aos seus constituintes que Obama não era árabe. A platéia que o recebeu na noite de sua derrota vaiava o candidato democrata, mas McCain soube ser gracioso e comprovar que a democracia pode e deve funcionar.

Caso McCain tivesse sido mais original, sincero, e caso continuasse usando o cajado de “ás”, demonstrando evidente desgosto pelo presidente, e, especialmente, caso tivesse escolhido outro candidato à vice-presidência, como Mike Huckabbe ou Mitt Romney, até mesmo o vira-casacas democrata Joe Lieberman, certamente a corrida presidencial seria mais apertada do que o testemunhado na noite de Terça-Feira.

Para McCain, foi o fim. Para a base, o início do desespero, agora assumindo a mesma posição que democratas assumiram durante oito anos com a eleição de Bush. A diferença é que ninguém duvida que Obama tenha sido eleito democraticamente. Outra grande diferença é que em 2008, 64% da população em idade eleitoral, votaram.

Ao meu ver ainda novato e amador no cenário político estadunidense, McCain poderia ter clamado o voto geral, posicionando-se como verdadeiro “ás”, já que a tradição republicana é de impedir que eleitores exerçam esse direito. McCain deveria, estritamente, ter se oposto ao plano de resgate econômico traçado por Henry Paulson e Ben Bernanke, apoiado por Bush, conforme o faria sua base não fosse ano eleitoral. McCain deveria assumir uma posição mais moderna em relação à reforma energética, especialmente em tempos cruciais como os que vivemos, já que alguém reformará a energia mundial, o Brasil já deu sua largada particular, e se os Estados Unidos seguir na persistência de que a solução desse problema é “escavar, baby, escavar”, o atraso será inevitável.

McCain não terá terceira chance. Já Obama, a partir de ontem, passa a ser testado aos olhos do país, e do mundo.

RF

Wednesday, November 05, 2008

Senhoras e Senhores, o 44º Presidente dos Estados Unidos: Barack Hussein Obama

A sensação

Foi uma noite linda.

Acompanhando, perplexo, desde as 5 PM, testemunhei uma corrida presidencial que começou às márgens estaduais de George W. Bush v. John Kerry, e transcendeu a façanha descomunal quando Barack Obama passou a vencer estado trás estado vermelho, até terminar com uma esmagadora maioria de Votos Eleitorais, e mais de sete milhões de votos a mais do que seu rival, John McCain.

Quando Obama venceu Ohio, a multidão que se assentava em Grant Park, Illinois, respirou aliviada. Mais de 125 mil pessoas ansiosas, à espera de um resultado diferenciado, finalmente puderam constatar que o democrata venceria em grande escala, conforme o esperado. O público republicano, insistindo na negação das pesquisas às vésperas das eleições, compreendia que a luta de McCain tornara-se mais complicada do que o desejado.

Assim que o senador democrata alcançou os 270 Votos Eleitorais, a população explodiu. Não falo apenas da qual assistia à televisão, os fãs de Obama acampando no bairro do Harlem, em New York, ou aqueles que ansiavam a chegada do futuro presidente, em Grant Park, Illinois. Falo de meus vizinhos, minha rua, a calçada de minha casa. Tudo se movimentava, todos gritavam, tiros, fogos de artifício, estalos de 4 de Julho, celebrando o dia em que os Estados Unidos provou ao mundo e a si mesmo que suas barreiras raciais foram derrubadas.

O país ainda enfrenta, enfrentará, conflitos raciais, e isto deve ser bem notado, mas para qualquer nação, o dia em que seu presidente possa ser branco ou negro, a muralha estóica é destruída, e a humanização de cada vez mais segmentos sociais ocorre paulatina, mas segura. Falta ainda a barreira feminista, mas até nesse ponto a imagem de um presidente diferente dos outros 43 passados, com um nome claramente estrangeiro, filho de imigrante e mãe solteira, órfão, criado com seus avos maternos, beneficiará a diversidade nacional, e a aceitação de toda e qualquer espécie de candidato.

Não é de se espantar que tenhamos visto o lider de movimentos sociais negros, Jesse Jackson, chorando em Grant Park. Ou Oprah Winfrey, debruçada sobre o ombro do acompanhante, completamente deslumbrada com o que via. Não é de se espantar que homens, mulheres e crianças tenham se reunido vividamente, como nunca antes na história de suas vidas, para lembrar que há 150 anos atrás qualquer deles podia ser escravo de outrem, e, hoje, um de seus representantes é o presidente da nação.

Nesta manhã, vindo ao trabalho, vi rostos felizes, sorridentes, crianças gritando o nome de Obama. É realmente algo lindo, puro e intenso. Inédito, em todos os sentidos. Os âncoras e apresentadores da noite eleitoral na CNN, MSNBC, NBC e Fox News mantiveram-se chocados por tanto tempo, que acredito que até agora a ficha não caiu. Aliás, está sendo lentamente absorvida pelo sistema digestivo da nação que arriscou, e espera o resultado da aposta.

Hoje acordo orgulhoso dos Estados Unidos. O povo mandou uma mensagem alta e clara ao seu governo. Resta esperar que o próprio povo saiba ser melhor, logo melhorar, as condições do país em todos seus setores. E, é claro, resta esperar a liderança de Barack, orgulhosamente Hussein, Obama.

A Batalha


O sucesso de Obama foi praticamente selado em duas frentes. Primeiro, garantiu a vitória em Pennsylvania, o único estado azul onde McCain tinha chances concretas de conquistar terreno democrata por uma série de desventuras ocorridas à época das preliminares. Logo, conquistou o estado vermelho de Ohio, e seus 20 Votos Eleitorais. Não havia um estretegista republicano sequer que não admitisse o que isto significaria ao candidato do partido conservador.

Em seguida, Obama conquistou Iowa, mostrando vantagens miúdas em outros estados vermelhos: North Carolina, Virginia e Flórida. O candidato democrata foi declarado vencedor em Virginia e Flórida aproximadamente às 11 PM, horário de New-York. North Carolina, com 100% dos votos contados, mostra uma leve vantagem do democrata.

O resto é história... Obama conquistou os vermelhos Colorado e New México, mas teve sua vitória anunciada quando varreu a costa oeste, vencendo na Califórnia, em Oregon e no estado de Washington. Neste momento, houve poucos habitantes nativos indiferentes à mudança climática. O senador pelo Illinois fazia história.

Democratas também venceram o Senado, ganhando 5 assentos, e mantendo a margem majoritária de 56 a 41 postos. No Congresso, democratas ganharam 18 assentos, aumentando a grandiosa margem da liderança de Nancy Pelosi com 252 a 173 representantes. A mensagem nacional é mais alta do que se imagina. O povo pode não ter dado aos democratas uma maioria indestrutível, mas outorga ao presidente e seu governo o direito de governar com folga em poder.

Barack H. Obama, presidente eleito, venceu por 338 a 161 Votos Eleitorais, com 39 ainda indecisos.


O Futuro

O futuro da nação é indefinido. A guerra no Iraque parece infindável, e a guerra no Afeganistão dá a impressão de sequer haver iniciado. A economia apenas esboça o que serão meses difíceis, de desempregos recordes e cortes orçamentais severos. Os eleitores esperam milagres, mas não podem se esquecer de que o verdadeiro milagre só pode, deve, promete vir do povo.

O futuro do blogue está selado. Até o dia 20 de Janeiro, dia da transição presidencial, minha casa será chamada de Obama e a Metaformose Nacional. Depois disso... Ora essa, depois disso, amanhecerá e veremos!

Abraxão a todos que até hoje me acompanham, e obrigado pela leitura.

RF

Thursday, October 30, 2008

Y la nave va...

Com a aproximação das eleições presidenciais, a maioria dos assuntos tratados já foram discutidos e repercutidos dezenas, centenas, milhares de vezes pelos anais da população, e aqui, no blog. Parece complicado encontrar algum tema que possa, realmente, relacionar-se como novo.

Quando comecei a escrever aqui, meu compromisso deveria servir também para explicar o que se ouve sobre a política externa dos Estados Unidos, mais do que sua economia. O que ocorreu foi que a guerra no Iraque caiu a segunda instância, e, a economia, reverberada em gestos pensamentais quase masturbatórios.

Há cinco dias da Terça-Feira que destronará George W. Bush depois de oito anos conturbados, a base de Barack Obama permanece fortalecida e, como era de se esperar, a base de John McCain tenta de tudo para apagar a desvantagem.

Segundo analistas políticos do The New York Times, CNN e MNSBC, o mapa dos estados favorece a Obama com margens tão avantajadas que McCain terá de fazer milagres para ser eleito. Milagres, no entanto, são a especialidade do partido Republicano.

Há quatro anos Bush esteve no programa de Tim Russert, Meet the Press, e disse que não estava preocupado. “Vencerei aqui,” disse o presidente, apontando a região do sudeste de Ohio, estado crucial em 2004, que pode reassumir o papel em 2008. Em Ohio, justamente, foram constatadas tanto em 2004 quanto às vésperas das eleições atuais, máquinas eleitorais disfuncionais e eleitores registrados tendo seus registros cancelados por irregularidades amenas, como erros de ortografia nos nomes ou sobrenomes dos “suspeitos”.

Mesmo assim, em North Carolina, onde o voto republicano sempre foi regra, Obama conseguiu inspirar um milhão de eleitores democratas novos a mais a se registrarem, comparados aos eleitores republicanos. A Geórgia, há pouco tida sólida para McCain, demonstra que pode virar em última hora. O mesmo ocorre com Indiana e Colorado, sem falar em Virginia, que conta com a presença de muitos negros, com a expectativa de que votem em maiores números à próxima Terça-Feira.

Caso McCain perder em todos os estados em que seu rival aparece liderando nas pesquisas, de nada lhe servirá levar a Flórida, Ohio ou North Carolina. A matemática de Votos Eleitorais lhe escapa às mãos, e o candidato republicano apenas pode contar com viradas, levar estados nos quais perde, atualmente, segundo as últimas pesquisas. Isto não é impossível.

Em clima de encerramento de campanha, Obama comprou meia hora ao ar em sete canais, entre eles a MSNBC, a NBC, a FOX e o BET. Sua propaganda política foi ao ar ontem, às 8 horas da noite, horário de Nova-York, em uma produção semi-hollywoodiana, na qual mostrou seus laços familiares, falou de sua mãe, seu pai, e mostrou o trajeto de três cidadãos de classe média em três estados disputados, Colorado, Flórida e Ohio. McCain esteve no programa de Larry King por toda a hora na mesma noite.

Porém, essa compra democrata está diretamente relacionada ao que se testemunhou de inédito neste ano eleitoral, a doação colossal em quantias de $15-30 dólares, por cidadãos comuns.

Desde que Obama desviou-se do que tinha sugerido inicialmente em relação aos fundos campanhistas públicos, e decidiu não usá-los nestas eleições, seu poder aquisitivo em campanha é quase o triplo de seu rival. McCain sentiu, mas tampouco utilizou seu dinheiro de modo sábio, procurando surrupiar estados classicamente republicanos mesmo perdendo por dígitos duplos nas pesquisas.

Usou Ayers, o Pastor Wright e ainda usa alianças comuns entre Obama e McCain a um ex representante palestino. Sobre impostos e economia o campo Republicano começou a discursar apenas na última semana. Porém, apesar de que seu campo afirma veementemente que suas pesquisas demonstram que McCain ganha terreno, não é o que constatamos.

A propaganda política de Obama foi pré-criticada por representantes republicanos como “elitista”. Engraçado, ou esse mesmo “elitismo” era usado por Adolf Hitler contra os judeus? Afinal, caso McCain tivesse o dinheiro, faria o mesmo, se não mais. E, de fato, aproveitou-se da entrevista no programa de Larry King para “alertar os consumidores sobre os produtos vendidos nesta propaganda".

Já Obama brincou em sua rally. Primeiro com um vídeo editado e distribuído entre o campo Democrata, mostrando uma corrida entre dois ciclistas na qual quem vencia tirou as mãos do guidão na última volta, caiu de bunda, e perdeu para o outro ciclista com o rosto colado de McCain. A mensagem: Não tirem as mãos do guidão! Vocês ainda precisam ir votar (algo que preocupa os democratas, apesar da explosão de novos eleitores). Além disso, constatou que “logo, logo McCain me chamará de comunista, porque eu compartilhava meus brinquedos no jardim de infância”.

Minha próxima postagem será na Segunda, antes da Super-Terça-Feira. Até lá, cintos apertados, que a nave vai.

RF

Monday, October 27, 2008

Reta Final

Faltam 8 dias para as eleições presidenciais. Barack Obama segue liderando, a cada dia passado mais sólido nas pesquisas nacionais e estaduais, e John McCain segue procurando reverter sua sorte.

McCain ganhou a fama de “Ás” por ter conquistado, em suas tantas eleições, o título nos últimos momentos de suas campanhas. Ninguém conluiu, até o momento, que Obama já ganhou.

O caso do prefeito Tom Bradley, que procurou a candidatura democrática ao Governo da Califórnia em 1982, ainda assombra as mentes dos analistas políticos. Bradley, negro, veterano prefeito de Los Angeles, vencia nas pesquisas gerais com boa margem, mas perdeu as eleições para o candidato George Deukmejian. De acordo com as pesquisas, grande parte da população branca dizia-se favorável a Bradley, mas de fato, poucos votaram pelo prefeito. O “efeito Bradley” é usado para explicar as diferenças consideráveis entre as pesquisas em boca de urna, e o voto concreto de cidadãos. O motivo é geralmente atribuído ao racismo.

O candidato republicano, contudo, não errou no tom de sua campanha. Não foram os ataques a Obama que o abateram, nem a escolha de Sarah Palin à vice-presidência, nem mesmo sua idade avançada. Seu histórico militar não o trouxe agouros, nem penúrias vieram de sua experiência no Senado.

O maior problema de McCain, ao meu ver, é que não seja, realmente, um “Ás” político. Tendo acomodado a filosofia de seu partido mesmo quando concorria contra George W. Bush, em 2000, McCain é, simplesmente, o piloto errado no carro errado para os tempos atuais.

Almoçando no restaurante da esquina de minha casa, disse ao filho da dona, amigo meu, Conrad Palmer, que Obama deveria vencer, mas se não vencesse, algo de muito errado há no sistema eleitoral.

“Em todo o país,” interrompeu um senhor que comia na mesa atravessada à minha. “Há algo de muito errado em todo o país.”

Apesar de concordar com o cliente do Palmer’s Seafood Restaurant, sei que existe grande parte da nação ainda fiel à economia republicana. Agora, com curto tempo antes da escolha final, meu veredito segue:

O partido Republicano atrái um padrão limitado de eleitores, entre ricos e pessoas de fé doutrinária. Os judeus que simpatizam com a filosofia conservadora se encaixam bem nos dois segmentos sociais. No entanto, há judeus democratas também, e muitas pessoas de fé, mesmo doutrinária, que têm se distanciado desta filosofia.

Esta distância já vinha ocorrendo antes das eleições, especialmente expressada nas eleições municipais de 2006, com uma maioria surpreendente de democratas eleitos ao Senado. Contudo, a partir de sinais mais contundentes da crise econômica alarmante, parece que poucos querem mesmo arriscar as mesmas idéias falidas de um governo que conseguiu, praticamente, desestruturar todo seu partido.

Quando McCain fala que Obama espalhará a riqueza da nação, usa-se de uma frase erroneamente dita pelo candidato democrata há algumas semanas. Em realidade, Obama apenas vai aumentar os impostos dos mais abastados e cortar os impostos da classe média a valores similares à época de Bill Clinton. Quando Ronald Reagan era presidente, a porcentagem do orçamento governamental baseado no “income tax”, imposto salarial, era quase três vezes mais alta do que o que Obama sugere a 2010.

McCain mesmo era considerado um “Ás” por posições como quando foi contrário ao corte de impostos sugerido por Bush há quatro anos. Logo retratou sua posição, e atualmente favorece ainda mais cortes tributários. E, para variar, esta é a jogada politicamente correta para um republicano. O partido não pode deixar de ser o que sempre foi, afinal, mesmo que “quando os fatos mudam,” há quem “mude de opinião” (John Maynard Keynes).

Com a crise aprofundando-se, a calma de Obama e o fato de jamais ter se movido, exatamente, da raíz de sua filosofia política, e McCain, por outro lado, usando jargões conservadores para compensar sua inaptidão econômica, errático e instável, foram os fatores que mais afetaram estas eleições.

O mundo enxerga em Obama uma pessoa “fresca”, de idéias nem tão novas, mas de postura madura, sincera, direta, um vice-presidente que carrega o mesmo prestígio de McCain, ou mais, em relações externas, e endossamentos essenciais, tanto entre republicanos quanto independentes.

Além disso, Obama teve mais dinheiro para gastar do que o partido Republicano, algo que o posicionou ao lado de presidentes concorrendo a reeleições em termos de organização campanhista. Desde as preliminares, os Estados Unidos tremeram por todos os cantos com recordes batidos de eleitores às urnas, e o senador por Illinois vive uma estação de celebridade, diferente das últimas corridas presidenciais.

Falta pouco para saber, enfim e finalmente, se os Estados Unidos está realmente pronto para alguma mudança. Que venha o 4 de Novembro.

RF

Friday, October 24, 2008

Estado a Estado

Por Bruno Venancio

Nos Estados Unidos, as pesquisas nacionais representam menos importância do que as pesquisas estaduais em eleições presidenciais.

Revendo o processo eleitoral no país, deixo aqui um retrato geral, faltando 11 dias às eleições:

Diferente do Brasil, nos Estados Unidos o presidente não é necessariamente eleito pela maioria do país.

O processo local inclui Colégios Eleitorais, que seriam proporcionais ao número de constituintes em cada estado.

Pela histórica margem partidária atribuída a, praticamente, todos os estados, o falecido Tim Russert criou a expressão “estados azuis” (democratas) e “estados vermelhos”. A quem possa, acompanhem o link do The New York Times para a imagem completa.

270 Colégios Eleitorais são necessários para a vitória presidencial. Em 2000, a Flórida, com seus 27 Colégios Eleitorais, daria a vitória ao candidato que a vencesse. Em 2004, John Kerry perdeu de George Bush por perder em Ohio, com seus 20 Colégios Eleitorais.

Aqui, demonstrarei a lista de estados, Colégios Eleitorais, e onde se encontra cada candidato há menos de duas semanas das eleições, segundo o jornal.

No total:

Barack Obama – 277 Colégios Eleitorais
John McCain – 185 Colégios Eleitorais.
Indecisos – 76 Colégios Eleitorais



Alabama: 9 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Alaska: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado da Governadora Sarah Palin.

Arizona: 10 Colégios Eleitorais: Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Arkansas: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Califórina: 55 Colégios Eleitorais: Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Colorado: 9 Colégios Eleitorais: Estado indeciso, apesar de vermelho.

Connecticut: 1 Colégio Eleitoral. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Delaware: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul (talvez o mais azul).
Flórida: 27 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Sempre foi considerado um estado potencial a ambos partidos.

Geórgia: 15 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.
Hawaii: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Seu estado natal e classicamente azul.

Idaho: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Illinois: 21 Colégios eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Indiana: 11 Colégios Eleitorais. Este estado está inclinado a John McCain pelas pesquisas, mas mesmo assim, foi posto em jogo por Barack Obama. Estado vermelho que, em algumas pesquisas, mostra McCain perdendo além da margem de erro.

Iowa: 7 Colégios Eleitorais. Estado inclinado a Barack Obama. Estado que, como a Flórida, não se enquadra radicalmente em nenhum partido.

Kansas: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Kentucky: 8 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Louisiana: 9 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Maine: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Maryland: 10 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Massachusetts: 12 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Michigan: 17 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado que não se enquadra a nenhum partido.

Minnesota: 10 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado azul.

Mississippi: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Missouri: 11 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Montana: 3 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Nebraska: 5 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Nevada: 5 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Este estado, como Indiana, é vermelho, mas nestas eleições permanece indeciso.

New Hampshire: 4 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado não enquadrado no perfil de nenhum de partido.

New Jersey: 15 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

New Mexico: 5 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado praticamente azul, apesar de já ter caído para George W. Bush.

New York: 31 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

North Carolina: 15 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Estado classicamente vermelho, mas, mesmo assim, permanece em jogo.

North Dakota: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Ohio: 20 Colégios Eleitorais. Estado indeciso, e essencial a ambos candidatos.

Oklahoma: 7 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Oregon: 7 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Pennsylvania: 21 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado que tampouco se enquadra em padrões partidários específicos.

Rhode Island: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

South Carolina: 8 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

South Dakota: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Tennessee: 11 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Texas: 34 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado de George W. Bush, vermelho.

Utah: 5 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Vermont: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Virginia: 13 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado classicamente vermelho, mas agora inclinado ao democrata.

Washington: 11 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado azul.

Washington D.C.: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

West Virginia: 5 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Wisconsin: 10 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado que não se enquadra a padrões clássicos partidários.

Wyoming: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Monday, October 20, 2008

Colin Powell, o Endossamento de Aço


Ocorreu no programa Meet the Press, ancorado pelo veterano Tom Brokaw. Sem querer tirar o mérito de Brokaw, o falecido Tim Russert, que revolucionou o programa e o tornou o mais temido e honroso de todos os talk-shows jornalísticos, faz tremenda falta.

Mesmo assim, o ex general Colin Powell, militar durante 35 anos de sua vida, filho de imigrantes jamaicanos, crescido no Bronx de Nova-York, decidiu endossar Barack Obama a presidente na NBC, às dez horas da manhã do passado Domingo. Como todos os demais analistas da MSNBC já haviam mencionado, o apoio era esperado.

Como a única figura política da administração de George W. Bush a escapar ilesa dos escândalos iniciados em 2003, e republicano que, em 2000, endossara Bush e Dick Cheney à presidência e vice-presidência, Powell é talvez a pessoa de confiança mais abrangente da nação. Admirado por brancos, negros, homens, mulheres, militares e pessoas pacíficas, Powell respondeu as perguntas de Brokaw sem titubear, sem rodeios, direto e certeiro, mesmo que algumas delas não tenham sido fáceis.

O motivo central de seu suporte a Obama é que, segundo Powell, John McCain tem se mostrado inapto a lidar com o problema mais contundente da nação, a economia. Enquanto o senador pelo Arizona expressou-se erraticamente na trilha de sua campanha, suspendendo a mesma, logo retornando, declarando não participar do primeiro debate e, logo, participando, utilizando de seu tempo de campanha para massivamente atacar Obama, o senador por Illinois comportou-se, disse Powell, “quase de modo oposto”.

Desde o início das campanhas gerais, Obama já tinha em seu sítio eletronico alguns planos delineados, recentemente detalhados, à economia. Para que por aqui não recáia o provável 1984 que recái nos Estados Unidos, relembro dois fatos:

1 – Desde a evidência da nomeação de Barack Obama à candidatura de seu partido, já escrevi que o mesmo levava vantagem em seus planos econômicos, mas que as guerras no Iraque e Afeganistão no contexto de relações externas favoreceriam a John McCain. Caso houvesse um ataque terrorista, mencionei, o mesmo seria utilizado vantajosamente pelo candidato republicano. Caso houvesse recessão, o contrário seria verdadeiro.

2 – Houve indícios severos de uma recessão popular, infelizmente apenas levados a sério pelo governo anos depois, com a falência de Fannie Mae e Freddie Mac, resgatadas pelo governo, e com a falência da Lehman Brothers e da AIG, respectivamente compradas pelos bancos poderosos de suas nações. O banco Washington Mutual também faliu, e foi logo comprado pelo Chase. Apenas então que Henry Paulson, Secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, representante da Reserva Federal (FED) alardearam a Casa Branca exigindo $750 bilhões de dólares, finalmente conquistados após três semanas de negociações.

No percurso, outros temas captaram a mente da população:

1 – O aumento de tropas no início de 2008, apoiado por John McCain e cunhado por George W. Bush, teve relativa eficiência. Resultou em uma redução concreta nas mortes de soldados estadunidenses no Iraque, mas ainda não pavimentou uma rodovia concreta à independência do país. A redução, contudo, contribuiu com a campanha de McCain.

2 – A escavação por petróleo nas costas marítimas era proibída em moratório nacional há quase duas décadas. Desde o aumento absurdo nos preços do combustível, Bush e McCain foram os primeiro e segundo, respectivamente, a pedir pelo retiro do moratório. Obama demorou um pouco para concordar, mas foi praticamente forçádo a fazê-lo. De certo modo, isto favoreceu a McCain, mas não prejudicou a Obama.

3 – Sarah Palin trouxe à base uma das maiores polarizações vistas nas últimas décadas, aproximando-se da extrema direita, e trazendo à tona os temas do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Segunda Emenda constitucional, forjada à garantia de que cidadãos pudessem possuir e usar armas para defesa própria ou caça esportiva, e o ensino do Design Inteligente e/ou Criacionismo nas mesmas aulas que ensinam ciências e história em escolas estaduais e federais. Por um lado, Palin conseguiu empolgar uma campanha que definhava. Por outro, jamais apagou a clara vantagem de Obama nas pesquisas.

Nem mesmo a guerra no Iraque distraiu a população. Os indicadores econômicos demonstram tamanha estapafúrdia que apenas o candidato que pudesse passar tranquilidade aos bolsos de norte-americanos seria bem visto, e, de fato, apesar de ter subido nas pesquisas com a escolha de Palin, McCain acabou caindo a uma média de 7-10 pontos em relação a Barack Obama. O mapa atual, caso assim permaneça, demonstra que o republicano precisa escalar uma descomunal montanha se quiser conquistar os 270 colégios eleitorais necessários.

Colin Powell confirmou o que muitos já sabiam:

McCain não tem um plano concreto para a economia. Se, por um lado, promete agir de maneira totalmente distintinta do que agiu o atual presidente, por outro oferece a perpetuação de sua política econômica. Promete congelar gastos sociais e gastar apenas com a defesa. Promete cortar mais impostos, mas ele mesmo não consegue superar o fato de que os únicos beneficiados seriam os donos de grandes empresas, já que a maioria das pequenas empresas (média de 95%) lucram menos do que 250 mil dólares anuais. O “Joe, the plumber” (João, o encanador) geralmente ganha muito menos do que isso, na faixa de 47 mil dólares anuais, segundo Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel da economia em 2008.

Krugman também endossa Barack Obama. À Sexta-Feira passada, escreveu em sua coluna que o dever do próximo presidente, que tecnicamente não tem grande controle sobre a crise, é gastar com seu país, desenvolver sua infra-estrutura, oferecer respaldo aos desempregados e desassegurados da nação, e não congelar os gastos essenciais. Sim, há corrupção, e certamente o quartagésimo-quarto presidente dos Estados Unidos tem meu total apoio a caçá-la e erradicá-la, mas isto não significa que o dinheiro que eu alegremente pago ao governo possa ser apenas investido no exército. Muito pelo contrário. Por mim, nós, como soldados desarmados, temos o dever de investir em nosso país, com nossos recursos, por nossos interesses de uma vez por todas.

Powell, por sua vez, enalteceu a escolha de Joe Biden à vice-presidência enquanto se disse “desapontado” pela escolha de Sarah Palin, a quem julga despreparada em demasia para uma eventual crise na qual deva assumir o trono da Casa Branca. Biden e sua experiência bipartidária em relações externas, segundo o ex Secretário de Estado de Bush, o fazem “pronto para o primeiro dia.”

Faltam 15 dias para as eleições que ocorrerão no dia 4 de Novembro. Por enquanto, as pesquisas favorecem a Obama com excelentes margens em estados antes garantidos aos republicanos. Podemos esperar, contudo, que a corrida fique mais emocionante daqui para frente. Os ataques de McCain e Palin, agora implorando aos eleitores a não eleger um “socialista” à presidência, ainda podem surtir efeitos inesperados (ou secretamente esperados, no caso do racismo enrustido). Contudo, acredito mais do que nunca que todos sabemos em qual cavalo devemos apostar todas as fichas.

RF

PS: Ironia

A economia sempre preocupou qualquer nação acima da maioria dos outros temas. Entretanto, foi a guerra no Iraque que causou o maior índice de impopularidade ao presidente George W. Bush. Como Powell disse ao endossar Obama, “sem as armas de destruição em massa, não havia motivo algum para entrar em guerra contra Sadam Hussein”.

Mesmo assim, a guerra acaba se tornando uma distração, ao invés de tema central destas eleições. Através dela, o candidato que mais se parece e mais próximo está à base que cometeu os erros em 2003, pode se beneficiar e ludibriar os eleitores com sua falsa segurança e tendências bélicas. O tempo passa, os temas trocam de lugar, mas nunca mudam.

Thursday, October 16, 2008

Nosso Maior Problema

“Mr. McCain said, ‘The whole premise behind Senator Obama’s plans are class warfare — let’s spread the wealth around’.” (The New York Times)

O terceiro e último debate presidencial foi o melhor, segundo analistas. Eu não o vi, confesso. Ao invés disso, assistia a Canarinho caminhando de um lado para outro em um campo grande e esverdeado, aparentemente acompanhando o jogo dos colombianos uns contra os outros, especialmente quando jogadores do mesmo time se cabeceiam ao alto.

Porém, assisti alguns argumentos, logo a reprise de grande parte da discussão entre os candidatos republicano e democrata, e as análises da MSNBC e CNN, além do artigo recente no The New York Times.

A frase que, para mim, resume o que deveras é considerado e tratado como o tema central dessas eleições, a economia, está postada acima.

“McCain disse, ‘Toda a premissa por trás dos planos do Senador Obama é guerra de classes – espalhemos a riqueza [por toda a nação]’.”

Essas palavras me remetem imediatamente à cena que testemunhei ontem quando visitei minha ex professora de escrita criativa, Lisa Shaw, enquanto dizia a um aluno que ele não podia sequestrar a aula falando de propostas econômicas liberais como se tivesse o conhecimento e a experiência necessários para tanto.

“Eu posso concordar contigo,” disse Shaw, “o que não significa que a maioria da nação não discordará de ti, e você não tem o cacife para professar uma teoria econômica, e mesmo se tivesse isso não faria a menor diferença, as pessoas não querem ouvir de ninguém, ‘você pagará pela minha educação, pela minha saúde, pelo meu bem estar mesmo se eu estiver desempregado’. As pessoas querem cuidar da própria vida, de suas propriedades, e ninguém quer saber de ser forçado a contribuir com o resto da sociedade, isso é automaticamente taxado de comunismo.”

Shaw tem razão. O país não elegeria Bush duas vezes caso não tendesse a concordar com esse raciocínio, que não deixa de ser válido, só deixa de ser capitalismo. Mas esse nem é o maior problema. Bush também venceu duas vezes porque, conforme diz Rachel Maddow, democrata e âncora da MSNBC, “o sistema eleitoral é partidário, e os democratas têm duas opções, a primeira é ofender-se e exigir mudanças, a segunda é atuar partidariamente e reformar as leis eleitorais”. Os motivos para descartar novos eleitores multiplicam-se com a aproximação do 4 de Novembro, enquanto cá nos situamos.

Mesmo assim, esse não é o maior problema.

Os chavões atráem a mente de cidadãos comuns. Respondi a Shaw que esse movimento da “direita” do país não é racional, não faz sentido, é baseado em sentimentos. Baseio meu raciocínio no fato de que as pessoas não têm a menor idéia do que o “DOW” significa, mas todos querem que o “DOW” feche em alta, mesmo que o preço da gasolina esteja diretamente ligado a essa alta, e que aumente caso a bolsa começar a lucrar demais. Na mesma nota, há pessoas pedindo o fim do chamado Tributo Mínimo Alternativo, que já foi bloqueado e que pode tornar-se permanente a partir de 2009, mas esse tributo só atinge pessoas que ganham mais de $250 mil dólares anuais, e quem reclama ganha menos de $40 mil.

Ainda acredito, espero que não ilusoriamente, que o país procura, de fato, mudanças concretas em sua filosofia. Também acredito que a força liberal e democrata é crescente, o que significa que há mais pessoas deixando de pensar com o lado esquerdo, e menos deixando de pensar com o lado direito do cérebro.

Contudo, a filosofia central da nação nos últimos anos foi de redistribuição de verbas, sem a menor dúvida, só que “para cima” na pirâmide social. Os poucos ricos ficaram mais ricos, e os muitos pobres ficaram mais pobres. Todos sabem onde a classe média tende a parar nessa roleta russa.

Aqui sim, consta o maior problema. As pessoas votam contra seus interesses econômicos, conforme disse Barack Obama há alguns meses atrás. Apóaim-se nas armas (emenda constitucional defendida por republicanos), e em outros temas moralistas como, justamente, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As classes menos abastadas, menos educadas, e mais centradas geograficamente, o que as distancia de imigrantes e variações culturais e os aproxima da base tradicional da nação, votam constantemente a favor de cortes tributários que jamais os beneficiarão.

Por que isso ocorre?

Posso opinar, mas eu, também, não tenho cacife para determinar uma circunstância, portanto julgue-o quem quiser, como quiser, de acordo com seus próprios critérios.

Para mim, isso é baseado em uma guerra que tornou-se não só entre a esquerda e a direita, mas entre uma filosofia que é basicamente socialista, e outra que não passa de pseudo-capitalista. Esclarecendo, e para quem me conhece isso pode ser evidente, discordo da premissa socialista que dá ao estado a autoridade sobre os projetos de desenvolvimento social. Porém, mesmo entre os esquerdistas intelectuais mais extremos, o indivíduo de menor poder está mais propenso a receber atenção social do que seu oposto. Já entre o clássico direitista, o estado é o demônio (concordo, em grande parte), o dinheiro a “mim” pertence, mas desse dinheiro nada nasce, nada cresce, nada se reproduz para a sociedade que não empregos muitas vezes medíocres com sub-salários, sub-benefícios e sub-futuro.

Há exceções, e assim sendo, mais do que se imagina. A maioria, contudo, comporta-se além do capitalismo de Adam Smith. O máximo ao qual conseguem agarrar-se é a economia de Ronald Reagan, que projetava prosperidade às classes menos abastadas através do fortalecimento das mais abastadas. Apesar de não sermos árvores, acredito que a metáfora é válida. Seria como fortalecer a árvore pelas folhas. Ninguém, contudo, quer efetivamente dar do seu dinheiro a investir em projetos sociais necessários, mesmo que concordem com a importância dos mesmos, e odeiem pagar impostos.

Assim sendo, como poderemos chegar ao século 21 sem a mentalidade do século 18? Continuaremos discutindo sobre o preço de nossa civilização, atribuindo culpas, farpas e pizzas a outros que não nós mesmos. Continuaremos pensando que o dízimo apazigua nossas culpas. Esse sim é o maior problema: Quando a sociedade é contra a redistribuição de verbas aos mais necessitados, mas favorece fervorosamente o redistribuição de verbas aos que causam grande parte das necessidades.

Obama, para mim, vence apenas por comparecer ao debate. Ainda assim, não representa a solução evolucionista necessária.

RF

Monday, October 13, 2008

Aquele ali, e a Zebra

Se alguém assistiu o último debate presidencial nos Estados Unidos deve ter percebido que John McCain, ao responder uma das perguntas de Tom Brokaw, referiu-se a Barack Obama como “aquele ali”. “Aquele ali” pode até parecer um termo leviano, mas até mesmo eu, branquelo, percebi não racismo nas palavras de McCain, mas nos ouvidos de muita gente.

Puff Diddy (nota: Acho sempre engraçado quando assisto jogos entre a Canarinho e outros times, porque enquanto na Canarinho temos o Kaká, o Dudu, o técnico Dunga etc., em outros time há o John, o Scott, o Juan Román etc. Os apelidos são realmente de matar, mas esse apelido, “Puff Diddy”, é para mim o mais ridículo de todos) produziu um vídeo para seu blogue que criou um pequeno movimento entre os democratas com o lema “eu voto naquele ali”. O rapper caçoou de McCain dizendo “velhinho, nós estamos em 2008, não em 1958!” “Aquele ali” é uma clássica referência racista.

Ao fim da semana passada, em uma assembléia republicana, uma senhora levantou-se e disse a McCain: “Nós temos de enfatizar que Obama é árabe. Não podemos votar em um árabe.” O candidato respondeu: “Obama não é árabe, e tem todas as qualificações humanas para ser um bom presidente.” Seu rival democrata agradeceu horas depois.

Esse foi o fim das campanhas negativas de McCain. À semana passada, Obama chegou a ficar 11 pontos percentuais adiante de McCain. No início da semana estava a sete pontos em vantagem, e hoje, oito dias depois, a pesquisa voltou aos sete pontos. O senador pelo Illinois desistiu da estratégia “Karl Rove”, talvez especificamente depois de ter de defender seu rival para que seus ataques não se tornassem escalada xenofóbica, ou talvez apenas pelo resultado escandaloso das pesquisas, que não o favorecem nem depois dos debates, nem depois do debate de Sarah Palin e Joe Biden, e nem mesmo com os ataques negativos, que já surtiram mais efeito.

O fato é que agora McCain passou a ser a “zebra” da disputa, e sua afirmação como candidato passa a ser similar à de Obama, quando teve de contar aos eleitores de onde vinha, e que era honroso e talentoso o suficiente para merecer seus votos.

Faltam três semanas. O debate desta Quarta-Feira será o último. Se o candidato republicano pensa que a mídia “já o descartou” como reclama, está enganado. Os sete pontos são justos e curtos para que o efeito racista seja realmente eliminado na data das eleições. As campanhas negativas devem diminuir, em vez de aumentar.

Contudo, “aquele outro” é, para todos os efeitos, o “um” da vez. O “outro”, “aquele ali”, desde praticamente o início das preliminares, e logo das campanhas às eleições gerais, é John McCain.

Volto ao comentário da Santa quando da nomeação oficial de Barack Obama à candidatura oficial pelo partido Democrata. Santa disse que a mídia, e logo eu, classificávamos a nomeação como histórica “mesmo antes de ter acontecido”. Senti a mordida, e logo vi o texto antagônico em seu blogue, como se Obama e Lula fossem quase a mesma gente.

Pois, o “histórico” referia-se à nomeação, mas acho que a mordida referia-se à candidatura presidencial. Meu histórico baseou-se na realidade, e a mordida baseou-se em uma rígida opinião (falsa). Essa rigidez precisa amolecer urgentemente.

Faltando apenas três semanas para as eleições gerais, depois de um ano de comentários, mas mais importante, de aprendizado, de leituras, de engajamento, de questões respondidas, outras ainda não compreendidas, e muitas, muitas, mas muitas mesmo, discussões políticas, algumas civilizadas, outras violentas; depois de um ano de política estadunidense, posso afirmar de boca cheia que Obama não precisa vencer, nem precisaria, para que sua candidatura fosse considerada histórica.

Mesmo que Obama não mereça a presidência (para mim, merece mais do que McCain), mesmo que não seja uma figura exemplar de honestidade e santidade, mesmo que tenha menos virtudes do que sua eloquência, a história está feita, escrita e assinada. Melhor, não é mérito de Obama, mas do povo americano.

Sei que em minha platéia haverá cinicos pensando o demônio daqui. Estupidez, perdão. Repito: estupidez, e assunto encerrado. O que não é estúpido é que há trinta, quarenta, cinquenta anos atrás as pessoas ainda tinham o direito de dizer que odiavam negros sem a menor repercussão social. Podiam dizer que “negro bom é negro morto” e ainda vingar dentro do politicamente correto. Pretos escolados eram contados com dedos de uma mão. Apesar de muitos auto-ditadas, eram ainda tidos marginais. As escolas ainda praticavam a política de Jim Crow, segregadoras, e no sul do país era tão comum quanto caçar, linchar um negro andarilho solitário.

Hoje, aquele que foi soldado, herói nacional pelos seus valores mais arcaicos, aquele que não só é branco, mas “de boa família”, propietário de 13 casas, 11 carros, e uma esposa herdeira de milhões de dólares limpos, senador há duas décadas e quase meia, ex-prisioneiro de guerra, é realmente a “zebra” dessa corrida. Se McCain vencer será mais surpreendente do que a vitória de George W. Bush sobre um outro caucasiano WASP, Al Gore, e do que a vitória de Bush Junior sobre outro herói militar, John Kerry.

Hoje, o negro, filho de imigrante e mãe solteira, cuja avó branca ainda admitiu ter medo de negros, é o principal candidato desta disputa. Terão de falsificar muito, impedir muitos votos e mentir muito nas pesquisas para que McCain as apague, ou algo como o que ocorreu com Hillary Clinton em New Hampshire deverá suceder novamente (as pesquisas, na média, erraram, historicamente, em raríssimas ocasiões).

McCain ainda pode muito bem vencer. Faz pleno sentido, e espero que os democratas o entendam com a profundidade necessária. Mesmo assim, estas eleições foram, desde o início, fadadas a pertencer “àquele ali”.

O país tem seus defeitos, e sua população tem dos seus, mas isso é inédito na civilização ocidental, aquela que Mahatma Ghandi ainda disse ser “uma boa idéia”.

RF

Friday, October 10, 2008

“A economia esmaga a raça”.

Por Bruno Venancio


“A crise corrente começou com a explosão da “bolha imobiliária”, que levou a uma grande quantidade de hipotecas não pagas, logo a grandes perdas de muitas instituições financeiras. O choque incicial criou efeitos secundários, enquanto a falta de capital fez com que bancos se retirassem do mercado, levando a declínios ainda maiores nos preços das propriedades, o que originou mais perdas, e assim por diante – um circulo vicioso de “desvalorização”.

A queda livre acelerou depois [do fracasso] de Lehman. Mercados monetários, já em problemas, efetivamente se fecharam – uma das frases circulando atualmente é que as únicas coisas que as pessoas querem comprar agora são notas do Tesouro e garrafas de água.

A resposta a essa queda livre da parte dos dois grandes poderes do mundo – os Estados Unidos, em um lado, e as 15 nações que usam o Euro, do outro lado – foi terrivelmente inadequada.”

Assim explica Paul Krugman, em sua coluna de hoje no The New York Times. Depois de explicar que os líderes dos Estados Unidos, incluindo Henry Paulson, secretário do Tesouro, falharam em formular um plano conciso e intelectualmente são para reafirmar a economia da nação, ao mesmo tempo ajudando a evitar um colapso mundial da bolsa de valores, Krugman afirma que um novo plano de resgate deve ser concluído nesse fim de semana.

“Por que nesse fim de semana? Porque ocorrem dois grandes encontros em Washington: um encontro com os principais oficiais financeiros de grandes nações desenvolvidas, na Sexta Feira; e logo o anual encontro do Banco Mundial/Fundo Monetário Internacional ao Sábado e Domingo. Se esses encontros terminarem sem ao menos um acordo em princípio a um resgate global – se todos forem para a casa com nada mais do que vagos pensamentos de que eles pretendem continuar controlando a situação – a oportunidade de ouro terá sido perdida, e a queda livre pode facilmente piorar.

O que deve ser feito? Os Estados Unidos e a Europa devem dizer, ‘Sim, Primeiro Ministro.’ O plano Inglês (injetar 50 bilhões de euros no mercado) não é perfeito, mas existe o acordo geral entre economistas que [o plano] oferece de longe o melhor cenário disponível para um resgate abrangente.

E o tempo de agir é agora. Você pode pensar que as coisas não podem piorar – mas elas podem, e se nada for feito nos próximos dias, elas vão piorar.”

Sei que transcrevi e traduzi quase toda a coluna de Krugman, mas para quem ainda queria, aqui, uma melhor explicação sobre a atual situação econômica, o encontra melhor nas palavras de Krugman.

Tendo dito isto, passo ao que mais me vale.

Pela segunda vez consecutiva na semana que ainda passa, Barack Obama vence John McCain nas pesquisas do Gallup por 11 pontos percentuais (52-41%). Resultado este que inclui pesquisas conluídas ontem, depois do segundo debate presidencial, e após uma semana inteira de ataques ao caráter de Obama por associação.

Em um “townhall” (vide explicação no sidebar do blogue), McCain foi confrontado por um eleitor que o implorou (literalmente) a levantar a associação do pastor Jeremiah Wright, o ex terrorista doméstico William Ayers e qualquer outra pessoa suspeita na vida do candidato democrata, no próximo e último debate a ser conduzido entre os principais candidatos à presidência.

Faltando 25 dias para o 4 de Novembro, a campanha de McCain, consciente de que perde quando o assunto é economia, desviou-se do tema para tentar plantar a semente da dúvida em eleitores independentes ou indecisos. Por enquanto, o plano não só não funciona como passa a levantar questões sobre McCain e sua vice, Sarah Palin, que sem isso não teriam levantado.

Joe Biden, vice-presidente no bilhete democrata, disse a uma platéia de sua base que “McCain não teve a coragem de olhar nos olhos de Obama e atacá-lo por Wright ou Ayers [no segundo debate],” e concluiu, “de onde eu venho, se você tem algo a me dizer, diga olhando nos meus olhos!”

As associações de Palin ao Partido Separatista do Alaska, incluindo seu auxílio como prefeita e governadora outorgando certos cargos a oficiais da organização que, segundo diversas fontes, tornou-se antro de racistas e xenófobos de todos os estados do país, emergem enquanto Palin tornou-se ícone da separação partidária que assola o país há décadas. Segundo o conservador David Brooks, Palin representa a explícita divisão, rancor e ressentimento entre as classe mais e menos “educadas”. Seu orgulho caipira, em outras palavras, poderia ajudar o candidato republicano em outras eleições, talvez há alguns muitos anos atrás.

Meu palpite:

Sarah Palin não só não ajudou a McCain, mas é o principal motivo de sua queda nas pesquisas. O fator racial ainda deve ser analisado, mas por enquanto Obama parece vencer apesar de qualquer racismo. Esse é o moto de nossos dias: “A economia esmaga a raça”.

RF

Tuesday, October 07, 2008

Sujeira no Ar

Desde o início das campanhas às eleições gerais, o candidato democrata, Barack Obama, viu-se derrotado de acordo com o Gallup em apenas duas ocasiões. A primeira, em uma pesquisa realizada um pouco antes das convenções partidárias em Agosto e Setembro, e a segunda, depois da convenção republicana, esta por uma semana consecutiva. Empatados estiveram, ao menos tecnicamente, em maior parte das pesquisas desde Julho, mas a margem de vitória por dois, três ou quatro pontos percentuais pertencia a Obama.

Há dez dias consecutivos Obama vence seu rival republicano, John McCain, por uma margem de sete a nove pontos percentuais. A crise econômica é, em parte, o que mais impulsionou a campanha democrata nas últimas duas semanas.

É por isso que o campo de McCain em múltiplas vozes decidiu que continuar falando sobre a economia seria péssimo negócio ao candidato conservador. A estratégia, agora, voltou-se a fazer o que Hillary Clinton tentou, sem sucesso, nas preliminares: difamar Obama por associações.

“Quem é o verdadeiro Barack Obama?” Perguntou McCain, ontem, enquanto realizava uma de suas rallies populares. Da platéia, um eleitor inconformado respondeu: “Um terrorista!”

“Eu li no The New York Times, já que a mídia liberal demonstrou interesse em minhas fontes, que Obama é camarada do terrorista doméstico, William Ayers.” Reforçou Sarah Palin, candidata à vice-presidência de McCain a um grupo distinto, na Flórida.

A nova propaganda política desenha a mesma imagem, a incerteza da lealdade de Obama ao seu país, suas conexões com o pastor Jeremiah Wright, e sua amizade (Obama serviu em um evento caritativo ao lado do reformado Ayers, que já planejou bombardear a Casa Branca, mas que passa sua vida agora como um membro semi-funcional da sociedade) com William Ayers.

O fantasma de Clinton volta a atacar. Afinal, foi ela que abriu as portas com os primeiros ataques, originando o desvínculo de Obama com a igreja de Wright, e forçando-o a explicar, em público, que tinha oito anos de idade quando Ayers realizava atos terroristas, e que serviu com o mesmo por alguns dias em um navio muitos anos depois, sem sequer tê-lo reconhecido em princípio.

Novamente, o rumo é de campanhas negativas. Não surpreende, nem um pouco. Faltando 28 dias para as eleições gerais, McCain encontra-se em um buraco escorregadio, perdendo em estados cruciais como Ohio, Michigan, Minnesotta, Flórida e Pennsylvania por margens crescentes. Mesmo tendo ele explicitamente prometido não recorrer a campanhas negativas há cinco meses atrás, nenhum político são é de ferro.

Obama provavelmente faria o mesmo, recorrendo a aspectos negativos da famosa “estratégia” (não tática, estratégia!) de McCain em relação ao futuro do país. Mas, será mesmo que Obama atacaria, por exemplo, os anos de serviço militar do senador pelo Arizona, questionaria sua sanidade devido à idade, ou suas amizades com pessoas controversas, como o pastor John Hagee? Duvido. Se o quisesse fazer, já o teria feito.

O fato é que o senador democrata, assim que soube das intenções do campo rival, lançou seu contra-ataque. McCain agora é lembrado pelo incidente envolvendo Charles Keating Jr., um credor que, segundo artigo do The LA Times, “enchia os cofres de cinco senadores” nos anos 80, incluindo John McCain. Quando o governo começou a questionar a legitimidade dos empréstimos de Keating, o mesmo recorreu aos cinco senadores para que o ajudassem.

O caso dos famigerados Keating-Cinco foi, segundo McCain, o pior de sua vida, incluindo o tempo passado como prisioneiro na guerra do Vietnã. “Os vietnamitas,” disse no mesmo artigo, “não questionaram minha honra.” Keating foi preso, mas logo solto por detalhes técnicos, e os cinco senadores viveram anos intensos de investigações éticas. Tanto John McCain quanto sua esposa, Cindy McCain, receberam benefícios equivalentes a milhares de dólares de Keating, e Cindy chegou até a investir em um centro comercial que pertencia ao empresário. Nenhum centavo desse dinheiro foi ressarcido, e Keating custou ao governo por suas práticas ilegítimas 2.6 bilhões de dólares. McCain foi convicto pelo comitê ético do senado, e seu juízo comprometido, o que o arrasou, pessoalmente, por muitos anos.

Porém, o que mais me espanta não é McCain, ou sua esposa Cindy, culpada, no passado, de ter roubado medicamentos de uma caridade que ela mesma fundou em benefício de crianças africanas. O que mais me espanta é que Palin, uma fanática religiosa que disse, há pouco, que “ainda verei a Jesus em minha vida nesta Terra”, praticou exorcismos contra bruxaria, e chegou até a atribuir os crimes e a imoralidade de sua cidade enquanto prefeita a uma cidadã estrangeira à qual chamava de Bruxa, que é apoiada (e apoiou) [por] um grupo separatista do Alaska criado por um personagem que diz “odiar a América” com todas as forças, consiga não explodir em pleno palco quando fala das associações de Obama.

Pois, caros amigos e amigas, o país se vê em grande crise. Há alguns dias, o banco que preparava a retomada da casa de uma senhora de 90 anos de idade perdoou sua dívida porque a senhora, quando soube da expulsão, tentou se suicidar disparando-se um tiro. Sobreviveu e agora se recupera em sua própria casa. McCain decide falar sobre terrorismo. Sim, porque é muito comum que um senador seja amigo de terroristas, obviamente. Muito mais comum que amigos de terroristas não sejam vetados para a candidatura presidencial.

Oxalá o processo de escolha do vice-presidente fosse o mesmo. Caso assim fosse, Palin jamais seria considerada, à não ser por, voilá, terroristas. De todos os modos, menos tenho contra McCain do que por seu juízo completamente comprometido quando a escolheu ao bilhete. Ela tornou-se o Bush depois de Bush, a pior das escolhas possíveis e imagináveis já vistas nesta Terra. Seria menos insólito que Aécio Neves vencesse a presidência com Fernando Collor no bilhete, do que o que vimos no processo presidencial aqui, nos Estados Unidos. Nada me enerva mais, e a nada repudio mais do que a existência de Palin no bilhete republicano.

Quanto aos ataques negativos… Falta pouco. Amanhecerá…

RF

Friday, October 03, 2008

A Pit-Bull e o Velho Pastor Americano

Ontem foi noite de debates tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Aqui, a governadora do Alaska, Sarah Palin, e o senador por Delaware, Joe Biden, debutaram no único debate vice-presidencial disponível à analise eleitoral.

As expectativas em relação a Palin eram realmente baixas. A mídia, especialmente a entrevista de Katie Couric paulatinamente televisionada em duas semanas, preocupou-se com a possibilidade (deliciosa, para quem trabalha com a mídia) de que a governadora caísse sobre a própria face em suas respostas, mas não foi, exatamente, o que vimos.

Começo com a nota pessoal: Odiei o debate. Quando falo em ódio não se trata da raiva passageira que sentem uns quando confrontam opiniões opostas, mas da reviravolta intestinal que se dá quando ouvimos duas pessoas falarem como se fossem “mui amigas”, enquanto o país se degladia polarizado entre a esquerda de Barack Obama e a direita de Sarah Palin.

O formato foi limitante, e as perguntas jamais foram seguidas caso o respectivo candidato não as respondesse. Isto permitiu a Palin, logo no início do debate, dizer a Gwen Ifill:

“Posso não responder conforme a moderadora espere, ou conforme [Biden] espere, mas falarei diretamente ao povo estadunidense sobre meu trabalho.”

Não é que Palin venceu o debate, mas Biden, apesar de claramente melhor, explicitamente melhor preparado e com a lingua afiada de detalhes vividos em sua vasta carreira no Senado, não conseguiu finalizá-lo. Seja por cordialidade excessiva, ou pelo fato de que sua adversária é tão distinta do que a média política, o senador democrata a tratou com enorme respeito e cuidado.

Porém, Palin foi excelente. Isto é, caso meus leitores tenham como “excelente” a façanha de conseguir não explodir em pleno palco, e ter decorado palavra por palavra (algumas erradas, outras lidas enquanto respondia a Biden) ditada pelos conselheiros da campanha de republicana.

O que a governadora conseguiu, no entanto, foi parecer mais popular do que Biden. Piscava à moderadora, falava direto para a câmera, e fazia referências populares para melhor identificação com a classe média. Ao mesmo tempo, parte de seu “populismo” soou e viu-se ensaiado, propositalmente atirado aos ares dos espectadores, o que não significa que não tenha funcionado.

Em diversas ocasiões referiu-se como “Joe Sixpack” (o João da Brahma), “hockey mom” (mãe de um time de hockey), e quando respondeu ao recorde de Biden, que votou a favor da resolução presidencial que fatalmente permitiu a George W. Bush invadir o Iraque, disse “oh, man (ô, carinha), dá pra perceber que não sou de Washington, não entendo essa mentalidade de mudar de posição dependendo da disputa”.

O ponto mais fraco de Palin foram os detalhes, eternos detalhes. Desde chamar o general das forças armadas no Afeganistão de McLelan (o nome certo é Gen. David McKiernan), a sair-se em todas as ocasiões, cem por cento delas, com chavões e retóricas republicanas, a ignorar constantemente o tema da pergunta, para falar o que mais lhe convinha.

O ponto mais fraco de Biden foi não ter respondido todos os ataques com a “agressividade” necessária em um debate de tamanhas proporções. Além disso, o fato de não ter concordado com Obama em algumas ocasiões, e o fato de ter votado a favor da resolução acima mencionada, fez com que algumas de suas palavras soassem menos genuínas, e certamente o senador por Delaware jamais incendiou o debate.

Alguns temas não foram contestados do lado de Palin, portanto atribúo a vitória a Biden. Essencialmente, Palin jamais disputou o recorde de McCain comparado ao recorde de Bush, apesar de ter tido a chance. Em relação a decisões políticas das quais se arrepende, Palin falou estritamente de seu estado, e dos vetos que deixou de assinar em ocasiões para chegar ao compromisso que achava correto. Além disso, a governadora disse que lutaria para que seu poder como vice-presidente fosse aumentado.

Outros dois momentos dos menos temerosamente tediosos valem a menção:

Quando Palin e Biden responderam a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Biden começou dizendo que lutaria para que todos os casais, independente do sexo, tivessem os mesmos direitos sob as asas constitucionais. Palin disse que jamais discriminaria entre casais do mesmo sexo, mas que era contra essa união e que lutaria para que o conceito de casamento não fosse mudado. O problema? Biden concordou, logo depois. Esse seria exatamente um dos assuntos essenciais para mostrar a diferença entre os partidos e as ideologias de cada candidato, mas passou praticamente em branco, apesar de que eu, ao menos, não acreditei por um instante que a governadora realmente se importa com homossexuais.

O outro ocorreu quando Biden falava de seus filhos feridos, e de sua esposa e filha mortas em um acidente automobilístico pouco antes de sua primeira eleição ao Senado. Biden chegou a engasgar um pouco, como de costume quando fala no assunto em qualquer circunstância, e quase chorou. Palin simplesmente ignorou o que Biden disse, e sua resposta expressou-se excitante, mas fria, quando usou novos jargões republicanos, desnexados da sequência do debate.

Em minha humilde opinião, caso alguém realmente acredite que Palin venceu o debate, isso só foi possível pela baixa expectativa criada pela mídia nas duas semanas anteriores. No geral, a maioria dos analistas concorda que não houve, concretamente, a menor mudança no quadro eleitoral, e os vice-presidentes não são mais critério na batalha.

RF

Thursday, October 02, 2008

Mais sobre a Crise

Quando escrevi no passado texto que estava ao lado dos republicanos na lei de resgate econômico ontem aprovada pelo Senado por 75-28 votos, referia-me especificamente aos motivos dados por 95 democratas contrários à lei no Congresso.

É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.

Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.

Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.

O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.

Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.

Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).

Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.

Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.

Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.

Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.

Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.

Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.

Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”

Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.

RF

Tuesday, September 30, 2008

Essa Maldita Crise

O que tomou o ambiente politico nesta Segunda-Feira pode (deve) ser a prova mais contundente da incompetência da administração de George W. Bush em oito anos de governo. Porém, além de danificar ainda mais a credibilidade do atual presidente, a batalha no Congresso sinaliza um Washington partidário e dividido. Nessa divisão cáem de cada lado os candidatos presidenciais John McCain e Barack Obama.

John McCain havia suspenso sua camapanha a partir da Quinta-Feira passada. Ligara a Obama para pedir que seu adversário fizesse o mesmo, mas antes de dar-lhe o tempo necessário à decisão, anunciou que sequer participaria do debate antes de uma resolução concreta do resgate washingtoniano a Wall Street.

Não houve muitos analistas ingênuos ou cínicos o suficiente dizendo que McCain realizava mais do que uma jogada campanhista, mas o resultado do voto do Congresso ontem à tarde deixou claro que o senador pelo Arizona não foi dos mais beneficientes. Tampouco, contudo, acredito que tenha sido o responsável (único) do desmoronamento.

No Domingo, Nancy Pelosi e o lider da minoria, John Boehner, ao lado do candidato presidencial pelo partido Republicano, prometeram os votos necessários para a passagem da lei que autorizaria o uso federal de 700 bilhões de dólares, sem grandes restrições, sem cláusulas que possibilitariam apelos judiciais caso o uso fosse menos do que correto, sem fundos de garantia e sem uma cláusula preventiva em caso de falência.

A lei, segundo Pelosi, tinha o objetivo de viabilizar lucros potenciais a contribuintes quando/se o mercado voltar a se estabilizar. Um dos principais motivos da recessão atual é justamente o que já discutimos aqui desde o início do ano, a incapacidade de repagar dívidas de cartões de crédito, compras de carros, casas e outros bens essenciais, o que basicamente cria um rombo nos bancos, que não possúem mais o capital emprestado, e não podem mais seguir emprestando. O governo então procurava comprar essas dívidas, e em troca, ao invés de mais ações, a exigência política incluía comprar terrenos impagados pela metade do preço ou menos, a fins de que em alguns anos possam vendê-los pelo dobro do que pagaram ou mais.

Entretanto, antes de apresentar a lei ao voto dos representantes, Pelosi deu um discurso envenenado, partidário, acusando Bush e sua administração e atribuindo aos mesmos a responsabilidade da atual situação. Quando a lei caiu, feriu-se e logo morreu por 228 a 205 votos, Pelosi surpreendeu-se, mas não devia.

Henry Paulson, secretário do tesouro, ajoelhou-se em um só pé à semana passada diante de Pelosi, que lhe disse em alto e bom tom: “Não sabia que você era cristão, mas não sou eu fazendo isso, e sim seus colegas.”

Há alguns pequenos fatos incontestáveis quando se trata dessa lei. Em primeiro lugar, tanto Obama quanto McCain encontraram seus piores momentos no debate quando tentaram, sem o menor sucesso, responder essa questão, a primeira de Jim Lehrer. Logo, McCain se comprometeu a contribuir para uma resolução rápida, mas não teve sucesso. Também prometeu a Pelosi que sua casa tinha os votos necessários para a passagem, o que não ocorreu, e jamais foi claro quanto sua posição exata no tema. Obama questionou e investigou, mas nada mais, e sua posição, apesar de mais transparente, jamais foi explícita. O fato mais importante é que o discurso de Pelosi foi usado como excelente desculpa pelos republicanos, e não devia, sinceramente.

Não sei se choco leitores quando escrevo que, nesse caso, estou com republicanos. Essa lei que outorgaria à administração de Bush a mesma força entregue em 2003, que viabilizou a guerra no Iraque, me parecia e ainda soa muito suspeita. Por isso sinto-me mal em não conseguir, não importa o quanto leia, entender a situação na íntegra. Parece-me muito perigoso viver na ignorância econômica nos dias atuais.

Para mim, republicanos pediam ainda mais supervisão, menos dinheiro outorgado, mais garantia popular, mais segurança, e não estiveram sós em seus cálculos. 95 democratas votaram contra a lei pelos mesmos motivos, o que legitima a perspectiva de que a crise, esta sim, foi bipartidária. Jamais o congresso e o senado trabalharam tão bem em suas contra-partes do que na criação do abismo que a nação agora se encontra.

Portanto, pelo que conheço atualmente, também teria me oposto. A consequência não da oposição, mas da incompetência dos congressistas em concordar com uma lei pouco mais complexa do que a de três páginas e meia apresentada por George Bush, decretou a maior queda no DOW constatada na historia da bolsa de valores, 777 pontos. A Bovespa caiu mais de 13% e antes da meia noite de ontem, a moeda japonesa caía mais de 5%. A consequência de não aprovar qualquer lei em uma ou duas semanas pode, sem dúvida alguma, trazer o país ao freio não completo, mas parcial, e uma vagarosidade inédita em tempos modernos, desde a última Grande Depressão nos anos 30.

Alguma lei será aprovada, não duvidem, mas acredito que será melhor e mais adequada do que a vista ontem. Acredito também que o partido republicano não está unido, como clamam seus congressistas e senadores, mas pelo menos ainda encontra alguma base ideológica no conservadorismo fiscal. Democratas continuam levianos demais para o meu gosto liberal, mas bravo, de cidadão do mundo.

Pergunto-me: Os empresários que predam e precisam do resgate para que seus bancos sigam emprestando, e pequenos e grandes negócios sigam crescendo, ganharam e ainda ganham dezenas e centenas de milhões de dólares anuais em abonos.

Em vez do socialismo federal, onde o dinheiro que o coletivo deu ao governo em impostos é usado pelo estado para “resgatar” bancos que, atualmente, ganham lucros menos absurdos, grotescos e obscenos pela incompetência constatada no crédito doado a qualquer pessoa eternamente; em vez de exigir que até mesmo o operário e a faxineira doem seus cinquenta centavos para garantir que os lucros absurdos, grotescos e obscenos permaneçam assim, por que esses empresários, banqueiros, milionários desproporcionais da nação tão beneficiados da administração bushista não dão de seu próprio dinheiro e comprometem-se a ganhar menos lucros para ajudar ao menos suas próprias comunidades a florecer o necessário para evitar maiores depressões?

Não seria isto o capitalismo de Ronald Reagan, onde o dinheiro excessivo que certos gananciosos iludidos reservam para o fundo imaginário de seus cofres reais escorrega aos bicos dos mais pobres, o capitalismo que pede a independência popular, a anarquia de Bakunin, objetivo do socialismo de Karl Marx?

Definitivamente, capitalistas ferrenhos são tão utópicos e inocentes quanto socialistas ferrenhos. A mesma natureza humana que não consegue desviar-se da corrupção socialista, tampouco consegue livrar-se da corrupção capitalista. Ambos, em realidade, viram a casaca temporariamente quando a casa cái.

Sim, existe a direita e existe a esquerda, Sandra Camurça. Mas em nossa humanidade, ambas são extremamente descoordenadas.

RF

Monday, September 29, 2008

O Primeiro Debate


A semana culminou no debate moderado por Jim Lehrer, o primeiro de três presidenciais, e esparramou-se ao final de semana, enquanto representantes do senado (e congresso) discutiam o futuro econômico da nação. John McCain, como todos sabem, recusou-se a participar no debate até que o Senado (errata: senadores e congressistas) chegasse(m) a um acordo, o que não ocorreu Sexta-Feira. McCain apresentou-se mesmo assim.

O fato do senador pelo Arizona ter se negado a participar do debate e, ao mesmo tempo, ver-se forçado a comparecer, ao meu ver afetou o cenário da discussão mais do que se comenta.

Barack Obama desfilou ao pódio e cumprimentou seu rival calorosamente, enquanto o rival já introduzia o comportamento enfatizado ao decorrer das duas horas. A partir da primeira pergunta, a mais sensível e delicada (“Como vocês se posicionam em relação ao resgate federal de Wall Street?”) da noite, sem a menor dúvida, o palco tornou-se campo de batalha.

Antes dos comentários, análises e discussões pessoais, anotei alguns detalhes enquanto assistia ao debate corrente.

1 – O primeiro ataque veio do senador republicano a Barack Obama, e tratou-se do que chamamos de “Barril de Porco” ou “Dobradinhas de Papel” (ambos traduzidos de acordo com minha capacidade, não conheço termos mais adequados no Português). Uma provisão caraterizada como “porco” resume-se a notas de interesses especiais a gastos em projetos não aprovados ou regulados explicitamente, costuradas a leis já reguladas e aprovadas por ambas as Casas, criadas por senadores e representantes do congresso, instigadas muitas vezes por lobistas em intenções menos do que puras.

O que importa é que o “porco” mais coincide com a tendência democrata de criar projetos sociais e culturais, e ultimamente, muitos deles desimportantes e corruptos. McCain atacou o uso de 932 milhões de dólares demandados por Obama ao interesse do estado de Illinois, e disse que em seu governo, quaisquer pedidos de “porco” seriam vetados, e McCain promete tornar os nomes de quem os pediu, públicos.

Desse ataque, apesar de ter explicado e justificado o contraste entre sua administração e a corrupção que engoliu Washington nos últimos oito anos, (a soma de “porco” triplicou nos últimos anos e ano passado terminou na casa dos 18 bilhões de dólares), Obama jamais vingou.

O tema do “porco” é frequentemente usado por McCain, mas quando precisou delinear seu próprio plano, indicou praticamente o que Obama indicava, com algumas sólidas diferenças. A primeira, foi enfático ao afirmar que seu governo economizaria em todas as áreas menos importantes, o que claramente significa que cortará em projetos sociais e em todos os gastos que não se resumam a “defesa”.

McCain pretende economizar, cortar gastos, cortar impostos essenciais enquanto a nação enfrenta guerra em duas frontes, e aumentar o investimento bélico, o que pode ser perigoso, tanto quanto popular com o eleitor indeciso. As pesquisas seguem conferindo que a segurança da nação deixou de ser seu inimigo inconsciente número um, e a guerra no Iraque é ainda uma das mais impopulares que os Estados Unidos já se involveu.

Mesmo assim, para bravejadores profissionais, e toda a nação tem dos seus, um clássico conservador prometendo menos gastos, menos projetos sociais, menos projetos culturais e a exclusividade de nossos impostos, basicamente, à “defesa” da nação que, depois de George W. Bush tornou-se “preventiva”, são conceitos atraentes.

2 – Antes de debaterem diretamente as relações exteriores de cada potencial administração, os candidatos discutiram a transição urgente que o país deve passar para cortar sua dependência do petróleo estrangeiro.

Tanto para Obama quanto para McCain, alternativas incluindo usinas nucleares fazem-se essenciais para conquistar a transição. Porém, Obama se opõe aos métodos atualmente conhecidos para o transporte e o depósito de urânio e outros materiais radioativos, oposição liberal clássica, que se diga de passagem. McCain atacou seu rival pela oposição, mas pelo lado do democrata as alternativas chegam através de estímulos governamentais, o desenvolvimento de energia solar, ou obtida pelo vento, e usinas nucleares também, desde que se encaixem nos padrões liberais ambientalistas.

Antes da frase que, para mim, definiu o debate, McCain disse que Obama tem o recorde mais liberal do Senado, e que é “muito difícil tentar alcançar o outro lado quando se está tão distante à esquerda”. Porém, Obama disse oito vezes que concordava parcialmente com McCain, incluindo no que diz respeito a usinas nucleares, e logo concordou com McCain em alguns pontos antes de afirmar que o debate e a candidatura respectiva de cada político baseava-se em valores.

“Tudo é uma questão de valores,” disse Obama, tirando palavras de minha boca.

3 – Surpreendentemente, Obama teve seu melhor momento e único verdadeiro revide a McCain quando discutiram relações externas. O senador pelo Arizona enfatizou a “arrogância” de Obama em não admitir que a escalada de tropas ao Iraque no ano passado aumentou a segurança das tropas e diminuiu a instabilidade na região. Chegou até a compará-lo a George W. Bush, o que extraiu de seu oponente genuínas gargalhadas.

Em um ponto, todavia, Obama disse que se surpreendia com a memória de McCain.

“John, você parece se esquecer que a guerra não começou o ano passado, mas em 2003.” respondeu Obama, “Você disse que a estávamos em perigo pelas armas de destruição em massa e estava errado, você disse que seriamos recebidos como libertadores e estava errado, você disse que Shiitas e Sunitas não tinham história de conflitos entre si, e você estava errado.”

O propósito do argumento era estabelecer quem tinha melhor juízo. Caso fosse quem tinha maior presença comandante, McCain venceu claramente.

A diferença, novamente, reflete-se nos valores, tanto da nação quanto de indivíduos. Se sua preocupação é ter um presidente forte, bravo e guerreiro, sua escolha é John McCain. O republicano jurou cortar, novamente, auxílio a demais países clamando que “esses países não gostam de nós, e esse dinheiro cái nas mãos de terroristas”. Obama argumenta que, caso gastássemos mais em auxílio e menos em armamentos, faríamos melhores amigos.

Ao fim da noite, para mim o vencedor foi Obama, para qualquer republicano o vencedor foi McCain e, arrisco dizer que o indeciso resultou em duas principais vertentes. Ou admite o empate entre os senadores, ou dá a Obama uma limitada margem de vitória.

Afirmo isto porque McCain conduziu-se, seja por estratégia ou por questões pessoais, sem olhar seu adversário uma única vez. Para mim e para os poucos com os quais conversei sobre o tema, McCain estava claramente nervoso, não como quem anseia e teme cometer gafes antes de uma apresentação pública, mas como um soldado quando adentra o campo de batalha. É como se precisasse tornar Obama em um arqui-inimigo, um “Charlie” (apelido dado aos vietnamitas nos anos sessenta), para poder vencê-lo. E, como fazemos quando sentimos desconforto pessoal contra alguém, sequer levantou seus olhos a direcioná-los a Obama uma única vez.

Há quem diga, como minha Lilith, que a conduta foi estratégica, procurando conquistar, quiçá, a base dos bravejadores acima mencionada. Discordo de que tenha sido estratégia, mas mesmo se fosse, acredito que não tenha apenas deixado de funcionar, mas prejudicou enormemente sua campanha.

Segundo o Instituto Gallup de pesquisas, pela primeira vez desde o início das campanhas presidenciais, Obama chega à marca dos 50% e vence McCain por 50-42%.

RF

PS: Jens, não me leve a mal. Penso muito mais assustador o fato de que tão poucos entendam o que ocorre com a economia do que a própria crise em si. Posso sim dizer que enquanto o dólar cái, o real sobe, e enquanto os Estados Unidos entram em uma crise, o Brasil parece finalmente começar a resolver as suas antigas. Claro que a crise afetará a todos, mas o governo já aprovou o resgate de Wall Street, e o mercado mundial, pelo que entendo, não depende mais tanto do Tio Sam quanto dependia há cinco décadas.

O Senado já aprovou a nova lei bipartidária (errei feio nesse detalhe, vejam o proximo texto), com parágrafos específicos ditados com o objetivo de garantir que o governo e os contribuintes recebam o dinheiro de volta. Basicamente, o governo comprará grande parte das propriedades impagadas a mais de 50% de desconto, o que permitirá um potencial lucro futuro, quando as forças mercantis se estabilizem.

No mais, já deves ter ouvido: Quando bancos emprestam mais do que têm, todas as empresas que deles dependem deixam de ceder créditos, indivíduos não conseguem refinanciamentos hipotecários, comprar carros ou movimentar seus negócios. Ainda assim, não consigo confiar na lei.

Ouviste, Loba? Há seres humanos mais e menos honestos, nenhum perfeito, mas a a honestidade implica que o ser humano reaja contra seus próprios interesses. Isso é sequer viável a um político do século XXI? Você decide.

RF

Tuesday, September 23, 2008

De Crise em Crise

Na semana do debate presidencial entre os candidatos John McCain e Barack Obama, a crise econômica imprescindível há décadas nos Estados Unidos dita novamente o tom das campanhas. Mas há um novo problema velho, constatado por analistas recentemente e divulgado com foco crescente desde os eventos da semana passada.

Obama conquistou a liderança depois de quase duas semanas, enquanto McCain encontra força em estados essenciais como a Flórida, e vence em camadas republicanas clássicas, como homens brancos e cubanos. O senador pelo Illinois deveria estabelecer a base de mulheres brancas, mas a escolha de Sarah Palin mostra-se indiscutivelmente eficiente nesse sentido. E há uma porcentagem em estados essenciais como Ohio, Virginia e Michigan que permanece indecisa, apesar de registrada. Essa é a porcentagem dos potenciais racistas nacionais.

Andrew Sullivan, comentarista e autor da coluna The Daily Dish no jornal The Atlantic.com, diz que o candidato democrata deve vencer por sete pontos percentuais nas pesquisas para confiar em seus resultados. Como o próprio libertário afirma, talvez a questão do racismo tenha sido racionalizada e elaborada como algo distinto, mas infelizmente existe um consenso entre essa camada de que um homem negro na Casa Branca seria demais para o psicológico da nação.

Para John McCain, a economia sôfrega causa maior problema do que o combate ao terrorismo forjado pela administração de George W. Bush.

Pelo que entendo, a falência econômica do país é diretamente ligada à irresponsabilidade tanto de bancos, seguradoras, e companhias de investimento e financiamento, quanto de seus clientes, que muitas vezes assumiram dívidas colossais sem os meios concretos de pagá-las. As companhias em questão ofereceram uma série de regulações nebulosas, e a outorgação de créditos excessivos a indivíduos e empresas pequenas, que esperavam uma melhor projeção futura tanto no crescimento (vulgo “bolha”) do mercado imobiliário quanto de injeções consumistas.

Aqui poderia tecer minhas próprias teorias conspiratórias. Economistas e empresários sabiam da possibilidade desse estouro há pelo menos dois anos. Já ao início do ano passado, minha mãe como milhares de outras pessoas ao redor do país perdiam suas casas depois de as haverem comprado em hipotecas maleáveis, esperando que em seis a doze meses os valores de suas propriedades aumentassem tanto quanto vinham aumentando até então, o que permitiria aos credores o refinanciamento e, logo, o corte do custo hipotecário mensal.

Para empregados de empresas como a Merrill Lynch, a Lehman Brothers, o Washington Mutual, a AIG, a crise causou demissões e inseguranças massivas. Para empresários, o resgate governamental pode garantir a permanência do capital repartido entre os responsáveis centrais da crise, enquanto o cidadão comum paga a conta da dívida absurda que a administração de Bush deixou às futuras gerações.

Tanto Barack Obama quanto John McCain concordam com o resgate, assumindo, como muitos economistas, que a ação do que considero “socialismo para os ricos” é a menos pior das alternativas. O Secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, pede 700 bilhões de dólares agora debatidos no Congresso, mas os pede sem restrições, para que possa por um lado exercer a independência capitalista, e por outro, beneficiar-se da mais pura ideologia esquerdista.

Como escrevi em uma coluna opinativa ao jornal estudantil The Falcon Times, ninguém veio ao meu resgate. Consumidores irresponsáveis (infelizmente, como houve em minha própria família) realmente não deveriam causar tanto desequilibrio no mercado, e talvez a própria irresponsabilidade lhes sirva de lição. Não se trata, afinal de contas, de pessoas que viviam às márgens da pobreza, ou que não tinham condições de alugar apartamentos de acordo com suas necessidades (como em minha família), mas sim de pessoas que queriam conquistar o “sonho americano” de possuir a casa própria.

Nada de errado com o sonho, mas talvez a mídia, o governo e as entidades ativistas não governamentais devessem acentuar que alugar apartamentos pode não ser a melhor alternativa, mas é a melhor alternativa para determinados patamares econômicos, e nisso tampouco há nada de errado. Ou seja, caso a cultura dos Estados Unidos não enfatizasse tanto que quem não tem propriedade não tem voz, e caso isso fosse menos contundente, de fato as pessoas se conformariam em alugar propriedades em vez de sujar o nome na praça.

Favoreço, incondicionalmente, que todos os cidadãos tenham seguro de saúde, mesmo que fumem, bebam ou gastem seu salário com outras prioridades. Favoreço também que o governo tenha condições de providenciar a quem não tem moradia, trabalho, e alimentação básica, mas isso faz mais sentido em países como o Brasil. Nos Estados Unidos, contudo, o mais importante é realmente a saúde, com mais de 15% da população nas mãos de contas hospitalares insólitas, e outra porcentagem menos exata de pessoas asseguradas, mas cujas companhias não oferecem a cobertura necessária para problemas mais graves.

Sou radicalmente contrário, contudo, a salvar pessoas que assumiram dívidas na compra de suas casas e não puderam, eventualmente, arcar com as despesas. Mais contrário ainda ao resgate governamental das empresas que faliram. “A falência também é prevista no modelo do capitalismo moderno,” disse um colunista.

Obama deveria vencer estas eleições que, finalmente, resumem-se à central questão do refortalecimento econômico de uma nação que seguiu à risca a filosofia do mercado aberto por oito anos, e destruiu, praticamente, a cultura de créditos fáceis nos Estados Unidos. Deveria vencer enquanto a administração Bush tem conexões explícitas com as mesmas companhias petrolíferas que hoje acumulam lucros recordes enquanto a população sofre com a média triplicada dos preços da gasolina, com as construtoras que reconstróem o Iraque e providenciam infra-estrutura às tropas estadunidenses, e certamente agora favorece o socialismo aos ricos que testemunhamos após eventos da semana passada.

Talvez, os 7% descritos por Andrew Sullivan sejam mais importantes do que imaginamos. Por hora, Obama vence McCain por 48-44% de acordo com o Gallup.

RF

Wednesday, September 17, 2008

Os Fundamentos de Nossa Economia

O candidato republicano à presidência, John McCain, desde o início de 2008 tem dito copiosamente que “os fundamentos de nossa economia são ainda fortes”.

Nos primeiros meses do ano, quando os preços da gasolina já ameaçavam chegar onde estão hoje, e no ápice do déficit acumulado pela empreitada no Iraque, incluindo problemas que já sinalizavam a crise do crédito vista hoje em dia, problema central na crise imobiliária crescente, McCain insistia que não entraríamos em uma recessão, propriamente dita.

Depois dos acontecimentos desta Segunda-Feira, no entanto, quando três companhias deixaram de existir como antes conhecidas, Merrill Lynch, comprada pelo Bank of America, e a Lehman Brothers, recentemente comprada pela companhia européia Barclay, ; depois da queda de mais de 500 pontos no DOW, a maior queda desde o dia 17 de Setembro de 2001; com um déficit de mais de 350 bilhões de dólares (o orçamento fechado pelo gabinete de Bill Clinton mostrava o saldo positivo de mais de 250 bilhões de dólares) e o aumento do desemprego de 4.1% da era Clinton a mais de 6% hoje em dia, McCain ainda insiste em dizer que “os fundamentos de nossa economia estão fortes”.

Apesar de concordar com o analista político da MSNBC, Chuck Todd, ignorarei a inutilidade de divulgar as pesquisas diárias do Gallup e menciono que Obama amanheceu com um ponto a menos na diferença aberta por McCain à semana passada, 47-46%.

De acordo com o instituto Zogby de pesquisas, Barack Obama lidera pelo resultado que perdia ontem, pela Gallup, 47-45%. Mesmo tendo perdido a enorme vantagem nas pesquisas na maioria dos estados, de acordo com a matemática atual, venceria ou empataria com seu rival em número de colégios eleitorais. 270 são necessários para a eleição final, e Obama teria 274 no melhor dos cenários, e 269 no pior deles, o mesmo número atribuído a McCain.

No auge de Setembro, depois das convenções e da explosão de popularidade adquirida pela vice-presidente Sarah Palin, as pesquisas voltam ao eixo do diário. Quando a crise econômica é finalmente admitida pelos mesmos sujeitos que a negavam piamente há uma semana, a atenção volta-se novamente a Obama.

Porém, talvez a reação pública fosse diferente caso não houvesse ocorrido o descrito a seguir:


A desconfiança por Sarah Palin

Primeiro foi a entrevista dada a Charles Gibson, da ABC, na qual a vice-presidente de McCain não soube o que a “doutrina Bush” significava (vocês, leitores brasileiros, estão isentos dessa obrigação, logo esclareço: A doutrina Bush é o nome dado à atuação preventiva do exército estadunidense, antes caracterizado como exército defensor, e com a era Bush reformado a atacar e previnir ataques iminentes), que repetiu ter experiência em relações externas porque vê vilas russas de sua casa, no Alaska, e ainda disse que confrontaria a Rússia se a ex potência soviética não deixasse a Geórgia em paz, mesmo sabendo que o exército vê-se desgastado no Iraque, Afeganistão, ainda comportando operações no Paquistão.

Caso apenas a “mídia liberal” tivesse se manifestado contra a reação não só inexperiente, mas imatura de Palin diante de Gibson, poucos poderiam dizer que sua falha fez-se clara aos olhos do eleitorado. No entanto, apesar de que alguns oficiais da campanha republicana (incluindo uma colunista do The New York Times supostamente não afiliada) terem criticado o repórter como arrogante e presunçoso, lentamente, a opinião de outros clássicos conservadores começou a saltar das páginas dos jornais.

David Brooks, colunista conservador já mencionado aqui em discórdia, dedicou sua coluna de Terça-Feira para criticar a inexperiência de Palin, dizendo que ela podia até trazer charme e popularidade a uma campanha desmilinguida, mas que não trazia experiência e sagacidade política. Outros colunistas e analistas políticos disseram o mesmo, especialmente à luz da crise econômica que, finalmente, passa a perceber-se mesmo pelos mais ferrenhos conservadores.


Com amigos assim, quem precisa de inimigos?

Uma das campanhistas mais ativas por John McCain, a empresária da companhia Hewlett Packard, Carly Fiorina, anunciou ao lado dos demais empresários que a companhia cortará 7.1% de sua força trabalhista, ou 24,600 empregos.

Ao fazê-lo, disse que seu candidato, McCain, não está apto a lidar com uma companhia como a sua, nem sua vice-presidente, Sarah Palin. Somente depois disso acrescentou que os candidatos democratas tampouco estavam aptos a lidar com sua companhia.

À noite, Fiorina foi chamada de “idiota” por alguns, “incompetente” por outros, e houve até quem quisesse “jogá-la embaixo de um ônibus”.

Algo similar ocorrera há pouco, quando o ex senador Phil Gramm, ícone econômico da campanha de McCain, disse que tudo estava bem economicamente, e que o país tornou-se “uma nação de bebês-chorões”. Agora, aposto que Gramm se arrepende, amargamente, de tê-lo feito.


Será que os Fundamentos de Nossa Economia estão mesmo indo bem, obrigado?

Todos se perguntam o que o senador pelo Arizona quer dizer com “os fundamentos de nossa economia”. A questão já foi feita a ele inúmeras vezes desde Segunda-Feira, e seus assessores dizem a mesma coisa: “Quando McCain fala em fundamentos, refere-se ao trabalhador e seu espírito progressista.”

No entanto, essa não é a definição pragmática de “fundamentos econômicos”, mas sim os índices sociais ligados à economia. O desemprego aumentando, o déficit aumentando, a dívida externa aumentando, companhias crediárias falindo, casas perdidas no mercado, e o preço incontrolável da gasolina, são todos índices que compõem o fundamento de qualquer economia. Pois, esses estão cada vez mais bambos, e McCain não discorda, logo deu sua própria definição.

Ninguém mais mencionou o que aqui menciono, mas essa definição de McCain me assusta mais do que seus “cem anos no Iraque”. Afinal, o que o senador parece fazer é conceituar abstratamente o que mais temos de concreto. Além de comprometer-se a “montar uma comissão que procure soluções aos nossos problemas econômicos”, algo abstrato e efetivamente destruído com a comissão montada para investigar os acontecimentos do 11 de Setembro, ainda traz as palavras “espírito”, “força”, “resistência”, como fossem concretas e reais, tanto quanto a soma de todas as crises.

Fatidicamente, não o é. Resta saber até que ponto o eleitorado norte-americano está disposto a seguir se enganando.

RF