Não sei o quanto a notícia repercutiu no mundo, mas aqui nos Estados Unidos o planejamento de uma demonstração de intolerância contra o Islã ganhou espaço central nos noticiários e na veia política pré-eleitoral. O pastor Terry Jones, de Gainesville, Florida, marcou para o dia 11 de Setembro uma reunião de fiéis anti-islâmicos para a queimada de livros do Alcorão. Conforme disse à âncora da CNN, Soledad O’Brien, “até mesmo muçulmanos moderados deveriam nos apoiar”, pois “é uma demonstração anti-extremismo” e não anti-Islã.
Às vésperas das eleições que podem ceifar o partido Democrata da maioria em ambas casas do Congresso conquistada pós-Bush, a polarização das duas ideologias extremas dos Estados Unidos atinge seu ápice. A presidência de Barack Obama, marcada pelo tórrido clima econômico que parece não querer melhorar e por mais fracassos do que sucessos democráticos – especialmente considerando pedidos de democratas progressistas – parece enredar-se cada vez mais em arame farpado. A controvérsia da construção de uma mesquita justamente onde o atentado do 11 de Setembro ocorreu acabou criando ainda mais pânico na direita fanática, que procura líderes em um momento típico de uma genuína Idade das Trevas do sul, oeste e sudeste estadunidenses.
A extrema direita religiosa do país não representa a maioria de seus habitantes tal como extremistas muçulmanos não representam a maioria em suas religiões. É importante lembrar que nos Estados Unidos há centenas de mesquitas construídas, algumas mais controversas do que outras, mas a liberdade de expressão é ainda massivamente respeitada, salvo em casos de indivíduos arruaceiros, assassinos e não menos extremistas do que seus criados inimigos. Portanto, queimar livros santos para muçulmanos foi considerado abominável até mesmo pela base republicana, e mesmo assim ninguém pôde ou pode vetar a reunião. O mesmo ocorre com a mesquita onde derrubaram as Torres Gêmeas, a liberdade de capital, no caso, do Imam responsável pela escolha do local é absoluta.
Comparar, entretanto, a construção de um templo religioso com a queimada de livros de uma outra religião seria a soberba estapafúrdia. A liberdade é comparável, mas os atos partem de pessoas com diferentes perspectivas e motivações além da fé, ou de sua intensidade, comum. Já havia uma mesquita integrada ao mesmo sítio onde o Imam pretende construir um melhor ponto referencial aos seus seguidores. Apesar do próprio Imam Rauf apresentar argumentos etnocêntricos para defender seu direito mesmo podendo politicamente utilizar-se de uma assimilação perfeita à cultura dos Estados Unidos e defender-se com o puro direito do livre investimento, liberdade de expressão e de adoração de qualquer deidade ou religião, os direitos em si existem e serão respeitado caso assim decidir o lider. Jones, no entanto, incita um conflito diretamente étnico, ausente de direitos maiores do que o “porque quis” típico de uma libertinagem ainda permitida, e mesmo tendo esse direito, a liberdade acima comparada, seu uso seria exclusivamente conflituoso.
Quem posicionou-se contra a construção da mesquita de Imam Rauf citou a potencial ofensa à memória de vítimas do maior atentado islâmico contra o Oeste de nossa história contemporânea. É compreensível que o desconhecimento generalizado de uma cultura de diversas etnias e segmentos religiosos realmente traga uma suspeita generalizada – ora chamada de preconceito – contra a prática da mesma religião à qual um grupo de terroristas clamou pertencer. Porém justificar o preconceito ao invés de aproveitar a oportunidade de estender as mãos a representantes desta dita religião é justamente o que mais agrava a opinião pública contra o Oeste e contra a democracia que neo-conservadores estadunidenses querem espalhar por todas as curvas e pontas do planeta. Filosofia, aliás, adotada pela nova administração supostamente liberal de Obama.
É impossível deixar de pensar em Samuel Huntington quando escreveu o famoso texto sobre “O Conflito das Civilizações”, um prisma neo-realista sobre conflitos étnicos e a inevitabilidade de guerras entre membros de distintas raças. Justamente pensando nessa inevitabilidade sob a luz do contraponto da aparente facilidade de se resolver esses conflitos é que entendo quão ignorantes podemos ser. Mesmo que a maioria se oponha veementemente à atitude de Imam Rauf ou do Pastor Terry Jones, a maior demonstração de nossa suposta democracia (considerando que ela falta em tantos outros setores da civilização ocidental) é justamente permitir a alimentação de combustível ao conflito. Um protesto em massa no Afeganistão já esclareceu que habitantes daquele país recebem apenas a notícia do evento de Jones, entitulado “Dia Internacional da Queimada do Corão”, e não o que a opinião pública doméstica considera. De modo similar muitos cidadãos estadunidenses ainda pensam que todos os muçulmanos simpatizam com Bin Laden, e jamais saberiam, mesmo se todos os muçulmanos assim simpatizassem, suas causas e motivos pela mesma tendência etnocêntrica.
Não seria impossível evitar conflitos entre civilizações e etnias diferentes. Tecnicamente não precisaria nem ser tão difícil. Mas é...
RF
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Friday, September 10, 2010
Pastor Jones v. Imam Rauf
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