Ao fim do curso de relações internacionais e o Oriente Médio os alunos foram convidados a propor uma lei do ponto de vista dos Estados Unidos ou das Nações Unidas visando a resolução de algum dilema ou conflito regional. O mesmo ocorreu ao fim do curso sobre o Islã e seu papel na dinâmica das relações externas contemporâneas. Logo, quando as fichas caíram, apresentei um único problema e duas propostas diferentes.
Pesquisando, descobri dois fatos que me assombram sobre o Departamento de Estado dos Estados Unidos. A primeira, é que não há nenhum grupo inter-governamental ou pertencente ao departamento que lide com as questões religiosas no Oriente Médio. Segundo, que as tropas armadas estadunidenenses tem preparação mínima sobre as diferentes religiões, etnias e culturas encontradas no local. Com apenas três horas obrigatórias sobre reconhecimento do terreno ocupado, soldados e soldadas viajam ao Iraque, Afeganistão e Arábia Saudita com uma ideia caquética da situação local.
Sobre a necessidade do reconhecimento das diversas religiões locais, precisamos entender, como já compreenderam diplomatas estadunidenses desde a Guerra Fria (a exemplo de James C. Campbell, diplomata do país ao fim dos anos ’50, que já pedia que o governo apagasse sua imagem de imperialista, mesmo que precisasse perder a fama de hegemonia global), que a religião islâmica é intrinsecamente política em sua natureza e na conduta da esmagadora maioria de muçulmanos no planeta. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o início do revivalismo islâmico contemporâneo, a maioria dos estados criados tornaram-se oligárquicos e massivamente mais étnicos do que religiosos. Saddam Hussein e o regime do Baath, Hosni Mubarak e o Egito, o parlamentarismo rústico do Pakistão e até mesmo o califato da Arábia Saudita fazem parte desse grupo.
Mesmo assim, com o surgimento do terrorismo multi-nacional da al-Qaeda (a base) de Osama bin Laden, e após a bem sucedida Revolução Iraniana de 1979, a consciência popular tende a encontrar refúgio das injustiças cometidas pelas ditaduras pseudo-seculares do Oriente Médio no próprio Islã. Mais de 80% das populações muçulmanas, sejam shi’itas ou sunnitas ou kurdas, exigem um estado Islâmico baseado nas leis da religião, ou a Shariah, o que não se trata necessariamente de um modo específico de segui-las, nem mesmo que as leis de hijab (discreção e modéstia nas vestimentas) sejam as mais rigorosas. No entanto, para a maioria dos muçulmanos no Oriente Médio, um estado justo e baseado em justiça e igualdades sociais só pode ser um estado Islâmico.
O grande problema é a imagem dos Estados Unidos aos olhos de países como Irã, Egito, Síria, Líbano e Jordânia, sem contar na cada vez mais desgatada imagem no Iraque e Afeganistão. Ao mesmo tempo, a imagem decadente dos Estados Unidos reflete-se perfeitamente no tratamento do próprio país aos países mencionados, algo que em grande parte também encontra raízes na imagem do Oriente Médio construída pelos Estados Unidos. Sobre isso, James K. Glassman, em seu discurso de aceitação do cargo de sub-secretário das relações externas no Departamento de Estado em 2008, pede aos seus colegas e ao presidente que o país comece a liderar a “guerra de ideias”. De fato, é esta guerra a única que pode contribuir na reconstrução de uma imagem mútua melhor, segundo Glassman, e a enfática mudança do uso de “poder rígido” bélico ao “poder suave” da diplomacia.
Para liderar a guerra de ideias diplomatas e demais políticos estadunidenses precisam, primeiro, demonstrar que não são totalmente ignorantes sobre a realidade regional nos países que os Estados Unidos visam interferir, e nos dois que as forças armadas do mesmo invadiram. A intolerância de ambiguidades no Oriente Médio (que muitas vezes, como escrito no texto anterior, expande-se à intolerância de ambiguidades em outras regiões quando julgam, quase às cegas, que um lado é mais certo do que o outro) ganha corpo quando as faces mais representativas dos Estados Unidos, soldados e soldadas que convivem diariamente entre os variados grupos étnicos e seus valores religiosos e éticos, caminham sem noções básicas da realidade que os circunda pelas estradas do local.
Claro que o objetivo principal é a retirada das tropas do Iraque e Afeganistão o mais rápido possível. No entanto, a mera retirada das forças armadas de dois países jamais será suficiente para a al-Qaeda de bin Laden que, baseada nas palavras do lider militante, reage contra qualquer espécie de interferência estadunidense na Arábia (todos os países árabes), Iraque (especificamente, uma interferência que não terminará com a retirada das tropas) e Jerusalém (o apoio dos Estados Unidos a Israel). Enquanto todas as retiradas não ocorrem supostamente pela necessidade de reconstruir o que foi localmente destruído, as tropas precisam representar um país menos ignorante, no mínimo.
Do mesmo modo, criando uma instituição inter-governamental religiosa, na qual os 1.3 a 7 milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos encontrarão um canto para vociferar suas preocupações e perspectivas sobre o assunto, o Dep. de Estado poderia legitimar suas causas e associá-las ao Islã, algo não de todo irreal, e desde que a conduta não seja imperialista (algo que os nativos perceberão com imensa facilidade), a publicidade do Islã encontrando as portas dos Estados Unidos abertas e convivendo em plena harmonia dentro de suas fronteiras poderia ajudar a forjar uma espécie de tolerância dessa ambiguidade explícita.
De todos os modos, a lição não difere do texto passado. Sem o conhecimento da história, dos grupos étnicos, dos cultos religiosos, das raças e das identidades locais, qualquer opinião, seja ela interna ou externa, é necessariamente falida.
RF
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Monday, April 19, 2010
Intolerância de Ambiguidades (2)
Essas Palavras Vos Trazem
Arabaia Saudiata,
Charles F. Doran Estados Unidos,
Hosni Mubarak,
Ira,
Iraque,
James C. Campbell,
James K. Glassman,
Roy Frenkiel,
Saddam Hussein
Tuesday, July 22, 2008
“Horizonte Temporal”
John McCain encontra-se em grave dilema, pois pode ter encontrado, finalmente, algo que o separe de Bush em todos os sentidos, e, ao mesmo tempo, ainda deseja e precisa da simpatia da base que aprova o trabalho do presidente.
Duas clássicas opiniões democratas parecem fazer parte oficial da agenda da Casa Branca, partindo da administração de Bush, e não de representantes e senadores democratas.
Primeiro, os Estados Unidos negociam com o Irã. Claro que isso não quer dizer que Bush senta-se à mesa com Ahmadinejad, mas sim que, diplomaticamente, conforme feito com a Coréia do Norte, para o bem ou mal, o governo estadunidense negocia com o governo iraniano. Barack Obama foi atacado desde o princípio, inclusive por Hillary Clinton, porque dizia estar aberto a negociações diplomáticas com a Cuba e o Irã.
Respondia à pergunta específica: “Você se sentaria com os líderes de nossos inimigos e negociaria sem condições prévias?” Dizia que sim.
Se a interpretação de sentar-se à mesa com Ahmadinejad for válida, claro está que o candidato democrata daria um passo adiante. Mas na retórica política, claro também está que “sentar-se à mesa” pode significar cada qual na mesa do seu próprio país, uma negociação através de intermediários, como faz a administração republicana atual.
A segunda mudança aparente na conduta de Bush é que agora, de acordo com exigencias de Nuri Al-Maliki, PM do Iraque, e de acordo com o que Obama vinha dizendo desde o início da guerra, o presidente está disposto a manter um “horizonte temporal”, um prognóstico de quando as tropas estadunidenses devem sair do país.
Lembremos que republicanos sempre repudiaram a idéia de que houvesse qualquer espécie de compromisso prévio à retirada, criticando o Congresso e Senado democratas, clamando que qualquer prognóstico viabilizaria o planejamento do inimigo a ataques mais intensos depois do retiro. Mitt Romney apanhou de John McCain nas preliminares, acusado de ter insinuado, mesmo levianamente, que favorecia tal prognóstico.
Para McCain, o compromisso aberto, sem prévias condições à retirada, ainda é essencial à "vitória" dos Estados Unidos. Além disso, negociar com o Irã, segundo sua campanha, apenas seria possível se o Irã concordasse em suspender o programa de enriquecimento de urânio.
Para evitar a lógica conclusão de que McCain vem se isolando de seu partido, e para evitar os argumentos que apontam sérias contradições nas atitudes da Casa Branca e na campanha do candidato republicano, os nomes são "atenudados".
Se o que Obama sempre pediu (ao lado de democratas) foi um prognóstico claro, agora o “horizonte temporal”, como o nomeou a administração de Bush, significa algo diferente. Não é um prognóstico, é um estimado, enorme diferença.
Se Obama quis negociar com líderes inimigos, Bush apenas negocia através de diplomatas, e jamais se encontraria com o presidente pessoalmente, enorme diferença (mesmo sendo, de fato, diferente, o mero fato de negociar contradiz a posição original do presidente, que inventou o tal “Eixo do Mal”).
O torto, então, na verdade é reto, e um McCain enigmático e incompreensível, insólito e inconsistente, cada vez mais expõe seus defeitos para deleite dos liberais.
Propaganda Política
Mais adiante, McCain aproveita mais oportunidades do que tem para atacar Obama, e acaba caindo no ridículo.
Há pouco, o senador pelo Arizona atacou Obama por ter opinado contra a escalada de tropas do ano passado, cujos resultados variam segundo a fonte, dificultando o julgamento objetivo da parte de leitores e espectadores, por mais informados. Disse que o senador democrata não podia criticar a escalada se não visitou o Iraque em três anos.
Pois, Obama esperou para que sua atitude não fosse vista como uma reação aos ditos de McCain, e viajou ao Iraque, com seu tour pelo Oriente Médio.
Automaticamente, McCain o criticou por ter sido contrário à escalada, dizendo que Obama apenas se beneficia de um plano ao qual se opôs em princípio, podendo vagar pelo Iraque com menos risco. Mas o que a visita do candidato democrata tem a ver com sua oposição à escalada? Isso seria algo que Obama deve relatar e decidir, não McCain, previamente, antes do término da visita.
Agora, o candidato republicano lançou uma propaganda que atribui a Obama a culpa pelos altos preços de gasolina, já que o democrata se opõe a escavações nas costas maritimas do país, ou ao corte dos impostos a consumidores de gasolina, no verão.
Todos sabem contudo, que as escavações nada farão para apaziguar os preços do combustível em menos de 7-10 anos. O senador pelo Illinois avisou que as companhias petrolíferas apenas ajustariam o preço do galão e o consumidor pagaria o mesmo, exceto pelo fato de que os fundos dedicados a consertar estradas e pontes como a que desabou em Minnesota no ano passado ficariam lesados. Pesquisas recentes comprovam que os fundos já estão altamente comprometidos pela economia de consumidores. Sem os impostos, ficariam inutilizados.
E, tudo isto, quando McCain não só se opôs a escavações nas costas marítimas do país no passado recente, mas também opôs-se ao uso do produto extraído, caso fossem permitidas, exclusivo aos Estados Unidos, o que jamais beneficiaria os custos da gasolina nacional.
Conforme dizem campanhistas democratas, espero que McCain continue assim. Sua retórica e contradição sempre expostas por sua própria incompetência.
RF
Duas clássicas opiniões democratas parecem fazer parte oficial da agenda da Casa Branca, partindo da administração de Bush, e não de representantes e senadores democratas.
Primeiro, os Estados Unidos negociam com o Irã. Claro que isso não quer dizer que Bush senta-se à mesa com Ahmadinejad, mas sim que, diplomaticamente, conforme feito com a Coréia do Norte, para o bem ou mal, o governo estadunidense negocia com o governo iraniano. Barack Obama foi atacado desde o princípio, inclusive por Hillary Clinton, porque dizia estar aberto a negociações diplomáticas com a Cuba e o Irã.
Respondia à pergunta específica: “Você se sentaria com os líderes de nossos inimigos e negociaria sem condições prévias?” Dizia que sim.
Se a interpretação de sentar-se à mesa com Ahmadinejad for válida, claro está que o candidato democrata daria um passo adiante. Mas na retórica política, claro também está que “sentar-se à mesa” pode significar cada qual na mesa do seu próprio país, uma negociação através de intermediários, como faz a administração republicana atual.
A segunda mudança aparente na conduta de Bush é que agora, de acordo com exigencias de Nuri Al-Maliki, PM do Iraque, e de acordo com o que Obama vinha dizendo desde o início da guerra, o presidente está disposto a manter um “horizonte temporal”, um prognóstico de quando as tropas estadunidenses devem sair do país.
Lembremos que republicanos sempre repudiaram a idéia de que houvesse qualquer espécie de compromisso prévio à retirada, criticando o Congresso e Senado democratas, clamando que qualquer prognóstico viabilizaria o planejamento do inimigo a ataques mais intensos depois do retiro. Mitt Romney apanhou de John McCain nas preliminares, acusado de ter insinuado, mesmo levianamente, que favorecia tal prognóstico.
Para McCain, o compromisso aberto, sem prévias condições à retirada, ainda é essencial à "vitória" dos Estados Unidos. Além disso, negociar com o Irã, segundo sua campanha, apenas seria possível se o Irã concordasse em suspender o programa de enriquecimento de urânio.
Para evitar a lógica conclusão de que McCain vem se isolando de seu partido, e para evitar os argumentos que apontam sérias contradições nas atitudes da Casa Branca e na campanha do candidato republicano, os nomes são "atenudados".
Se o que Obama sempre pediu (ao lado de democratas) foi um prognóstico claro, agora o “horizonte temporal”, como o nomeou a administração de Bush, significa algo diferente. Não é um prognóstico, é um estimado, enorme diferença.
Se Obama quis negociar com líderes inimigos, Bush apenas negocia através de diplomatas, e jamais se encontraria com o presidente pessoalmente, enorme diferença (mesmo sendo, de fato, diferente, o mero fato de negociar contradiz a posição original do presidente, que inventou o tal “Eixo do Mal”).
O torto, então, na verdade é reto, e um McCain enigmático e incompreensível, insólito e inconsistente, cada vez mais expõe seus defeitos para deleite dos liberais.
Propaganda Política
Mais adiante, McCain aproveita mais oportunidades do que tem para atacar Obama, e acaba caindo no ridículo.
Há pouco, o senador pelo Arizona atacou Obama por ter opinado contra a escalada de tropas do ano passado, cujos resultados variam segundo a fonte, dificultando o julgamento objetivo da parte de leitores e espectadores, por mais informados. Disse que o senador democrata não podia criticar a escalada se não visitou o Iraque em três anos.
Pois, Obama esperou para que sua atitude não fosse vista como uma reação aos ditos de McCain, e viajou ao Iraque, com seu tour pelo Oriente Médio.
Automaticamente, McCain o criticou por ter sido contrário à escalada, dizendo que Obama apenas se beneficia de um plano ao qual se opôs em princípio, podendo vagar pelo Iraque com menos risco. Mas o que a visita do candidato democrata tem a ver com sua oposição à escalada? Isso seria algo que Obama deve relatar e decidir, não McCain, previamente, antes do término da visita.
Agora, o candidato republicano lançou uma propaganda que atribui a Obama a culpa pelos altos preços de gasolina, já que o democrata se opõe a escavações nas costas maritimas do país, ou ao corte dos impostos a consumidores de gasolina, no verão.
Todos sabem contudo, que as escavações nada farão para apaziguar os preços do combustível em menos de 7-10 anos. O senador pelo Illinois avisou que as companhias petrolíferas apenas ajustariam o preço do galão e o consumidor pagaria o mesmo, exceto pelo fato de que os fundos dedicados a consertar estradas e pontes como a que desabou em Minnesota no ano passado ficariam lesados. Pesquisas recentes comprovam que os fundos já estão altamente comprometidos pela economia de consumidores. Sem os impostos, ficariam inutilizados.
E, tudo isto, quando McCain não só se opôs a escavações nas costas marítimas do país no passado recente, mas também opôs-se ao uso do produto extraído, caso fossem permitidas, exclusivo aos Estados Unidos, o que jamais beneficiaria os custos da gasolina nacional.
Conforme dizem campanhistas democratas, espero que McCain continue assim. Sua retórica e contradição sempre expostas por sua própria incompetência.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
George W. Bush,
Hillary Clinton,
Iran,
Iraque,
John McCain,
Mahmoud Ahmadinejad,
Roy Frenkiel
Wednesday, September 19, 2007
Candidatos USA 2008
Acompanhem n’O Lobo, revista eletrônica de Fausto Wolff editada pelo nosso querido Pirata (da Zine), a matéria que está aí postada sobre os seis principais pré-candidatos às eleições de 2008.
Na primeira parte, listo os três candidatos principais do partido Democrata, nestas preliminares que já dão o que falar.
Espero que gostem.
Abraxão,
Roy
Essas Palavras Vos Trazem
Democratas,
EUA,
Iraque,
O Lobo
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