Friday, September 24, 2010
Ideias Essenciais
Não sou o maior fã do trabalho de Leonardo Di Caprio, mas devo admitir que, por suas conexões em Hollywood, geralmente o escolhem para excelentes papéis. É o que penso sobre seu papel em “Inception”, de Christopher Nolan, 2010, mas do qual não discorrerei para não estragar ainda mais a trama aos que não assistiram. A ideia central, no entanto, dessa fantástica obra de ficção científica-psicológica nos interessa no contexto de uma questão que sempre me intrigou e ainda intriga, assim como às massas:
Um indivíduo pode mudar o mundo?
Em “Inception”a pessoa torna-se uma ideia. A ideia define a pessoa. O depósito de uma ideia “estrangeira” em mente alheia é a forma de definir essa pessoa contra sua vontade sem violar sua própria vontade. É o crime do filme, em poucas palavras. Complicado? Nem tanto.
Apesar do método complexo usado para atingir o objetivo de influenciar a mente de uma pessoa de modo a parecer que não houve influência externa alguma, na vida real uma ideia, mesmo frágil, pode atiçar fogo no mundo. Ideias das mais simples, palavras das mais simples representando ideias complexas ou ideias mais sofisticadas em si são como uma doença viral altamente contagiosa. Uma vez encontrando o anfitrião tomam conta de seu corpo. Caso se aprofundem o suficiente, definem a vida de sua vítima.
“Liberdade”. “Igualdade”. “Fraternidade”. “Paz”. “Nação/Nacionalismo”.
John Lennon era um jovem rebelde e um adulto bastante desvinculado de uma única percepção da realidade. Desvinculado até demais para ser mais do que um vocalista, mesmo de uma banda como os Beatles. Quando conheceu Yoko Ono, a união gerou uma ideia: “Paz”. Essa ideia definiu John Lennon mais do que sua música. Para os Estados Unidos o fato de um artista famoso investir na campanha dos cartazes simples pedindo chance à paz é mais lembrado do que o artista em si, ou sua morte nas mãos de um esquizofrênico.
Ghandi podia inspirar-se em sua própria história religiosa para atravancar o Império Britânico como um guerreiro de sua tribo. Não fosse a concepção de uma simples ideia, provavelmente conheceríamos outro Ghandi: “A resistência à violência deve ser pacífica”. Logo, o símbolo de Ghandi certamente mudou a história do planeta, nem que seja como um exemplo nem tão vastamente seguido, mas emulado por figuras importantes como Martin Luther King.
O mesmo ocorre em desvirtudes históricas, como as ideias de Adolf Hitler e todos os demais tiranos que Hitler acaba personificando tão bem. Ideias definem comportamentos. Às vezes além da capacidade consciente da própria mãe da ideia vislumbrar o processo que lhe toma.
As ideias acima mencionadas foram e são compradas por indivíduos ao longo da história. Pelo teor do construtivismo (já mencionado aqui anteriormente), a mesma ideia pode determinar atitudes e realidades diferentes. Um exemplo da cultura popular:
Quem já jogou e terminou o jogo “Red, Dead*, Redemption” (Rockstar, 2010, para sistemas de Playstation 3 e X-Box 360) testemunhou uma certa veemência histórica do oeste norte-americano e das cidades mexicanas fronteiriças do século 18. A vida de John Marston se desenvolve na fronteira dos Estados Unidos com o México (omitindo a segregação racial vigente e as disputas entre americanos e mexicanos, é certo), inicialmente em seu país de origem, e termina em uma jornada às terras sulistas dos hispanos de Montezuma. Nos Estados Unidos o conceito de “liberdade” ainda vinha ligado à libertinagem criminosa e, ao mesmo tempo, independência individual da influência direta de qualquer governo, seja ele local ou federal. Nos Estados Unidos a população precisa de mais atividade coletiva, mais interesse pelo bem estar do público, e não só do indivíduo, para aparar os efeitos da libertinagem. No México, a noção de liberdade é diretamente ligada à revolução armada e à destruição do governo vigente para trocá-lo por outro. O público disputa o território consigo mesmo, e a troca de governo é necessária para que o novo esteja tão envolvido quanto o passado na vida dos indivíduos, não mais nem menos.
O Presidente estadunidense Barack Obama também teve seu confrontamento e papel direto no reino das ideias. À época das preliminares ainda foi abordado pela camapanha eleitoral de Hillary Clinton como um professor de palavras, sem experiência necessária para concretizar a mudança verdadeira. Obama contestou usando um discurso escrito com seu ex aliado político, Deval Patrick, entitulado “Só Palavras”, questionando se as palavras acima citadas, “liberdade”, “igualdade”, “fraternidade” e “paz” são mesmo apenas palavras. Como um bom democrata, seu ideal que aqui encontra o construtivismo é que palavras expressam ideias e ideias mudam o mundo. Por suas palavras ganhou o prêmio Nobel da Paz. As atitudes, no entanto, são outros milhões.
Fatidicamente, ao procurar uma melhor análise dos papéis de nações-estados, indivíduos e o cenário global nas relações internacionais, nos deparamos com dezenas – se não centenas – de ideias diferentes. O mesmo ocorre com a ilusão ótica democrática, pois todas não podem estar concomitantemente certas. O que o construtivismo oferece de diferente é justamente o reconhecimento quase exclusivo do papel das ideias na construção da realidade, e não vice-versa. Portanto, se as ideias de Nicolau Machiavelli ainda influenciam o pensamento realista neo-conservador nos Estados Unidos não é porque a realidade é “realista” e sim porque o “realismo” desses indivíduos, sociedades e governos alimenta a realidade.
E então, leitoras e leitores: Individuos podem mudar o mundo? Ideias podem mudar o mundo?
RF
PS:
Para quem quer ainda mais estraga-prazeres ou para quem viu o filme, linko aqui um exemplo de "Inception" pelos quadrinhos de Tio Patinhas da Disney (Ingles).
Monday, April 19, 2010
Intolerância de Ambiguidades (2)
Pesquisando, descobri dois fatos que me assombram sobre o Departamento de Estado dos Estados Unidos. A primeira, é que não há nenhum grupo inter-governamental ou pertencente ao departamento que lide com as questões religiosas no Oriente Médio. Segundo, que as tropas armadas estadunidenenses tem preparação mínima sobre as diferentes religiões, etnias e culturas encontradas no local. Com apenas três horas obrigatórias sobre reconhecimento do terreno ocupado, soldados e soldadas viajam ao Iraque, Afeganistão e Arábia Saudita com uma ideia caquética da situação local.
Sobre a necessidade do reconhecimento das diversas religiões locais, precisamos entender, como já compreenderam diplomatas estadunidenses desde a Guerra Fria (a exemplo de James C. Campbell, diplomata do país ao fim dos anos ’50, que já pedia que o governo apagasse sua imagem de imperialista, mesmo que precisasse perder a fama de hegemonia global), que a religião islâmica é intrinsecamente política em sua natureza e na conduta da esmagadora maioria de muçulmanos no planeta. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o início do revivalismo islâmico contemporâneo, a maioria dos estados criados tornaram-se oligárquicos e massivamente mais étnicos do que religiosos. Saddam Hussein e o regime do Baath, Hosni Mubarak e o Egito, o parlamentarismo rústico do Pakistão e até mesmo o califato da Arábia Saudita fazem parte desse grupo.
Mesmo assim, com o surgimento do terrorismo multi-nacional da al-Qaeda (a base) de Osama bin Laden, e após a bem sucedida Revolução Iraniana de 1979, a consciência popular tende a encontrar refúgio das injustiças cometidas pelas ditaduras pseudo-seculares do Oriente Médio no próprio Islã. Mais de 80% das populações muçulmanas, sejam shi’itas ou sunnitas ou kurdas, exigem um estado Islâmico baseado nas leis da religião, ou a Shariah, o que não se trata necessariamente de um modo específico de segui-las, nem mesmo que as leis de hijab (discreção e modéstia nas vestimentas) sejam as mais rigorosas. No entanto, para a maioria dos muçulmanos no Oriente Médio, um estado justo e baseado em justiça e igualdades sociais só pode ser um estado Islâmico.
O grande problema é a imagem dos Estados Unidos aos olhos de países como Irã, Egito, Síria, Líbano e Jordânia, sem contar na cada vez mais desgatada imagem no Iraque e Afeganistão. Ao mesmo tempo, a imagem decadente dos Estados Unidos reflete-se perfeitamente no tratamento do próprio país aos países mencionados, algo que em grande parte também encontra raízes na imagem do Oriente Médio construída pelos Estados Unidos. Sobre isso, James K. Glassman, em seu discurso de aceitação do cargo de sub-secretário das relações externas no Departamento de Estado em 2008, pede aos seus colegas e ao presidente que o país comece a liderar a “guerra de ideias”. De fato, é esta guerra a única que pode contribuir na reconstrução de uma imagem mútua melhor, segundo Glassman, e a enfática mudança do uso de “poder rígido” bélico ao “poder suave” da diplomacia.
Para liderar a guerra de ideias diplomatas e demais políticos estadunidenses precisam, primeiro, demonstrar que não são totalmente ignorantes sobre a realidade regional nos países que os Estados Unidos visam interferir, e nos dois que as forças armadas do mesmo invadiram. A intolerância de ambiguidades no Oriente Médio (que muitas vezes, como escrito no texto anterior, expande-se à intolerância de ambiguidades em outras regiões quando julgam, quase às cegas, que um lado é mais certo do que o outro) ganha corpo quando as faces mais representativas dos Estados Unidos, soldados e soldadas que convivem diariamente entre os variados grupos étnicos e seus valores religiosos e éticos, caminham sem noções básicas da realidade que os circunda pelas estradas do local.
Claro que o objetivo principal é a retirada das tropas do Iraque e Afeganistão o mais rápido possível. No entanto, a mera retirada das forças armadas de dois países jamais será suficiente para a al-Qaeda de bin Laden que, baseada nas palavras do lider militante, reage contra qualquer espécie de interferência estadunidense na Arábia (todos os países árabes), Iraque (especificamente, uma interferência que não terminará com a retirada das tropas) e Jerusalém (o apoio dos Estados Unidos a Israel). Enquanto todas as retiradas não ocorrem supostamente pela necessidade de reconstruir o que foi localmente destruído, as tropas precisam representar um país menos ignorante, no mínimo.
Do mesmo modo, criando uma instituição inter-governamental religiosa, na qual os 1.3 a 7 milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos encontrarão um canto para vociferar suas preocupações e perspectivas sobre o assunto, o Dep. de Estado poderia legitimar suas causas e associá-las ao Islã, algo não de todo irreal, e desde que a conduta não seja imperialista (algo que os nativos perceberão com imensa facilidade), a publicidade do Islã encontrando as portas dos Estados Unidos abertas e convivendo em plena harmonia dentro de suas fronteiras poderia ajudar a forjar uma espécie de tolerância dessa ambiguidade explícita.
De todos os modos, a lição não difere do texto passado. Sem o conhecimento da história, dos grupos étnicos, dos cultos religiosos, das raças e das identidades locais, qualquer opinião, seja ela interna ou externa, é necessariamente falida.
RF
Tuesday, February 23, 2010
O Grande Satanás contra os Mullahs Doidos
O título do texto é o mesmo de um ensaio de William O. Beeman falando sobre as principais características das relações “diplomáticas” entre o Irã e os Estados Unidos. Ao contrário do que muitos imagina, desligados do histórico rico existente entre os dois estados-nações, o relacionamento sempre foi vivo e necessário para ambas as partes. De acordo com o paradigma realista de Charles F. Doran, a “teoria da estabilidade hegemônica”, o papel dos Estados Unidos como hegemonia, de certo modo, dita o papel do Irã como anti-Imperialista. Similar ao contato implícito em agressões e comunicações acalantadas entre Israel e seus vizinhos da Faixa de Gaza e Cisjordânia, o diálogo existe mesmo desapercebido a olho nu.
Contudo, Beeman faz um interessante traçado entre as respectivas percepções dos Estados Unidos e do Irã e em seu estudo, que inclui uma análise fascinante sobre o diálogo internacional embasado no sistema de diálogos individuais e pessoais, conclui que não apenas Mahmoud Ahmadinejad caracteriza a super-potência pejorativamente, mas o oposto também ocorre na mesma frequência. Resumidamente, para o Irã, Estados Unidos é o Grande Satanás e para os Estados Unidos, Irã é um país de “Mullahs Doidos”.
A desconfiança norte-americana será provavelmente melhor compreendida pelos leitores locais, acostumados à retórica da política estadunidense. No madrugar da década de 50, o governo do país com sua instituição da Agência Central de Inteligência (CIA) contribuiu algo à derrubada de Mohhammad Mussadiq, primeiro ministro do shah que se alinhava "perigosamente" à mentalidade comunista. Mussadiq assumiu o cargo quando decidiu nacionalizar o petróleo iraniano, assim desafiando acordos com a Grã-Bretanha. A CIA agiu pelo pressentimento estadunidense de que o grupo comunista emergente no Oriente infiltrasse a monarquia iraniana, assim contribuindo a algum retorno de estabilidade ao sistema governamental monárquico do país Persa, que substituia a Dinastia de Qajar em 1925 com Reza Khan a assumir o poder. O sistema do shah prevaleceu até a Revolução Iraniana de 1978-79, quando Reza Pahlavi foi destituído com a ajuda de guerreiros islâmicos conhecidos como mujahedeen (que formam o atual grupo terrorista pan-islâmico Al Qaeda), e Ayatollah Khomeini assumiu a liderança.
Apesar de déspota, o sistema do shah garantiu algum desenvolvimento secular no Irã, que via um lider leal aos Estados Unidos em Pahlavi. Em seu próprio ritmo e de acordo com a sensibilidade cultural da região, o último shah modernizou seu governo até o coup d’etat dos fundamentalistas islâmicos, ocorrido em grande parte em base na secularização que assolava o imaginário religioso da população majoritariamente shiita. O governo norte-americano, em sua percepção falha de culturas alheias, e em sua total falta de sensibilidade às necessidades gerais de cidadãos estrangeiros, “traduziu” a reação de Khomeini como imprópria ao Irã e caracterizou seu governo como extremista e radical, fechando assim todos os possíveis diálogos existentes (que prosseguiram apenas indiretamente).
Khomeini, de fato, procurava balançar seu poder contra o poder dos Estados Unidos. De fato, para a classe média iraniana sua reforma foi tida como extremista e anti-evolutiva. No entanto, para grande parte da população, a instituição de um sistema islâmico governamental não necessariamente “caiu mal”. Nesse sentido o governo totalitário iraniano ganha legitimidade doméstica quando se opõe aos Estados Unidos. Conforme explica Beeman, quando Ahmadinejad chama os Estados Unidos de O Grande Satanás, não dialoga com os Estados Unidos, e sim com seus constituintes, que apoiam o desafio e que entendem através dessa metáfora específica (já que ligada à própria religião) o que Ahmadinejad quer dizer. Do mesmo modo, a falta de diálogo do governo estadunidense com o governo iraniano (em si uma espécie de comunicação baseada na não-comunicação) não é, necessariamente, uma provocação de governo a governo, e sim um apelo a constituintes conservadores dentro dos Estados Unidos que não querem seu governo ligado a fiéis religiosos de outra religião com outras bases éticas.
Beeman explica que, ao contrário da interlocução direta nos Estados Unidos, onde oficiais do governo e outros diplomatas chamam-se pelos nomes próprios sem prostrar-se e sem indiretas nem titubeios, iranianos conversam discretamente, com certo excesso de boas maneiras, curvando-se verbalmente e auto-inferiorizando-se perante o próximo. Logo, é comum que a interrupção do processo comunicativo ocorra da própria falta de compreensão do sistema comunicativo de cada um dos interlocutores. Além disso, iranianos no geral não tem nenhuma richa com a população estadunidense, e sim com seu governo, do mesmo modo que conscientemente rechaçaram o shah em sua própria casa, assim entendendo perfeitamente a diferença entre o ódio pessoal e o ódio direcionado ao regime vigente. Outra surpresa a muitos estadunidenses é que iranianos não são, nem bem se relacionam com, árabes, mas isso é tema para outros textos.
Há problemas reais e severos a se resolver no Oriente Médio, e como hegemonia (ainda), o papel dos Estados Unidos e sua influência às Nações Unidas e à comunidade internacional pode ser de fato essencial para a resolução de algumas crises. Talvez a questão é que não são todas as crises que podem ser resolvidas com o etno-centrismo americano e, sendo assim, o governo estadunidense precisaria saber onde faz bem sendo chamado, e onde apenas faz mal. Enquanto os diálogos estiverem fechados entre o Irã e os Estados Unidos por crises que a política externa dos Estados Unidos não pode resolver, haverá mesmo o que temer em um potencial conflito nuclear, ou conflitos preeminentes entre Israel (que tem muito mais a temer da falta de comunicação entre seu próprio estado-nação e o iraniano) ou Estados Unidos contra o Irã.
Talvez o primeiro passo para a paz seja simples e até mesmo um tanto quanto pueril: Párem de se xingar, meninos. Meninos: quietos! Quando um fala o outro cala e vice-versa. Pois, às vezes o mais simples é o mais complicado.
RF
Friday, September 25, 2009
Ponto para o Brasil
Para os depositores, a ameaça de tornarem-se foragidos. Para a população, a desesperança de tornar-se súdita de um governo foragido. Caso sejam (e provavelmente deveriam ser) condenados por transgredir direitos humanos em seu país, agirão exatamente de acordo com o que diziam temer ao depor Zelaya. A justificativa do semi coup d’etat foi clara: Medo de que Zelaya consiga emendar a constituição hondurenha a favor de sua reeleição e permanência no poder.
Não que os medos dos opositores não seja real. Hugo Chavez, controversamente, logrou permanecer no poder através de emendas similares. Zelaya nega, obviamente, que tivesse essa intenção, mas a suspeita de seus opositores pode ser, em si, explicada. O que não é inexplicável, mas tampouco lógico, foi a deposição abrupta e apressada do presidente, que conseguiu retornar ao país depois de encontrar refúgio na Costa Rica.
Independente de qualquer formação política, a história Latino-Americana de ditaduras militares (tanto de direita quanto de esquerda) e de democracia ou escassa ou conturbada na região não é melhorada nem reformada pela crise atual. Com a emergência de países de orientação anti-capitalista/socialista como a Venezuela e a Bolívia, o território comprimido pode muito bem se tornar um barril de pólvora de pavio curto. Some-se a isso a revolta de opositores do governo de Zelaya e uma deposição militar, e temos uma receita quase infalível a uma bomba atômico-orgânica.
Portanto, a posição que Brasil assumiu nesse conflito serve de exemplo à condução hegemônica de suas relações intra-continentais. Muitos criticam o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por abster-se de uma posição mais rigorosa. Poderiamos, quiçá, justificar essa ausência na liderança de algumas maneiras. Uma delas, talvez a mais nebulosa, seria a relutância do presidente em assumir qualquer espécie de partido com um governo potencialmente esquerdista, como o de Zelaya. Outra, porque no momento a crise econômica mundial e a inter-dependência acirrada no mercado global; duas guerras nas quais os EUA estão presentes e afundados no Oriente Médio; problemas domésticos, incluindo a reforma no sistema de saúde do país; são todos fatores que impedem um envolvimento maior com países menos importantes no cenário global como Honduras.
Mas, finalmente, como diria Charles F. Doran, o sistema unipolar-multi-polar permite que o Brasil funcione como extensão dos Estados Unidos na América Latina. Segundo especialistas em relações internacionais, esta é a função da terra tupiniquim, estando ela pronta ou não para assumi-la. E esteve. Pronta, digo. Assumiu majestosamente sua função hegemônica a partir do momento que permitiu e concordou em abrigar Manuel Zelaya em sua embaixada em Honduras. Podemos argumentar que o Brasil nunca pensou arriscar-se com a empreitada. Afinal, o repúdio internacional já parecia obviamente delineado contra o agressor à democracia, no caso a oposição de Zelaya. Nesse mesmo tom, porém, argumento que justamente por não querer contrariar o movimento internacional, o Ministério de Relações Exteriores da administração de Luiz Inácio Lula da Silva encaixa-se, cada vez, no jogo dos maiores.
O papel da pressão brasileira ao Conselho de Segurança da ONU, agora presidido pelos Estados Unidos, foi e está sendo ainda fundamental no desenvolvimento das negociações. Roberto Micheletti e sua administração temporária podem realmente ser considerados transgressores, e fica claro que isso não seria positivo para a população hondurenha, ao mesmo tempo que a postura totalitária de sua administração precisa ser enfrentada e resolvida. Em poucas palavras, a possibilidade de uma guerra existe, mas a maior possibilidade, infelizmente, é que Honduras caia em um período incerto de ditadura militar. Brasil, nesse sentido, conseguiu atrasar o processo, ajudar a expor a gravidade do problema (tendo sua embaixada cercada e a eletricidade temporariamente cortada ajudaram muito), e contribuir para que as negociações possam ocorrer com o tempo e espaço necessários. A popularidade de Lula não prejudicou nem um pouco.
Já membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) podem tomar a situação de modo um pouco mais pessoal. Com a presença rotativa de México e Costa-Rica, únicos países no Conselho com os quais Honduras mantém relações diplomáticas, o Conselho ainda pode ter menores interesses em “atacar” Honduras com sanções e restrições a Micheletti e seu governo. Já a OEA, com maiores conflitos de interesse dentro da instituição, pode demandar essas sanções, e no intuito de resolver a crise, piorá-la.
Apesar da escuridão agora enfrentada e da incerteza de um potencial sucesso brasileiro nas negociações, o Brasil e o governo Lula marcam muitos pontos no ciclo de super-potências e dão mais um passo adiante na conquista dos direitos de jogar com os maiores. A importância e relevância de instituições será discutida no próximo texto, mas por hora, fica aqui minha opinião registrada: O Brasil está de parabéns.
RF
Friday, September 18, 2009
Hegemonias - Parte 2
Professor da universidade de Washington, Doran teceu uma teoria interessante – mas pouco divulgada – sobre o sistema global e a relação entre estados (países). Trata-se da “Teoria de Ciclo de Poderes”, que, resumidamente, dita o seguinte:
1 – O cenário global é anárquico, na falta de qualquer organização internacional que possa efetivamente reforçar mandatos das Nações Unidas (apesar de que possa ser hierárquico, tecnicamente, mas isso não afetaria o fato de que o sistema em si muda em princípios, mas não deixa de ser um sistema). Sendo anárquico, o mundo ao redor dos estados é caótico e desordenado. É virtualmente impossível saber se um outro estado está prestes a atacar o nosso. E, em termos econômicos, como todos tratamos de vencer, e cada qual por si (auto-ajuda, powerpolitik), jamais sabemos quando o estado ao lado nos passará a perna. Do mesmo modo, o vice-versa: Ninguém sabe exatamente quais são as nossas intenções (vejam que, quando falo “nossas”, falo exclusivamente de líderes desses estados, e não da população geral).
2 – Nesse cenário, há duas possibilidades de ações e reações de cada estado. Quando um país torna-se mais forte do que os demais e lentamente passa a assumir, consciente ou não, o papel de hegemonia, pode haver balanceamento de poder da parte de estados que se sentem ameaçados (China, por exemplo, em comparação aos Estados Unidos). Esse balanceamento de poder significa que qualquer país que possa começar a pensar a entrar no “clube do Bolinha” tentará imitar os líderes, agir como os mesmos, procurar o mesmo nível de poder etc. Outra possibilidade, em determinado ponto de sua parábola de quatro pontos (detalhada a seguir), é a de que as super-potências acomodem, abram espaço e releguem direitos e beneficios à super-potência emergente, assim evitando uma guerra. Doran avisa, no entanto, que caso haja balanceamento quando a acomodação melhor servir, ou vice-versa, as chances de guerra aumentam drasticamente.
3 – Há países que não se sentem ameaçados pelo crescimento da hegemonia, e tampouco tem muito a ganhar caso queiram imitar as condições da super-potência. Logo, essa terceira crosta de países cria aliancas políticas com a hegemonia em agrupamentos. Falamos do Japão, Inglaterra, Alemanha, Coreia do Sul etc.
4 – Segundo os ciclos observados da história da humanidade, toda hegemonia passa por uma parábola que confere quatro estados básicos de desenvolvimento. No geral, toda hegemonia ascende, chega ao seu ápice, e começa o processo de descenço. Enquanto decai em poder, o próximo estado (ou estados) que encontrarem-se próximos o suficiente da hegemonia vigente passa(m) a ameaçar o poder dessa hegemonia.
A parábola, segundo Doran, é composta das seguintes 4 etapas:
A) Ponto inferior de ascenção - A hegemonia entra no sistema de super-potências. Seu desenvolvimento como super-potência é intenso e agudo.
B) Primeiro Ponto de Desaceleração de Desenvolvimento – A hegemonia ainda cresce, mas agora desaceleradamente em comparação ao crescimento dos demais estados (incluindo potenciais futuras hegemonias).
C) Ápice – Quando o desenvolvimento hegemônico pára de crescer porque a hegemonia já chegou ao ápice de sua capacidade como super-potência.
D) Segundo Ponto de Desaceleração de Desenvolvimento – em que a super-potência começa a abandonar o sistema de super-potências e já apenas descende em desenvolvimento.
Segundo Doran, as super-potências que já existiam devem acomodar a chegada da nova super-potência, mas só podem fazê-lo até que esta chegue ao seu ápice. Chegando ao ápice, acomodar já não beneficiará o cenário global. Um exemplo de acomodação mal calculada é o de Neville Chamberlain e a Alemanha nazista, que já havia chegado ao seu ápice quando o primeiro ministro ainda a acomodava, com esperanças de que Adolf Hitler se sentisse reconhecido e não atacasse nenhum país europeu. O resultado é que Hitler não sentiu a menor necessidade de ser prestigiado por terceiros, pois a Alemanha já poderia dominar este sistema, tecnicamente. Passado deste ponto (ápice), o certo é contra-balancear. No caso, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a Rússia fizeram melhor em se contra-balancear contra o movimento oligopólico da Alemanha nazista. Isto ocorreu com a liderança de Wiston Churchill, e os aliados venceram, mas tarde demais para milhões de pessoas inocentes.
Segundo Doran (resposta do dia 15 de Setembro de 2009 ao professor Shlomi Dinar da Universidade Internacional da Flórida), os seguintes países se encontram nos seguintes pontos de sua parábola:
China – Entre o ponto inferior de ascenção e o primeiro ponto de desaceleração do desenvolvimento.
Estados Unidos – Passados do ápice e em direção ao segundo ponto de desaceleração do desenvolvimento.
Rússia – No momento, ainda adentrando o ponto inferior de ascenção da parábola dos poderes.
Concluindo, para Charles F. Doran o momento é crítico. A China finalmente passa a ameaçar o status quo dos Estados Unidos, mas pior do que isso, assim que perceber que seu desenvolvimento começa a desacelerar em comparação a décadas passadas, começará a exigir prestígio, ou seja, acomodação. Em um sistema capitalista de mercados (semi) livres, as chances são de que a acomodação exista, e segundo Doran isso será o suficiente para evitar uma guerra mundial. Contudo, caso os Estados Unidos não acomodem por quaisquer motivos, as chances de uma guerra, avisam outros realistas ao lado do próprio Doran, são de quase 100%.