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Friday, December 24, 2010

Retrospectiva 2010 - Parte 2

À frente da humanidade ainda atravessa a delicada e complexa missão de erradicar a violência institucionalizada de suas amostras e decisões de poder. O Presidente Barack Obama, nos Estados Unidos, exerceu seu papel positivista na política da hegemonia militar e escalou o número de tropas enviadas ao Afeganistão. A última conclusão do presidente segundo a Inteligência impecável que possui* aponta as conquistas “democráticas” obtidas contra o Talibã e os mais diversos grupos de mujahadin no Afeganistão, ainda frizando que são conquistas “frágeis”. Não há mais paz no Oriente Médio, é o que interessa. Este autor está cansado de discutir em defesa e contra todos os ângulos e lados desse conflito. Israel coleciona desastres públicos e humanitários com seu cerco à Faixa de Gaza, o que acarretou nos acontecimentos da flotilha pró-Palestina que tentava furá-lo, atacada, abatida e usada internacionalmente contra qualquer espécie de desculpa israelense. A Palestina ganha reconhecimento do Brasil e da Argentina, recentemente, como estado legítimo.Pela paz mundial, contudo, não há evolução. Rússia e República Tcheca ainda brigam como d’antes. A Coreia do Norte ressurge continuamente como o filho de Escarlate trancafiado no porão com seus planos maquiavélicos. Assusta a Coreia do Sul e a semi-onipotente China. Pelo passado militar sangrento, no entanto, a memória não falha. Brasil é acusado de crimes de guerra oficialmente pelas Nações Unidas pelos terríveis e abomináveis acontecimentos durante a Operação Araguaia. São guerras internas, civilizatórias, externas, globais, pessoais, étnicas, ideológicas e religiosas.

Confesso que perdi um pouco de minha “alma” nos seis anos de estadia nos Estados Unidos. Ainda milito pelo que acho certo, mas mais pragmaticamente. Esse pragmatismo, objetivismo quase morto de tão frio, não fazia parte de minha mente sonhadora. Não sei o motivo, nem tenho explicação. Eric Voegelin cunhou a expressão “salto em ser”, o que pode ser definido como uma atitude ou construção individual muito maior do que a pessoa que o fez ou construiu. Não sei se mestres como Albert Einstein, Sigmund Freud, William Shaekspeare, Martin Luther King, John Lenon etc pensavam nesse salto. Não sei se pensavam em ser mais, melhores, maiores mesmo que em seletas qualidades quando tornaram-se grandes. Pessoalmente, antes de 2010 tinha como objetivo ser, e não ter, do melhor. Em 2010 me preparei psicologicamente para criar uma familia, mas não foi somente esse lado materialista que me influenciou. Percebi que, depois dos 30, terminaram as colheres de chá e as pessoas esperam de mim simplesmente tudo o que não esperavam seriamente antes.


Foram guerras e mais guerras em 2010. Guerras contra meu inerente conformismo, por exemplo. Guerras anti-ideológica do princípio ao fim. Guerras com meu estar, guerras com o futuro, guerras com meus próprios ideais, o que enfim, agora em 2010, mais parecem favorecer a calmaria. Guerras contra outros, inclusive outros muito meus, amados e queridos. Guerras desnecessárias… Descobri em 2010 que meu maior desafio nessa vida, minha única chande de “saltar em ser”, é encontrar a tranquilidade, não na ausência de conflitos inevitáveis, mas na ausência de guerras, na ausência do conceito de itjihad muçulmano, na ausência da necessidade constante que tenho de brigar comigo e com todos. Acredito também que, justamente por perder a “alma”, ganhei “armas” psicológicas de reposição de ego. Se perdi a ideologia, ganhei na elasticidade mental. Continuo sabendo menos do que sei saber, sabendo saber menos do que gostaria ou penso que sei, é verdade, mas não consigo mais me prender a uma causa humanitária exclusivista, e considero isso uma grande vantagem. Na resolução, logo, de problemas de cunho emocional e intelectual preciso refinar a raiva, que é em si absolutista e exclusivista. É meu maior desafio aos anos que me restam nessa Terra. Quero, mais do que morrer tranquilo, viver representando uma pessoa tranquila, menos ciumenta e invejosa, mais concentrada e mais benevolente mesmo nas maiores adversidades.


O mundo vem rompendo com as antigas hegemonias. Quiçá em nenhuma outra área esta afirmação faz mais sentido do que no mundo esportivo. A Copa do Mundo realizou-se na África. Houve pequenos problemas (grandes, mas pequenos para quem está acostumado a conviver com maiores níveis de iniquidade social), como furtos e incidentes isolados, mas todo o temor do mundo “civilizado” não se confirmou. Não houve necessidade de colete à prova de balas, apesar do episódio trágico em Janeiro, quando radicais separatistas em Luanda, Angola, dispararam contra jogadores da Seleção Nacional do Togo deixando um morto (motorista) e nove feridos, incluindo dois jogadores. O evento mais assistido do planeta foi um sucesso relativo em termos de infra-estrutura, mas no contexto da exposição do Sul Global, da África nada menos, ao Norte Global, o sucesso é absoluto. Os Estados Unidos, já tendo perdido a hospedagem da Copa de 2014 para o Brasil, perdeu a oportunidade de realizar os jogos em 2018 e 2022 para Rússia e Qatar, respectivamente. No páreo também estavam Portugal e Espanha, antigas colonizadoras imperiais. A Espanha, aliás, que entrou para o clube seleto e elitista de vencedores de copas de mundo em 2010. O Brasil, grande hegemonia, já se despede da competição nas quartas de final há oito anos. No ramo dos clubes, o TP Mazembe, clube modesto do Congo, derrubou o Internacional de Porto Alegre para disputar a final contra o Internazzionale de Milão. Apesar de vice-campeão, entrou para história realizando algo anteriormente tido como impensável**.

Sorte no esporte, azar no amor? Entendo hoje que toda história só se define depois de completa e em 2010 minha história romântica de quatro anos terminou fazendo-se inteira. Todos os segmentos insólitos de minha personalidade adquiridos ou refinados no contexto do relacionamento hoje fazem sentido enquanto então padeciam do obscurecimento natural na iminência. Tenho a dizer sobre isto: É o que mais consome minha mente cotidiana. É o evento singular mais importante de minha história. É a maior transição de hegemonia egocêntrica que passo sempre que passo por essas fases.

Nunca conseguirei, acho, entender como é possível sentir e deixar de sentir, ter importância e deixar de ter importância na vida das pessoas que amamos. Se já é ultra-complexo quando se trata de nossa familia, infinitamente mais quando se trata de estranhos, e quando há sexo envolvido bota complexo nisso. Como a anedota que gosto de contar quando falo no assunto. Meu pai e tio foram ao Instituto Butantã de pesquisas biomédicas com meu irmão mais velho a mostrar-lhe cobras e outros répteis. Um dos profissionais ali presentes explicou ao grupo de homens do clã Frenkiel que estava prestes a realizar uma cirurgia “bipenal” em uma cobra. “Bipenal?” Perguntou meu tio, o médico psiquiatra. “Sim, as cobras tem dois pênis, é a operação de dissecar e examinar suas genitálias. Bi-penal, pois…” Abismado, meu pai disse a meu tio: “Nascer cobra nesse papo de carma budista eu to fora, guri.” Titio perguntou o motivo, ao que papai respondeu: “Se um pênis já dá todo esse trabalho, imagine dois!”


Espero que a associação sexual não ofusque o romantismo (para mim só contribui). É a coisa mais complexa do mundo relacionar-se com outros seres humanos, como diria o personagem “Dexter” da série estadunidense da Showtime. Só acrescentei que é especialmente complexa quando há sexo envolvido. Assim enlaço outro apelo a 2011, que a amargura que espeta meu peito enquanto ainda tento esquecer esse amor se dissipe e se torne doçura em minha busca ao crescimento.


Por hora, boas festas a todos e todas; paz, amor, carinho, muito carinho, companhia, amizade e dinheiro, sim, dinheiro que nunca é o problema, só a solução.

Forte abrax,

RF

*Só não previniu a tentativa do atentado do homem bomba-cueca nigeriano, no início do ano, apesar dos repetidos avisos do pai sobre a alinhação ideológica do filho; ou o ingresso penetra do casal Salahi no jantar presidencial icônico ao fim de 2009; e mais recentemente ajudou a não fazer nada contra a exposição ao ridículo imposta por Julian Assange, criador do Wikileaks, entre outras excelentes façanhas similares, isso contando apenas os últimos 14 meses.


**Há muitos outros eventos e modalidades a discorrer quando se trata de esporte, inclusive, para mim, modalidades antes tidas como chatas, como o Baseball. No entanto, nem é uma questão de espaço, mas de preferência pessoal da modalidade, e da importância política paralela que a Copa do Mundo representa nesse contexto.

Saturday, December 18, 2010

Eu pergunto e tu respondes!

No filme “American Beauty”, de um de meus diretores favoritos, Sam Mendes, o veterano de guerra e pai do introvertido e complexo namorado da protagonista esconde sua homossexualidade às últimas consequências. Se nascesse depois de hoje, Sam Mendes teria um personagem a menos em sua trama brilhante que, como poucas narrativas hollywoodianas, expõe a esquizofrenia estadunidense.

Sim, pois hoje no Senado duas batalhas foram travadas pelas minorias do país. Uma, perdida, a do Dream Act, tentava legitimar a cidadania de estudantes trazidos ilegalmente pelos pais enquanto ainda menores e que não recebem seus diplomas oficiais pelo status imigratório ainda ilegal. 55 a 41 votos ainda separaram os estudantes ora brilhantes, que procuram apenas obter o produto de seus árduos trabalhos, de seu sonho ainda inatingido. Estudantes como o ativista Felipe Matos, a quem tenho o privilégio de chamar de amigo pessoal e antigo, desde os 22 anos de idade, e à quem a revista Carta Capital homenageia em artigo que pode ser acompanhado aqui.

A segunda venceu-se, no entando, e isto apesar da advocacia opositora ferrenha de John McCain. Aquele que podia ser nosso presidente primeiro exigiu uma pesquisa sobre a opinião dos soldados das forças armadas do país. Quando obtida a pesquisa favorável à proposta massivamente popular, fez-se o insatisfeito e pediu uma pesquisa científica sobre os efeitos da lei anti-constitucional, mas institucionalizada nas forças armadas. Quando obtida a pesquisa, ainda positiva e condizente ao que agora chamamos de realidade, ainda insatisfeito, pediu mais pesquisas e nenhuma delas, nenhuma opinião provava-lhe o ululante, nem mesmo quando oficiais de todos os setores das forças armadas demonstraram quão banal, quão vil e quão estúpido era privar seus companheiros de guerra e de serviço militar da honestidade quanto a suas respectivas sexualidades.

A proibição, que não lei, pois leis devem ser justas, humanas e iguais, infame de “Não pergunte que não respondo” finalmente caiu no Senado por 65 a 31 votos.


Mesmo sendo contra a guerra, negar beneficios, forçar o retiro de oficiais honrosos, que serviram por uma causa que acreditaram ou por outros motivos, não dando menos de si por uma ideia que os antecede, é a antítese de qualquer pais que ainda quer dizer-se democrático. Aconteceu na era de Barack Obama, mas não por Obama, acreditem, contudo muitos menos por John McCain ou Sarah Palin, esta mais preocupada em estourar os miolos de animais alaskanos indefesos. O que importa é que aconteceu.

Felipe Matos, homossexual orgulhoso, apoia a vitória de seus irmãos e irmãs. Torçamos por sua vitória em 2011.

RF

Friday, September 24, 2010

Ideias Essenciais

(Alerta de estraga-prazeres para quem não viu o filme “Inception”: Não darei detalhes sobre o filme, mas discutirei um aspecto central do mesmo, assim que, estejam avisados).

Não sou o maior fã do trabalho de Leonardo Di Caprio, mas devo admitir que, por suas conexões em Hollywood, geralmente o escolhem para excelentes papéis. É o que penso sobre seu papel em “Inception”, de Christopher Nolan, 2010, mas do qual não discorrerei para não estragar ainda mais a trama aos que não assistiram. A ideia central, no entanto, dessa fantástica obra de ficção científica-psicológica nos interessa no contexto de uma questão que sempre me intrigou e ainda intriga, assim como às massas:

Um indivíduo pode mudar o mundo?

Em “Inception”a pessoa torna-se uma ideia. A ideia define a pessoa. O depósito de uma ideia “estrangeira” em mente alheia é a forma de definir essa pessoa contra sua vontade sem violar sua própria vontade. É o crime do filme, em poucas palavras. Complicado? Nem tanto.

Apesar do método complexo usado para atingir o objetivo de influenciar a mente de uma pessoa de modo a parecer que não houve influência externa alguma, na vida real uma ideia, mesmo frágil, pode atiçar fogo no mundo. Ideias das mais simples, palavras das mais simples representando ideias complexas ou ideias mais sofisticadas em si são como uma doença viral altamente contagiosa. Uma vez encontrando o anfitrião tomam conta de seu corpo. Caso se aprofundem o suficiente, definem a vida de sua vítima.

“Liberdade”. “Igualdade”. “Fraternidade”. “Paz”. “Nação/Nacionalismo”.

John Lennon era um jovem rebelde e um adulto bastante desvinculado de uma única percepção da realidade. Desvinculado até demais para ser mais do que um vocalista, mesmo de uma banda como os Beatles. Quando conheceu Yoko Ono, a união gerou uma ideia: “Paz”. Essa ideia definiu John Lennon mais do que sua música. Para os Estados Unidos o fato de um artista famoso investir na campanha dos cartazes simples pedindo chance à paz é mais lembrado do que o artista em si, ou sua morte nas mãos de um esquizofrênico.

Ghandi podia inspirar-se em sua própria história religiosa para atravancar o Império Britânico como um guerreiro de sua tribo. Não fosse a concepção de uma simples ideia, provavelmente conheceríamos outro Ghandi: “A resistência à violência deve ser pacífica”. Logo, o símbolo de Ghandi certamente mudou a história do planeta, nem que seja como um exemplo nem tão vastamente seguido, mas emulado por figuras importantes como Martin Luther King.

O mesmo ocorre em desvirtudes históricas, como as ideias de Adolf Hitler e todos os demais tiranos que Hitler acaba personificando tão bem. Ideias definem comportamentos. Às vezes além da capacidade consciente da própria mãe da ideia vislumbrar o processo que lhe toma.

As ideias acima mencionadas foram e são compradas por indivíduos ao longo da história. Pelo teor do construtivismo (já mencionado
aqui anteriormente), a mesma ideia pode determinar atitudes e realidades diferentes. Um exemplo da cultura popular:

Quem já jogou e terminou o jogo “Red, Dead*, Redemption” (Rockstar, 2010, para sistemas de Playstation 3 e X-Box 360) testemunhou uma certa veemência histórica do oeste norte-americano e das cidades mexicanas fronteiriças do século 18. A vida de John Marston se desenvolve na fronteira dos Estados Unidos com o México (omitindo a segregação racial vigente e as disputas entre americanos e mexicanos, é certo), inicialmente em seu país de origem, e termina em uma jornada às terras sulistas dos hispanos de Montezuma. Nos Estados Unidos o conceito de “liberdade” ainda vinha ligado à libertinagem criminosa e, ao mesmo tempo, independência individual da influência direta de qualquer governo, seja ele local ou federal. Nos Estados Unidos a população precisa de mais atividade coletiva, mais interesse pelo bem estar do público, e não só do indivíduo, para aparar os efeitos da libertinagem. No México, a noção de liberdade é diretamente ligada à revolução armada e à destruição do governo vigente para trocá-lo por outro. O público disputa o território consigo mesmo, e a troca de governo é necessária para que o novo esteja tão envolvido quanto o passado na vida dos indivíduos, não mais nem menos.

O Presidente estadunidense Barack Obama também teve seu confrontamento e papel direto no reino das ideias. À época das preliminares ainda foi abordado pela camapanha eleitoral de Hillary Clinton como um professor de palavras, sem experiência necessária para concretizar a mudança verdadeira. Obama contestou usando um discurso escrito com seu ex aliado político, Deval Patrick, entitulado “Só Palavras”, questionando se as palavras acima citadas, “liberdade”, “igualdade”, “fraternidade” e “paz” são mesmo apenas palavras. Como um bom democrata, seu ideal que aqui encontra o construtivismo é que palavras expressam ideias e ideias mudam o mundo. Por suas palavras ganhou o prêmio Nobel da Paz. As atitudes, no entanto, são outros milhões.

Fatidicamente, ao procurar uma melhor análise dos papéis de nações-estados, indivíduos e o cenário global nas relações internacionais, nos deparamos com dezenas – se não centenas – de ideias diferentes. O mesmo ocorre com a ilusão ótica democrática, pois todas não podem estar concomitantemente certas. O que o construtivismo oferece de diferente é justamente o reconhecimento quase exclusivo do papel das ideias na construção da realidade, e não vice-versa. Portanto, se as ideias de Nicolau Machiavelli ainda influenciam o pensamento realista neo-conservador nos Estados Unidos não é porque a realidade é “realista” e sim porque o “realismo” desses indivíduos, sociedades e governos alimenta a realidade.

E então, leitoras e leitores: Individuos podem mudar o mundo? Ideias podem mudar o mundo?

RF

PS:

Para quem quer ainda mais estraga-prazeres ou para quem viu o filme, linko
aqui um exemplo de "Inception" pelos quadrinhos de Tio Patinhas da Disney (Ingles).



Friday, January 22, 2010

Fim dos Dias nos Estados Unjdos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não tem um bom início de ano. Menos para o presidente e mais para a população, o ano trouxe más notícias mesmo pouco antes do desastroso terremoto no Haiti. Na mesma Terça-Feira que as escalas sismográficas anunciaram a destruição da maioria das construções na capital haitiana, timidamente os noticiários locais anunciaram a potencial vitória de um senador republicano ao assento por décadas mantido por democratas. O último e mais reconhecido e querido a usá-lo foi justamente Ted Kennedy, em Massachussets.

Pouco tempo antes de falecer de câncer cerebral, Kennedy pediu para que seu posto fosse emergencialmente substituído para que seu voto contasse no que diz respeito à reforma no sistema de saúde. Em parte por mérito do veterano senador, Obama conseguiu que ambas as casas do Congresso passassem uma reforma efetiva. Como foram duas legislações separadas entre a Casa dos Representantes e o Senado, a primeira ainda deveria aprovar as mudanças instituídas pela segunda.

No entanto, as eleições especiais para este assento, antes da temporada eleitoral de 2010, trouxeram uma surpresa ingrata. A candidata democrata, Martha Coakley, acabou derrotada pelo republicano Scott Brown por uma série de gafes cometidas, sendo ela uma promotora pública de grande confiança no estado, mas uma péssima amadora das relações públicas. Em debates e perguntas que, caso respondidas honestamente, alienariam qualquer base das “massas”, Coakley além de sincera foi insensível, tanto politica quanto humanamente.

Este seria o sextagésimo assento democrata no Senado, o que prometeria a desnecessidade de obter sequer um voto republicano para passar qualquer emenda legislativa. De fato, com sessenta votos Obama conseguiu a mescla legislativa da reforma ao sistema de saúde, sem a ajuda de nenhum republicano. Como a Casa dos Representantes liderada por Nancy Pelosi não aprova a nova emenda do Senado sobre a mesma reforma, Pelosi diz que não terá os votos para assiná-la.

Ou seja, a reforma requereria algumas mudanças críticas antes de assiná-la e repassá-la ao Senado para selar a versão definitiva. No entanto, o Senado, agora sem uma maioria absoluta, não aprovará nova emenda. Em poucas palavras, caso Pelosi não encontre esses votos, e caso os democratas não forem fiéis aos seus constituintes e aprovarem a emenda como estiver (segundo Paul Krugman, do The New York Times, a reforma como está é muito melhor do que nada), o país não verá nada de novo no sistema de saúde para os próximos anos.

Como se não bastasse, nesta passada Quinta-Feira (dia 21 de Janeiro), a Suprema Corte dos Estados Unidos conseguiu quebrar as restrições que antes proibiam grandes ou pequenas corporações de controlar o processo eleitoral, já que não podiam endossar candidatos publicamente, e eram restritas quanto ao dinheiro que podiam doar em campanhas. Tais restrições, segundo uma “maioria” de 5 votos a 4, evaporaram, e corporações, que desde meados do século 19 já eram tidas como pessoas físicas, agora poderão controlar seus candidatos.

Quando político qualquer cismar que quer fazer algo a favor do povo estadunidense e não das corporações, estas poderão simplesmente enterrá-lo no esquecimento midiático e investir todas as suas capacidades em outros candidatos. Interesses especiais poderão não só fazer o lobby básico, que já é permitido, mas também financiar seja lá quem quiserem. O próximo presidente dos Estados Unidos poderá ser, a menos que algo seja feito imediatamente, “um oferecimento de WalMart”, ou qualquer outra gigante multi-nacional.

A lei, ridicularizada pela mídia de esquerda nos Estados Unidos, ameaça a liberdade de expressão na “intenção” de protegê-la. Afinal, como corporações são pessoas físicas, seu direito de livre expressão não pode ser ameaçado. Ao menos esta é a lógica por trás do juízo. E quando corporações se sentirem ameaçadas por algum jornalista ou crítico do “status quo”, seja ele/ela democrata ou republicano, poderão eleger senadores, representantes, prefeitos, governadores e, enfim, legisladores a limitar o poder de expressão de seus críticos.

Seja como for, parece que o país de Sam está cada vez mais liquido, cada vez mais esguio, escorrendo pelo ralo do banheiro do mundo, até que alguém não o enxugue e jogue tudo pelo vaso sanitário de uma vez. Até agora Obama mostra-se pequeno frente à oposição, e as massas mostram-se cada dia mais estúpidas.

O futuro nunca foi tão incerto para o presidente e para todo o país. Carpe diem, porque logo mais, logo menos, poucos dias restarão.

RF

Tuesday, October 13, 2009

Respondendo ao Bagual

Jens pergunta:

"Oi Roy.
Li no Diário Gauche que a Casa Branca declarou guerra à Fox News: Anita Dunn, diretora de comunicações do Barack, disse à CNN que a Fox News opera, praticamente, ou como o setor de pesquisas ou como o setor de comunicações do Partido Republicano. "A rede Fox está em guerra contra Barack Obama e a Casa Branca, [e] não precisamos fingir que o modo como essa organização trabalha seria o modo que dá legitimidade ao trabalho jornalístico."
Que tal nos explicar com mais detalhes este imbróglio? Em termos de Brasil, seria como o Planalto do Palácio declarar guerra à Veja, ou seja, uma bomba arrasa quarteirão no campo midiático. Qual foi a repercussão aí? Os barões da mídia não saíram às ruas histéricos berrando contra o "cerceamento à liberdade de imprensa", como fazem as vestais da imprensa tupiniquim?
Minha curiosidade foi atiçada. Se possível, satisfaça minha sede de conhecimento (ou gossips, hehehe).

Um abraço."

Bagual, espero que não se incomode se respondo por aqui mesmo tendo o tema repercussões estritamente domésticas. Acho que nem para o pessoal brasileiro é mais mistério a ilegitimidade da Fox News, canal do australiano conservador Rupert Murdoch. Mesmo assim, você traçou uma comparação que não daria necessariamente certo nos parâmetros dos Estados Unidos.

Para quem não sabe, Murdoch lançou a Fox News como “a resposta contundente à mídia liberal” nos Estados Unidos. No entanto, ao contrário do Brasil, onde a mídia é extremamente concentrada entre algumas poucas grandes empresas (Globo, Diários Associados, Abril etc), sendo que uma ou duas revistas (Isto É, Veja) e um ou outro canal (majoritariamente a Globo) dominam a formação de opinião pública e fazem um único papel de oposição ao governo lulista, ou apoio a governos que se encaixam melhor, ideologicamente, ao próprio padrão desses meios de comunicação, aqui nos Estados Unidos a mídia é muito mais dividida, segmentada, muito mais expansiva e, ao mesmo tempo, muito mais capitalista. Explico:

Enquanto a Fox News atrai públicos republicanos e/ou conservadores, a MSNBC atrai públicos liberais e/ou democratas. A CNN, apesar de mais neutra, também sempre foi considerada liberal, e o mesmo se aplica ao The New York Times, The Miami Herald, The LA Times, The Chicago Tribune, e assim por diante. A maioria dos jornais, aliás, incluindo o próprio San Francisco Chronicle, jornal onde o grande Mark Twain escreveu algum dia em sua vida, tem uma tendência liberal. Poderiamos explicar isso com a própria sensação de obrigação da mídia em seu cerne, proferida por Joseph Pulitzer e seu “jornalismo amarelo”. Voltando à televisão (já que a CNN é comparada constantemente com o The New York Times), há ao menos três ou quatro canais (NBC, canais da Fox locais, CBS etc) competindo pelas notícias locais no estado e na grande cidade (no caso Miami, ou New York, ou Georgia etc). Além disso, sempre há um canal melhor reconhecido pelo público local por ser estritamente local (o canal 7, na grande Miami, por exemplo). Esses jornais são mais superficiais, em grande parte, mas também tendem ao lado liberal de questionar o governo e trazê-lo a juízo público. Acredito veementemente, Jens, que aqui a mídia é tão perfidiosa quanto no Brasil, mas por questões econômicas e pelo fato de que a maioria da midia estadunidense não está diretamente ligada a respectivos governos regionais, o que acaba ocorrendo é que alguém do governo, seja ele liberal ou republicano, especificamente em questões de moralismo social, sempre paga o pato.

Claro que a Fox não compete com esses canais. Compete com os conservadores econômicos da CNBC, com os liberais da MSNBC e com os veteranos da CNN. O grande problema é que sua total falta de compromisso com a verdade e opiniões que não poucas vezes incitaram a violência (contra homossexuais ou médicos aborcionistas, por exemplo), já atravessam a garganta da Casa Branca. Barack Obama não deu uma única entrevista a ninguém do canal (mesmo depois da insistência incansável de Bill O’Reilly, um dos âncoras renomados, à época da campanha presidencial), e após meses de calúnias e ataques incabíveis, esta Casa Branca resolveu contra-atacar. Foi a Fox News que lançou o movimento dos “birthers”, ou aqueles que questionam a nacionalidade de Obama. Foi a Fox News que incitou as famigeradas “festas de chá”, onde conservadores se reuniram para denunciar o “socialismo iminente do presidente nazista”. Foi a Fox News que emperrou o debate sobre a saúde estadunidense desde que lançaram os rumores de que Obama tinha “painéis de morte” onde burocratas decidiriam quem morreria e quem viveria depois de uma certa idade se precisasse de serviços médicos, entre outras barbaridades mentirosas.

Concluindo, pela primeira vez temos um presidente democrata que não está interessado em passar oito anos se defendendo na Casa Branca, como assim fizeram Bill Clinton e, antes dele, Jimmy Carter. O que a Fox News faz não é novo, mas depois do desastre político que causaram na Flórida em 2000, e agora com um presidente de caráter raro no palácio presidencial, o time de Obama está se divertindo em rechaçá-los, o que sim é novidade.

Tu sabes, Jens, que o capital é sempre o que mais importa aqui nos Estados Unidos e no mundo. Obama pode até conseguir avançar uma campanha contra a Fox News, mas não vencerá a disputa se sua intenção é censurar o canal ou tirá-lo do ar e, se conseguir fazê-lo, estou convencido de que isso não seria uma boa ideia. O maior problema é que liberais assumidos não frequentam a Fox, e conservadores assumidos raramente assistem a MSNBC (apesar de que assistem, massivamente, a CNN). Essa divisão faz com que as pessoas estejam apenas em contato com o que já concordam, o que considero problemático. Mas os desavisados hora ou outra caem em qualquer canal e acabam ludibriados pela Fox ou MSNBC. Portanto, as artimanhas da Fox continuarão enquanto tiverem espectadores, e sempre terão, provavelmente.

Monday, October 12, 2009

Xadrez Internacional

Estudar política como fosse a mesma política grega ancestral é uma perda de tempo e receita nítida para futura desilusão. Estudá-la como jogo de xadrez ou damas, por outro lado, não só faz mais sentido, mas corresponde melhor à realidade.

Nos Estados Unidos, enquanto o mundo (menos o Brasil - e pobre da Islândia) lidam com uma fantasmagórica crise econômica, o Senado e a Casa dos Representantes se degladiam para procurar alternativas ao sistema de saúde estadunidense. Conforme indicou a pesquisa da MSNBC:

65% querem uma reforma que inclúa uma opção pública.
Desses, 64% acreditam que a reforma falhará.
66% dos que acreditam que a reforma falhará querem então que o governo teça outra reforma sem a opção pública.

As perspectivas reais são tão nebulosas que o único plano (de cinco) que não engloba uma opção pública (que seria algo como um sistema único de saúde) foi o único a passar pelo comitê financeiro do Senado, e quase certamente será derrotado na Casa dos Representantes. Em via de regra, a Casa dos Representantes é mais liberal do que o Senado e, neste último, quase meia dúzia de senadores democratas se recusam a assinar qualquer plano que inclúa uma opção pública. Esqueçam maiores detalhes, sigamos adiante.

Logo das duas semanas passadas o presidente – lua-de-mel encerrada na Casa Branca – Barack Obama cambaleou em dois cenários internacionais surpreendentes.

O primeiro, a eliminação precoce da candidatura de Chicago às Olimpíadas de 2016. Quando Obama se sujeitou a ir talvez pensasse algo que antes não podia ser equacionado. O mundo não mais se impressiona pela mera presença dos Estados Unidos em qualquer comitê internacional. Ao menos, não é uma impressão definitiva. Indo a Coppenhagen, Obama talvez quisesse competir com maior garra e como um ás na manga, uma visita única na história presidencial do país. Perdeu a viagem. Em casa, foi extremamente criticado e zombado pelos republicanos, partido cada vez mais senil, perdido, sem intelecto, sem espinha dorsal e sem líderes.

O segundo instante surpreendente foi sua premiação ao Nobel da Paz. Que não me levem a mal, mas esse é o prêmio mais político do comitê. Al Gore não o merecia, e Yasser Arafat certamente não o merecia, como já comentei aqui em diversas ocasiões. Obama merecia? Pois, depende de quem pergunta. Se é o idealista apaixonado, não, não merecia. Se é o político frio e racional, sim, merecia, mas pode cair do cavalo tendo aceitado o prêmio e a honra.

Obama mudou a postura dos Estados Unidos perante o mundo. Apesar de não ter conseguido, ainda, praticamente nada de concreto, foi o primeiro presidente estadunidense a “seriamente” propor o desarmamento nuclear do planeta. Após oito anos da doutrina expancionista e isolacionista de George W. Bush, Obama anuncia uma postura de maior diplomacia e de maior alinhamento ao pensamento dos demais países do planeta. Mais do que tudo, enquanto o mundo muda, Obama é o presidente certo para mudar com ele. Mas, tornando-se um presidente de guerras escaladas, o prêmio se enche de vergonha e Obama carregaria os dois. Não tendo avançado sua política pacifista e diplomática, o mesmo acontece. Pode não ser muito, mas a história às vezes se esquece dos palhaços, vide Bush, mesmo os mais perigosos, mas jamais se esquece de ganhadores de prêmios Nobel.

Em casa, a base conservadora pirou. Deram piruetas aos ares, pularam embriagados, medonhos, não entenderam mais nada. Descontentes, chamaram o prêmio (conferido ao chefe de estado de sua nação amada) de vergonhoso. Discordando da postura filosófica do governo de Obama, deixam o patriotismo clássico de lado e assumem o fanatismo que quase rompeu os Estados Unidos em sua guerra civil há poucos séculos atrás.

Enquanto isso, no Sábado, o presidente democrata anunciou que começará a agir em duas frontes de direitos de homossexuais, transexuais e simpatizantes. Promete repelir a política de “não pergunte que eu não respondo” do exército estadunidense (que permite a presença de homossexuais, mas expulsa qualquer soldado que perguntar ou responder a pergunta afirmativamente). Também pretende acelerar os processos que visam legalizar a união civil e matrimonial entre pessoas do mesmo sexo.

Para Obama, na arena internacional o Nobel da paz signifca a abertura de uma porta magnífica, a possibilidade de vencer o debate com republicanos sobre a simpatia pública e o respeito legítimo ao presidente, e a arena doméstica com a intensificação da política de liberdade e igualdade de direitos humanos ganha a chance de distrair ainda mais a oposição confusa e finalmente concretizar a política da reforma no sistema de saúde do país.

Cheque... Só falta o cheque-mate.

RF

Friday, September 25, 2009

Ponto para o Brasil

A crise hondurenha mostra cada vez mais dentes em fúria. Desde a deposição do presidente Manuel Zelaya, Honduras volta a enfrentar um novo capítulo sangrento em sua história, e mais um capítulo sangrento da história Latino-Americana escreve-se nas paredes da embaixada brasileira.

Para os depositores, a ameaça de tornarem-se foragidos. Para a população, a desesperança de tornar-se súdita de um governo foragido. Caso sejam (e provavelmente deveriam ser) condenados por transgredir direitos humanos em seu país, agirão exatamente de acordo com o que diziam temer ao depor Zelaya. A justificativa do semi coup d’etat foi clara: Medo de que Zelaya consiga emendar a constituição hondurenha a favor de sua reeleição e permanência no poder.

Não que os medos dos opositores não seja real. Hugo Chavez, controversamente, logrou permanecer no poder através de emendas similares. Zelaya nega, obviamente, que tivesse essa intenção, mas a suspeita de seus opositores pode ser, em si, explicada. O que não é inexplicável, mas tampouco lógico, foi a deposição abrupta e apressada do presidente, que conseguiu retornar ao país depois de encontrar refúgio na Costa Rica.

Independente de qualquer formação política, a história Latino-Americana de ditaduras militares (tanto de direita quanto de esquerda) e de democracia ou escassa ou conturbada na região não é melhorada nem reformada pela crise atual. Com a emergência de países de orientação anti-capitalista/socialista como a Venezuela e a Bolívia, o território comprimido pode muito bem se tornar um barril de pólvora de pavio curto. Some-se a isso a revolta de opositores do governo de Zelaya e uma deposição militar, e temos uma receita quase infalível a uma bomba atômico-orgânica.

Portanto, a posição que Brasil assumiu nesse conflito serve de exemplo à condução hegemônica de suas relações intra-continentais. Muitos criticam o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por abster-se de uma posição mais rigorosa. Poderiamos, quiçá, justificar essa ausência na liderança de algumas maneiras. Uma delas, talvez a mais nebulosa, seria a relutância do presidente em assumir qualquer espécie de partido com um governo potencialmente esquerdista, como o de Zelaya. Outra, porque no momento a crise econômica mundial e a inter-dependência acirrada no mercado global; duas guerras nas quais os EUA estão presentes e afundados no Oriente Médio; problemas domésticos, incluindo a reforma no sistema de saúde do país; são todos fatores que impedem um envolvimento maior com países menos importantes no cenário global como Honduras.

Mas, finalmente, como diria Charles F. Doran, o sistema unipolar-multi-polar permite que o Brasil funcione como extensão dos Estados Unidos na América Latina. Segundo especialistas em relações internacionais, esta é a função da terra tupiniquim, estando ela pronta ou não para assumi-la. E esteve. Pronta, digo. Assumiu majestosamente sua função hegemônica a partir do momento que permitiu e concordou em abrigar Manuel Zelaya em sua embaixada em Honduras. Podemos argumentar que o Brasil nunca pensou arriscar-se com a empreitada. Afinal, o repúdio internacional já parecia obviamente delineado contra o agressor à democracia, no caso a oposição de Zelaya. Nesse mesmo tom, porém, argumento que justamente por não querer contrariar o movimento internacional, o Ministério de Relações Exteriores da administração de Luiz Inácio Lula da Silva encaixa-se, cada vez, no jogo dos maiores.

O papel da pressão brasileira ao Conselho de Segurança da ONU, agora presidido pelos Estados Unidos, foi e está sendo ainda fundamental no desenvolvimento das negociações. Roberto Micheletti e sua administração temporária podem realmente ser considerados transgressores, e fica claro que isso não seria positivo para a população hondurenha, ao mesmo tempo que a postura totalitária de sua administração precisa ser enfrentada e resolvida. Em poucas palavras, a possibilidade de uma guerra existe, mas a maior possibilidade, infelizmente, é que Honduras caia em um período incerto de ditadura militar. Brasil, nesse sentido, conseguiu atrasar o processo, ajudar a expor a gravidade do problema (tendo sua embaixada cercada e a eletricidade temporariamente cortada ajudaram muito), e contribuir para que as negociações possam ocorrer com o tempo e espaço necessários. A popularidade de Lula não prejudicou nem um pouco.

Já membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) podem tomar a situação de modo um pouco mais pessoal. Com a presença rotativa de México e Costa-Rica, únicos países no Conselho com os quais Honduras mantém relações diplomáticas, o Conselho ainda pode ter menores interesses em “atacar” Honduras com sanções e restrições a Micheletti e seu governo. Já a OEA, com maiores conflitos de interesse dentro da instituição, pode demandar essas sanções, e no intuito de resolver a crise, piorá-la.

Apesar da escuridão agora enfrentada e da incerteza de um potencial sucesso brasileiro nas negociações, o Brasil e o governo Lula marcam muitos pontos no ciclo de super-potências e dão mais um passo adiante na conquista dos direitos de jogar com os maiores. A importância e relevância de instituições será discutida no próximo texto, mas por hora, fica aqui minha opinião registrada: O Brasil está de parabéns.

RF

Monday, November 17, 2008

Obama e a Crise

A recessão econômica nos Estados Unidos afeta o dia a dia de pessoas comuns mais do que se imagina. Se por um lado o preço da gasolina abaixou dramaticamente nos últimos três meses, por outro, de desempregados em número recorde coletaram seguro-desemprego no mesmo trimestre.

Os desafios do século XXI são diversos, e sempre foram, em qualquer século. Talvez o incrível seja a repetição de erros humanos que, ao ocorrerem não eram estranhos ao comportamento de nossa espécie, mas ao se repetirem levantam enormes questões sobre nossa capacidade evolutiva. A natureza certamente tem seu tempo para corrigir suas próprias aberrações, criando outras no percurso, mas sempre lidando com seu ciclo em harmonia paradoxa ao ritmo da evolução do pensamento humano. Este, por sua vez, não tem ordem específica, e seu ritmo nem sempre leva ao rumo certo.

Há pouco tempo, vivíamos em um país que passou a aterrorizar segmentos de sua população mais do que qualquer ameaça terrorista concreta nos últimos sete anos. Hoje em dia nos concentramos nesse remoimento interno de inseguranças futuras às quais quase todos estamos vulneráveis. Enquanto as “guerras ao terror”, “ao sexo”, “às drogas” e “ao imigrante” apenas expandiram o foco, a construção de melhores valores deixou de ser prioridade.

A crise econômica pode levar as três grandes companhias automobilísticas estadunidenses à falência. Tratam-se da General Motors, Chrysler e Ford, que trarão seu caso ao governo ainda hoje de que parte dos $700 bilhões de dólares dedicatos ao resgate financeiro nacional seja a elas dedicada.

O presidente-eleito, Barack Obama, já pediu ao presidente George W. Bush que trabalhasse com seu poder executivo para forçar um pacto que as ajudasse. As três companhias terão de cortar sua força trabalhista a partir de 2009, e a questão não transcende de quantos serão cortados. Existe a possibilidade de que todos, enfim, sejam demitidos, e uma, duas ou as três grandes companhias automobilísticas nacionais escorram pelo ralo da semi-depressão.

Por outro lado, opositores do resgate dizem que a linha deve ser riscada, e os limites ao resgate de companhias privadas deve ser delineado. Isto, depois da semana em que o secretário do tesouro, Henry Paulson, mudou o plano original do resgate anunciando que não mais comprará propriedades condenadas, mas que injetará quantias maiores ao benefício de investidores. Também, após semanas intensas de discussões em torno de outro resgate parcial a proprietários às márgens de perder imóveis com melhores chances de pagá-los na íntegra caso o resgate venha a tempo.

Parte da polêmica envolve a qualidade dos produtos fabricados pelas companhias estadunidenses. São, no geral, carros com pouca milhagem pelo galão de gasolina, de qualidade e teconologia inferiores a carros importados do Japão ou Alemanha. Obama pretende atar qualquer resgate à demanda da fabricação de produtos mais tecno-ecológicos e duradouros, seguindo a filosofia de que “não se pode deixar uma crise sem aproveitar as oportunidades que esta traz”.

Faltando 63 dias para a troca de gabinete presidencial, as especulações do campo de Obama em relação a futuros planos de sua administração têm se tornado quase uma demonstração de falta de coordenação política, algo não visto na campanha do presidente-eleito. À semana passada, uma série de notícias veiculadas por supostos íntimos do time de transição presidencial ofuscaram a tranquilidade antes vista no horizonte do futuro homem mais poderoso dos Estados Unidos.

Porém, Obama, que hoje renunciou seu cargo como senador pelo estado de Illinois, terá de lidar com um momento crucial, com perdão pelo clichê, na história de uma das peças mais ativas do quebra-cabeças internacional. Resgatar ou não a indústria auto-mobilística tornar-se-á o primeiro teste do futuro presidente. Mais dinheiro público investido em mais resgates astronômicos para previnir a extinção de centenas de milhares de empregos parece, novamente, ser a única solução, mas a insegurança - especialmente com a mudança nos planos de Paulson, que agora preside autoritariamente sobre os $700 bilhões aprovados pelo Congresso, Senado e Presidente - prevalece.

E, novamente, nem contamos as feridas que a guerra no Iraque e Afeganistão causaram ao Oriente Médio e o papel dos Estados Unidos na resolução destas múltiplas crises. Hoje, a nação rói unhas e passa noites em branco sem saber quais ventos traz o amanhã.

Portanto, no momento não nos importa saber se Hillary Clinton ou o governador do estado de New México, Bill Richardson, serão secretários de estado da administração de Obama à não ser que a notícia seja definitiva. O que Obama pretende fazer tem de ser esclarecido, concretamente, o mais rápido possível, e se devagar, cautelosamente, que traga ousadia e firmeza quando venha. A nação não quer saber se o presidente fechará o presídio de Guantánamo Bay à não ser que seja este seu plano definitivo.

E, enquanto todos os receios acima mencionados nos assombram, a população gay protesta a injusta e, para mim, desumana decisão popular de banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornando um direito garantido pela constituição, ilegal segundo a mesma.

Do futuro presidente, seja justo ou o oposto, se espera mais habilidade, engenhosidade e seriedade do que se espera do atual. Infelizmente, a Crise e Obama caminham lado a lado a partir do dia 20 de Janeiro. Obama precisará estar fresco no cargo presidencial como foi à pele de candidato. O caos, afinal de contas, não está nada fresco.

RF

Tuesday, November 11, 2008

Procura-se Agilidade

O presidente-eleito, Barack Obama, encontrou-se com o presidente George W. Bush na tarde de Segunda-Feira para um reconhecimento de terreno do que será o novo escritório, a nova casa e o novo quintal do 44° presidente dos Estados Unidos, a Casa Branca.

Desde eleito, Obama foi ágil e, por enquanto, audacioso com alguns de seus selecionados, como o chefe de seu gabinete, o congressista democrata Rahm Emanuel, conhecido por seu forte caráter ao estilo de seu distrito em Chicago, Illinois.

Especulações a parte no que diz respeito à escolha de seu secretário do tesouro, ou a permanência de Robert Gates como secretário de defesa de sua administração, o que Obama já deixa claro nos curtos dias após eleito pela vasta maioria do país é que agirá com a mesma agilidade na mudança de perspectiva ao encarar os maiores problemas assolando a nação.

No encontro presidencial, Obama pediu a Bush que agisse prontamente ao resgate de indústrias automobilísticas como a General Motors, encarando a sombra de uma futura falência. Por outro lado, o resgate mais debatido é o tão necessitado ao estímulo do mercado imobiliário. Enquanto alguns especialistas pedem alívio aos bancos credores, a maioria atualmente fala de um auxílio iminente a compradores, incluindo uma orquestrada moratória a parte das retomadas bancárias por seis meses, estimulando a possível volta de compradores com melhores chances de arcarem com as futuras despesas de suas casas, além do crédito tributário.

Como bloguista, admito eternamente que pouco entendo de economia. Sei, porém, que o dono da casa onde vivo, mesmo sob administração republicana, paga taxas altíssimas e ainda maiores pelas casas alugadas a terceiros, já que não pode se beneficiar dos créditos dados a propietários moradores (a cláusula conhecida como “homestead”). Isto significa que propietários pretendendo alugar terão de incluir as altas tarifas de modo ou outro no preço do aluguel. Como King, eleitor assumido de Barack Obama, não quer afugentar seus clientes, acaba, praticamente, perdendo na transação. Aliás, uma das poucas comodidades baratas nesses dias inseguros da economia estadunidense é o preço de meu aluguel.

O mercado imobiliário, a indústria automobilística, a falência de credores e bancos populares são apenas alguns dos desafios imediatos do novo presidente. No encontro com Bush, o presidente-eleito mostrou-se confiante, comunicativo e cordial. O fato é que a transição suave e rápida deve ser a última e única façanha positiva de Bush, e a confiança de Obama é a mais necessitada.

Aparentemente, o presidente-eleito decidirá em breve o que fazer com o famigerado presídio militar na baía de Guantánamo, Cuba. Segunda-Feira pela tarde nasciam rumores de que Obama já havia decidido fechá-lo, conforme o prometido em seus tempos de campanha. Do mesmo modo, procurando borrar o capítulo obscuro do mandato de Bush, segundo fontes de sua equipe de transição, o novo presidente pretende abranger as pesquisas em células tronco embrionárias, com restrições e limites pré-determinados. A comunidade científica admitiu em vários artigos que espera ansiosamente o mandato de Obama.

De fato, muitos de nós, moradores deste “Império do Mal”, conforme chamado por alguns de meus amigos e amigas no Brasil, queremos distância da recente história bushista, e ansiamos um dia em que nosso governo interfira apenas onde é chamado e precisado, efetiva e não desleixadamente.

Outros de nós votaram pela iniciativa que proíbe o matrimônio entre homossexuais, e mesmo quando a união civil em termos de privilégios e convivência legítima perante a lei seja aprovada, muitos votaram para que esta não seja chamada de “matrimônio”. A “redefinição do casamento”, pregam, ameaça o fundamento e a verve moral de nossa sociedade.

Entre estes outros, uma grande porcentagem de brasileiros evangélicos ou cristãos viu-se incluída por princípios, novamente religiosos. Do mesmo modo, em comunidades políticas estadunidenses o ódio pela vitória de Obama demonstra que há muitos de nós dispostos a odiar o novo presidente incondicionalmente.

A agilidade de Obama é necessária, apesar de que já possa admitir não concordar, pelo pouco que entendo, com alguns de seus planos em relação à economia. Mas as demais mudanças talvez sirvam para semear mais tolerância do que ódio na cultura nacional.

Talvez, em questão de um mandato, a influência cultural de Obama seja imensa. Paul Krugman aconselha ousadia e persistência. É o que se espera, indubitavelmente, do novo lider da nação.

RF

Wednesday, November 05, 2008

Senhoras e Senhores, o 44º Presidente dos Estados Unidos: Barack Hussein Obama

A sensação

Foi uma noite linda.

Acompanhando, perplexo, desde as 5 PM, testemunhei uma corrida presidencial que começou às márgens estaduais de George W. Bush v. John Kerry, e transcendeu a façanha descomunal quando Barack Obama passou a vencer estado trás estado vermelho, até terminar com uma esmagadora maioria de Votos Eleitorais, e mais de sete milhões de votos a mais do que seu rival, John McCain.

Quando Obama venceu Ohio, a multidão que se assentava em Grant Park, Illinois, respirou aliviada. Mais de 125 mil pessoas ansiosas, à espera de um resultado diferenciado, finalmente puderam constatar que o democrata venceria em grande escala, conforme o esperado. O público republicano, insistindo na negação das pesquisas às vésperas das eleições, compreendia que a luta de McCain tornara-se mais complicada do que o desejado.

Assim que o senador democrata alcançou os 270 Votos Eleitorais, a população explodiu. Não falo apenas da qual assistia à televisão, os fãs de Obama acampando no bairro do Harlem, em New York, ou aqueles que ansiavam a chegada do futuro presidente, em Grant Park, Illinois. Falo de meus vizinhos, minha rua, a calçada de minha casa. Tudo se movimentava, todos gritavam, tiros, fogos de artifício, estalos de 4 de Julho, celebrando o dia em que os Estados Unidos provou ao mundo e a si mesmo que suas barreiras raciais foram derrubadas.

O país ainda enfrenta, enfrentará, conflitos raciais, e isto deve ser bem notado, mas para qualquer nação, o dia em que seu presidente possa ser branco ou negro, a muralha estóica é destruída, e a humanização de cada vez mais segmentos sociais ocorre paulatina, mas segura. Falta ainda a barreira feminista, mas até nesse ponto a imagem de um presidente diferente dos outros 43 passados, com um nome claramente estrangeiro, filho de imigrante e mãe solteira, órfão, criado com seus avos maternos, beneficiará a diversidade nacional, e a aceitação de toda e qualquer espécie de candidato.

Não é de se espantar que tenhamos visto o lider de movimentos sociais negros, Jesse Jackson, chorando em Grant Park. Ou Oprah Winfrey, debruçada sobre o ombro do acompanhante, completamente deslumbrada com o que via. Não é de se espantar que homens, mulheres e crianças tenham se reunido vividamente, como nunca antes na história de suas vidas, para lembrar que há 150 anos atrás qualquer deles podia ser escravo de outrem, e, hoje, um de seus representantes é o presidente da nação.

Nesta manhã, vindo ao trabalho, vi rostos felizes, sorridentes, crianças gritando o nome de Obama. É realmente algo lindo, puro e intenso. Inédito, em todos os sentidos. Os âncoras e apresentadores da noite eleitoral na CNN, MSNBC, NBC e Fox News mantiveram-se chocados por tanto tempo, que acredito que até agora a ficha não caiu. Aliás, está sendo lentamente absorvida pelo sistema digestivo da nação que arriscou, e espera o resultado da aposta.

Hoje acordo orgulhoso dos Estados Unidos. O povo mandou uma mensagem alta e clara ao seu governo. Resta esperar que o próprio povo saiba ser melhor, logo melhorar, as condições do país em todos seus setores. E, é claro, resta esperar a liderança de Barack, orgulhosamente Hussein, Obama.

A Batalha


O sucesso de Obama foi praticamente selado em duas frentes. Primeiro, garantiu a vitória em Pennsylvania, o único estado azul onde McCain tinha chances concretas de conquistar terreno democrata por uma série de desventuras ocorridas à época das preliminares. Logo, conquistou o estado vermelho de Ohio, e seus 20 Votos Eleitorais. Não havia um estretegista republicano sequer que não admitisse o que isto significaria ao candidato do partido conservador.

Em seguida, Obama conquistou Iowa, mostrando vantagens miúdas em outros estados vermelhos: North Carolina, Virginia e Flórida. O candidato democrata foi declarado vencedor em Virginia e Flórida aproximadamente às 11 PM, horário de New-York. North Carolina, com 100% dos votos contados, mostra uma leve vantagem do democrata.

O resto é história... Obama conquistou os vermelhos Colorado e New México, mas teve sua vitória anunciada quando varreu a costa oeste, vencendo na Califórnia, em Oregon e no estado de Washington. Neste momento, houve poucos habitantes nativos indiferentes à mudança climática. O senador pelo Illinois fazia história.

Democratas também venceram o Senado, ganhando 5 assentos, e mantendo a margem majoritária de 56 a 41 postos. No Congresso, democratas ganharam 18 assentos, aumentando a grandiosa margem da liderança de Nancy Pelosi com 252 a 173 representantes. A mensagem nacional é mais alta do que se imagina. O povo pode não ter dado aos democratas uma maioria indestrutível, mas outorga ao presidente e seu governo o direito de governar com folga em poder.

Barack H. Obama, presidente eleito, venceu por 338 a 161 Votos Eleitorais, com 39 ainda indecisos.


O Futuro

O futuro da nação é indefinido. A guerra no Iraque parece infindável, e a guerra no Afeganistão dá a impressão de sequer haver iniciado. A economia apenas esboça o que serão meses difíceis, de desempregos recordes e cortes orçamentais severos. Os eleitores esperam milagres, mas não podem se esquecer de que o verdadeiro milagre só pode, deve, promete vir do povo.

O futuro do blogue está selado. Até o dia 20 de Janeiro, dia da transição presidencial, minha casa será chamada de Obama e a Metaformose Nacional. Depois disso... Ora essa, depois disso, amanhecerá e veremos!

Abraxão a todos que até hoje me acompanham, e obrigado pela leitura.

RF

Thursday, October 30, 2008

Y la nave va...

Com a aproximação das eleições presidenciais, a maioria dos assuntos tratados já foram discutidos e repercutidos dezenas, centenas, milhares de vezes pelos anais da população, e aqui, no blog. Parece complicado encontrar algum tema que possa, realmente, relacionar-se como novo.

Quando comecei a escrever aqui, meu compromisso deveria servir também para explicar o que se ouve sobre a política externa dos Estados Unidos, mais do que sua economia. O que ocorreu foi que a guerra no Iraque caiu a segunda instância, e, a economia, reverberada em gestos pensamentais quase masturbatórios.

Há cinco dias da Terça-Feira que destronará George W. Bush depois de oito anos conturbados, a base de Barack Obama permanece fortalecida e, como era de se esperar, a base de John McCain tenta de tudo para apagar a desvantagem.

Segundo analistas políticos do The New York Times, CNN e MNSBC, o mapa dos estados favorece a Obama com margens tão avantajadas que McCain terá de fazer milagres para ser eleito. Milagres, no entanto, são a especialidade do partido Republicano.

Há quatro anos Bush esteve no programa de Tim Russert, Meet the Press, e disse que não estava preocupado. “Vencerei aqui,” disse o presidente, apontando a região do sudeste de Ohio, estado crucial em 2004, que pode reassumir o papel em 2008. Em Ohio, justamente, foram constatadas tanto em 2004 quanto às vésperas das eleições atuais, máquinas eleitorais disfuncionais e eleitores registrados tendo seus registros cancelados por irregularidades amenas, como erros de ortografia nos nomes ou sobrenomes dos “suspeitos”.

Mesmo assim, em North Carolina, onde o voto republicano sempre foi regra, Obama conseguiu inspirar um milhão de eleitores democratas novos a mais a se registrarem, comparados aos eleitores republicanos. A Geórgia, há pouco tida sólida para McCain, demonstra que pode virar em última hora. O mesmo ocorre com Indiana e Colorado, sem falar em Virginia, que conta com a presença de muitos negros, com a expectativa de que votem em maiores números à próxima Terça-Feira.

Caso McCain perder em todos os estados em que seu rival aparece liderando nas pesquisas, de nada lhe servirá levar a Flórida, Ohio ou North Carolina. A matemática de Votos Eleitorais lhe escapa às mãos, e o candidato republicano apenas pode contar com viradas, levar estados nos quais perde, atualmente, segundo as últimas pesquisas. Isto não é impossível.

Em clima de encerramento de campanha, Obama comprou meia hora ao ar em sete canais, entre eles a MSNBC, a NBC, a FOX e o BET. Sua propaganda política foi ao ar ontem, às 8 horas da noite, horário de Nova-York, em uma produção semi-hollywoodiana, na qual mostrou seus laços familiares, falou de sua mãe, seu pai, e mostrou o trajeto de três cidadãos de classe média em três estados disputados, Colorado, Flórida e Ohio. McCain esteve no programa de Larry King por toda a hora na mesma noite.

Porém, essa compra democrata está diretamente relacionada ao que se testemunhou de inédito neste ano eleitoral, a doação colossal em quantias de $15-30 dólares, por cidadãos comuns.

Desde que Obama desviou-se do que tinha sugerido inicialmente em relação aos fundos campanhistas públicos, e decidiu não usá-los nestas eleições, seu poder aquisitivo em campanha é quase o triplo de seu rival. McCain sentiu, mas tampouco utilizou seu dinheiro de modo sábio, procurando surrupiar estados classicamente republicanos mesmo perdendo por dígitos duplos nas pesquisas.

Usou Ayers, o Pastor Wright e ainda usa alianças comuns entre Obama e McCain a um ex representante palestino. Sobre impostos e economia o campo Republicano começou a discursar apenas na última semana. Porém, apesar de que seu campo afirma veementemente que suas pesquisas demonstram que McCain ganha terreno, não é o que constatamos.

A propaganda política de Obama foi pré-criticada por representantes republicanos como “elitista”. Engraçado, ou esse mesmo “elitismo” era usado por Adolf Hitler contra os judeus? Afinal, caso McCain tivesse o dinheiro, faria o mesmo, se não mais. E, de fato, aproveitou-se da entrevista no programa de Larry King para “alertar os consumidores sobre os produtos vendidos nesta propaganda".

Já Obama brincou em sua rally. Primeiro com um vídeo editado e distribuído entre o campo Democrata, mostrando uma corrida entre dois ciclistas na qual quem vencia tirou as mãos do guidão na última volta, caiu de bunda, e perdeu para o outro ciclista com o rosto colado de McCain. A mensagem: Não tirem as mãos do guidão! Vocês ainda precisam ir votar (algo que preocupa os democratas, apesar da explosão de novos eleitores). Além disso, constatou que “logo, logo McCain me chamará de comunista, porque eu compartilhava meus brinquedos no jardim de infância”.

Minha próxima postagem será na Segunda, antes da Super-Terça-Feira. Até lá, cintos apertados, que a nave vai.

RF

Monday, October 27, 2008

Reta Final

Faltam 8 dias para as eleições presidenciais. Barack Obama segue liderando, a cada dia passado mais sólido nas pesquisas nacionais e estaduais, e John McCain segue procurando reverter sua sorte.

McCain ganhou a fama de “Ás” por ter conquistado, em suas tantas eleições, o título nos últimos momentos de suas campanhas. Ninguém conluiu, até o momento, que Obama já ganhou.

O caso do prefeito Tom Bradley, que procurou a candidatura democrática ao Governo da Califórnia em 1982, ainda assombra as mentes dos analistas políticos. Bradley, negro, veterano prefeito de Los Angeles, vencia nas pesquisas gerais com boa margem, mas perdeu as eleições para o candidato George Deukmejian. De acordo com as pesquisas, grande parte da população branca dizia-se favorável a Bradley, mas de fato, poucos votaram pelo prefeito. O “efeito Bradley” é usado para explicar as diferenças consideráveis entre as pesquisas em boca de urna, e o voto concreto de cidadãos. O motivo é geralmente atribuído ao racismo.

O candidato republicano, contudo, não errou no tom de sua campanha. Não foram os ataques a Obama que o abateram, nem a escolha de Sarah Palin à vice-presidência, nem mesmo sua idade avançada. Seu histórico militar não o trouxe agouros, nem penúrias vieram de sua experiência no Senado.

O maior problema de McCain, ao meu ver, é que não seja, realmente, um “Ás” político. Tendo acomodado a filosofia de seu partido mesmo quando concorria contra George W. Bush, em 2000, McCain é, simplesmente, o piloto errado no carro errado para os tempos atuais.

Almoçando no restaurante da esquina de minha casa, disse ao filho da dona, amigo meu, Conrad Palmer, que Obama deveria vencer, mas se não vencesse, algo de muito errado há no sistema eleitoral.

“Em todo o país,” interrompeu um senhor que comia na mesa atravessada à minha. “Há algo de muito errado em todo o país.”

Apesar de concordar com o cliente do Palmer’s Seafood Restaurant, sei que existe grande parte da nação ainda fiel à economia republicana. Agora, com curto tempo antes da escolha final, meu veredito segue:

O partido Republicano atrái um padrão limitado de eleitores, entre ricos e pessoas de fé doutrinária. Os judeus que simpatizam com a filosofia conservadora se encaixam bem nos dois segmentos sociais. No entanto, há judeus democratas também, e muitas pessoas de fé, mesmo doutrinária, que têm se distanciado desta filosofia.

Esta distância já vinha ocorrendo antes das eleições, especialmente expressada nas eleições municipais de 2006, com uma maioria surpreendente de democratas eleitos ao Senado. Contudo, a partir de sinais mais contundentes da crise econômica alarmante, parece que poucos querem mesmo arriscar as mesmas idéias falidas de um governo que conseguiu, praticamente, desestruturar todo seu partido.

Quando McCain fala que Obama espalhará a riqueza da nação, usa-se de uma frase erroneamente dita pelo candidato democrata há algumas semanas. Em realidade, Obama apenas vai aumentar os impostos dos mais abastados e cortar os impostos da classe média a valores similares à época de Bill Clinton. Quando Ronald Reagan era presidente, a porcentagem do orçamento governamental baseado no “income tax”, imposto salarial, era quase três vezes mais alta do que o que Obama sugere a 2010.

McCain mesmo era considerado um “Ás” por posições como quando foi contrário ao corte de impostos sugerido por Bush há quatro anos. Logo retratou sua posição, e atualmente favorece ainda mais cortes tributários. E, para variar, esta é a jogada politicamente correta para um republicano. O partido não pode deixar de ser o que sempre foi, afinal, mesmo que “quando os fatos mudam,” há quem “mude de opinião” (John Maynard Keynes).

Com a crise aprofundando-se, a calma de Obama e o fato de jamais ter se movido, exatamente, da raíz de sua filosofia política, e McCain, por outro lado, usando jargões conservadores para compensar sua inaptidão econômica, errático e instável, foram os fatores que mais afetaram estas eleições.

O mundo enxerga em Obama uma pessoa “fresca”, de idéias nem tão novas, mas de postura madura, sincera, direta, um vice-presidente que carrega o mesmo prestígio de McCain, ou mais, em relações externas, e endossamentos essenciais, tanto entre republicanos quanto independentes.

Além disso, Obama teve mais dinheiro para gastar do que o partido Republicano, algo que o posicionou ao lado de presidentes concorrendo a reeleições em termos de organização campanhista. Desde as preliminares, os Estados Unidos tremeram por todos os cantos com recordes batidos de eleitores às urnas, e o senador por Illinois vive uma estação de celebridade, diferente das últimas corridas presidenciais.

Falta pouco para saber, enfim e finalmente, se os Estados Unidos está realmente pronto para alguma mudança. Que venha o 4 de Novembro.

RF

Friday, October 24, 2008

Estado a Estado

Por Bruno Venancio

Nos Estados Unidos, as pesquisas nacionais representam menos importância do que as pesquisas estaduais em eleições presidenciais.

Revendo o processo eleitoral no país, deixo aqui um retrato geral, faltando 11 dias às eleições:

Diferente do Brasil, nos Estados Unidos o presidente não é necessariamente eleito pela maioria do país.

O processo local inclui Colégios Eleitorais, que seriam proporcionais ao número de constituintes em cada estado.

Pela histórica margem partidária atribuída a, praticamente, todos os estados, o falecido Tim Russert criou a expressão “estados azuis” (democratas) e “estados vermelhos”. A quem possa, acompanhem o link do The New York Times para a imagem completa.

270 Colégios Eleitorais são necessários para a vitória presidencial. Em 2000, a Flórida, com seus 27 Colégios Eleitorais, daria a vitória ao candidato que a vencesse. Em 2004, John Kerry perdeu de George Bush por perder em Ohio, com seus 20 Colégios Eleitorais.

Aqui, demonstrarei a lista de estados, Colégios Eleitorais, e onde se encontra cada candidato há menos de duas semanas das eleições, segundo o jornal.

No total:

Barack Obama – 277 Colégios Eleitorais
John McCain – 185 Colégios Eleitorais.
Indecisos – 76 Colégios Eleitorais



Alabama: 9 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Alaska: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado da Governadora Sarah Palin.

Arizona: 10 Colégios Eleitorais: Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Arkansas: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Califórina: 55 Colégios Eleitorais: Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Colorado: 9 Colégios Eleitorais: Estado indeciso, apesar de vermelho.

Connecticut: 1 Colégio Eleitoral. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Delaware: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul (talvez o mais azul).
Flórida: 27 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Sempre foi considerado um estado potencial a ambos partidos.

Geórgia: 15 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.
Hawaii: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Seu estado natal e classicamente azul.

Idaho: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Illinois: 21 Colégios eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Indiana: 11 Colégios Eleitorais. Este estado está inclinado a John McCain pelas pesquisas, mas mesmo assim, foi posto em jogo por Barack Obama. Estado vermelho que, em algumas pesquisas, mostra McCain perdendo além da margem de erro.

Iowa: 7 Colégios Eleitorais. Estado inclinado a Barack Obama. Estado que, como a Flórida, não se enquadra radicalmente em nenhum partido.

Kansas: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Kentucky: 8 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Louisiana: 9 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Maine: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Maryland: 10 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Massachusetts: 12 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Michigan: 17 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado que não se enquadra a nenhum partido.

Minnesota: 10 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado azul.

Mississippi: 6 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Missouri: 11 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Montana: 3 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Nebraska: 5 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Nevada: 5 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Este estado, como Indiana, é vermelho, mas nestas eleições permanece indeciso.

New Hampshire: 4 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado não enquadrado no perfil de nenhum de partido.

New Jersey: 15 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

New Mexico: 5 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado praticamente azul, apesar de já ter caído para George W. Bush.

New York: 31 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

North Carolina: 15 Colégios Eleitorais. Estado indeciso. Estado classicamente vermelho, mas, mesmo assim, permanece em jogo.

North Dakota: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Ohio: 20 Colégios Eleitorais. Estado indeciso, e essencial a ambos candidatos.

Oklahoma: 7 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Oregon: 7 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Pennsylvania: 21 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado que tampouco se enquadra em padrões partidários específicos.

Rhode Island: 4 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

South Carolina: 8 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

South Dakota: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Tennessee: 11 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Texas: 34 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado de George W. Bush, vermelho.

Utah: 5 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Vermont: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

Virginia: 13 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado classicamente vermelho, mas agora inclinado ao democrata.

Washington: 11 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado azul.

Washington D.C.: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a Barack Obama. Estado azul.

West Virginia: 5 Colégios Eleitorais. Inclinado a John McCain. Estado vermelho.

Wisconsin: 10 Colégios Eleitorais. Inclinado a Barack Obama. Estado que não se enquadra a padrões clássicos partidários.

Wyoming: 3 Colégios Eleitorais. Sólido a John McCain. Estado vermelho.

Thursday, October 16, 2008

Nosso Maior Problema

“Mr. McCain said, ‘The whole premise behind Senator Obama’s plans are class warfare — let’s spread the wealth around’.” (The New York Times)

O terceiro e último debate presidencial foi o melhor, segundo analistas. Eu não o vi, confesso. Ao invés disso, assistia a Canarinho caminhando de um lado para outro em um campo grande e esverdeado, aparentemente acompanhando o jogo dos colombianos uns contra os outros, especialmente quando jogadores do mesmo time se cabeceiam ao alto.

Porém, assisti alguns argumentos, logo a reprise de grande parte da discussão entre os candidatos republicano e democrata, e as análises da MSNBC e CNN, além do artigo recente no The New York Times.

A frase que, para mim, resume o que deveras é considerado e tratado como o tema central dessas eleições, a economia, está postada acima.

“McCain disse, ‘Toda a premissa por trás dos planos do Senador Obama é guerra de classes – espalhemos a riqueza [por toda a nação]’.”

Essas palavras me remetem imediatamente à cena que testemunhei ontem quando visitei minha ex professora de escrita criativa, Lisa Shaw, enquanto dizia a um aluno que ele não podia sequestrar a aula falando de propostas econômicas liberais como se tivesse o conhecimento e a experiência necessários para tanto.

“Eu posso concordar contigo,” disse Shaw, “o que não significa que a maioria da nação não discordará de ti, e você não tem o cacife para professar uma teoria econômica, e mesmo se tivesse isso não faria a menor diferença, as pessoas não querem ouvir de ninguém, ‘você pagará pela minha educação, pela minha saúde, pelo meu bem estar mesmo se eu estiver desempregado’. As pessoas querem cuidar da própria vida, de suas propriedades, e ninguém quer saber de ser forçado a contribuir com o resto da sociedade, isso é automaticamente taxado de comunismo.”

Shaw tem razão. O país não elegeria Bush duas vezes caso não tendesse a concordar com esse raciocínio, que não deixa de ser válido, só deixa de ser capitalismo. Mas esse nem é o maior problema. Bush também venceu duas vezes porque, conforme diz Rachel Maddow, democrata e âncora da MSNBC, “o sistema eleitoral é partidário, e os democratas têm duas opções, a primeira é ofender-se e exigir mudanças, a segunda é atuar partidariamente e reformar as leis eleitorais”. Os motivos para descartar novos eleitores multiplicam-se com a aproximação do 4 de Novembro, enquanto cá nos situamos.

Mesmo assim, esse não é o maior problema.

Os chavões atráem a mente de cidadãos comuns. Respondi a Shaw que esse movimento da “direita” do país não é racional, não faz sentido, é baseado em sentimentos. Baseio meu raciocínio no fato de que as pessoas não têm a menor idéia do que o “DOW” significa, mas todos querem que o “DOW” feche em alta, mesmo que o preço da gasolina esteja diretamente ligado a essa alta, e que aumente caso a bolsa começar a lucrar demais. Na mesma nota, há pessoas pedindo o fim do chamado Tributo Mínimo Alternativo, que já foi bloqueado e que pode tornar-se permanente a partir de 2009, mas esse tributo só atinge pessoas que ganham mais de $250 mil dólares anuais, e quem reclama ganha menos de $40 mil.

Ainda acredito, espero que não ilusoriamente, que o país procura, de fato, mudanças concretas em sua filosofia. Também acredito que a força liberal e democrata é crescente, o que significa que há mais pessoas deixando de pensar com o lado esquerdo, e menos deixando de pensar com o lado direito do cérebro.

Contudo, a filosofia central da nação nos últimos anos foi de redistribuição de verbas, sem a menor dúvida, só que “para cima” na pirâmide social. Os poucos ricos ficaram mais ricos, e os muitos pobres ficaram mais pobres. Todos sabem onde a classe média tende a parar nessa roleta russa.

Aqui sim, consta o maior problema. As pessoas votam contra seus interesses econômicos, conforme disse Barack Obama há alguns meses atrás. Apóaim-se nas armas (emenda constitucional defendida por republicanos), e em outros temas moralistas como, justamente, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As classes menos abastadas, menos educadas, e mais centradas geograficamente, o que as distancia de imigrantes e variações culturais e os aproxima da base tradicional da nação, votam constantemente a favor de cortes tributários que jamais os beneficiarão.

Por que isso ocorre?

Posso opinar, mas eu, também, não tenho cacife para determinar uma circunstância, portanto julgue-o quem quiser, como quiser, de acordo com seus próprios critérios.

Para mim, isso é baseado em uma guerra que tornou-se não só entre a esquerda e a direita, mas entre uma filosofia que é basicamente socialista, e outra que não passa de pseudo-capitalista. Esclarecendo, e para quem me conhece isso pode ser evidente, discordo da premissa socialista que dá ao estado a autoridade sobre os projetos de desenvolvimento social. Porém, mesmo entre os esquerdistas intelectuais mais extremos, o indivíduo de menor poder está mais propenso a receber atenção social do que seu oposto. Já entre o clássico direitista, o estado é o demônio (concordo, em grande parte), o dinheiro a “mim” pertence, mas desse dinheiro nada nasce, nada cresce, nada se reproduz para a sociedade que não empregos muitas vezes medíocres com sub-salários, sub-benefícios e sub-futuro.

Há exceções, e assim sendo, mais do que se imagina. A maioria, contudo, comporta-se além do capitalismo de Adam Smith. O máximo ao qual conseguem agarrar-se é a economia de Ronald Reagan, que projetava prosperidade às classes menos abastadas através do fortalecimento das mais abastadas. Apesar de não sermos árvores, acredito que a metáfora é válida. Seria como fortalecer a árvore pelas folhas. Ninguém, contudo, quer efetivamente dar do seu dinheiro a investir em projetos sociais necessários, mesmo que concordem com a importância dos mesmos, e odeiem pagar impostos.

Assim sendo, como poderemos chegar ao século 21 sem a mentalidade do século 18? Continuaremos discutindo sobre o preço de nossa civilização, atribuindo culpas, farpas e pizzas a outros que não nós mesmos. Continuaremos pensando que o dízimo apazigua nossas culpas. Esse sim é o maior problema: Quando a sociedade é contra a redistribuição de verbas aos mais necessitados, mas favorece fervorosamente o redistribuição de verbas aos que causam grande parte das necessidades.

Obama, para mim, vence apenas por comparecer ao debate. Ainda assim, não representa a solução evolucionista necessária.

RF

Monday, October 13, 2008

Aquele ali, e a Zebra

Se alguém assistiu o último debate presidencial nos Estados Unidos deve ter percebido que John McCain, ao responder uma das perguntas de Tom Brokaw, referiu-se a Barack Obama como “aquele ali”. “Aquele ali” pode até parecer um termo leviano, mas até mesmo eu, branquelo, percebi não racismo nas palavras de McCain, mas nos ouvidos de muita gente.

Puff Diddy (nota: Acho sempre engraçado quando assisto jogos entre a Canarinho e outros times, porque enquanto na Canarinho temos o Kaká, o Dudu, o técnico Dunga etc., em outros time há o John, o Scott, o Juan Román etc. Os apelidos são realmente de matar, mas esse apelido, “Puff Diddy”, é para mim o mais ridículo de todos) produziu um vídeo para seu blogue que criou um pequeno movimento entre os democratas com o lema “eu voto naquele ali”. O rapper caçoou de McCain dizendo “velhinho, nós estamos em 2008, não em 1958!” “Aquele ali” é uma clássica referência racista.

Ao fim da semana passada, em uma assembléia republicana, uma senhora levantou-se e disse a McCain: “Nós temos de enfatizar que Obama é árabe. Não podemos votar em um árabe.” O candidato respondeu: “Obama não é árabe, e tem todas as qualificações humanas para ser um bom presidente.” Seu rival democrata agradeceu horas depois.

Esse foi o fim das campanhas negativas de McCain. À semana passada, Obama chegou a ficar 11 pontos percentuais adiante de McCain. No início da semana estava a sete pontos em vantagem, e hoje, oito dias depois, a pesquisa voltou aos sete pontos. O senador pelo Illinois desistiu da estratégia “Karl Rove”, talvez especificamente depois de ter de defender seu rival para que seus ataques não se tornassem escalada xenofóbica, ou talvez apenas pelo resultado escandaloso das pesquisas, que não o favorecem nem depois dos debates, nem depois do debate de Sarah Palin e Joe Biden, e nem mesmo com os ataques negativos, que já surtiram mais efeito.

O fato é que agora McCain passou a ser a “zebra” da disputa, e sua afirmação como candidato passa a ser similar à de Obama, quando teve de contar aos eleitores de onde vinha, e que era honroso e talentoso o suficiente para merecer seus votos.

Faltam três semanas. O debate desta Quarta-Feira será o último. Se o candidato republicano pensa que a mídia “já o descartou” como reclama, está enganado. Os sete pontos são justos e curtos para que o efeito racista seja realmente eliminado na data das eleições. As campanhas negativas devem diminuir, em vez de aumentar.

Contudo, “aquele outro” é, para todos os efeitos, o “um” da vez. O “outro”, “aquele ali”, desde praticamente o início das preliminares, e logo das campanhas às eleições gerais, é John McCain.

Volto ao comentário da Santa quando da nomeação oficial de Barack Obama à candidatura oficial pelo partido Democrata. Santa disse que a mídia, e logo eu, classificávamos a nomeação como histórica “mesmo antes de ter acontecido”. Senti a mordida, e logo vi o texto antagônico em seu blogue, como se Obama e Lula fossem quase a mesma gente.

Pois, o “histórico” referia-se à nomeação, mas acho que a mordida referia-se à candidatura presidencial. Meu histórico baseou-se na realidade, e a mordida baseou-se em uma rígida opinião (falsa). Essa rigidez precisa amolecer urgentemente.

Faltando apenas três semanas para as eleições gerais, depois de um ano de comentários, mas mais importante, de aprendizado, de leituras, de engajamento, de questões respondidas, outras ainda não compreendidas, e muitas, muitas, mas muitas mesmo, discussões políticas, algumas civilizadas, outras violentas; depois de um ano de política estadunidense, posso afirmar de boca cheia que Obama não precisa vencer, nem precisaria, para que sua candidatura fosse considerada histórica.

Mesmo que Obama não mereça a presidência (para mim, merece mais do que McCain), mesmo que não seja uma figura exemplar de honestidade e santidade, mesmo que tenha menos virtudes do que sua eloquência, a história está feita, escrita e assinada. Melhor, não é mérito de Obama, mas do povo americano.

Sei que em minha platéia haverá cinicos pensando o demônio daqui. Estupidez, perdão. Repito: estupidez, e assunto encerrado. O que não é estúpido é que há trinta, quarenta, cinquenta anos atrás as pessoas ainda tinham o direito de dizer que odiavam negros sem a menor repercussão social. Podiam dizer que “negro bom é negro morto” e ainda vingar dentro do politicamente correto. Pretos escolados eram contados com dedos de uma mão. Apesar de muitos auto-ditadas, eram ainda tidos marginais. As escolas ainda praticavam a política de Jim Crow, segregadoras, e no sul do país era tão comum quanto caçar, linchar um negro andarilho solitário.

Hoje, aquele que foi soldado, herói nacional pelos seus valores mais arcaicos, aquele que não só é branco, mas “de boa família”, propietário de 13 casas, 11 carros, e uma esposa herdeira de milhões de dólares limpos, senador há duas décadas e quase meia, ex-prisioneiro de guerra, é realmente a “zebra” dessa corrida. Se McCain vencer será mais surpreendente do que a vitória de George W. Bush sobre um outro caucasiano WASP, Al Gore, e do que a vitória de Bush Junior sobre outro herói militar, John Kerry.

Hoje, o negro, filho de imigrante e mãe solteira, cuja avó branca ainda admitiu ter medo de negros, é o principal candidato desta disputa. Terão de falsificar muito, impedir muitos votos e mentir muito nas pesquisas para que McCain as apague, ou algo como o que ocorreu com Hillary Clinton em New Hampshire deverá suceder novamente (as pesquisas, na média, erraram, historicamente, em raríssimas ocasiões).

McCain ainda pode muito bem vencer. Faz pleno sentido, e espero que os democratas o entendam com a profundidade necessária. Mesmo assim, estas eleições foram, desde o início, fadadas a pertencer “àquele ali”.

O país tem seus defeitos, e sua população tem dos seus, mas isso é inédito na civilização ocidental, aquela que Mahatma Ghandi ainda disse ser “uma boa idéia”.

RF

Friday, October 10, 2008

“A economia esmaga a raça”.

Por Bruno Venancio


“A crise corrente começou com a explosão da “bolha imobiliária”, que levou a uma grande quantidade de hipotecas não pagas, logo a grandes perdas de muitas instituições financeiras. O choque incicial criou efeitos secundários, enquanto a falta de capital fez com que bancos se retirassem do mercado, levando a declínios ainda maiores nos preços das propriedades, o que originou mais perdas, e assim por diante – um circulo vicioso de “desvalorização”.

A queda livre acelerou depois [do fracasso] de Lehman. Mercados monetários, já em problemas, efetivamente se fecharam – uma das frases circulando atualmente é que as únicas coisas que as pessoas querem comprar agora são notas do Tesouro e garrafas de água.

A resposta a essa queda livre da parte dos dois grandes poderes do mundo – os Estados Unidos, em um lado, e as 15 nações que usam o Euro, do outro lado – foi terrivelmente inadequada.”

Assim explica Paul Krugman, em sua coluna de hoje no The New York Times. Depois de explicar que os líderes dos Estados Unidos, incluindo Henry Paulson, secretário do Tesouro, falharam em formular um plano conciso e intelectualmente são para reafirmar a economia da nação, ao mesmo tempo ajudando a evitar um colapso mundial da bolsa de valores, Krugman afirma que um novo plano de resgate deve ser concluído nesse fim de semana.

“Por que nesse fim de semana? Porque ocorrem dois grandes encontros em Washington: um encontro com os principais oficiais financeiros de grandes nações desenvolvidas, na Sexta Feira; e logo o anual encontro do Banco Mundial/Fundo Monetário Internacional ao Sábado e Domingo. Se esses encontros terminarem sem ao menos um acordo em princípio a um resgate global – se todos forem para a casa com nada mais do que vagos pensamentos de que eles pretendem continuar controlando a situação – a oportunidade de ouro terá sido perdida, e a queda livre pode facilmente piorar.

O que deve ser feito? Os Estados Unidos e a Europa devem dizer, ‘Sim, Primeiro Ministro.’ O plano Inglês (injetar 50 bilhões de euros no mercado) não é perfeito, mas existe o acordo geral entre economistas que [o plano] oferece de longe o melhor cenário disponível para um resgate abrangente.

E o tempo de agir é agora. Você pode pensar que as coisas não podem piorar – mas elas podem, e se nada for feito nos próximos dias, elas vão piorar.”

Sei que transcrevi e traduzi quase toda a coluna de Krugman, mas para quem ainda queria, aqui, uma melhor explicação sobre a atual situação econômica, o encontra melhor nas palavras de Krugman.

Tendo dito isto, passo ao que mais me vale.

Pela segunda vez consecutiva na semana que ainda passa, Barack Obama vence John McCain nas pesquisas do Gallup por 11 pontos percentuais (52-41%). Resultado este que inclui pesquisas conluídas ontem, depois do segundo debate presidencial, e após uma semana inteira de ataques ao caráter de Obama por associação.

Em um “townhall” (vide explicação no sidebar do blogue), McCain foi confrontado por um eleitor que o implorou (literalmente) a levantar a associação do pastor Jeremiah Wright, o ex terrorista doméstico William Ayers e qualquer outra pessoa suspeita na vida do candidato democrata, no próximo e último debate a ser conduzido entre os principais candidatos à presidência.

Faltando 25 dias para o 4 de Novembro, a campanha de McCain, consciente de que perde quando o assunto é economia, desviou-se do tema para tentar plantar a semente da dúvida em eleitores independentes ou indecisos. Por enquanto, o plano não só não funciona como passa a levantar questões sobre McCain e sua vice, Sarah Palin, que sem isso não teriam levantado.

Joe Biden, vice-presidente no bilhete democrata, disse a uma platéia de sua base que “McCain não teve a coragem de olhar nos olhos de Obama e atacá-lo por Wright ou Ayers [no segundo debate],” e concluiu, “de onde eu venho, se você tem algo a me dizer, diga olhando nos meus olhos!”

As associações de Palin ao Partido Separatista do Alaska, incluindo seu auxílio como prefeita e governadora outorgando certos cargos a oficiais da organização que, segundo diversas fontes, tornou-se antro de racistas e xenófobos de todos os estados do país, emergem enquanto Palin tornou-se ícone da separação partidária que assola o país há décadas. Segundo o conservador David Brooks, Palin representa a explícita divisão, rancor e ressentimento entre as classe mais e menos “educadas”. Seu orgulho caipira, em outras palavras, poderia ajudar o candidato republicano em outras eleições, talvez há alguns muitos anos atrás.

Meu palpite:

Sarah Palin não só não ajudou a McCain, mas é o principal motivo de sua queda nas pesquisas. O fator racial ainda deve ser analisado, mas por enquanto Obama parece vencer apesar de qualquer racismo. Esse é o moto de nossos dias: “A economia esmaga a raça”.

RF

Tuesday, October 07, 2008

Sujeira no Ar

Desde o início das campanhas às eleições gerais, o candidato democrata, Barack Obama, viu-se derrotado de acordo com o Gallup em apenas duas ocasiões. A primeira, em uma pesquisa realizada um pouco antes das convenções partidárias em Agosto e Setembro, e a segunda, depois da convenção republicana, esta por uma semana consecutiva. Empatados estiveram, ao menos tecnicamente, em maior parte das pesquisas desde Julho, mas a margem de vitória por dois, três ou quatro pontos percentuais pertencia a Obama.

Há dez dias consecutivos Obama vence seu rival republicano, John McCain, por uma margem de sete a nove pontos percentuais. A crise econômica é, em parte, o que mais impulsionou a campanha democrata nas últimas duas semanas.

É por isso que o campo de McCain em múltiplas vozes decidiu que continuar falando sobre a economia seria péssimo negócio ao candidato conservador. A estratégia, agora, voltou-se a fazer o que Hillary Clinton tentou, sem sucesso, nas preliminares: difamar Obama por associações.

“Quem é o verdadeiro Barack Obama?” Perguntou McCain, ontem, enquanto realizava uma de suas rallies populares. Da platéia, um eleitor inconformado respondeu: “Um terrorista!”

“Eu li no The New York Times, já que a mídia liberal demonstrou interesse em minhas fontes, que Obama é camarada do terrorista doméstico, William Ayers.” Reforçou Sarah Palin, candidata à vice-presidência de McCain a um grupo distinto, na Flórida.

A nova propaganda política desenha a mesma imagem, a incerteza da lealdade de Obama ao seu país, suas conexões com o pastor Jeremiah Wright, e sua amizade (Obama serviu em um evento caritativo ao lado do reformado Ayers, que já planejou bombardear a Casa Branca, mas que passa sua vida agora como um membro semi-funcional da sociedade) com William Ayers.

O fantasma de Clinton volta a atacar. Afinal, foi ela que abriu as portas com os primeiros ataques, originando o desvínculo de Obama com a igreja de Wright, e forçando-o a explicar, em público, que tinha oito anos de idade quando Ayers realizava atos terroristas, e que serviu com o mesmo por alguns dias em um navio muitos anos depois, sem sequer tê-lo reconhecido em princípio.

Novamente, o rumo é de campanhas negativas. Não surpreende, nem um pouco. Faltando 28 dias para as eleições gerais, McCain encontra-se em um buraco escorregadio, perdendo em estados cruciais como Ohio, Michigan, Minnesotta, Flórida e Pennsylvania por margens crescentes. Mesmo tendo ele explicitamente prometido não recorrer a campanhas negativas há cinco meses atrás, nenhum político são é de ferro.

Obama provavelmente faria o mesmo, recorrendo a aspectos negativos da famosa “estratégia” (não tática, estratégia!) de McCain em relação ao futuro do país. Mas, será mesmo que Obama atacaria, por exemplo, os anos de serviço militar do senador pelo Arizona, questionaria sua sanidade devido à idade, ou suas amizades com pessoas controversas, como o pastor John Hagee? Duvido. Se o quisesse fazer, já o teria feito.

O fato é que o senador democrata, assim que soube das intenções do campo rival, lançou seu contra-ataque. McCain agora é lembrado pelo incidente envolvendo Charles Keating Jr., um credor que, segundo artigo do The LA Times, “enchia os cofres de cinco senadores” nos anos 80, incluindo John McCain. Quando o governo começou a questionar a legitimidade dos empréstimos de Keating, o mesmo recorreu aos cinco senadores para que o ajudassem.

O caso dos famigerados Keating-Cinco foi, segundo McCain, o pior de sua vida, incluindo o tempo passado como prisioneiro na guerra do Vietnã. “Os vietnamitas,” disse no mesmo artigo, “não questionaram minha honra.” Keating foi preso, mas logo solto por detalhes técnicos, e os cinco senadores viveram anos intensos de investigações éticas. Tanto John McCain quanto sua esposa, Cindy McCain, receberam benefícios equivalentes a milhares de dólares de Keating, e Cindy chegou até a investir em um centro comercial que pertencia ao empresário. Nenhum centavo desse dinheiro foi ressarcido, e Keating custou ao governo por suas práticas ilegítimas 2.6 bilhões de dólares. McCain foi convicto pelo comitê ético do senado, e seu juízo comprometido, o que o arrasou, pessoalmente, por muitos anos.

Porém, o que mais me espanta não é McCain, ou sua esposa Cindy, culpada, no passado, de ter roubado medicamentos de uma caridade que ela mesma fundou em benefício de crianças africanas. O que mais me espanta é que Palin, uma fanática religiosa que disse, há pouco, que “ainda verei a Jesus em minha vida nesta Terra”, praticou exorcismos contra bruxaria, e chegou até a atribuir os crimes e a imoralidade de sua cidade enquanto prefeita a uma cidadã estrangeira à qual chamava de Bruxa, que é apoiada (e apoiou) [por] um grupo separatista do Alaska criado por um personagem que diz “odiar a América” com todas as forças, consiga não explodir em pleno palco quando fala das associações de Obama.

Pois, caros amigos e amigas, o país se vê em grande crise. Há alguns dias, o banco que preparava a retomada da casa de uma senhora de 90 anos de idade perdoou sua dívida porque a senhora, quando soube da expulsão, tentou se suicidar disparando-se um tiro. Sobreviveu e agora se recupera em sua própria casa. McCain decide falar sobre terrorismo. Sim, porque é muito comum que um senador seja amigo de terroristas, obviamente. Muito mais comum que amigos de terroristas não sejam vetados para a candidatura presidencial.

Oxalá o processo de escolha do vice-presidente fosse o mesmo. Caso assim fosse, Palin jamais seria considerada, à não ser por, voilá, terroristas. De todos os modos, menos tenho contra McCain do que por seu juízo completamente comprometido quando a escolheu ao bilhete. Ela tornou-se o Bush depois de Bush, a pior das escolhas possíveis e imagináveis já vistas nesta Terra. Seria menos insólito que Aécio Neves vencesse a presidência com Fernando Collor no bilhete, do que o que vimos no processo presidencial aqui, nos Estados Unidos. Nada me enerva mais, e a nada repudio mais do que a existência de Palin no bilhete republicano.

Quanto aos ataques negativos… Falta pouco. Amanhecerá…

RF