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Monday, March 29, 2010

Mortes Racionais

Já demorava algum tempo, surpreendentemente, desde que despertamos pela última vez a ouvir as notícias tenebrosas à televisão: Mais um atentado terrorista devasta uma cidade estrangeira. Conforme afirma o prefeito de Moscow, Yuri M. Luzhkov, há evidências imediatas que indiquem que as supostas irmãs gêmeas suicídas sejam do norte do Cáucaso, rebeldes chechenas, região problemática para a Rússia e que já gerou escandâlos internacionais e conflitos fronteiriços na era de Vladimir Putin. No dia 3 de Setembro de 2004, rebeldes chechenos invadiram uma escola em Beslan, na Ossétia do Norte, matando mais de 300 pessoas, majoritariamente crianças. Os ataques por grupos chechenos clamando independência total do julgo da Rússia e a desocupação de seus territórios pela tropas do país não são raros, e os motivos dos conflitos estão longe de uma resolução satisfatória para ambos lados.

Há duas perspectivas vigentes quando o assunto é terrorismo. A primeira, por Robert A. Pape, busca comprovar em base de dados colhidos a partir de 1980 que a maioria dos terroristas não são extremistas religiosamente; não são jovens ignorantes cuja mente pode ser “lavada” facilmente por figuras influentes em suas respectivas comunidades; não foram diagnosticados, e não apresentam sinais de transtornos mentais; foram geralmente educados a nível superior ou técnico antes de aderirem a grupos terroristas; e que a intenção principal (ou, segundo Pape, o valor estratégico) dos atentados suicídas é muito mais cultural, sócio-econômica e geo-política do que religiosa. Marc Sageman não discorda das características e personalidades acima citadas (em níveis na casa dos 50-60% dos pesquisados), mas conclui que a religião tem sim um papel essencial e providencia uma base transcendental à justificativa e ao valor pessoal percebido em ataques suicídas.

Segundo Pape*, analista de relações externas norte-americano baseando-se em uma pesquisa estimulada pelos acontecimentos inesquecíveis do 11 de Setembro de 2001 em Nova York, o crescimento do terrorismo pode ser atribuído ao fato de que “atentados moderados produzem concessões moderadas”. Para Pape a atividade desses grupos tem um objetivo comum: Combater a ocupação imperial (na maior parte dos casos física, como no caso de tropas russas ocupando a Chechênia ou tropas israelenses ocupando a Faixa de Gaza ou a Cisjordânia), e retomar o senso nacionalista que unifica povos através de uma identidade cultural e étnica comum em fronteiras delineadas.

Assim, Pape traça alguns exemplos históricos de concessões que, segundo evidências um tanto quanto obscuras (e Pape admite isso, de certo modo), parecem coincidir com uma série de atentados terroristas. Hamas, por exemplo, pressionou Israel a desocupar a Faixa de Gaza enquanto já havia assinado o Acordo de Oslo com a Organização para Libertação da Palestina de Yasser Arafat. A intenção, segundo oficiais do Hamas, era levar a cabo cinco ataques terroristas no cerne israelense, mas apenas dois foram necessários. Apesar do acordo, Israel havia ignorado os dois prazos úteis para a desocupação e, Pape conclui, após os dois ataques, a retirada militar ocorreu. Para Pape, o aumento não só do número de atentados, mas de sua natureza violenta advém de pequenos, mas significantes sucessos das causas dos variados e ultra segmentados grupos terroristas. A maior falha estratégica desses ataques passa pelo excesso de choque. Pape diz que “atentados extremos não parecem findar em concessões.”

Sageman procura comprovar que a maioria das concessões citadas não foram nem duradouras nem atribuíveis aos ataques mencionados. Israel ainda voltou a ocupar a Faixa de Gaza na segunda intifada, fato que Sageman usa para fomentar sua conclusão de que ataques suicídas não são necessariamente baseados em um senso estratégico concreto, nem baseados em concessões que para o psiquiatra criminal simplesmente não ocorrem.

O limite que Pape delinea serve para aumentar a necessidade de encontrar qualquer motivo para justificar, empiricamente, o motivo de grupos que atuam em violência extrema - que de todos os modos não surte o efeito esperado. A religião, alinhada a um senso histórico, étnico e cultural providenciam os ingredientes prediletos para quem recruta seus soldados terroristas. A religião em si, explica Sageman, não garante nem justifica a violência e a ética por trás da necessidade da mesma em cada situação, mas alinhada a um senso de violência cultural e histórica, encaixa-se como uma luva na equação, somando legitimidade aos atos mais calamitosos. O budismo, por exemplo, não tendo em sua história uma saga de reação budista violenta como os hindus e os Sikhs ou muçulmanos e judeus (o primeiro grupo terrorista estudado por Pape foi judaico), não vê atos de extrema violência feitos em seu nome.

Rebeldes chechenos também encontram alguma identidade (sunitas muçulmanos) que os separe essencialmente dos vizinhos russos (cristãos ou totalmente seculares), mas a causa, como a causa Palestina, a causa de Sikhs contra Hindus e dos judeus terroristas que formavam um grupo clandestino opondo-se à ocupação de Jerusalém pelo Império Romano, parece realmente ser muto mais pragmática do que meramente religiosa. No entanto, ignorar a religião não como a causa principal de ataques suicídas, mas como um fator importante na fomentação de atitudes violentas minoritárias seria um “grande pecado”. Apesar da dificuldade de encontrarmos causa mesmo encontrando muitas relações entre fatores históricos e análises políticas, é óbvio que a religião contribui para a legitimação do terrorismo islâmico, mas é mais óbvio (só não tão falado) que a maior parte dos seguidores desta religião não são terroristas.

Ainda assim, conforme disse Scott Atran, especialista no Oriente Médio a uma classe de estudantes universitários, talvez seja “olhando para o Leste” que o Oeste começará a vencer o terrorismo. Talvez meramente enxergar seus pedidos, seus dilemas e suas causas já seja o suficiente para amenizar a violência. A diminuição da violência, em outras palavras, geraria paz. Paz gerando paz, e não o oposto. Infelizmente, por enquanto só nos resta ouvir as quarenta badaladas das vítimas russas na manhã de Março.

RF

* A Lógica Estratégica dos Ataques Suicídas

** Entrevista de Marc Sageman para a New American Foundation

Friday, June 20, 2008

Resumo Semanal e Bola pra Frente

A partir da semana que vem, esse bloguista que compartilha aprendizados políticos e culturais das terras do Grande Império, fará o que muitos habitantes desse Grande Império fazem no segundo termo do verão, em Julho: Iniciarei o mais frenético e curto período escolar do ano, esperançosamente meu último até que comece a estudar pelo bacharelado. Meus dias serão excepcionalmente preenchidos por ensinamentos – para mim, muito difíceis – de matemática e biologia, logo sei que terei menos tempo para postar, e menos tempo para analisar.

Mesmo assim comprometo-me a, pelo menos, fazer o resumo semanal às Sextas-Feiras ou finais de semana, compensando em tamanho e qualidade, se for o caso, a falta de outros textos. A seguir, o resumo:


Tim Russert


Caricatura de Bruno Venancio

Na passada Sexta-Feira 13 a nação perdeu um de seus grandes mitos jornalísticos. Tim Russert, 58, teve o funeral conduzido a partir da Terça-Feira, que contou com a presença do presidente George W. Bush, secretários e ministros, governadores, senadores e representantes do congresso, dezenas de personalidades públicas que preencheriam uma eternidade de mesas-redondas como a do Meet the Press, a qual Russert moderava aos Domingos.

Na Quarta-Feira, 17 de seus mais próximos amigos, como a freira Lucille, que o conhecia desde sua infância como estudante no colégio irlandês-católico na cidade de Buffalo, NY, falaram da vida do moderador e editor executivo das redes NBC. Entre esses estavam Maria Shriver, ex colega de Russert na NBC, Tom Brokaw, Brian Williams (escolhido como substituto temporário de Russert no Meet the Press), a historiadora politica Doris Kearns Goodwin, também amigo e colega Mike Barnicle e o ex governador de NY Mario Cuomo. O Memorial terminou com a forte presença de Luke Russert, 22 anos, filho único do homenageado.

No serviço, realizado em Washington, na Igreja da Santa Trindade, os candidatos presidenciais Barack Obama e John McCain sentaram-se lado a lado, a pedido da família. À saída, um arco-íris, e logo uma pequena enchurrada de água, tomaram conta do cenário. Russert deixa o filho Luke e a esposa Maureen Orth, jornalista para a revista Vanity Fair.


"Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. O que o senhor faz?" Lord John Maynard Keynes, ou, Meio ponto a Barack Obama


Obama mudou sua posição ontem, novamente, e desta vez faz um jogo político que, segundo analistas, pode ser vantajoso, mas poderia ter sido abordado diferentemente.

Quando em Novembro de 2007 foi questionado sobre sua posição a respeito do financiamento público das campanhas presidenciais, disse que concordaria lutar por uma reforma no financiamento estimado em 80-85 milhões de dólares caso seu adversário assim desejasse.

O senador pelo Illinois lançou um vídeo no sítio de sua campanha acusando republicanos de destorcerem o sistema do financiamento público a tamanho nível que renega recorrer ao mesmo. Em um e-mail enviado a membros do sítio de Obama, David Plouffe, diretor de sua campanha, diz que os republicanos “têm o dinheiro 527 ” (excessão à regra, introduzida há alguns anos, como método de incorporação de outras verbas para o auxílio nas campanhas presidenciais) e “manipularão o sistema de financiamento público” para arrecadar mais verbas do que o rival. Diz que, apenas em Abril, os republicanos conseguiram levantar 45 milhões de dólares, e que podem tranquilamente ultrapassar os fundos do rival democrata.

Segundo analistas políticos e bloguistas de ambos lados, Obama tem mais a ganhar do que a perder por sua reserva suficientemente avantajada.

Só não vence o ponto completo, porque poderia ter abordado o tema de modo distinto. O fato é que a campanha do democrata é financiada por milhões de indivíduos doando em seu sítio eletrônico, algo que a campanha de McCain não oferece aos seus eleitores.

Indivíduos doando menos de 100 dólares cada trouxeram ao senador democrata uma das maiores margens historicamente conhecidas na arrecadação de verbas populares. Se, ao invés de chorar pela manipulação do partido Republicano - algo discutível visto que, de acordo com as informações públicas, o campo democrata tem colecionado uma vantagem proporcional de 4-1 sobre o candidato republicano - tivesse apenas declarado que mudou sua posição para vencer os republicanos em Novembro e ponto final, sofreria menos na boca de seus críticos.


Gallup mostra liderança de Obama estável (Mais um ponto para Obama)
O instituto Quinnipiac mostra que Obama lidera na Flórida, Ohio e Pennsylvania

Nem todos as pesquisas concordam, mas nenhuma desmente o potencial de Barack Obama para as próximas eleições mesmo em estados delicados e discutidos como a Flórida, o duvidado estado da Pennsylvania (pela população de colarinho branco) e o instável Ohio.

Gallup iniciou a semana com um empate técnico entre Obama e McCain, 44-42% para o candidato democrata, mas a margem voltou a favorecer o último, passando a uma vantagem de 4 pontos (46-42%) e logo à última computada na Quarta-Feira 18, 47-42%.

Para o Quinnipiac, Obama lidera na Flórida por 47-43%, em Ohio por 48-42% e em Pennsylvania mantém uma vantagem considerável de 52-40% sobre o senador pelo Arizona.

Para o sítio Pollster.com, John McCain lidera na Flórida por 45.1-42.8%, ainda dentro da margem de erro.


Resultado semanal no quadro político, incluindo os resultados das pesquisas acima, e as polêmicas apresentadas e discutidas nos textos desta semana:

John McCain 3 x 2 ½ Barack Obama