No filme “American Beauty”, de um de meus diretores favoritos, Sam Mendes, o veterano de guerra e pai do introvertido e complexo namorado da protagonista esconde sua homossexualidade às últimas consequências. Se nascesse depois de hoje, Sam Mendes teria um personagem a menos em sua trama brilhante que, como poucas narrativas hollywoodianas, expõe a esquizofrenia estadunidense.
Sim, pois hoje no Senado duas batalhas foram travadas pelas minorias do país. Uma, perdida, a do Dream Act, tentava legitimar a cidadania de estudantes trazidos ilegalmente pelos pais enquanto ainda menores e que não recebem seus diplomas oficiais pelo status imigratório ainda ilegal. 55 a 41 votos ainda separaram os estudantes ora brilhantes, que procuram apenas obter o produto de seus árduos trabalhos, de seu sonho ainda inatingido. Estudantes como o ativista Felipe Matos, a quem tenho o privilégio de chamar de amigo pessoal e antigo, desde os 22 anos de idade, e à quem a revista Carta Capital homenageia em artigo que pode ser acompanhado aqui.
A segunda venceu-se, no entando, e isto apesar da advocacia opositora ferrenha de John McCain. Aquele que podia ser nosso presidente primeiro exigiu uma pesquisa sobre a opinião dos soldados das forças armadas do país. Quando obtida a pesquisa favorável à proposta massivamente popular, fez-se o insatisfeito e pediu uma pesquisa científica sobre os efeitos da lei anti-constitucional, mas institucionalizada nas forças armadas. Quando obtida a pesquisa, ainda positiva e condizente ao que agora chamamos de realidade, ainda insatisfeito, pediu mais pesquisas e nenhuma delas, nenhuma opinião provava-lhe o ululante, nem mesmo quando oficiais de todos os setores das forças armadas demonstraram quão banal, quão vil e quão estúpido era privar seus companheiros de guerra e de serviço militar da honestidade quanto a suas respectivas sexualidades.
A proibição, que não lei, pois leis devem ser justas, humanas e iguais, infame de “Não pergunte que não respondo” finalmente caiu no Senado por 65 a 31 votos.
Mesmo sendo contra a guerra, negar beneficios, forçar o retiro de oficiais honrosos, que serviram por uma causa que acreditaram ou por outros motivos, não dando menos de si por uma ideia que os antecede, é a antítese de qualquer pais que ainda quer dizer-se democrático. Aconteceu na era de Barack Obama, mas não por Obama, acreditem, contudo muitos menos por John McCain ou Sarah Palin, esta mais preocupada em estourar os miolos de animais alaskanos indefesos. O que importa é que aconteceu.
Felipe Matos, homossexual orgulhoso, apoia a vitória de seus irmãos e irmãs. Torçamos por sua vitória em 2011.
RF
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Saturday, December 18, 2010
Eu pergunto e tu respondes!
Essas Palavras Vos Trazem
"Don't ask,
2011,
Barack Obama,
Carta Capital,
don't tell",
Dream Act,
Felipe Matos,
John McCain,
Roy Frenkiel,
Sarah Palin
Wednesday, October 13, 2010
Idiotas, Imbecís e Bobos – Escândalos Políticos Universais
Se algum dia se depararem com algum estrangeiro criticando personagens políticos como Tiririca, o finado Clodovil ou a reelegibilidade de políticos como Fernando Collor de Mello ou Paulo Maluf, citem os seguintes quatro casos de personalidades políticas nos Estados Unidos para traçar o parâmetro universal da estupidez humana. Está certo que essas figuras aqui não ganham tanto território quanto no Brasil (apesar da boa notícia da rejeição massiva de Collor no Alagoas, um bom passo adiante), mas existem e não são raras. Ao menos uma das “otoridades” aqui mencionadas pode chegar a cargos insustentáveis no poderio estadunidense, conforme podemos observar:
4 – Sarah Palin – A ex-candidata à vice-presidência no bilhete de John McCain é a epítome da banalidade política institucionalizada. Entre os casos aqui exemplificados ela é a personalidade que mais longe pode chegar em sua carreira política apesar de ter exposto todo seu brilho no último ciclo eleitoral. Nos meses seguintes à derrota, membros de sua campanha se pronunciaram e explicaram o quão difícil foi trabalhar com um dos atuais símbolos do Partido Republicano. Difícil justamente pela ignorância política da mesma, pela dificuldade de memorizar nomes corretamente e pela extrema dificuldade de discorrer sobre temas politicamente carregados. Palin é famosa por frases como: “Claro que sou capaz de lidar com a política externa do país, eu vejo a Rússia do quintal da minha casa!” Além disso, Palin já fazia parte de um inquérito sobre sua conduta ética quando governadora do Alaska. À época pressionou e pediu a demissão de um oficial de justiça por um caso pessoal envolvendo o oficial e a filha de Palin. Suas filhas, aliás, sempre dão o que falar. Enquanto Palin se gaba por ser mãe de familia e exemplo vivo de moralismo e ética familiares, suas filhas, especialmente Bristol, aparecem e expõem ao público quanto controle a mamãe tem em sua própria casa. Bristol já engravidou aos dezesseis anos, foi abandonada e depois re-assumida pelo jovem pai, e sempre reaparece como bom ou mal menino para infernizar a carreira pública de sua sogra.
3 – Christine O’Donnell – Candidata republicana ao Senado em um estado onde quase nunca houve incumbentes republicanos, O’Donnell foi a primeira política “desoberta” por Bill Maher. Aliás, no filme “Religulous” produzido pelo comediante, a candidata de Delaware torna-se um dos exemplos clássicos sobre a mistura de crenças individuais e a legislação de determinados estados é a história da candidata. O’Donnell já participou de um grupo de “bruxas” (Wiccans, uma religião pagã suficientemente popular em alguns estados do país), e apesar disso ser um detalhe sórdido em sua vida agora pública, não é o unico. O’Donnell é também contra a masturbação, algo que usou como mote em sua própria campanha eleitoral. Seus valores pesadamente religiosos tampouco fazem o fim de sua linha. A candidata ao Senado encontra supostamente recorreu a verbas de suas campanhas para uso pessoal. Na semana em que mais arrecadou verbas, inclusive, não teve uma única propaganda produzida. É, aliás, o único escândalo ao qual ela não quer referir-se e sobre o qual não dá mais entrevistas. Afinal, a primeira coisa que sai de sua boca em sua nova propaganda política é: “Meu nome é Christine O’Donnell, e não sou uma bruxa.”
2 – Carl Paladino – governador republicano de Nova York, criou uma aliança com um grupo de rabinos ortodoxos de seu estado para denunciar os impropérios do homossexualismo. Em seu discurso, rodeado de ultra-ortodoxos judeus com seus chapéus e roupas pretas e barbas selvagens, Paladino disse que não queria transmitir a imagem que seu estado considera homossexuais e “pessoas normais” o mesmo. O governador foi enfático ao dizer que seus valores familiares não compartilhados pelos liberais e progressistas em Washington lhe dão suficiente autoridade moral para condenar o homossexualismo, seus trajes inconvencionais e seu comportamento libertino. Ainda teve a coragem de citar, explicitamente, que o sucesso da comunidade heterossexual e o sucesso de indivíduos homossexuais não se equiparam. Em outras palavras, o homossexual jamais poderá ter uma vida bem sucedida pelo simples fato de assim sê-lo. O maior escândalo não está em suas palavras preconceituosas e o fato de que Paladino criticou os trajes de homossexuais rodeado por urubus ultra-ortodoxos que parecem ter saído da Holanda do século 18. Paladino teve uma corrente de e-mails exposta na qual o governador enviava fotos e vídeos de bestialidade (sexo com bichinhos inocentes) para seus colegas e amigos. Além disso, recentemente teve sua “segunda família” descoberta pelos rivais políticos. Sim, Paladino, o lider em questões de cunho moral não só tinha uma amante, mas uma família secreta.
1 – Rich Iott – É o segundo político republicano às vésperas das eleições gerais nos Estados Unidos “descoberto” pelo comediante Bill Maher. Rich Iott só leva o prêmio de primeiro lugar porque seu escândalo é imperdoável para qualquer base no país. O candidato a Representante do Congresso tem um hobby peculiar: Como gosta de história, pratica encenações de episódios épicos. No entanto, o personagem que encenava era o típico soldado da SS ou da Luftwaffe, o exército e a força áerea nazistas. Iott disse que iniciou seu ciclo no grupo conhecido como Wikings (wikings.or é seu portal, se é que já não foi retirado do ar), para conectar-se com o filho adolscente. O repórter de Bill Maher foi o primeiro a falar sobre o tema, e agora o candidato está queimado na via pública por todos os meios de comunicação. Apesar de Iott declarar que não é nazista e não simpatiza com sua filosofia, em sua entrevista consegiu cavar buraco ainda mais profundo quando disse que sempre esteve fascinado que um país geograficamente limitado tenha conquistado tantas coisas “incríveis” de um ponto de vista “estritamente militar”. Daí para “os nazistas foram incríveis” nos anais midiáticos foi menos de meio passo.
Claro que há outros casos, e certamente há casos envolvendo políticos de ambos partidos. Esses, no entanto, provavelmente resumem a espécie de ignorância política à qual temos de nos acostumar. Quem sabe essa imagem melhore o conceito que as pessoas tem pelos Estados Unidos. É um critério a menos a se emular, ao menos.
RF
4 – Sarah Palin – A ex-candidata à vice-presidência no bilhete de John McCain é a epítome da banalidade política institucionalizada. Entre os casos aqui exemplificados ela é a personalidade que mais longe pode chegar em sua carreira política apesar de ter exposto todo seu brilho no último ciclo eleitoral. Nos meses seguintes à derrota, membros de sua campanha se pronunciaram e explicaram o quão difícil foi trabalhar com um dos atuais símbolos do Partido Republicano. Difícil justamente pela ignorância política da mesma, pela dificuldade de memorizar nomes corretamente e pela extrema dificuldade de discorrer sobre temas politicamente carregados. Palin é famosa por frases como: “Claro que sou capaz de lidar com a política externa do país, eu vejo a Rússia do quintal da minha casa!” Além disso, Palin já fazia parte de um inquérito sobre sua conduta ética quando governadora do Alaska. À época pressionou e pediu a demissão de um oficial de justiça por um caso pessoal envolvendo o oficial e a filha de Palin. Suas filhas, aliás, sempre dão o que falar. Enquanto Palin se gaba por ser mãe de familia e exemplo vivo de moralismo e ética familiares, suas filhas, especialmente Bristol, aparecem e expõem ao público quanto controle a mamãe tem em sua própria casa. Bristol já engravidou aos dezesseis anos, foi abandonada e depois re-assumida pelo jovem pai, e sempre reaparece como bom ou mal menino para infernizar a carreira pública de sua sogra.
3 – Christine O’Donnell – Candidata republicana ao Senado em um estado onde quase nunca houve incumbentes republicanos, O’Donnell foi a primeira política “desoberta” por Bill Maher. Aliás, no filme “Religulous” produzido pelo comediante, a candidata de Delaware torna-se um dos exemplos clássicos sobre a mistura de crenças individuais e a legislação de determinados estados é a história da candidata. O’Donnell já participou de um grupo de “bruxas” (Wiccans, uma religião pagã suficientemente popular em alguns estados do país), e apesar disso ser um detalhe sórdido em sua vida agora pública, não é o unico. O’Donnell é também contra a masturbação, algo que usou como mote em sua própria campanha eleitoral. Seus valores pesadamente religiosos tampouco fazem o fim de sua linha. A candidata ao Senado encontra supostamente recorreu a verbas de suas campanhas para uso pessoal. Na semana em que mais arrecadou verbas, inclusive, não teve uma única propaganda produzida. É, aliás, o único escândalo ao qual ela não quer referir-se e sobre o qual não dá mais entrevistas. Afinal, a primeira coisa que sai de sua boca em sua nova propaganda política é: “Meu nome é Christine O’Donnell, e não sou uma bruxa.”
2 – Carl Paladino – governador republicano de Nova York, criou uma aliança com um grupo de rabinos ortodoxos de seu estado para denunciar os impropérios do homossexualismo. Em seu discurso, rodeado de ultra-ortodoxos judeus com seus chapéus e roupas pretas e barbas selvagens, Paladino disse que não queria transmitir a imagem que seu estado considera homossexuais e “pessoas normais” o mesmo. O governador foi enfático ao dizer que seus valores familiares não compartilhados pelos liberais e progressistas em Washington lhe dão suficiente autoridade moral para condenar o homossexualismo, seus trajes inconvencionais e seu comportamento libertino. Ainda teve a coragem de citar, explicitamente, que o sucesso da comunidade heterossexual e o sucesso de indivíduos homossexuais não se equiparam. Em outras palavras, o homossexual jamais poderá ter uma vida bem sucedida pelo simples fato de assim sê-lo. O maior escândalo não está em suas palavras preconceituosas e o fato de que Paladino criticou os trajes de homossexuais rodeado por urubus ultra-ortodoxos que parecem ter saído da Holanda do século 18. Paladino teve uma corrente de e-mails exposta na qual o governador enviava fotos e vídeos de bestialidade (sexo com bichinhos inocentes) para seus colegas e amigos. Além disso, recentemente teve sua “segunda família” descoberta pelos rivais políticos. Sim, Paladino, o lider em questões de cunho moral não só tinha uma amante, mas uma família secreta.
1 – Rich Iott – É o segundo político republicano às vésperas das eleições gerais nos Estados Unidos “descoberto” pelo comediante Bill Maher. Rich Iott só leva o prêmio de primeiro lugar porque seu escândalo é imperdoável para qualquer base no país. O candidato a Representante do Congresso tem um hobby peculiar: Como gosta de história, pratica encenações de episódios épicos. No entanto, o personagem que encenava era o típico soldado da SS ou da Luftwaffe, o exército e a força áerea nazistas. Iott disse que iniciou seu ciclo no grupo conhecido como Wikings (wikings.or é seu portal, se é que já não foi retirado do ar), para conectar-se com o filho adolscente. O repórter de Bill Maher foi o primeiro a falar sobre o tema, e agora o candidato está queimado na via pública por todos os meios de comunicação. Apesar de Iott declarar que não é nazista e não simpatiza com sua filosofia, em sua entrevista consegiu cavar buraco ainda mais profundo quando disse que sempre esteve fascinado que um país geograficamente limitado tenha conquistado tantas coisas “incríveis” de um ponto de vista “estritamente militar”. Daí para “os nazistas foram incríveis” nos anais midiáticos foi menos de meio passo.
Claro que há outros casos, e certamente há casos envolvendo políticos de ambos partidos. Esses, no entanto, provavelmente resumem a espécie de ignorância política à qual temos de nos acostumar. Quem sabe essa imagem melhore o conceito que as pessoas tem pelos Estados Unidos. É um critério a menos a se emular, ao menos.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Bill Clinton,
Carl Paladino,
Christine O'Donnell,
David Vitter,
Mark Sanford,
Nikki Haley,
Rich Iott,
Roy Frenkiel,
Sarah Palin
Friday, November 07, 2008
McCain teve a menor chance?
A resposta à pergunta-título da postagem de hoje é: Sim, John McCain teve a menor chance de vencer contra Barack Obama nas eleições do 4 de Novembro, mesmo tendo em conta o clima anti-republicano testemunhado nas urnas, e a baixíssima aprovação nacional do presidente.
Desde 2006, com as eleições congressionais, a nação já dava um recado ao partido ao eleger, por maioria, a nova lider, Nancy Pelosi, ao Congresso.
O partido Republicano enfrenta uma crise interna que partiu do distanciamento de seu segmento moderado e conservadores mais fiscais do que sociais de George W. Bush, e culminou expressadamente nas preliminares republicanas, quando a maioria da essência de sua base teria optado por qualquer candidato, menos McCain.
O candidato republicano venceu as preliminares, quiçá, por ser o menos protegido pelo partido. Suas qualificações históricas como herói de guerra, e seus anos no Senado, mesmo tendo sido um dos famigerados Keating 5 (escândalo envolvendo cinco senadores e um rico empresário), geraram um senso de segurança entre conservadores justamente moderados, e deram aos independentes bons motivos para flertarem com o veterano candidato em sua segunda empreitada presidencial. Flertaram, na realidade, durante as preliminares e nas primeiras semanas após as convenções partidárias.
Seus planos, mais detalhados e confiados em quesito de política externa do que economia, seduziram aqueles que se preocupam com a “guerra ao terror” da doutrina Bush. Seus planos econômicos encaixaram-se classicamente nos padrões republicanos.
Há oito anos atrás, quando concorreu contra George W. Bush, McCain era tido como um verdadeiro “ás”. Seu desgosto pelo atual presidente, como aqui mencionado há pouco, sempre foi evidente. Muitos democratas e republicanos que votaram em Barack Obama na passada Terça-Feira, teriam votado pelo John McCain de 2000. O fato é que, em 2000, Bush conseguiu ofuscar a decisão dos eleitores plantando sementes de dúvidas sobre o caráter do senador pelo Arizona, difamando-o de todos os modos possíveis e imagináveis, inclusive contra seus anos militares, o que contribuiu, apenas, à desconfiança do candidato republicano em 2008 ao então candidato à presidência em 2000.
Porém, algo aconteceu este ano. Além da má fama de Bush, o que realmente contribuiu mais para sua derrota foi a persistência em posicionar-se favorável ao presidente em temas consecutivos. Primeiro, favorecendo um “feriado” do imposto à gasolina, logo apoiando o presidente a retirar a moratória que proibia escavações petrolíferas nas costas marítimas do país, e mesmo tendo sido contrário aos cortes tributários da era Bush, posicionando-se favorável aos mesmos alguns meses depois. McCain era contra o retiro da moratória duas semanas antes de assumir a posição do presidente.
A campanha impecável de Obama salientou a desordem da campanha de McCain. Ao invés de assumir os temas mais importantes, o candidato republicano começou com os mesmos ataques que Hillary Clinton tentara nas preliminares, mas sem sucesso. Ataques à inexperiência do candidato democrata também cairam por água a baixo.
Acima de tudo, McCain errou gravemente, na opinião do bloguista que vos relata, ao convidar Sarah Palin à vice-presidência. Por mais que a governadora do Alaska tenha contribuido para a energização da base de extrema direita, e talvez, de início, para a união de todo o partido, em poucos dias suas gafes, a evidência de sua despreparação, a incapacidade de responder às questões mais simples pesaram contra a governadora e alienaram os conservadores fiscais e republicanos moderados.
Poucos dias antes do dia 4 de Novembro, Palin recebeu um trote de dois disk-jockeys canadenses, que a chamaram com sotaque francês fingindo tratar-se do presidente Nicolas Sarkozy. Palin atendeu, e conversou com a figura sem suspeitar, nem por um instante, que o presidente da França jamais ligaria pessoalmente a um candidato, quanto menos vice-presidencial. O campo de McCain sofreu admitidamente. Na noite da derrota de McCain, Palin queria discursar à nação, mas foi logo calada pelo diretor da campanha: “Vá perder suas próprias eleições.”
A querida autora do blog Contemporary Cinderella escreve que McCain “voltou” em seu discurso derrotado. Concordo. McCain viu-se tendo de defender Obama pela segunda vez, depois do episódio com uma senhora em uma assembléia em Minnesota, quando teve de explicar aos seus constituintes que Obama não era árabe. A platéia que o recebeu na noite de sua derrota vaiava o candidato democrata, mas McCain soube ser gracioso e comprovar que a democracia pode e deve funcionar.
Caso McCain tivesse sido mais original, sincero, e caso continuasse usando o cajado de “ás”, demonstrando evidente desgosto pelo presidente, e, especialmente, caso tivesse escolhido outro candidato à vice-presidência, como Mike Huckabbe ou Mitt Romney, até mesmo o vira-casacas democrata Joe Lieberman, certamente a corrida presidencial seria mais apertada do que o testemunhado na noite de Terça-Feira.
Para McCain, foi o fim. Para a base, o início do desespero, agora assumindo a mesma posição que democratas assumiram durante oito anos com a eleição de Bush. A diferença é que ninguém duvida que Obama tenha sido eleito democraticamente. Outra grande diferença é que em 2008, 64% da população em idade eleitoral, votaram.
Ao meu ver ainda novato e amador no cenário político estadunidense, McCain poderia ter clamado o voto geral, posicionando-se como verdadeiro “ás”, já que a tradição republicana é de impedir que eleitores exerçam esse direito. McCain deveria, estritamente, ter se oposto ao plano de resgate econômico traçado por Henry Paulson e Ben Bernanke, apoiado por Bush, conforme o faria sua base não fosse ano eleitoral. McCain deveria assumir uma posição mais moderna em relação à reforma energética, especialmente em tempos cruciais como os que vivemos, já que alguém reformará a energia mundial, o Brasil já deu sua largada particular, e se os Estados Unidos seguir na persistência de que a solução desse problema é “escavar, baby, escavar”, o atraso será inevitável.
McCain não terá terceira chance. Já Obama, a partir de ontem, passa a ser testado aos olhos do país, e do mundo.
RF
Desde 2006, com as eleições congressionais, a nação já dava um recado ao partido ao eleger, por maioria, a nova lider, Nancy Pelosi, ao Congresso.
O partido Republicano enfrenta uma crise interna que partiu do distanciamento de seu segmento moderado e conservadores mais fiscais do que sociais de George W. Bush, e culminou expressadamente nas preliminares republicanas, quando a maioria da essência de sua base teria optado por qualquer candidato, menos McCain.
O candidato republicano venceu as preliminares, quiçá, por ser o menos protegido pelo partido. Suas qualificações históricas como herói de guerra, e seus anos no Senado, mesmo tendo sido um dos famigerados Keating 5 (escândalo envolvendo cinco senadores e um rico empresário), geraram um senso de segurança entre conservadores justamente moderados, e deram aos independentes bons motivos para flertarem com o veterano candidato em sua segunda empreitada presidencial. Flertaram, na realidade, durante as preliminares e nas primeiras semanas após as convenções partidárias.
Seus planos, mais detalhados e confiados em quesito de política externa do que economia, seduziram aqueles que se preocupam com a “guerra ao terror” da doutrina Bush. Seus planos econômicos encaixaram-se classicamente nos padrões republicanos.
Há oito anos atrás, quando concorreu contra George W. Bush, McCain era tido como um verdadeiro “ás”. Seu desgosto pelo atual presidente, como aqui mencionado há pouco, sempre foi evidente. Muitos democratas e republicanos que votaram em Barack Obama na passada Terça-Feira, teriam votado pelo John McCain de 2000. O fato é que, em 2000, Bush conseguiu ofuscar a decisão dos eleitores plantando sementes de dúvidas sobre o caráter do senador pelo Arizona, difamando-o de todos os modos possíveis e imagináveis, inclusive contra seus anos militares, o que contribuiu, apenas, à desconfiança do candidato republicano em 2008 ao então candidato à presidência em 2000.
Porém, algo aconteceu este ano. Além da má fama de Bush, o que realmente contribuiu mais para sua derrota foi a persistência em posicionar-se favorável ao presidente em temas consecutivos. Primeiro, favorecendo um “feriado” do imposto à gasolina, logo apoiando o presidente a retirar a moratória que proibia escavações petrolíferas nas costas marítimas do país, e mesmo tendo sido contrário aos cortes tributários da era Bush, posicionando-se favorável aos mesmos alguns meses depois. McCain era contra o retiro da moratória duas semanas antes de assumir a posição do presidente.
A campanha impecável de Obama salientou a desordem da campanha de McCain. Ao invés de assumir os temas mais importantes, o candidato republicano começou com os mesmos ataques que Hillary Clinton tentara nas preliminares, mas sem sucesso. Ataques à inexperiência do candidato democrata também cairam por água a baixo.
Acima de tudo, McCain errou gravemente, na opinião do bloguista que vos relata, ao convidar Sarah Palin à vice-presidência. Por mais que a governadora do Alaska tenha contribuido para a energização da base de extrema direita, e talvez, de início, para a união de todo o partido, em poucos dias suas gafes, a evidência de sua despreparação, a incapacidade de responder às questões mais simples pesaram contra a governadora e alienaram os conservadores fiscais e republicanos moderados.
Poucos dias antes do dia 4 de Novembro, Palin recebeu um trote de dois disk-jockeys canadenses, que a chamaram com sotaque francês fingindo tratar-se do presidente Nicolas Sarkozy. Palin atendeu, e conversou com a figura sem suspeitar, nem por um instante, que o presidente da França jamais ligaria pessoalmente a um candidato, quanto menos vice-presidencial. O campo de McCain sofreu admitidamente. Na noite da derrota de McCain, Palin queria discursar à nação, mas foi logo calada pelo diretor da campanha: “Vá perder suas próprias eleições.”
A querida autora do blog Contemporary Cinderella escreve que McCain “voltou” em seu discurso derrotado. Concordo. McCain viu-se tendo de defender Obama pela segunda vez, depois do episódio com uma senhora em uma assembléia em Minnesota, quando teve de explicar aos seus constituintes que Obama não era árabe. A platéia que o recebeu na noite de sua derrota vaiava o candidato democrata, mas McCain soube ser gracioso e comprovar que a democracia pode e deve funcionar.
Caso McCain tivesse sido mais original, sincero, e caso continuasse usando o cajado de “ás”, demonstrando evidente desgosto pelo presidente, e, especialmente, caso tivesse escolhido outro candidato à vice-presidência, como Mike Huckabbe ou Mitt Romney, até mesmo o vira-casacas democrata Joe Lieberman, certamente a corrida presidencial seria mais apertada do que o testemunhado na noite de Terça-Feira.
Para McCain, foi o fim. Para a base, o início do desespero, agora assumindo a mesma posição que democratas assumiram durante oito anos com a eleição de Bush. A diferença é que ninguém duvida que Obama tenha sido eleito democraticamente. Outra grande diferença é que em 2008, 64% da população em idade eleitoral, votaram.
Ao meu ver ainda novato e amador no cenário político estadunidense, McCain poderia ter clamado o voto geral, posicionando-se como verdadeiro “ás”, já que a tradição republicana é de impedir que eleitores exerçam esse direito. McCain deveria, estritamente, ter se oposto ao plano de resgate econômico traçado por Henry Paulson e Ben Bernanke, apoiado por Bush, conforme o faria sua base não fosse ano eleitoral. McCain deveria assumir uma posição mais moderna em relação à reforma energética, especialmente em tempos cruciais como os que vivemos, já que alguém reformará a energia mundial, o Brasil já deu sua largada particular, e se os Estados Unidos seguir na persistência de que a solução desse problema é “escavar, baby, escavar”, o atraso será inevitável.
McCain não terá terceira chance. Já Obama, a partir de ontem, passa a ser testado aos olhos do país, e do mundo.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
John McCain,
partido Republicano,
Sarah Palin
Monday, October 20, 2008
Colin Powell, o Endossamento de Aço
Ocorreu no programa Meet the Press, ancorado pelo veterano Tom Brokaw. Sem querer tirar o mérito de Brokaw, o falecido Tim Russert, que revolucionou o programa e o tornou o mais temido e honroso de todos os talk-shows jornalísticos, faz tremenda falta.
Mesmo assim, o ex general Colin Powell, militar durante 35 anos de sua vida, filho de imigrantes jamaicanos, crescido no Bronx de Nova-York, decidiu endossar Barack Obama a presidente na NBC, às dez horas da manhã do passado Domingo. Como todos os demais analistas da MSNBC já haviam mencionado, o apoio era esperado.
Como a única figura política da administração de George W. Bush a escapar ilesa dos escândalos iniciados em 2003, e republicano que, em 2000, endossara Bush e Dick Cheney à presidência e vice-presidência, Powell é talvez a pessoa de confiança mais abrangente da nação. Admirado por brancos, negros, homens, mulheres, militares e pessoas pacíficas, Powell respondeu as perguntas de Brokaw sem titubear, sem rodeios, direto e certeiro, mesmo que algumas delas não tenham sido fáceis.
O motivo central de seu suporte a Obama é que, segundo Powell, John McCain tem se mostrado inapto a lidar com o problema mais contundente da nação, a economia. Enquanto o senador pelo Arizona expressou-se erraticamente na trilha de sua campanha, suspendendo a mesma, logo retornando, declarando não participar do primeiro debate e, logo, participando, utilizando de seu tempo de campanha para massivamente atacar Obama, o senador por Illinois comportou-se, disse Powell, “quase de modo oposto”.
Desde o início das campanhas gerais, Obama já tinha em seu sítio eletronico alguns planos delineados, recentemente detalhados, à economia. Para que por aqui não recáia o provável 1984 que recái nos Estados Unidos, relembro dois fatos:
1 – Desde a evidência da nomeação de Barack Obama à candidatura de seu partido, já escrevi que o mesmo levava vantagem em seus planos econômicos, mas que as guerras no Iraque e Afeganistão no contexto de relações externas favoreceriam a John McCain. Caso houvesse um ataque terrorista, mencionei, o mesmo seria utilizado vantajosamente pelo candidato republicano. Caso houvesse recessão, o contrário seria verdadeiro.
2 – Houve indícios severos de uma recessão popular, infelizmente apenas levados a sério pelo governo anos depois, com a falência de Fannie Mae e Freddie Mac, resgatadas pelo governo, e com a falência da Lehman Brothers e da AIG, respectivamente compradas pelos bancos poderosos de suas nações. O banco Washington Mutual também faliu, e foi logo comprado pelo Chase. Apenas então que Henry Paulson, Secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, representante da Reserva Federal (FED) alardearam a Casa Branca exigindo $750 bilhões de dólares, finalmente conquistados após três semanas de negociações.
No percurso, outros temas captaram a mente da população:
1 – O aumento de tropas no início de 2008, apoiado por John McCain e cunhado por George W. Bush, teve relativa eficiência. Resultou em uma redução concreta nas mortes de soldados estadunidenses no Iraque, mas ainda não pavimentou uma rodovia concreta à independência do país. A redução, contudo, contribuiu com a campanha de McCain.
2 – A escavação por petróleo nas costas marítimas era proibída em moratório nacional há quase duas décadas. Desde o aumento absurdo nos preços do combustível, Bush e McCain foram os primeiro e segundo, respectivamente, a pedir pelo retiro do moratório. Obama demorou um pouco para concordar, mas foi praticamente forçádo a fazê-lo. De certo modo, isto favoreceu a McCain, mas não prejudicou a Obama.
3 – Sarah Palin trouxe à base uma das maiores polarizações vistas nas últimas décadas, aproximando-se da extrema direita, e trazendo à tona os temas do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Segunda Emenda constitucional, forjada à garantia de que cidadãos pudessem possuir e usar armas para defesa própria ou caça esportiva, e o ensino do Design Inteligente e/ou Criacionismo nas mesmas aulas que ensinam ciências e história em escolas estaduais e federais. Por um lado, Palin conseguiu empolgar uma campanha que definhava. Por outro, jamais apagou a clara vantagem de Obama nas pesquisas.
Nem mesmo a guerra no Iraque distraiu a população. Os indicadores econômicos demonstram tamanha estapafúrdia que apenas o candidato que pudesse passar tranquilidade aos bolsos de norte-americanos seria bem visto, e, de fato, apesar de ter subido nas pesquisas com a escolha de Palin, McCain acabou caindo a uma média de 7-10 pontos em relação a Barack Obama. O mapa atual, caso assim permaneça, demonstra que o republicano precisa escalar uma descomunal montanha se quiser conquistar os 270 colégios eleitorais necessários.
Colin Powell confirmou o que muitos já sabiam:
McCain não tem um plano concreto para a economia. Se, por um lado, promete agir de maneira totalmente distintinta do que agiu o atual presidente, por outro oferece a perpetuação de sua política econômica. Promete congelar gastos sociais e gastar apenas com a defesa. Promete cortar mais impostos, mas ele mesmo não consegue superar o fato de que os únicos beneficiados seriam os donos de grandes empresas, já que a maioria das pequenas empresas (média de 95%) lucram menos do que 250 mil dólares anuais. O “Joe, the plumber” (João, o encanador) geralmente ganha muito menos do que isso, na faixa de 47 mil dólares anuais, segundo Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel da economia em 2008.
Krugman também endossa Barack Obama. À Sexta-Feira passada, escreveu em sua coluna que o dever do próximo presidente, que tecnicamente não tem grande controle sobre a crise, é gastar com seu país, desenvolver sua infra-estrutura, oferecer respaldo aos desempregados e desassegurados da nação, e não congelar os gastos essenciais. Sim, há corrupção, e certamente o quartagésimo-quarto presidente dos Estados Unidos tem meu total apoio a caçá-la e erradicá-la, mas isto não significa que o dinheiro que eu alegremente pago ao governo possa ser apenas investido no exército. Muito pelo contrário. Por mim, nós, como soldados desarmados, temos o dever de investir em nosso país, com nossos recursos, por nossos interesses de uma vez por todas.
Powell, por sua vez, enalteceu a escolha de Joe Biden à vice-presidência enquanto se disse “desapontado” pela escolha de Sarah Palin, a quem julga despreparada em demasia para uma eventual crise na qual deva assumir o trono da Casa Branca. Biden e sua experiência bipartidária em relações externas, segundo o ex Secretário de Estado de Bush, o fazem “pronto para o primeiro dia.”
Faltam 15 dias para as eleições que ocorrerão no dia 4 de Novembro. Por enquanto, as pesquisas favorecem a Obama com excelentes margens em estados antes garantidos aos republicanos. Podemos esperar, contudo, que a corrida fique mais emocionante daqui para frente. Os ataques de McCain e Palin, agora implorando aos eleitores a não eleger um “socialista” à presidência, ainda podem surtir efeitos inesperados (ou secretamente esperados, no caso do racismo enrustido). Contudo, acredito mais do que nunca que todos sabemos em qual cavalo devemos apostar todas as fichas.
RF
PS: Ironia
A economia sempre preocupou qualquer nação acima da maioria dos outros temas. Entretanto, foi a guerra no Iraque que causou o maior índice de impopularidade ao presidente George W. Bush. Como Powell disse ao endossar Obama, “sem as armas de destruição em massa, não havia motivo algum para entrar em guerra contra Sadam Hussein”.
Mesmo assim, a guerra acaba se tornando uma distração, ao invés de tema central destas eleições. Através dela, o candidato que mais se parece e mais próximo está à base que cometeu os erros em 2003, pode se beneficiar e ludibriar os eleitores com sua falsa segurança e tendências bélicas. O tempo passa, os temas trocam de lugar, mas nunca mudam.
Essas Palavras Vos Trazem
Ben Bernanke,
Colin Powell,
FED,
George W. Bush,
Henry Paulson,
John McCain,
Sarah Palin
Friday, October 10, 2008
“A economia esmaga a raça”.
Por Bruno Venancio“A crise corrente começou com a explosão da “bolha imobiliária”, que levou a uma grande quantidade de hipotecas não pagas, logo a grandes perdas de muitas instituições financeiras. O choque incicial criou efeitos secundários, enquanto a falta de capital fez com que bancos se retirassem do mercado, levando a declínios ainda maiores nos preços das propriedades, o que originou mais perdas, e assim por diante – um circulo vicioso de “desvalorização”.
A queda livre acelerou depois [do fracasso] de Lehman. Mercados monetários, já em problemas, efetivamente se fecharam – uma das frases circulando atualmente é que as únicas coisas que as pessoas querem comprar agora são notas do Tesouro e garrafas de água.
A resposta a essa queda livre da parte dos dois grandes poderes do mundo – os Estados Unidos, em um lado, e as 15 nações que usam o Euro, do outro lado – foi terrivelmente inadequada.”
Assim explica Paul Krugman, em sua coluna de hoje no The New York Times. Depois de explicar que os líderes dos Estados Unidos, incluindo Henry Paulson, secretário do Tesouro, falharam em formular um plano conciso e intelectualmente são para reafirmar a economia da nação, ao mesmo tempo ajudando a evitar um colapso mundial da bolsa de valores, Krugman afirma que um novo plano de resgate deve ser concluído nesse fim de semana.
“Por que nesse fim de semana? Porque ocorrem dois grandes encontros em Washington: um encontro com os principais oficiais financeiros de grandes nações desenvolvidas, na Sexta Feira; e logo o anual encontro do Banco Mundial/Fundo Monetário Internacional ao Sábado e Domingo. Se esses encontros terminarem sem ao menos um acordo em princípio a um resgate global – se todos forem para a casa com nada mais do que vagos pensamentos de que eles pretendem continuar controlando a situação – a oportunidade de ouro terá sido perdida, e a queda livre pode facilmente piorar.
O que deve ser feito? Os Estados Unidos e a Europa devem dizer, ‘Sim, Primeiro Ministro.’ O plano Inglês (injetar 50 bilhões de euros no mercado) não é perfeito, mas existe o acordo geral entre economistas que [o plano] oferece de longe o melhor cenário disponível para um resgate abrangente.
E o tempo de agir é agora. Você pode pensar que as coisas não podem piorar – mas elas podem, e se nada for feito nos próximos dias, elas vão piorar.”
Sei que transcrevi e traduzi quase toda a coluna de Krugman, mas para quem ainda queria, aqui, uma melhor explicação sobre a atual situação econômica, o encontra melhor nas palavras de Krugman.
Tendo dito isto, passo ao que mais me vale.
Pela segunda vez consecutiva na semana que ainda passa, Barack Obama vence John McCain nas pesquisas do Gallup por 11 pontos percentuais (52-41%). Resultado este que inclui pesquisas conluídas ontem, depois do segundo debate presidencial, e após uma semana inteira de ataques ao caráter de Obama por associação.
Em um “townhall” (vide explicação no sidebar do blogue), McCain foi confrontado por um eleitor que o implorou (literalmente) a levantar a associação do pastor Jeremiah Wright, o ex terrorista doméstico William Ayers e qualquer outra pessoa suspeita na vida do candidato democrata, no próximo e último debate a ser conduzido entre os principais candidatos à presidência.
Faltando 25 dias para o 4 de Novembro, a campanha de McCain, consciente de que perde quando o assunto é economia, desviou-se do tema para tentar plantar a semente da dúvida em eleitores independentes ou indecisos. Por enquanto, o plano não só não funciona como passa a levantar questões sobre McCain e sua vice, Sarah Palin, que sem isso não teriam levantado.
Joe Biden, vice-presidente no bilhete democrata, disse a uma platéia de sua base que “McCain não teve a coragem de olhar nos olhos de Obama e atacá-lo por Wright ou Ayers [no segundo debate],” e concluiu, “de onde eu venho, se você tem algo a me dizer, diga olhando nos meus olhos!”
As associações de Palin ao Partido Separatista do Alaska, incluindo seu auxílio como prefeita e governadora outorgando certos cargos a oficiais da organização que, segundo diversas fontes, tornou-se antro de racistas e xenófobos de todos os estados do país, emergem enquanto Palin tornou-se ícone da separação partidária que assola o país há décadas. Segundo o conservador David Brooks, Palin representa a explícita divisão, rancor e ressentimento entre as classe mais e menos “educadas”. Seu orgulho caipira, em outras palavras, poderia ajudar o candidato republicano em outras eleições, talvez há alguns muitos anos atrás.
Meu palpite:
Sarah Palin não só não ajudou a McCain, mas é o principal motivo de sua queda nas pesquisas. O fator racial ainda deve ser analisado, mas por enquanto Obama parece vencer apesar de qualquer racismo. Esse é o moto de nossos dias: “A economia esmaga a raça”.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
David Brooks,
Henry Paulson,
John McCain,
Paul Krugman,
Sarah Palin
Tuesday, October 07, 2008
Sujeira no Ar
Desde o início das campanhas às eleições gerais, o candidato democrata, Barack Obama, viu-se derrotado de acordo com o Gallup em apenas duas ocasiões. A primeira, em uma pesquisa realizada um pouco antes das convenções partidárias em Agosto e Setembro, e a segunda, depois da convenção republicana, esta por uma semana consecutiva. Empatados estiveram, ao menos tecnicamente, em maior parte das pesquisas desde Julho, mas a margem de vitória por dois, três ou quatro pontos percentuais pertencia a Obama.
Há dez dias consecutivos Obama vence seu rival republicano, John McCain, por uma margem de sete a nove pontos percentuais. A crise econômica é, em parte, o que mais impulsionou a campanha democrata nas últimas duas semanas.
É por isso que o campo de McCain em múltiplas vozes decidiu que continuar falando sobre a economia seria péssimo negócio ao candidato conservador. A estratégia, agora, voltou-se a fazer o que Hillary Clinton tentou, sem sucesso, nas preliminares: difamar Obama por associações.
“Quem é o verdadeiro Barack Obama?” Perguntou McCain, ontem, enquanto realizava uma de suas rallies populares. Da platéia, um eleitor inconformado respondeu: “Um terrorista!”
“Eu li no The New York Times, já que a mídia liberal demonstrou interesse em minhas fontes, que Obama é camarada do terrorista doméstico, William Ayers.” Reforçou Sarah Palin, candidata à vice-presidência de McCain a um grupo distinto, na Flórida.
A nova propaganda política desenha a mesma imagem, a incerteza da lealdade de Obama ao seu país, suas conexões com o pastor Jeremiah Wright, e sua amizade (Obama serviu em um evento caritativo ao lado do reformado Ayers, que já planejou bombardear a Casa Branca, mas que passa sua vida agora como um membro semi-funcional da sociedade) com William Ayers.
O fantasma de Clinton volta a atacar. Afinal, foi ela que abriu as portas com os primeiros ataques, originando o desvínculo de Obama com a igreja de Wright, e forçando-o a explicar, em público, que tinha oito anos de idade quando Ayers realizava atos terroristas, e que serviu com o mesmo por alguns dias em um navio muitos anos depois, sem sequer tê-lo reconhecido em princípio.
Novamente, o rumo é de campanhas negativas. Não surpreende, nem um pouco. Faltando 28 dias para as eleições gerais, McCain encontra-se em um buraco escorregadio, perdendo em estados cruciais como Ohio, Michigan, Minnesotta, Flórida e Pennsylvania por margens crescentes. Mesmo tendo ele explicitamente prometido não recorrer a campanhas negativas há cinco meses atrás, nenhum político são é de ferro.
Obama provavelmente faria o mesmo, recorrendo a aspectos negativos da famosa “estratégia” (não tática, estratégia!) de McCain em relação ao futuro do país. Mas, será mesmo que Obama atacaria, por exemplo, os anos de serviço militar do senador pelo Arizona, questionaria sua sanidade devido à idade, ou suas amizades com pessoas controversas, como o pastor John Hagee? Duvido. Se o quisesse fazer, já o teria feito.
O fato é que o senador democrata, assim que soube das intenções do campo rival, lançou seu contra-ataque. McCain agora é lembrado pelo incidente envolvendo Charles Keating Jr., um credor que, segundo artigo do The LA Times, “enchia os cofres de cinco senadores” nos anos 80, incluindo John McCain. Quando o governo começou a questionar a legitimidade dos empréstimos de Keating, o mesmo recorreu aos cinco senadores para que o ajudassem.
O caso dos famigerados Keating-Cinco foi, segundo McCain, o pior de sua vida, incluindo o tempo passado como prisioneiro na guerra do Vietnã. “Os vietnamitas,” disse no mesmo artigo, “não questionaram minha honra.” Keating foi preso, mas logo solto por detalhes técnicos, e os cinco senadores viveram anos intensos de investigações éticas. Tanto John McCain quanto sua esposa, Cindy McCain, receberam benefícios equivalentes a milhares de dólares de Keating, e Cindy chegou até a investir em um centro comercial que pertencia ao empresário. Nenhum centavo desse dinheiro foi ressarcido, e Keating custou ao governo por suas práticas ilegítimas 2.6 bilhões de dólares. McCain foi convicto pelo comitê ético do senado, e seu juízo comprometido, o que o arrasou, pessoalmente, por muitos anos.
Porém, o que mais me espanta não é McCain, ou sua esposa Cindy, culpada, no passado, de ter roubado medicamentos de uma caridade que ela mesma fundou em benefício de crianças africanas. O que mais me espanta é que Palin, uma fanática religiosa que disse, há pouco, que “ainda verei a Jesus em minha vida nesta Terra”, praticou exorcismos contra bruxaria, e chegou até a atribuir os crimes e a imoralidade de sua cidade enquanto prefeita a uma cidadã estrangeira à qual chamava de Bruxa, que é apoiada (e apoiou) [por] um grupo separatista do Alaska criado por um personagem que diz “odiar a América” com todas as forças, consiga não explodir em pleno palco quando fala das associações de Obama.
Pois, caros amigos e amigas, o país se vê em grande crise. Há alguns dias, o banco que preparava a retomada da casa de uma senhora de 90 anos de idade perdoou sua dívida porque a senhora, quando soube da expulsão, tentou se suicidar disparando-se um tiro. Sobreviveu e agora se recupera em sua própria casa. McCain decide falar sobre terrorismo. Sim, porque é muito comum que um senador seja amigo de terroristas, obviamente. Muito mais comum que amigos de terroristas não sejam vetados para a candidatura presidencial.
Oxalá o processo de escolha do vice-presidente fosse o mesmo. Caso assim fosse, Palin jamais seria considerada, à não ser por, voilá, terroristas. De todos os modos, menos tenho contra McCain do que por seu juízo completamente comprometido quando a escolheu ao bilhete. Ela tornou-se o Bush depois de Bush, a pior das escolhas possíveis e imagináveis já vistas nesta Terra. Seria menos insólito que Aécio Neves vencesse a presidência com Fernando Collor no bilhete, do que o que vimos no processo presidencial aqui, nos Estados Unidos. Nada me enerva mais, e a nada repudio mais do que a existência de Palin no bilhete republicano.
Quanto aos ataques negativos… Falta pouco. Amanhecerá…
RF
Há dez dias consecutivos Obama vence seu rival republicano, John McCain, por uma margem de sete a nove pontos percentuais. A crise econômica é, em parte, o que mais impulsionou a campanha democrata nas últimas duas semanas.
É por isso que o campo de McCain em múltiplas vozes decidiu que continuar falando sobre a economia seria péssimo negócio ao candidato conservador. A estratégia, agora, voltou-se a fazer o que Hillary Clinton tentou, sem sucesso, nas preliminares: difamar Obama por associações.
“Quem é o verdadeiro Barack Obama?” Perguntou McCain, ontem, enquanto realizava uma de suas rallies populares. Da platéia, um eleitor inconformado respondeu: “Um terrorista!”
“Eu li no The New York Times, já que a mídia liberal demonstrou interesse em minhas fontes, que Obama é camarada do terrorista doméstico, William Ayers.” Reforçou Sarah Palin, candidata à vice-presidência de McCain a um grupo distinto, na Flórida.
A nova propaganda política desenha a mesma imagem, a incerteza da lealdade de Obama ao seu país, suas conexões com o pastor Jeremiah Wright, e sua amizade (Obama serviu em um evento caritativo ao lado do reformado Ayers, que já planejou bombardear a Casa Branca, mas que passa sua vida agora como um membro semi-funcional da sociedade) com William Ayers.
O fantasma de Clinton volta a atacar. Afinal, foi ela que abriu as portas com os primeiros ataques, originando o desvínculo de Obama com a igreja de Wright, e forçando-o a explicar, em público, que tinha oito anos de idade quando Ayers realizava atos terroristas, e que serviu com o mesmo por alguns dias em um navio muitos anos depois, sem sequer tê-lo reconhecido em princípio.
Novamente, o rumo é de campanhas negativas. Não surpreende, nem um pouco. Faltando 28 dias para as eleições gerais, McCain encontra-se em um buraco escorregadio, perdendo em estados cruciais como Ohio, Michigan, Minnesotta, Flórida e Pennsylvania por margens crescentes. Mesmo tendo ele explicitamente prometido não recorrer a campanhas negativas há cinco meses atrás, nenhum político são é de ferro.
Obama provavelmente faria o mesmo, recorrendo a aspectos negativos da famosa “estratégia” (não tática, estratégia!) de McCain em relação ao futuro do país. Mas, será mesmo que Obama atacaria, por exemplo, os anos de serviço militar do senador pelo Arizona, questionaria sua sanidade devido à idade, ou suas amizades com pessoas controversas, como o pastor John Hagee? Duvido. Se o quisesse fazer, já o teria feito.
O fato é que o senador democrata, assim que soube das intenções do campo rival, lançou seu contra-ataque. McCain agora é lembrado pelo incidente envolvendo Charles Keating Jr., um credor que, segundo artigo do The LA Times, “enchia os cofres de cinco senadores” nos anos 80, incluindo John McCain. Quando o governo começou a questionar a legitimidade dos empréstimos de Keating, o mesmo recorreu aos cinco senadores para que o ajudassem.
O caso dos famigerados Keating-Cinco foi, segundo McCain, o pior de sua vida, incluindo o tempo passado como prisioneiro na guerra do Vietnã. “Os vietnamitas,” disse no mesmo artigo, “não questionaram minha honra.” Keating foi preso, mas logo solto por detalhes técnicos, e os cinco senadores viveram anos intensos de investigações éticas. Tanto John McCain quanto sua esposa, Cindy McCain, receberam benefícios equivalentes a milhares de dólares de Keating, e Cindy chegou até a investir em um centro comercial que pertencia ao empresário. Nenhum centavo desse dinheiro foi ressarcido, e Keating custou ao governo por suas práticas ilegítimas 2.6 bilhões de dólares. McCain foi convicto pelo comitê ético do senado, e seu juízo comprometido, o que o arrasou, pessoalmente, por muitos anos.
Porém, o que mais me espanta não é McCain, ou sua esposa Cindy, culpada, no passado, de ter roubado medicamentos de uma caridade que ela mesma fundou em benefício de crianças africanas. O que mais me espanta é que Palin, uma fanática religiosa que disse, há pouco, que “ainda verei a Jesus em minha vida nesta Terra”, praticou exorcismos contra bruxaria, e chegou até a atribuir os crimes e a imoralidade de sua cidade enquanto prefeita a uma cidadã estrangeira à qual chamava de Bruxa, que é apoiada (e apoiou) [por] um grupo separatista do Alaska criado por um personagem que diz “odiar a América” com todas as forças, consiga não explodir em pleno palco quando fala das associações de Obama.
Pois, caros amigos e amigas, o país se vê em grande crise. Há alguns dias, o banco que preparava a retomada da casa de uma senhora de 90 anos de idade perdoou sua dívida porque a senhora, quando soube da expulsão, tentou se suicidar disparando-se um tiro. Sobreviveu e agora se recupera em sua própria casa. McCain decide falar sobre terrorismo. Sim, porque é muito comum que um senador seja amigo de terroristas, obviamente. Muito mais comum que amigos de terroristas não sejam vetados para a candidatura presidencial.
Oxalá o processo de escolha do vice-presidente fosse o mesmo. Caso assim fosse, Palin jamais seria considerada, à não ser por, voilá, terroristas. De todos os modos, menos tenho contra McCain do que por seu juízo completamente comprometido quando a escolheu ao bilhete. Ela tornou-se o Bush depois de Bush, a pior das escolhas possíveis e imagináveis já vistas nesta Terra. Seria menos insólito que Aécio Neves vencesse a presidência com Fernando Collor no bilhete, do que o que vimos no processo presidencial aqui, nos Estados Unidos. Nada me enerva mais, e a nada repudio mais do que a existência de Palin no bilhete republicano.
Quanto aos ataques negativos… Falta pouco. Amanhecerá…
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Charles Keating,
John McCain,
Sarah Palin
Friday, October 03, 2008
A Pit-Bull e o Velho Pastor Americano
Ontem foi noite de debates tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Aqui, a governadora do Alaska, Sarah Palin, e o senador por Delaware, Joe Biden, debutaram no único debate vice-presidencial disponível à analise eleitoral.
As expectativas em relação a Palin eram realmente baixas. A mídia, especialmente a entrevista de Katie Couric paulatinamente televisionada em duas semanas, preocupou-se com a possibilidade (deliciosa, para quem trabalha com a mídia) de que a governadora caísse sobre a própria face em suas respostas, mas não foi, exatamente, o que vimos.
Começo com a nota pessoal: Odiei o debate. Quando falo em ódio não se trata da raiva passageira que sentem uns quando confrontam opiniões opostas, mas da reviravolta intestinal que se dá quando ouvimos duas pessoas falarem como se fossem “mui amigas”, enquanto o país se degladia polarizado entre a esquerda de Barack Obama e a direita de Sarah Palin.
O formato foi limitante, e as perguntas jamais foram seguidas caso o respectivo candidato não as respondesse. Isto permitiu a Palin, logo no início do debate, dizer a Gwen Ifill:
“Posso não responder conforme a moderadora espere, ou conforme [Biden] espere, mas falarei diretamente ao povo estadunidense sobre meu trabalho.”
Não é que Palin venceu o debate, mas Biden, apesar de claramente melhor, explicitamente melhor preparado e com a lingua afiada de detalhes vividos em sua vasta carreira no Senado, não conseguiu finalizá-lo. Seja por cordialidade excessiva, ou pelo fato de que sua adversária é tão distinta do que a média política, o senador democrata a tratou com enorme respeito e cuidado.
Porém, Palin foi excelente. Isto é, caso meus leitores tenham como “excelente” a façanha de conseguir não explodir em pleno palco, e ter decorado palavra por palavra (algumas erradas, outras lidas enquanto respondia a Biden) ditada pelos conselheiros da campanha de republicana.
O que a governadora conseguiu, no entanto, foi parecer mais popular do que Biden. Piscava à moderadora, falava direto para a câmera, e fazia referências populares para melhor identificação com a classe média. Ao mesmo tempo, parte de seu “populismo” soou e viu-se ensaiado, propositalmente atirado aos ares dos espectadores, o que não significa que não tenha funcionado.
Em diversas ocasiões referiu-se como “Joe Sixpack” (o João da Brahma), “hockey mom” (mãe de um time de hockey), e quando respondeu ao recorde de Biden, que votou a favor da resolução presidencial que fatalmente permitiu a George W. Bush invadir o Iraque, disse “oh, man (ô, carinha), dá pra perceber que não sou de Washington, não entendo essa mentalidade de mudar de posição dependendo da disputa”.
O ponto mais fraco de Palin foram os detalhes, eternos detalhes. Desde chamar o general das forças armadas no Afeganistão de McLelan (o nome certo é Gen. David McKiernan), a sair-se em todas as ocasiões, cem por cento delas, com chavões e retóricas republicanas, a ignorar constantemente o tema da pergunta, para falar o que mais lhe convinha.
O ponto mais fraco de Biden foi não ter respondido todos os ataques com a “agressividade” necessária em um debate de tamanhas proporções. Além disso, o fato de não ter concordado com Obama em algumas ocasiões, e o fato de ter votado a favor da resolução acima mencionada, fez com que algumas de suas palavras soassem menos genuínas, e certamente o senador por Delaware jamais incendiou o debate.
Alguns temas não foram contestados do lado de Palin, portanto atribúo a vitória a Biden. Essencialmente, Palin jamais disputou o recorde de McCain comparado ao recorde de Bush, apesar de ter tido a chance. Em relação a decisões políticas das quais se arrepende, Palin falou estritamente de seu estado, e dos vetos que deixou de assinar em ocasiões para chegar ao compromisso que achava correto. Além disso, a governadora disse que lutaria para que seu poder como vice-presidente fosse aumentado.
Outros dois momentos dos menos temerosamente tediosos valem a menção:
Quando Palin e Biden responderam a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Biden começou dizendo que lutaria para que todos os casais, independente do sexo, tivessem os mesmos direitos sob as asas constitucionais. Palin disse que jamais discriminaria entre casais do mesmo sexo, mas que era contra essa união e que lutaria para que o conceito de casamento não fosse mudado. O problema? Biden concordou, logo depois. Esse seria exatamente um dos assuntos essenciais para mostrar a diferença entre os partidos e as ideologias de cada candidato, mas passou praticamente em branco, apesar de que eu, ao menos, não acreditei por um instante que a governadora realmente se importa com homossexuais.
O outro ocorreu quando Biden falava de seus filhos feridos, e de sua esposa e filha mortas em um acidente automobilístico pouco antes de sua primeira eleição ao Senado. Biden chegou a engasgar um pouco, como de costume quando fala no assunto em qualquer circunstância, e quase chorou. Palin simplesmente ignorou o que Biden disse, e sua resposta expressou-se excitante, mas fria, quando usou novos jargões republicanos, desnexados da sequência do debate.
Em minha humilde opinião, caso alguém realmente acredite que Palin venceu o debate, isso só foi possível pela baixa expectativa criada pela mídia nas duas semanas anteriores. No geral, a maioria dos analistas concorda que não houve, concretamente, a menor mudança no quadro eleitoral, e os vice-presidentes não são mais critério na batalha.
RF
As expectativas em relação a Palin eram realmente baixas. A mídia, especialmente a entrevista de Katie Couric paulatinamente televisionada em duas semanas, preocupou-se com a possibilidade (deliciosa, para quem trabalha com a mídia) de que a governadora caísse sobre a própria face em suas respostas, mas não foi, exatamente, o que vimos.
Começo com a nota pessoal: Odiei o debate. Quando falo em ódio não se trata da raiva passageira que sentem uns quando confrontam opiniões opostas, mas da reviravolta intestinal que se dá quando ouvimos duas pessoas falarem como se fossem “mui amigas”, enquanto o país se degladia polarizado entre a esquerda de Barack Obama e a direita de Sarah Palin.
O formato foi limitante, e as perguntas jamais foram seguidas caso o respectivo candidato não as respondesse. Isto permitiu a Palin, logo no início do debate, dizer a Gwen Ifill:
“Posso não responder conforme a moderadora espere, ou conforme [Biden] espere, mas falarei diretamente ao povo estadunidense sobre meu trabalho.”
Não é que Palin venceu o debate, mas Biden, apesar de claramente melhor, explicitamente melhor preparado e com a lingua afiada de detalhes vividos em sua vasta carreira no Senado, não conseguiu finalizá-lo. Seja por cordialidade excessiva, ou pelo fato de que sua adversária é tão distinta do que a média política, o senador democrata a tratou com enorme respeito e cuidado.
Porém, Palin foi excelente. Isto é, caso meus leitores tenham como “excelente” a façanha de conseguir não explodir em pleno palco, e ter decorado palavra por palavra (algumas erradas, outras lidas enquanto respondia a Biden) ditada pelos conselheiros da campanha de republicana.
O que a governadora conseguiu, no entanto, foi parecer mais popular do que Biden. Piscava à moderadora, falava direto para a câmera, e fazia referências populares para melhor identificação com a classe média. Ao mesmo tempo, parte de seu “populismo” soou e viu-se ensaiado, propositalmente atirado aos ares dos espectadores, o que não significa que não tenha funcionado.
Em diversas ocasiões referiu-se como “Joe Sixpack” (o João da Brahma), “hockey mom” (mãe de um time de hockey), e quando respondeu ao recorde de Biden, que votou a favor da resolução presidencial que fatalmente permitiu a George W. Bush invadir o Iraque, disse “oh, man (ô, carinha), dá pra perceber que não sou de Washington, não entendo essa mentalidade de mudar de posição dependendo da disputa”.
O ponto mais fraco de Palin foram os detalhes, eternos detalhes. Desde chamar o general das forças armadas no Afeganistão de McLelan (o nome certo é Gen. David McKiernan), a sair-se em todas as ocasiões, cem por cento delas, com chavões e retóricas republicanas, a ignorar constantemente o tema da pergunta, para falar o que mais lhe convinha.
O ponto mais fraco de Biden foi não ter respondido todos os ataques com a “agressividade” necessária em um debate de tamanhas proporções. Além disso, o fato de não ter concordado com Obama em algumas ocasiões, e o fato de ter votado a favor da resolução acima mencionada, fez com que algumas de suas palavras soassem menos genuínas, e certamente o senador por Delaware jamais incendiou o debate.
Alguns temas não foram contestados do lado de Palin, portanto atribúo a vitória a Biden. Essencialmente, Palin jamais disputou o recorde de McCain comparado ao recorde de Bush, apesar de ter tido a chance. Em relação a decisões políticas das quais se arrepende, Palin falou estritamente de seu estado, e dos vetos que deixou de assinar em ocasiões para chegar ao compromisso que achava correto. Além disso, a governadora disse que lutaria para que seu poder como vice-presidente fosse aumentado.
Outros dois momentos dos menos temerosamente tediosos valem a menção:
Quando Palin e Biden responderam a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Biden começou dizendo que lutaria para que todos os casais, independente do sexo, tivessem os mesmos direitos sob as asas constitucionais. Palin disse que jamais discriminaria entre casais do mesmo sexo, mas que era contra essa união e que lutaria para que o conceito de casamento não fosse mudado. O problema? Biden concordou, logo depois. Esse seria exatamente um dos assuntos essenciais para mostrar a diferença entre os partidos e as ideologias de cada candidato, mas passou praticamente em branco, apesar de que eu, ao menos, não acreditei por um instante que a governadora realmente se importa com homossexuais.
O outro ocorreu quando Biden falava de seus filhos feridos, e de sua esposa e filha mortas em um acidente automobilístico pouco antes de sua primeira eleição ao Senado. Biden chegou a engasgar um pouco, como de costume quando fala no assunto em qualquer circunstância, e quase chorou. Palin simplesmente ignorou o que Biden disse, e sua resposta expressou-se excitante, mas fria, quando usou novos jargões republicanos, desnexados da sequência do debate.
Em minha humilde opinião, caso alguém realmente acredite que Palin venceu o debate, isso só foi possível pela baixa expectativa criada pela mídia nas duas semanas anteriores. No geral, a maioria dos analistas concorda que não houve, concretamente, a menor mudança no quadro eleitoral, e os vice-presidentes não são mais critério na batalha.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Gwen Ifill,
Joe Biden,
John McCain,
Sarah Palin
Thursday, October 02, 2008
Mais sobre a Crise
Quando escrevi no passado texto que estava ao lado dos republicanos na lei de resgate econômico ontem aprovada pelo Senado por 75-28 votos, referia-me especificamente aos motivos dados por 95 democratas contrários à lei no Congresso.
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Henry Paulson,
Joe Biden,
John McCain,
Katie Couric,
Nancy Pelosi,
Sarah Palin
Wednesday, September 17, 2008
Os Fundamentos de Nossa Economia
O candidato republicano à presidência, John McCain, desde o início de 2008 tem dito copiosamente que “os fundamentos de nossa economia são ainda fortes”.
Nos primeiros meses do ano, quando os preços da gasolina já ameaçavam chegar onde estão hoje, e no ápice do déficit acumulado pela empreitada no Iraque, incluindo problemas que já sinalizavam a crise do crédito vista hoje em dia, problema central na crise imobiliária crescente, McCain insistia que não entraríamos em uma recessão, propriamente dita.
Depois dos acontecimentos desta Segunda-Feira, no entanto, quando três companhias deixaram de existir como antes conhecidas, Merrill Lynch, comprada pelo Bank of America, e a Lehman Brothers, recentemente comprada pela companhia européia Barclay, ; depois da queda de mais de 500 pontos no DOW, a maior queda desde o dia 17 de Setembro de 2001; com um déficit de mais de 350 bilhões de dólares (o orçamento fechado pelo gabinete de Bill Clinton mostrava o saldo positivo de mais de 250 bilhões de dólares) e o aumento do desemprego de 4.1% da era Clinton a mais de 6% hoje em dia, McCain ainda insiste em dizer que “os fundamentos de nossa economia estão fortes”.
Apesar de concordar com o analista político da MSNBC, Chuck Todd, ignorarei a inutilidade de divulgar as pesquisas diárias do Gallup e menciono que Obama amanheceu com um ponto a menos na diferença aberta por McCain à semana passada, 47-46%.
De acordo com o instituto Zogby de pesquisas, Barack Obama lidera pelo resultado que perdia ontem, pela Gallup, 47-45%. Mesmo tendo perdido a enorme vantagem nas pesquisas na maioria dos estados, de acordo com a matemática atual, venceria ou empataria com seu rival em número de colégios eleitorais. 270 são necessários para a eleição final, e Obama teria 274 no melhor dos cenários, e 269 no pior deles, o mesmo número atribuído a McCain.
No auge de Setembro, depois das convenções e da explosão de popularidade adquirida pela vice-presidente Sarah Palin, as pesquisas voltam ao eixo do diário. Quando a crise econômica é finalmente admitida pelos mesmos sujeitos que a negavam piamente há uma semana, a atenção volta-se novamente a Obama.
Porém, talvez a reação pública fosse diferente caso não houvesse ocorrido o descrito a seguir:
A desconfiança por Sarah Palin
Primeiro foi a entrevista dada a Charles Gibson, da ABC, na qual a vice-presidente de McCain não soube o que a “doutrina Bush” significava (vocês, leitores brasileiros, estão isentos dessa obrigação, logo esclareço: A doutrina Bush é o nome dado à atuação preventiva do exército estadunidense, antes caracterizado como exército defensor, e com a era Bush reformado a atacar e previnir ataques iminentes), que repetiu ter experiência em relações externas porque vê vilas russas de sua casa, no Alaska, e ainda disse que confrontaria a Rússia se a ex potência soviética não deixasse a Geórgia em paz, mesmo sabendo que o exército vê-se desgastado no Iraque, Afeganistão, ainda comportando operações no Paquistão.
Caso apenas a “mídia liberal” tivesse se manifestado contra a reação não só inexperiente, mas imatura de Palin diante de Gibson, poucos poderiam dizer que sua falha fez-se clara aos olhos do eleitorado. No entanto, apesar de que alguns oficiais da campanha republicana (incluindo uma colunista do The New York Times supostamente não afiliada) terem criticado o repórter como arrogante e presunçoso, lentamente, a opinião de outros clássicos conservadores começou a saltar das páginas dos jornais.
David Brooks, colunista conservador já mencionado aqui em discórdia, dedicou sua coluna de Terça-Feira para criticar a inexperiência de Palin, dizendo que ela podia até trazer charme e popularidade a uma campanha desmilinguida, mas que não trazia experiência e sagacidade política. Outros colunistas e analistas políticos disseram o mesmo, especialmente à luz da crise econômica que, finalmente, passa a perceber-se mesmo pelos mais ferrenhos conservadores.
Com amigos assim, quem precisa de inimigos?
Uma das campanhistas mais ativas por John McCain, a empresária da companhia Hewlett Packard, Carly Fiorina, anunciou ao lado dos demais empresários que a companhia cortará 7.1% de sua força trabalhista, ou 24,600 empregos.
Ao fazê-lo, disse que seu candidato, McCain, não está apto a lidar com uma companhia como a sua, nem sua vice-presidente, Sarah Palin. Somente depois disso acrescentou que os candidatos democratas tampouco estavam aptos a lidar com sua companhia.
À noite, Fiorina foi chamada de “idiota” por alguns, “incompetente” por outros, e houve até quem quisesse “jogá-la embaixo de um ônibus”.
Algo similar ocorrera há pouco, quando o ex senador Phil Gramm, ícone econômico da campanha de McCain, disse que tudo estava bem economicamente, e que o país tornou-se “uma nação de bebês-chorões”. Agora, aposto que Gramm se arrepende, amargamente, de tê-lo feito.
Será que os Fundamentos de Nossa Economia estão mesmo indo bem, obrigado?
Todos se perguntam o que o senador pelo Arizona quer dizer com “os fundamentos de nossa economia”. A questão já foi feita a ele inúmeras vezes desde Segunda-Feira, e seus assessores dizem a mesma coisa: “Quando McCain fala em fundamentos, refere-se ao trabalhador e seu espírito progressista.”
No entanto, essa não é a definição pragmática de “fundamentos econômicos”, mas sim os índices sociais ligados à economia. O desemprego aumentando, o déficit aumentando, a dívida externa aumentando, companhias crediárias falindo, casas perdidas no mercado, e o preço incontrolável da gasolina, são todos índices que compõem o fundamento de qualquer economia. Pois, esses estão cada vez mais bambos, e McCain não discorda, logo deu sua própria definição.
Ninguém mais mencionou o que aqui menciono, mas essa definição de McCain me assusta mais do que seus “cem anos no Iraque”. Afinal, o que o senador parece fazer é conceituar abstratamente o que mais temos de concreto. Além de comprometer-se a “montar uma comissão que procure soluções aos nossos problemas econômicos”, algo abstrato e efetivamente destruído com a comissão montada para investigar os acontecimentos do 11 de Setembro, ainda traz as palavras “espírito”, “força”, “resistência”, como fossem concretas e reais, tanto quanto a soma de todas as crises.
Fatidicamente, não o é. Resta saber até que ponto o eleitorado norte-americano está disposto a seguir se enganando.
RF
Nos primeiros meses do ano, quando os preços da gasolina já ameaçavam chegar onde estão hoje, e no ápice do déficit acumulado pela empreitada no Iraque, incluindo problemas que já sinalizavam a crise do crédito vista hoje em dia, problema central na crise imobiliária crescente, McCain insistia que não entraríamos em uma recessão, propriamente dita.
Depois dos acontecimentos desta Segunda-Feira, no entanto, quando três companhias deixaram de existir como antes conhecidas, Merrill Lynch, comprada pelo Bank of America, e a Lehman Brothers, recentemente comprada pela companhia européia Barclay, ; depois da queda de mais de 500 pontos no DOW, a maior queda desde o dia 17 de Setembro de 2001; com um déficit de mais de 350 bilhões de dólares (o orçamento fechado pelo gabinete de Bill Clinton mostrava o saldo positivo de mais de 250 bilhões de dólares) e o aumento do desemprego de 4.1% da era Clinton a mais de 6% hoje em dia, McCain ainda insiste em dizer que “os fundamentos de nossa economia estão fortes”.
Apesar de concordar com o analista político da MSNBC, Chuck Todd, ignorarei a inutilidade de divulgar as pesquisas diárias do Gallup e menciono que Obama amanheceu com um ponto a menos na diferença aberta por McCain à semana passada, 47-46%.
De acordo com o instituto Zogby de pesquisas, Barack Obama lidera pelo resultado que perdia ontem, pela Gallup, 47-45%. Mesmo tendo perdido a enorme vantagem nas pesquisas na maioria dos estados, de acordo com a matemática atual, venceria ou empataria com seu rival em número de colégios eleitorais. 270 são necessários para a eleição final, e Obama teria 274 no melhor dos cenários, e 269 no pior deles, o mesmo número atribuído a McCain.
No auge de Setembro, depois das convenções e da explosão de popularidade adquirida pela vice-presidente Sarah Palin, as pesquisas voltam ao eixo do diário. Quando a crise econômica é finalmente admitida pelos mesmos sujeitos que a negavam piamente há uma semana, a atenção volta-se novamente a Obama.
Porém, talvez a reação pública fosse diferente caso não houvesse ocorrido o descrito a seguir:
A desconfiança por Sarah Palin
Primeiro foi a entrevista dada a Charles Gibson, da ABC, na qual a vice-presidente de McCain não soube o que a “doutrina Bush” significava (vocês, leitores brasileiros, estão isentos dessa obrigação, logo esclareço: A doutrina Bush é o nome dado à atuação preventiva do exército estadunidense, antes caracterizado como exército defensor, e com a era Bush reformado a atacar e previnir ataques iminentes), que repetiu ter experiência em relações externas porque vê vilas russas de sua casa, no Alaska, e ainda disse que confrontaria a Rússia se a ex potência soviética não deixasse a Geórgia em paz, mesmo sabendo que o exército vê-se desgastado no Iraque, Afeganistão, ainda comportando operações no Paquistão.
Caso apenas a “mídia liberal” tivesse se manifestado contra a reação não só inexperiente, mas imatura de Palin diante de Gibson, poucos poderiam dizer que sua falha fez-se clara aos olhos do eleitorado. No entanto, apesar de que alguns oficiais da campanha republicana (incluindo uma colunista do The New York Times supostamente não afiliada) terem criticado o repórter como arrogante e presunçoso, lentamente, a opinião de outros clássicos conservadores começou a saltar das páginas dos jornais.
David Brooks, colunista conservador já mencionado aqui em discórdia, dedicou sua coluna de Terça-Feira para criticar a inexperiência de Palin, dizendo que ela podia até trazer charme e popularidade a uma campanha desmilinguida, mas que não trazia experiência e sagacidade política. Outros colunistas e analistas políticos disseram o mesmo, especialmente à luz da crise econômica que, finalmente, passa a perceber-se mesmo pelos mais ferrenhos conservadores.
Com amigos assim, quem precisa de inimigos?
Uma das campanhistas mais ativas por John McCain, a empresária da companhia Hewlett Packard, Carly Fiorina, anunciou ao lado dos demais empresários que a companhia cortará 7.1% de sua força trabalhista, ou 24,600 empregos.
Ao fazê-lo, disse que seu candidato, McCain, não está apto a lidar com uma companhia como a sua, nem sua vice-presidente, Sarah Palin. Somente depois disso acrescentou que os candidatos democratas tampouco estavam aptos a lidar com sua companhia.
À noite, Fiorina foi chamada de “idiota” por alguns, “incompetente” por outros, e houve até quem quisesse “jogá-la embaixo de um ônibus”.
Algo similar ocorrera há pouco, quando o ex senador Phil Gramm, ícone econômico da campanha de McCain, disse que tudo estava bem economicamente, e que o país tornou-se “uma nação de bebês-chorões”. Agora, aposto que Gramm se arrepende, amargamente, de tê-lo feito.
Será que os Fundamentos de Nossa Economia estão mesmo indo bem, obrigado?
Todos se perguntam o que o senador pelo Arizona quer dizer com “os fundamentos de nossa economia”. A questão já foi feita a ele inúmeras vezes desde Segunda-Feira, e seus assessores dizem a mesma coisa: “Quando McCain fala em fundamentos, refere-se ao trabalhador e seu espírito progressista.”
No entanto, essa não é a definição pragmática de “fundamentos econômicos”, mas sim os índices sociais ligados à economia. O desemprego aumentando, o déficit aumentando, a dívida externa aumentando, companhias crediárias falindo, casas perdidas no mercado, e o preço incontrolável da gasolina, são todos índices que compõem o fundamento de qualquer economia. Pois, esses estão cada vez mais bambos, e McCain não discorda, logo deu sua própria definição.
Ninguém mais mencionou o que aqui menciono, mas essa definição de McCain me assusta mais do que seus “cem anos no Iraque”. Afinal, o que o senador parece fazer é conceituar abstratamente o que mais temos de concreto. Além de comprometer-se a “montar uma comissão que procure soluções aos nossos problemas econômicos”, algo abstrato e efetivamente destruído com a comissão montada para investigar os acontecimentos do 11 de Setembro, ainda traz as palavras “espírito”, “força”, “resistência”, como fossem concretas e reais, tanto quanto a soma de todas as crises.
Fatidicamente, não o é. Resta saber até que ponto o eleitorado norte-americano está disposto a seguir se enganando.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
ABC,
Barack Obama,
Carly Fiorina,
Charles Gibson,
John McCain,
MSNBC,
Phil Gramm,
Sarah Palin
Friday, September 12, 2008
A trégua Acabou
Por 24 horas, no dia 11 de Setembro, democratas e republicanos se uniram para lembrar a data e a tragédia massiva que tomou conta dos Estados Unidos pela primeira vez em mais de um século. A partir da meia noite de hoje, no entanto, a trégua acabou.
Enquanto John McCain e Barack Obama apareciam juntos no Ground Zero, local onde as torres do centro financeiro mundial são lentamente reerguidas, a cordialidade e a simpatia pessoal de cada candidato se manifestou em uma imagem propriamente estadunidense. À noite, em um foro em que os senadores apareceram separadamente questionados por moderadores oficiais, ambos explicaram em maiores detalhes o que fariam para o país, nos idiomas conservador e liberal.
O fato é que no dia 10 de Setembro a maioria dos jornais impressos e televisionados debateram durante a íntegra de suas programações os ataques de propagandas políticas republicanas contra Obama. E, pior do que tudo, ambos ataques discutidos são completamente falsos. Se não, vejamos:
“Você pode colocar batom em um porco, mas ele continuará sendo um porco.”
Antes que meus leitores da direita ululante pulem de seus assentos dizendo: “Ahá! Te peguei!”
A frase que Obama disse em um discurso na noite de 9 de Setembro referia-se à política econômica de McCain. A mesma frase foi usada por McCain duas vezes quando referia-se à política de Hillary Rodham Clinton. Aliás, esse é um ditado popular na política norte-americana, que basicamente quer dizer que mascarar o feio não o torna bonito, ajeitar o errado não o faz certo.
Se você adivinhou que o campo republicano, guiado pelo já aposentado juíz Karl Rove, usou a frase fora de contexto para clamar que Obama chamou Sarah Palin de porca, acertou em cheio. Primeiro ataque completamente falso e sujo do campo do senador pelo Arizona. O mesmo tipo de ataque, inclusive, que o derrotou contra George W. Bush nas preliminares republicanas de 2000.
A segunda propaganda também usa Palin, muitíssimo mais popular do que o candidato à presidência, para dizer que Obama apoiava educação sexual para crianças do jardim de infância.
Um dos grandes quesitos a distanciar o eleitorado liberal da atração de Palin é seu posicionamento em relação à educação sexual. Pela governadora do Alaska, nenhuma criança, de nenhuma idade, seria educada a mais do que abstinência. Distribuição de preservativos, então, nem pensar, afinal, quanto mais camisinha distribuída, mais sexo os adolescentes irão ter. Faz sentido? Não, mas nem precisa.
Novamente, o fato é que Obama jamais apoiou tamanho absurdo, e o mesmo ataque já foi feito por seu rival ao senado, quando elegeu-se pela primeira vez, sem funcionar justamente por ser falso. Obama nada tinha a ver com a legislação em questão, que visava educar crianças do jardim de infância a identificarem predadores sexuais, e alertar os pais sobre o assunto, uma paranóia nacional. Ou seja, o candidato democrata nem apoiou a legislação, e nem se tratava de educação sexual, propriamente dita.
Portanto, o campo de Obama, que vem sofrendo esta semana uma queda nas pesquisas (perdendo de McCain por uma média de 3-5% nas pesquisas gerais), pretende começar a atacar também.
Democratas de todo o país sentiram-se revoltados em 2004 porque as distrações que classificaram John Kerry como elitista e alienado (comparado a Bush, para que tenham idéia do tamanho da distração) não foram devidamente contra-atacadas. O candidato democrata pretendia elevar-se, pensando que o ano favorecia democratas, mas acabou perdendo pela maioria de votos, não só pelos colégios eleitorais.
Mesmo assim, graças ao estilo Rove de montar dossiês, mentir repetidamente até que a mentira cole, e distrair o público do que realmente importa em 2008, a campanha novamente parte de substâncias mínimas e muita fofoca.
O eleitorado não agradece.
RF
Enquanto John McCain e Barack Obama apareciam juntos no Ground Zero, local onde as torres do centro financeiro mundial são lentamente reerguidas, a cordialidade e a simpatia pessoal de cada candidato se manifestou em uma imagem propriamente estadunidense. À noite, em um foro em que os senadores apareceram separadamente questionados por moderadores oficiais, ambos explicaram em maiores detalhes o que fariam para o país, nos idiomas conservador e liberal.
O fato é que no dia 10 de Setembro a maioria dos jornais impressos e televisionados debateram durante a íntegra de suas programações os ataques de propagandas políticas republicanas contra Obama. E, pior do que tudo, ambos ataques discutidos são completamente falsos. Se não, vejamos:
“Você pode colocar batom em um porco, mas ele continuará sendo um porco.”
Antes que meus leitores da direita ululante pulem de seus assentos dizendo: “Ahá! Te peguei!”
A frase que Obama disse em um discurso na noite de 9 de Setembro referia-se à política econômica de McCain. A mesma frase foi usada por McCain duas vezes quando referia-se à política de Hillary Rodham Clinton. Aliás, esse é um ditado popular na política norte-americana, que basicamente quer dizer que mascarar o feio não o torna bonito, ajeitar o errado não o faz certo.
Se você adivinhou que o campo republicano, guiado pelo já aposentado juíz Karl Rove, usou a frase fora de contexto para clamar que Obama chamou Sarah Palin de porca, acertou em cheio. Primeiro ataque completamente falso e sujo do campo do senador pelo Arizona. O mesmo tipo de ataque, inclusive, que o derrotou contra George W. Bush nas preliminares republicanas de 2000.
A segunda propaganda também usa Palin, muitíssimo mais popular do que o candidato à presidência, para dizer que Obama apoiava educação sexual para crianças do jardim de infância.
Um dos grandes quesitos a distanciar o eleitorado liberal da atração de Palin é seu posicionamento em relação à educação sexual. Pela governadora do Alaska, nenhuma criança, de nenhuma idade, seria educada a mais do que abstinência. Distribuição de preservativos, então, nem pensar, afinal, quanto mais camisinha distribuída, mais sexo os adolescentes irão ter. Faz sentido? Não, mas nem precisa.
Novamente, o fato é que Obama jamais apoiou tamanho absurdo, e o mesmo ataque já foi feito por seu rival ao senado, quando elegeu-se pela primeira vez, sem funcionar justamente por ser falso. Obama nada tinha a ver com a legislação em questão, que visava educar crianças do jardim de infância a identificarem predadores sexuais, e alertar os pais sobre o assunto, uma paranóia nacional. Ou seja, o candidato democrata nem apoiou a legislação, e nem se tratava de educação sexual, propriamente dita.
Portanto, o campo de Obama, que vem sofrendo esta semana uma queda nas pesquisas (perdendo de McCain por uma média de 3-5% nas pesquisas gerais), pretende começar a atacar também.
Democratas de todo o país sentiram-se revoltados em 2004 porque as distrações que classificaram John Kerry como elitista e alienado (comparado a Bush, para que tenham idéia do tamanho da distração) não foram devidamente contra-atacadas. O candidato democrata pretendia elevar-se, pensando que o ano favorecia democratas, mas acabou perdendo pela maioria de votos, não só pelos colégios eleitorais.
Mesmo assim, graças ao estilo Rove de montar dossiês, mentir repetidamente até que a mentira cole, e distrair o público do que realmente importa em 2008, a campanha novamente parte de substâncias mínimas e muita fofoca.
O eleitorado não agradece.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Hillary Clinton,
John Kerry,
John McCain,
Karl Rove,
Sarah Palin
Monday, September 08, 2008
Parcialidade Total
A manhã ferve nos Estados Unidos, mas recorrendo aos eventos da semana passada, quando finalmente me dei conta da existência de um considerável grupo de republicanos internacionais, melhor escrever sobre a mídia e o destaque do The New York Times sobre a rede MSNBC.
Antes disso, faz-se importante falar sobre o resultado semanal do Instituto Gallup de pesquisas, mostrando a liderança de John McCain sobre Barack Obama por 48-45%. Esse é o primeiro resultado diretamente relevante às eleições gerais, já que, pela primeira vez em um século, as convenções seguiram-se semana após a outra, e a corrida presidencial tem menos de dois meses de vida.
Como qualquer estatística, os números oferecem a margem de erro de 3 pontos percentuais, mas o mais importante é que não há como saber exatamente a raíz da mudança do direcionamento geral das pesquisas, que na semana passada mostravam Obama com nove pontos à frente de McCain.
Essencialmente, Nenhuma das pesquisas da semana passada tinham, na íntegra, em consideração o discurso de Sarah Palin influenciando o eleitorado. Portanto, mesmo que parcialmente, a nomeada vice-presidente republicana conquista maior popularidade ao seu candidato. É, de fato, mais popular do que o senador pelo Arizona.
Todavia, a convenção republicana em St. Paul trouxe a parcialidade midiática ao juízo popular. Antes mesmo das acusações de Palin contra a mídia liberal, executivos da MSNBC decidiram mudar a face da transmissão eleitoral com a escalação de dois dos mais controversos âncoras liberais da televisão estadunidense, Keith Olbermann e Chris Mathews.
A emissora mãe, NBC, já mantinha relações turbulentas com a equipe da MSNBC, mas dessa vez a pressão popular, culminando no apoio massivo à vice-presidente de McCain, surtiu o efeito desejado, e ambos Mathews e Olbermann foram retirados da ancoragem eleitoral.
Olbermann é apresentador do polêmico e ruidoso programa Countdown, que encontrou sua voz, segundo o artigo do The New York Times, quando começou a criticar veementemente a administração do presidente George W. Bush e contar os “dias depois da declaração de ‘Missão Cumprida’ no Iraque”. Mathews apresenta o segmento Hardball, Jogo Duro em tradução livre, no qual entrevista analistas e políticos de modo objetivo, sagaz, mas claramente liberal.
Enquanto tentavam conciliar suas funções de formadores de opinião e jornalistas, acabaram borrando as linhas em múltiplas ocasiões, inclusive discutindo, ao vivo, entre si. Joe Scarborough, ex congressista republicano e apresentador do programa “Morning Joe” da mesma emissora, defendia McCain enquanto Olbermann, em tom menor, mas ainda audível, disse agressivamente: “Por que você não pega uma pá” (para cobrir a fumaça do campo republicano)?
Finalmente, a MSNBC acabou perdendo a batalha contra Palin. De modo geral, a maioria das vezes que políticos atribúem sua impopularidade à mídia, incluindo Bush, perdem ainda mais perante o povo. Dessa vez, como foi com Ronald Reagan nos anos oitenta, Palin conseguiu agitar a opinião pública a seu favor, e torná-la contra a mídia.
De fato, a MSNBC tem se tornado cada vez mais opininativa e menos imparcial, mas telespectadores como eu gostam do canal justamente pela vertente. A CNN é constantemente acusada de parcialidade palestina, além de ser tão atacada ou mais do que MSNBC pelos conservadores como “membro da mídia liberal”. Aliás, o próprio The New York Times carrega a mesma fama.
O conflito que vos trago, para pensar, quiçá, é que a Fox News é também criticada por suas empreitadas conservadoras, e aparentemente, apesar de manter Bill O’Reilly, o exato equivalente a Keith Olbermann à direita, fora da transmissão jornalística das convenções, ainda sofre aos olhos da nação por seu papel central nas eleições de Bush em 2000. The Wall Street Journal leva a mesma fama, e The Washington Post, especialmente depois da aquisição de Rupert Murdoch, é criticada pelo posicionamento conservador.
Brasileiros educados sabem mais do que estadunidenses que a parcialidade midiática não tem limites. Porém, se presto atenção na mesma história que vocês prestam, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, não foi exatamente eleito pelo apoio da mídia. O que a mídia incita não é necessariamente acatado pela população. A parcialidade existe, como disse em resposta privada a um dos comentários no Blog da Santa, porque os próprios profissionais são parciais, e porque seus executivos são parciais a determinados temas.
O protecionismo de interesses existe tanto de um lado quanto de outro. Portanto, penso inválidas as acusações de que a mídia controla e tempera o humor da população, em parte porque nem todos assistem jornais, nem todos assistem os mesmos jornais, e a maioria apenas se identifica e lê o que quer porque já simpatiza ou pensa como seus apresentadores respectivos.
Mas a MSNBC realmente abusou da parcialidade na transmissão das convenções. Temendo atentados contra Olbermann, o âncora foi enviado a Nova York para cobrir a convenção republicana longe de St. Paul. Apesar de ambos manterem seus programas, está claro, nessa experiência, que formadores de opinião não podem ser os mesmos a dar as boas ou más novas ao eleitorado.
E a semana começa em alta para John McCain e Sarah Palin.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Chris Mathews,
CNN,
FOX NEWS,
Joe Scarborough,
John McCain,
KEITH OLBERMANN,
MSNBC,
NBC,
Sarah Palin,
The New York Times,
The Wall Street Journal,
The Washington Post
Friday, September 05, 2008
Respondendo aos comentários alheios
Santa, do blog sócio-político-cultural, um dos mais descolados e populares do Eixo do Bem, reproduziu a coluna de Reinaldo Azevedo comentando o discurso da vice-presidente de John McCain, Sarah Palin.
Frequentemente discordo de algumas posições comuns no blog da Santa, mas jamais deixo de visitá-lo porque conheço a inteligência e a capacidade (muito, mas muito maior do que a minha, isso não é falsa humildade, mas honestidade intelectual) de formular opiniões tanto da autora, quanto de muitos de seus comentaristas. Discordar dessa vez, contudo, me parece obrigatório, e relevante à Escolha do Próximo Porteiro são os argumentos tanto de Azevedo quanto dos comentaristas do blog. Usando-me do domínio público da rede virtual, postarei os comentários mais relevantes em negrito e minha posição. Espero esclarecer, se não o tema discutido, minha perspectiva a seu respeito.
Duda disse...
Observem que Palin criticou e muito bem criticado Obama como homem público e a mídia obamista porque a criticam pela vida privada. Dá-lhe, Sarah Palin!!!
Sim, Duda, por um lado, a mídia “obamista” realmente criticou Palin por sua inexperiência. Por outro, Barack Obama também foi criticado há exatamente oito dias pelos mesmos motivos pelo campo de McCain.
Veja bem, argumentaria como democrata que Obama foi eleito pelo povo, por uma maioria surpreendente de eleitores frescos, novos no cenário político, e outros mais experientes, não só negros, mas de todas as raízes imagináveis, incluindo conservadores.
Palin foi eleita em processo privado e secreto pela campanha de McCain, e foi exatamente, entre todos os candidatos, a mais inexperiente do grupo. Não significa que ela seja caipira, ou que não tenha até mais experiência do que Obama, mas sim que o democrata foi eleito democraticamente, e Palin, vice do presidente mais velho que o país já teve em seu primeiro mandato, pode assumir a nação sem ter sido escolhida democraticamente.
Mesmo assim, conforme especificado no primeiro parágrafo, Obama foi tão ou mais criticado do que Palin, e na mídia que eu assisto e leio, essas críticas têm enorme - e copiosa - repercussão.
Dayse disse...
Goste ou não, o discurso de Sarah Palin foi brilhante, profundo e verdadeiro. E ponto.
Sabe, Dayse, eu sou democrata, então mesmo como estudante de jornalismo, deixar de carregar minha própria opinião (conceito, e não pré-conceito) seria impraticável. Mesmo assim, ao assistir o discurso, que realmente foi o melhor da convenção, perguntei-me o mesmo que questionou Joe Biden no dia seguinte:
Palin não falou dos desafios da nação, apenas de modo geral e abstrato, jogatina republicana claramente exercida por George Bush em oito anos de poder.
Menciounou várias plataformas utópicas como “bondade”, “paz”, “segurança”, “valores”, “coragem”, “determinação”, mas nenhum dos convidados da noite falou sobre seguro de saúde, o escândalo da péssima inteligência e pressão da Casa Branca na ocupação da guerra no Iraque, sobre a crise imobiliária, e quando falou sobre o petróleo sua única sugestão é escavar e escavar e escavar.
Para que tenhas idéia, não sou contra escavações nas costas marítimas ou nas reservas ecológicas do Alaska. Não sou contra nem a favor, porque sei pouco sobre o tema e eu não sou ambientalista. Essa é uma das muitas bandeiras que não carrego. Mas aqui nos Estados Unidos há um camarada chamado T. Boone Pickens, republicano, que oferece um plano aparentemente brilhante para a reforma energética, baseando-se em gás natural, vento, energia solar, e, é claro, aumentar e liberar as reservas nacionais. McCain já delineou planos concretos para a reforma energética, mas Bush também o fez em 2000.
Até agora, as promessas energéticas são menos detalhadas do que o plano independente de Pickens, mas ambos candidatos as fazem.
Resumindo, o discurso pode ter sido bem feito, mas discordo de que tenha sido profundo. Foi um bom discurso, mas ainda assim, pela essência conservadora e por valores diferentes dos meus, penso-o razo e ainda corre o risco, àqueles que não simpatizam automaticamente com a governadora, de soar mesquinha e desprezível contra a celebridade de Obama, porque grande parte de seu discurso foi atacá-lo com sacadas espertas. Muita poesia, pouca consistência.
Lenice disse...
Parece que os grandes pecados de Sarah Palin, além de ser considerada conservadora, são: 1). Ser mãe que assumiu com amor um o bebê com síndrome de Down, 2). Ser mãe de uma filha que engravidou aos 17 anos; e 3). Ser uma mulher bonita, corajosa... É isso? Me poupe!!
Sobre isso, postei um trecho da coluna do jornalista José Inácio Werneck, do Direto da Redação, que melhor explica quais são seus únicos “pecados” ao meu ver. Sei que há quem compre as intrigas sobre sua filha com síndrome de down, ou sobre a gravidez de sua outra filha, de 17 anos, solteira, mas isso é normal, politicamente, um risco que McCain sabia correr quando a escolheu e, certamente, não afeta a decisão de quem tem a menor base racional. Não poder atacá-la seria protecionista, e atacá-la, como eu, não parte de meu machismo, mas, novamente, da diferença entre nossos valores.
Eis o trecho de Werneck:
"Sarah Palin é contra a defesa do meio-ambiente, é contra o direito de escolher o aborto, é contra os ensinamentos de Charles Darwin, é contra as pesquisas em células-tronco, contra a educação sexual nas escolas, quer tirar o urso polar das espécies protegidas, defendeu uma iniciativa para separar o Alaska dos Estados Unidos, é integrante da National Rifle Association, quer procurar petróleo nas reservas ecológicas do litoral ártico. Até dois anos atrás nem tinha passaporte, mas Cindy McCain, mulher de John McCain, diz que Sarah Palin entende muito de política internacional “pois o Alaska está pertinho da Sibéria”.Sarah Palin é uma evangélica fundamentalista (John Mccain raramente dá as caras num templo), que prega a abstinência sexual antes do casamento – o que não impediu sua filha de 17 anos, Bristol, de engravidar. O fato só se tornou conhecido depois do lançamento de sua candidatura, com grande estardalhaço, por John McCain." (Nota do Blogueiro: Discordo desse último trecho, mas é genuíno o argumento de que haja hipocrisia nos valores utópicos e na realidade indiferente mesmo aos conservadores mais ferrenhos).
Fabiana disse...
Peraí!!!
A mídia manipula sim. Antes mesmo de acontecer a convenção de Obama já estavam chamando de "histórica".
A mídia manipula sim, e também é manipulada, mas não nesse sentido.
Já respondi à Santa no texto do início da semana, mas respondo novamente. O contexto histórico dado à convenção democrata foi a NOMEAÇÃO oficial de um candidato negro a um PRINCIPAL partido nacional, a primeira vez que tal fato ocorre em qualquer país ocidental. Jesse Jackson e Al Sharpton, entre outros afro-descendentes, já foram nomeados ou se auto-nomearam por partidos independentes, mas essa é a primeira vez que mais da metade da nação quer e aceita a mera possibilidade de ter um negro na Casa Branca.
Democratas fizeram o mesmo com as mulheres. A primeira vice-presidente nomeada foi Geraldine Ferraro, que disputou no bilhete de Walter Mondale em 1984, contra Ronald Reagan. A primeira séria postulante presidencial dos tempos modernos foi Hillary Clinton, também democrata. O primeiro candidato negro nomeado oficialmente por um partido principal nos Estados Unidos à presidência é Barack Obama, democrata. Isso é, de fato, histórico.
Anônimo disse...
Sarah Palin, Huckabee, Giuliani e Romney foram excelentes. Os Republicanos impressionaram na Convenção, e teriam tudo para a vitória de novembro, não fosse a mídia pró-propaganda-Obama.
Anônimo, talvez você não esteja familiarizado com nosso presidente nos últimos oito anos. Seu nome é Bush, e tem a menor aprovação popular da história do Instituto Gallup de pesquisas. Obama tornou-se peça importante nesse jogo apenas em Janeiro de 2008. A matemática não bate. A excelência acima mencionada é subjetiva, e não tiro seu direito de tê-los visto assim.
That’s all, folks.
Abráx, beijúx,
RF
Frequentemente discordo de algumas posições comuns no blog da Santa, mas jamais deixo de visitá-lo porque conheço a inteligência e a capacidade (muito, mas muito maior do que a minha, isso não é falsa humildade, mas honestidade intelectual) de formular opiniões tanto da autora, quanto de muitos de seus comentaristas. Discordar dessa vez, contudo, me parece obrigatório, e relevante à Escolha do Próximo Porteiro são os argumentos tanto de Azevedo quanto dos comentaristas do blog. Usando-me do domínio público da rede virtual, postarei os comentários mais relevantes em negrito e minha posição. Espero esclarecer, se não o tema discutido, minha perspectiva a seu respeito.
Duda disse...
Observem que Palin criticou e muito bem criticado Obama como homem público e a mídia obamista porque a criticam pela vida privada. Dá-lhe, Sarah Palin!!!
Sim, Duda, por um lado, a mídia “obamista” realmente criticou Palin por sua inexperiência. Por outro, Barack Obama também foi criticado há exatamente oito dias pelos mesmos motivos pelo campo de McCain.
Veja bem, argumentaria como democrata que Obama foi eleito pelo povo, por uma maioria surpreendente de eleitores frescos, novos no cenário político, e outros mais experientes, não só negros, mas de todas as raízes imagináveis, incluindo conservadores.
Palin foi eleita em processo privado e secreto pela campanha de McCain, e foi exatamente, entre todos os candidatos, a mais inexperiente do grupo. Não significa que ela seja caipira, ou que não tenha até mais experiência do que Obama, mas sim que o democrata foi eleito democraticamente, e Palin, vice do presidente mais velho que o país já teve em seu primeiro mandato, pode assumir a nação sem ter sido escolhida democraticamente.
Mesmo assim, conforme especificado no primeiro parágrafo, Obama foi tão ou mais criticado do que Palin, e na mídia que eu assisto e leio, essas críticas têm enorme - e copiosa - repercussão.
Dayse disse...
Goste ou não, o discurso de Sarah Palin foi brilhante, profundo e verdadeiro. E ponto.
Sabe, Dayse, eu sou democrata, então mesmo como estudante de jornalismo, deixar de carregar minha própria opinião (conceito, e não pré-conceito) seria impraticável. Mesmo assim, ao assistir o discurso, que realmente foi o melhor da convenção, perguntei-me o mesmo que questionou Joe Biden no dia seguinte:
Palin não falou dos desafios da nação, apenas de modo geral e abstrato, jogatina republicana claramente exercida por George Bush em oito anos de poder.
Menciounou várias plataformas utópicas como “bondade”, “paz”, “segurança”, “valores”, “coragem”, “determinação”, mas nenhum dos convidados da noite falou sobre seguro de saúde, o escândalo da péssima inteligência e pressão da Casa Branca na ocupação da guerra no Iraque, sobre a crise imobiliária, e quando falou sobre o petróleo sua única sugestão é escavar e escavar e escavar.
Para que tenhas idéia, não sou contra escavações nas costas marítimas ou nas reservas ecológicas do Alaska. Não sou contra nem a favor, porque sei pouco sobre o tema e eu não sou ambientalista. Essa é uma das muitas bandeiras que não carrego. Mas aqui nos Estados Unidos há um camarada chamado T. Boone Pickens, republicano, que oferece um plano aparentemente brilhante para a reforma energética, baseando-se em gás natural, vento, energia solar, e, é claro, aumentar e liberar as reservas nacionais. McCain já delineou planos concretos para a reforma energética, mas Bush também o fez em 2000.
Até agora, as promessas energéticas são menos detalhadas do que o plano independente de Pickens, mas ambos candidatos as fazem.
Resumindo, o discurso pode ter sido bem feito, mas discordo de que tenha sido profundo. Foi um bom discurso, mas ainda assim, pela essência conservadora e por valores diferentes dos meus, penso-o razo e ainda corre o risco, àqueles que não simpatizam automaticamente com a governadora, de soar mesquinha e desprezível contra a celebridade de Obama, porque grande parte de seu discurso foi atacá-lo com sacadas espertas. Muita poesia, pouca consistência.
Lenice disse...
Parece que os grandes pecados de Sarah Palin, além de ser considerada conservadora, são: 1). Ser mãe que assumiu com amor um o bebê com síndrome de Down, 2). Ser mãe de uma filha que engravidou aos 17 anos; e 3). Ser uma mulher bonita, corajosa... É isso? Me poupe!!
Sobre isso, postei um trecho da coluna do jornalista José Inácio Werneck, do Direto da Redação, que melhor explica quais são seus únicos “pecados” ao meu ver. Sei que há quem compre as intrigas sobre sua filha com síndrome de down, ou sobre a gravidez de sua outra filha, de 17 anos, solteira, mas isso é normal, politicamente, um risco que McCain sabia correr quando a escolheu e, certamente, não afeta a decisão de quem tem a menor base racional. Não poder atacá-la seria protecionista, e atacá-la, como eu, não parte de meu machismo, mas, novamente, da diferença entre nossos valores.
Eis o trecho de Werneck:
"Sarah Palin é contra a defesa do meio-ambiente, é contra o direito de escolher o aborto, é contra os ensinamentos de Charles Darwin, é contra as pesquisas em células-tronco, contra a educação sexual nas escolas, quer tirar o urso polar das espécies protegidas, defendeu uma iniciativa para separar o Alaska dos Estados Unidos, é integrante da National Rifle Association, quer procurar petróleo nas reservas ecológicas do litoral ártico. Até dois anos atrás nem tinha passaporte, mas Cindy McCain, mulher de John McCain, diz que Sarah Palin entende muito de política internacional “pois o Alaska está pertinho da Sibéria”.Sarah Palin é uma evangélica fundamentalista (John Mccain raramente dá as caras num templo), que prega a abstinência sexual antes do casamento – o que não impediu sua filha de 17 anos, Bristol, de engravidar. O fato só se tornou conhecido depois do lançamento de sua candidatura, com grande estardalhaço, por John McCain." (Nota do Blogueiro: Discordo desse último trecho, mas é genuíno o argumento de que haja hipocrisia nos valores utópicos e na realidade indiferente mesmo aos conservadores mais ferrenhos).
Fabiana disse...
Peraí!!!
A mídia manipula sim. Antes mesmo de acontecer a convenção de Obama já estavam chamando de "histórica".
A mídia manipula sim, e também é manipulada, mas não nesse sentido.
Já respondi à Santa no texto do início da semana, mas respondo novamente. O contexto histórico dado à convenção democrata foi a NOMEAÇÃO oficial de um candidato negro a um PRINCIPAL partido nacional, a primeira vez que tal fato ocorre em qualquer país ocidental. Jesse Jackson e Al Sharpton, entre outros afro-descendentes, já foram nomeados ou se auto-nomearam por partidos independentes, mas essa é a primeira vez que mais da metade da nação quer e aceita a mera possibilidade de ter um negro na Casa Branca.
Democratas fizeram o mesmo com as mulheres. A primeira vice-presidente nomeada foi Geraldine Ferraro, que disputou no bilhete de Walter Mondale em 1984, contra Ronald Reagan. A primeira séria postulante presidencial dos tempos modernos foi Hillary Clinton, também democrata. O primeiro candidato negro nomeado oficialmente por um partido principal nos Estados Unidos à presidência é Barack Obama, democrata. Isso é, de fato, histórico.
Anônimo disse...
Sarah Palin, Huckabee, Giuliani e Romney foram excelentes. Os Republicanos impressionaram na Convenção, e teriam tudo para a vitória de novembro, não fosse a mídia pró-propaganda-Obama.
Anônimo, talvez você não esteja familiarizado com nosso presidente nos últimos oito anos. Seu nome é Bush, e tem a menor aprovação popular da história do Instituto Gallup de pesquisas. Obama tornou-se peça importante nesse jogo apenas em Janeiro de 2008. A matemática não bate. A excelência acima mencionada é subjetiva, e não tiro seu direito de tê-los visto assim.
That’s all, folks.
Abráx, beijúx,
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Reinaldo Azevedo,
Santa,
Sarah Palin
Thursday, September 04, 2008
O que acontece na América?
Falo, obviamente, da América do Norte, do apelido carinhoso dado aos Estados Unidos, que apenas recentemente começam a aprender onde a Argentina fica no mapa, e que não é uma capital brasileira.
As últimas duas semanas de convenções foram mais pesadas, ideologicamente, do que toda a estação preliminar. Além dos debates, polêmicas e tiros tortos, o furacão Gustav atrasou o primeiro dia da reunião republicana, e a tempestade tropical Hannah ameaçava a Flórida até desviar-se para o norte. Atrás dela, o furacão Ike cresce em intensidade e pode atingir meu estado na próxima Segunda-Feira com a fúria de categoria 4, a mais intensa na escala.
Furacões e política interligam-se como mãos a luvas. John Hagee, influente pastor evangélico que polemicamente endossou John McCain ao início de 2008, afirmara há três anos que o furacão Katrina, devastante ao estado de Louisiana, especialmente na cidade de New Orleans, foi um castigo divino. Poucos anos depois, Gustav atingiu Louisiana e Minnesota novamente, mas antes disso o furacão Fay, que já havia beijado meu quintal como tempestade tropical, deixou destruição e medo em seu rastro pelo norte da Flórida até morrer perto de Minnesota.
Se furacões são castigos divinos, esse Deus está zangado com as regiões mais conservadoras da nação. Eu, ateu, cético e agnóstico, jamais diria isso. O clima não se importa com as aberrações humanas. O clima nada sente, pensa ou enxerga.
Mas a analogia é inevitável. Como não-eleitor, minha análise tem a mesma importância que o peso de uma pulga a um quilo de arroz. Mesmo assim, por sentir-me eterno estrangeiro, alheio à essência de qualquer cultura inserida em contexto regional, às vezes procuro observar como quem aproxima a retina ao bico d’um miscroscópio, não só de fora, mas distante da realidade decorrente.
Pois, vejo que o partido Republicano mantém o contexto nacionalista que lhe conferiu popularidade mesmo depois da revolução social dos anos sessenta, nos Estados Unidos. Não se trata de mero patriotismo, saudar a pátria com atos dóceis e torcer pela mesma em qualquer evento competitivo, seja ele esportivo ou bélico. É peça insubstituível da psique nacional:
Para esses, ser estadunidense significa pertencer à maior potência internacional desde a Grã-Bretanha colonialista.
Republicanos ostentam a bandeira da superioridade com fé e pilares emocionais. Seus valores, especialmente descritos na noite de Quarta-Feira no palco da Convenção Republicana em St. Paul, Minnesota, no Xcel Center, partem estritamente da crença religiosa e dicotômica em que a “liberdade” existe quando servimos interesses dogmáticos, supersticiosos e imaginários.
Alguém como eu jamais seria presidente de lugar nenhum. Salvo talvez em Israel, para o bem da verdade, já que o número de ateus em meu país natal é considerável se comparado a outros pontos geográficos do planeta azul. Quantas sociedades elegeriam um presidente ateu ainda mantendo a autonomia de seu povo e a legitimidade das eleições?
Quem negaria que, o fato de Deus estar ao lado dos tradicionalistas republicanos até hoje, foi o que, provavelmente, mais os ajudou?
Segundo Meg Whitman, ex empresária da grande companhia E-Bay, que se retirou da liderança empresarial para assumir a campanha de John McCain, republicanos lutam por menos governo e mais poder econômico popular. Afirma que estadunidenses jamais chegarão à liberdade com o aumento tributário prometido por Barack Obama.
Novamente, republicanos clamam o tradicionalismo capitalista, a força dos mercados, confiança nas atitudes individuais à construção de vizinhanças, comunidades e, eventualmente, cidades inteiras.
George Bush, quando discursou via satélite pela nomeação de McCain na Terça-Feira, disse que o “Hanoi Hilton” (quando McCain foi prisioneiro de guerra) que abrigou o candidato conservador o preparou para qualquer desafio, incluindo o que o presidente chamou de “esquerda raivosa”.
Essa esquerda à qual Bush se refere é o partido Democrata e sua base cada vez maior por todos os estados. Raivosa porque, justamente, as vizinhanças, comunidades e cidades mais abastadas até funcionam em seu próprio núcleo, mas as menos abastadas não sobrevivem a fase da vizinhança.
Assim começa minha pessoal análise sobre a convenção em St. Paul. Em primeiro lugar, a aqui famigerada “Reaganomics”, economia de Ronald Reagan (*O capital lucrado pelos mais ricos escorre aos mais pobres, assim fazendo com que, quanto maior o lucro, mais capital sobre aos mais pobres), não pareceu funcionar em nenhuma nação capitalista. Ou seja, quanto mais ricos são os poucos primeiros por cento da nação, mais pobres são os outros por cento.
Isso não significa que quanto mais indústrias, mais companhias, mais serviços inseridos no mercado, não haja de fato mais empregos e benefícios, mas sim, o fato de que trinta a sessenta mil pessoas de uma população de 300 milhões de habitantes ostente quase a metade de toda fortuna nacional, prejudica de um modo ou outro os outros 98%. Quanto mais corrupta a sociedade, piores apuros assolam esses 98%.
A importância desse raciocínio simplista e um pouco óbvio é providenciar o equilibrio ao argumento conservador que favorece o mercado livre e o capitalismo condicional. Quando republicanos falam de corte de impostos, segundo pesquisas que levantei para saber de minhas próprias rendas mensais, o que omitem é que esses cortes apenas beneficiarão quem ganha o suficiente para isentar-se pelas brechas da constituição tributária.
Ou melhor, eu, que ganho menos de 30 mil dólares anuais, não pagarei sequer um centavo a menos em meu imposto de renda. Talvez alguns produtos sáiam razoavelmente mais baratos se seus tributos forem cortados, como a gasolina, mas nada que proporcionalmente se compare ao que pessoas já abastadas e estáveis financeiramente evitarão gastar com os cortes prometidos pelos republicanos. Isso se deve ao fato de que, com meus ganhos, pago apenas as taxas mínimas, que são iguais a todos, apenas variando em proporção ao salário.
Se minha renda incluísse lucros de companhias pequenas, médias ou multi-nacionais, sem contar em outras populares fundações econômicas baseadas na bolsa de valores, poderia escolher, em diversos casos, como e quanto pagaria ao IRS, economizando milhares de dólares sob uma administração conservadora.
A liberdade que Sarah Palin prometeu em seu discurso vice-presidencial na noite de Quarta-Feira jamais pertencerá à minha realidade, porque os duzentos dólares quinzenais que desembolso aos governos federal e estadual, serão sempre duzentos dólares enquanto meu salário não se tornar mais atraente.
Então, quando Rudy Giuliani, ex prefeito de Nova York, grita aos quatro ventos que há “boas mudanças e más mudanças”, o que omite é que a população local sofre com a ausência de mudanças concretas na filosofia estadunidense enquanto a mesma evoluiu e mudou muito nas últimas cinco décadas.
Qualquer mudança será bem vinda em princípio, e republicanos representam a tradição teísta que credulamente apóia o famoso “deus dará”, o mesmo raciocínio que, elevado à menor potência, produz pérolas como a afirmação do pastor John Hagee sobre furacões e a fúria divina.
Nesse meio tempo, pergunto-me sobre qual liberdade discursou Whitman, se republicanos são a favor de restrições individuais como a liberdade do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, o direito à opção do aborto, às mulheres, e a inclusão obrigatória do absurdo argumento teísta denominado “Design Inteligente” no currículo científico escolar.
São contra o dispêndio tributário, mas a favor de uma guerra multi-trilionária que até hoje não melhorou a segurança internacional. São contra restrições mercantis, mas a favor do Ato Patriota que, resumidamente, elimina direitos de privacidade ao indivíduo estadunidense, seja ele cidadão ou residente legal.
Republicanos clamam que democratas restringem a liberdade do mercado livre, e insentivam a libertinagem no comportamento social. Assim, o mercado deve ser cada vez mais livre, e a população cada vez mais restrita. Perdão, amigos republicanos de todos os credos e cores, mas para mim ocorre justamente o oposto: Libertinagem no mercado, e restrições individuais ameaçadoras.
Depois de oito anos de Bush, quatro anos de Bush Senior e outros oito anos de Reagan, a matemática não bate. O conservadorismo não só parece deixar de funcionar, mas a nação começa a abrir mais os olhos. No dia 4 de Novembro saberemos quão espertos estamos todos, e espero que sejamos, enfim, mais espertos do que George W. Bush.
RF
As últimas duas semanas de convenções foram mais pesadas, ideologicamente, do que toda a estação preliminar. Além dos debates, polêmicas e tiros tortos, o furacão Gustav atrasou o primeiro dia da reunião republicana, e a tempestade tropical Hannah ameaçava a Flórida até desviar-se para o norte. Atrás dela, o furacão Ike cresce em intensidade e pode atingir meu estado na próxima Segunda-Feira com a fúria de categoria 4, a mais intensa na escala.
Furacões e política interligam-se como mãos a luvas. John Hagee, influente pastor evangélico que polemicamente endossou John McCain ao início de 2008, afirmara há três anos que o furacão Katrina, devastante ao estado de Louisiana, especialmente na cidade de New Orleans, foi um castigo divino. Poucos anos depois, Gustav atingiu Louisiana e Minnesota novamente, mas antes disso o furacão Fay, que já havia beijado meu quintal como tempestade tropical, deixou destruição e medo em seu rastro pelo norte da Flórida até morrer perto de Minnesota.
Se furacões são castigos divinos, esse Deus está zangado com as regiões mais conservadoras da nação. Eu, ateu, cético e agnóstico, jamais diria isso. O clima não se importa com as aberrações humanas. O clima nada sente, pensa ou enxerga.
Mas a analogia é inevitável. Como não-eleitor, minha análise tem a mesma importância que o peso de uma pulga a um quilo de arroz. Mesmo assim, por sentir-me eterno estrangeiro, alheio à essência de qualquer cultura inserida em contexto regional, às vezes procuro observar como quem aproxima a retina ao bico d’um miscroscópio, não só de fora, mas distante da realidade decorrente.
Pois, vejo que o partido Republicano mantém o contexto nacionalista que lhe conferiu popularidade mesmo depois da revolução social dos anos sessenta, nos Estados Unidos. Não se trata de mero patriotismo, saudar a pátria com atos dóceis e torcer pela mesma em qualquer evento competitivo, seja ele esportivo ou bélico. É peça insubstituível da psique nacional:
Para esses, ser estadunidense significa pertencer à maior potência internacional desde a Grã-Bretanha colonialista.
Republicanos ostentam a bandeira da superioridade com fé e pilares emocionais. Seus valores, especialmente descritos na noite de Quarta-Feira no palco da Convenção Republicana em St. Paul, Minnesota, no Xcel Center, partem estritamente da crença religiosa e dicotômica em que a “liberdade” existe quando servimos interesses dogmáticos, supersticiosos e imaginários.
Alguém como eu jamais seria presidente de lugar nenhum. Salvo talvez em Israel, para o bem da verdade, já que o número de ateus em meu país natal é considerável se comparado a outros pontos geográficos do planeta azul. Quantas sociedades elegeriam um presidente ateu ainda mantendo a autonomia de seu povo e a legitimidade das eleições?
Quem negaria que, o fato de Deus estar ao lado dos tradicionalistas republicanos até hoje, foi o que, provavelmente, mais os ajudou?
Segundo Meg Whitman, ex empresária da grande companhia E-Bay, que se retirou da liderança empresarial para assumir a campanha de John McCain, republicanos lutam por menos governo e mais poder econômico popular. Afirma que estadunidenses jamais chegarão à liberdade com o aumento tributário prometido por Barack Obama.
Novamente, republicanos clamam o tradicionalismo capitalista, a força dos mercados, confiança nas atitudes individuais à construção de vizinhanças, comunidades e, eventualmente, cidades inteiras.
George Bush, quando discursou via satélite pela nomeação de McCain na Terça-Feira, disse que o “Hanoi Hilton” (quando McCain foi prisioneiro de guerra) que abrigou o candidato conservador o preparou para qualquer desafio, incluindo o que o presidente chamou de “esquerda raivosa”.
Essa esquerda à qual Bush se refere é o partido Democrata e sua base cada vez maior por todos os estados. Raivosa porque, justamente, as vizinhanças, comunidades e cidades mais abastadas até funcionam em seu próprio núcleo, mas as menos abastadas não sobrevivem a fase da vizinhança.
Assim começa minha pessoal análise sobre a convenção em St. Paul. Em primeiro lugar, a aqui famigerada “Reaganomics”, economia de Ronald Reagan (*O capital lucrado pelos mais ricos escorre aos mais pobres, assim fazendo com que, quanto maior o lucro, mais capital sobre aos mais pobres), não pareceu funcionar em nenhuma nação capitalista. Ou seja, quanto mais ricos são os poucos primeiros por cento da nação, mais pobres são os outros por cento.
Isso não significa que quanto mais indústrias, mais companhias, mais serviços inseridos no mercado, não haja de fato mais empregos e benefícios, mas sim, o fato de que trinta a sessenta mil pessoas de uma população de 300 milhões de habitantes ostente quase a metade de toda fortuna nacional, prejudica de um modo ou outro os outros 98%. Quanto mais corrupta a sociedade, piores apuros assolam esses 98%.
A importância desse raciocínio simplista e um pouco óbvio é providenciar o equilibrio ao argumento conservador que favorece o mercado livre e o capitalismo condicional. Quando republicanos falam de corte de impostos, segundo pesquisas que levantei para saber de minhas próprias rendas mensais, o que omitem é que esses cortes apenas beneficiarão quem ganha o suficiente para isentar-se pelas brechas da constituição tributária.
Ou melhor, eu, que ganho menos de 30 mil dólares anuais, não pagarei sequer um centavo a menos em meu imposto de renda. Talvez alguns produtos sáiam razoavelmente mais baratos se seus tributos forem cortados, como a gasolina, mas nada que proporcionalmente se compare ao que pessoas já abastadas e estáveis financeiramente evitarão gastar com os cortes prometidos pelos republicanos. Isso se deve ao fato de que, com meus ganhos, pago apenas as taxas mínimas, que são iguais a todos, apenas variando em proporção ao salário.
Se minha renda incluísse lucros de companhias pequenas, médias ou multi-nacionais, sem contar em outras populares fundações econômicas baseadas na bolsa de valores, poderia escolher, em diversos casos, como e quanto pagaria ao IRS, economizando milhares de dólares sob uma administração conservadora.
A liberdade que Sarah Palin prometeu em seu discurso vice-presidencial na noite de Quarta-Feira jamais pertencerá à minha realidade, porque os duzentos dólares quinzenais que desembolso aos governos federal e estadual, serão sempre duzentos dólares enquanto meu salário não se tornar mais atraente.
Então, quando Rudy Giuliani, ex prefeito de Nova York, grita aos quatro ventos que há “boas mudanças e más mudanças”, o que omite é que a população local sofre com a ausência de mudanças concretas na filosofia estadunidense enquanto a mesma evoluiu e mudou muito nas últimas cinco décadas.
Qualquer mudança será bem vinda em princípio, e republicanos representam a tradição teísta que credulamente apóia o famoso “deus dará”, o mesmo raciocínio que, elevado à menor potência, produz pérolas como a afirmação do pastor John Hagee sobre furacões e a fúria divina.
Nesse meio tempo, pergunto-me sobre qual liberdade discursou Whitman, se republicanos são a favor de restrições individuais como a liberdade do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, o direito à opção do aborto, às mulheres, e a inclusão obrigatória do absurdo argumento teísta denominado “Design Inteligente” no currículo científico escolar.
São contra o dispêndio tributário, mas a favor de uma guerra multi-trilionária que até hoje não melhorou a segurança internacional. São contra restrições mercantis, mas a favor do Ato Patriota que, resumidamente, elimina direitos de privacidade ao indivíduo estadunidense, seja ele cidadão ou residente legal.
Republicanos clamam que democratas restringem a liberdade do mercado livre, e insentivam a libertinagem no comportamento social. Assim, o mercado deve ser cada vez mais livre, e a população cada vez mais restrita. Perdão, amigos republicanos de todos os credos e cores, mas para mim ocorre justamente o oposto: Libertinagem no mercado, e restrições individuais ameaçadoras.
Depois de oito anos de Bush, quatro anos de Bush Senior e outros oito anos de Reagan, a matemática não bate. O conservadorismo não só parece deixar de funcionar, mas a nação começa a abrir mais os olhos. No dia 4 de Novembro saberemos quão espertos estamos todos, e espero que sejamos, enfim, mais espertos do que George W. Bush.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
George H.W. Bush,
George W. Bush,
John Hagee,
John McCain,
Minnesota,
Ronald Reagan presidential library,
Rudy Giuliani,
Sarah Palin,
St. Paul
Tuesday, September 02, 2008
Tempestade Republicana
“Considerado histórico pela mídia,... Mesmo antes de acontecer... Pode?” (Comentário extraído do texto anterior, de Santa).
Em primeiro lugar, também sinto saudades. Visito seu blog frequentemente, mas comento menos. Mesmo assim, estou sempre por lá, pode acreditar.
Se bem entendo, você comenta que a mídia considera histórica a eleição de Barack Obama antes de que ele tenha sido eleito. No caso do post anterior, contudo, o elemento histórico foi a nomeação de Obama, um afro-descendente, pela primeira vez na história do ocidente, representando um dos dois principais partidos da nação.
A mídia exagera muito, especialmente nas matitas pereiras que mais atráem eleitores, conforme veremos a seguir.
Sarah Palin
Por que John McCain, prestes a tornar-se o nomeado à candidatura presidencial republicana mais velho da história, escolheu a candidata mais nova e menos experiente a assumir sua vice-presidência?
Em dias de leituras e programas midiáticos focados em Sarah Palin e nos furacões Gustav e Hannah, creio que cheguei à pessoal conclusão de seu objetivo nessa campanha. Nem tanto dos furacões, mas sim da jovem governadora do Alaska.
É mãe de cinco filhos, inclusive a última e mais recente geração, uma menina cuja síndrome genética era conhecida por Palin antes de dar à luz. Governa o Alaska há 18 meses, e antes disso foi prefeita de uma cidade do mesmo estado, de sete mil habitantes. Posiciona-se como conservadora social e esperta em reforma energética, ao menos seguindo conceitos republicanos.
O irônico é que a mídia, quando fala em Palin, fala em uma “maverick”, o que traduzir-se-ia como uma “ás”, uma política capaz de reformar. Com essa bandeira reformista, potencialmente carrega os votos evengélicos, entre os mais conservadores.
Afinal, vende-se como anti-aborto, membra da Associação Nacional de Rifles, caçadora nata e motorista de uma caminhonete enfeitada de adesivos com tiradas interiorinas clássicas, como: “Vegetariano: Antiga palavra indígena para ‘péssimo caçador’”.
A relativa novata apóia a reforma, mas insiste que esta se trata meramente em devolver aos Estados Unidos suas raízes sócio-conservadoras. Afinal, quando diz que “mudou as regras” de seu estado, quer dizer que o tornou mais conservador, mais restrito, menos individualmente livre.
O mesmo jogo eufemista ocorre quando citam seu feminismo. De acordo com jornalistas que dedicaram os últimos quatro dias para descobrir quem é Sarah Palin, a mesma não se auto-denomina feminista. Ou seja, o adjetivo foi totalmente pintado pela mídia. Sobre isto, eis o interessante aprendizado:
Há alguns meses assistia o programa de Bill Maher na HBO e sua conversa com Matt Taibbi, repórter descolado da revista Rolling Stones, a falar sobre as primárias. Em suas conversas com Taibbi, Maher sempre atribui uma missão ao jovem jornalista, e nesse caso foi a cobertura do discurso de um dos postulantes democratas ao fim de uma preliminar. No saguão do centro escolhido para o discurso do candidato democrata (no caso, creio que se tratava de Hillary Clinton) enquanto ocorria a contagem oficial dos votos, Taibbi filmava direto do conhecido “spin room”.
O “spin room” ocorre nas ante-salas das convenções, enquanto políticos e seus assessores sáem de suas conferências privadas em direção à multidão midiática. Frases são então minuciosamente selecionadas em disparos sonoros ecoando pelas quatro paredes das ante-salas. Jornalistas, naturalmente pescando frases, as adotam e usam em suas reportagens.
O processo não é dos mais fáceis, e Taibbi tem a tendência juvenil de simplificar o que descreve ao ponto do ridículo, mas muitas vezes, com certa eficiência, assessores conseguem “vender” suas posições sobre determinado evento sem grandes dificuldades. Ao fisgar a frase emitida pelo assessor a esmo, determinado profissional acaba levando o contexto de seu artigo ao conteúdo professado pelo sócio do clube-do-bolinha. É mais uma fascinante função da imprensa em suas diversidades.
Pois, igualmente, Palin foi classificada como feminista porque “é uma mulher que gosta de armas, é uma lider política de confiança, luta por seus valores tão ferozmente quanto qualquer homem”. Não há, no entanto, nenhuma evidência de que sua filosofia e seu moralismo sejam, de fato, feministas, exceto pelo fato de que feministas exigiram e ainda exigem o tratamento igual entre os sexos, e Palin conquistou sua igualdade como governadora, e agora como vice-presidente do candidato republicano.
John McCain a escolheu sobre Joe Lieberman, amigo experiente e conhecedor das estratégias democratas, sobre os postulantes Mitt Romney e Mike Huckabee, e sobre outras considerações, inclusive duas mulheres, mais experientes e renomadas. Se tanto republicanos quanto democratas viram-se satisfeitos pela escolha de Joe Biden à vice-presidência de Barack Obama, no caso de Sarah Palin a decisão é dividida. Essa divisão pode ser justamente o motivo de sua escolha.
Enquanto Biden foi a escolha segura em uma candidatura inexperiente, Palin foi a escolha arriscada em uma candidatura de lema tradicionalista. Republicanos, em grande parte, gabam-se da governadora porque o campo de McCain providenciou aos Estados Unidos a chance de mudar sua história independente de quem for eleito em Novembro. Além disso, por ser uma jovem conservadora e mãe de cinco filhos, incluindo uma infante que requer atenções especiais, representa o futuro do partido.
Já democratas criticaram McCain e seu juízo por trazer à Casa Branca alguém ainda menos experiente do que Obama. Inclusive, o argumento de que Obama seja inexperiente demais à Casa Branca mudou. Agora, ambos trazem inexperiência e “frescôr” ao bilhete, mas republicanos argumentam que em seu bilhete as funções se apresentam na ordem certa. Mesmo assim, considerando a idade de McCain, ao nomear alguém que apenas administrou uma cidade pequena e um estado com mais montanhas do que pessoas, faz de Palin um alvo certo.
No dia 2 de Outubro, Joe Biden e Sarah Palin engajarão-se no primeiro debate vice-presidencial dessas eleições. Biden traz consigo o respeito governamental em política externa, e Palin a intenção reformista, agora voltada à reforma energética. Ao contrário de McCain, a governadora apóia escavações nas reservas ecológicas do Alaska, e argumenta que seria esta a principal solução para o crescente preço do petróleo.
Para debater com Biden, Palin terá de se cuidar para não cometer nenhuma gafe. Recentemente, demonstrou que esta não será tarefa das mais fáceis. Explicando seu posicionamento a respeito de escavações nas reservas de seu estado, Palin disse:
“Essa guerra no Oriente-Médio, por petróleo, tornar-se-ia inútil se tivessemos melhores reservas.”
Por outro lado, justamente por não ser de Washington, e por ser mulher, o campo de McCain apostou na polêmica escolha para contra-balancear o efeito “celebridade” de Barack Obama. Que não haja o menor engano: Essas eleições estão quase no bolso do candidato democrata. O humor nacional não está para conservadorismo, muito menos social, com regras que restringem a liberdade incondicional do ser humano em uma nação que se julga livre.
Quiçá seja essa a maior mudança histórica testemunhada pelas gerações atuais. Há vinte anos, eleger um democrata era uma façanha astronômica, que culminou na liderança majoritária dos republicanos, de Reagan a George H. W. Bush a George W. Bush. Apenas Jimmy Carter, de péssima aprovação pública, e Bill Clinton, de razoável aprovação pública, conseguiram romper o sistema conservador.
Mas isso vem mudando nos Estados Unidos, cada vez mais liberal ou independente. Libertários, que intensificaram a base nos últimos dez anos, mantém a crença no mercado-livre e globalização, mas repudiam qualquer espécie de restrições individuais. A mídia é pesadamente liberal, e para cada blog conservador há de dois a cinco outros blogs democratas. Mesmo no governo de Bush, o casamento entre homossexuais e o direito à escolha feminina foram trazidos de volta à pauta diária com algumas conquistas liberais, e posições como a de John McCain, pró reforma imigratória, seriam raras sob a jurisdição conservadora não fosse o crescimento de grupos liberais.
Portanto, essas podem ser as primeiras eleições a ditar o novo rumo dos Estados Unidos. Para McCain, tentar atrair o voto feminino independente ao incluir uma jovem e sorridente governadora ao seu bilhete, é também a única forma que encontrou para sugerir que sua administração também simpatiza com o humor liberal da nação.
Porém, mesmo funcionando, não é uma tentativa honesta, ao meu ver. Se algo ocorrer à saúde de McCain, a sósia da atriz Tina Fey será a nova presidente dos Estados Unidos, mais inexperiente do que Barack Obama, e mais conservadora do que George W. Bush. Aliás, mais inexperiente, também, do que o atual presidente.
Apenas para não me prolongar mais do que já feito, novamente, argumento que ser mulher e reinventar a história presidencial meramente por isso, não é o suficiente para garantir o bom governo. O mesmo digo de Obama: Ser negro, assim reiventando a história presidencial dos Estados Unidos, não lhe garante o mérito do bom governo. Portanto, julgando suas ideologias, confesso que Palin me assusta mais do que Bush. Já Obama traz muitas dúvidas em sua candidatura pelas constantes mudanças de opinião sobre determinados assuntos.
Como disse um dos delegados democratas em Denver, Obama até precisa firmar sua posição liberal, mas também precisa, e principalmente, ser eleito. Sobre Palin, outro delegado democrata confirmou que a governadora tinha muita experiência em política externa, já que governa o Alaska, estado tão próximo à Rússia.
Por causa do furacão Gustav, a convenção republicana diluiu os eventos programados para a Segunda-Feira. Discursaram apenas Laura Bush ao lado de Cindy McCain, enquanto Bush e Cheney dedicavam-se ao desastre natural iminente, que poderia ter sido pior para New Orleans. Hoje à noite, Bush pode aparecer via satélite para falar de John McCain.
Segundo o Gallup, a semana começa com 49-43% a Barack Obama sobre John McCain.
RF
Em primeiro lugar, também sinto saudades. Visito seu blog frequentemente, mas comento menos. Mesmo assim, estou sempre por lá, pode acreditar.
Se bem entendo, você comenta que a mídia considera histórica a eleição de Barack Obama antes de que ele tenha sido eleito. No caso do post anterior, contudo, o elemento histórico foi a nomeação de Obama, um afro-descendente, pela primeira vez na história do ocidente, representando um dos dois principais partidos da nação.
A mídia exagera muito, especialmente nas matitas pereiras que mais atráem eleitores, conforme veremos a seguir.
Sarah Palin
Por que John McCain, prestes a tornar-se o nomeado à candidatura presidencial republicana mais velho da história, escolheu a candidata mais nova e menos experiente a assumir sua vice-presidência?
Em dias de leituras e programas midiáticos focados em Sarah Palin e nos furacões Gustav e Hannah, creio que cheguei à pessoal conclusão de seu objetivo nessa campanha. Nem tanto dos furacões, mas sim da jovem governadora do Alaska.
É mãe de cinco filhos, inclusive a última e mais recente geração, uma menina cuja síndrome genética era conhecida por Palin antes de dar à luz. Governa o Alaska há 18 meses, e antes disso foi prefeita de uma cidade do mesmo estado, de sete mil habitantes. Posiciona-se como conservadora social e esperta em reforma energética, ao menos seguindo conceitos republicanos.
O irônico é que a mídia, quando fala em Palin, fala em uma “maverick”, o que traduzir-se-ia como uma “ás”, uma política capaz de reformar. Com essa bandeira reformista, potencialmente carrega os votos evengélicos, entre os mais conservadores.
Afinal, vende-se como anti-aborto, membra da Associação Nacional de Rifles, caçadora nata e motorista de uma caminhonete enfeitada de adesivos com tiradas interiorinas clássicas, como: “Vegetariano: Antiga palavra indígena para ‘péssimo caçador’”.
A relativa novata apóia a reforma, mas insiste que esta se trata meramente em devolver aos Estados Unidos suas raízes sócio-conservadoras. Afinal, quando diz que “mudou as regras” de seu estado, quer dizer que o tornou mais conservador, mais restrito, menos individualmente livre.
O mesmo jogo eufemista ocorre quando citam seu feminismo. De acordo com jornalistas que dedicaram os últimos quatro dias para descobrir quem é Sarah Palin, a mesma não se auto-denomina feminista. Ou seja, o adjetivo foi totalmente pintado pela mídia. Sobre isto, eis o interessante aprendizado:
Há alguns meses assistia o programa de Bill Maher na HBO e sua conversa com Matt Taibbi, repórter descolado da revista Rolling Stones, a falar sobre as primárias. Em suas conversas com Taibbi, Maher sempre atribui uma missão ao jovem jornalista, e nesse caso foi a cobertura do discurso de um dos postulantes democratas ao fim de uma preliminar. No saguão do centro escolhido para o discurso do candidato democrata (no caso, creio que se tratava de Hillary Clinton) enquanto ocorria a contagem oficial dos votos, Taibbi filmava direto do conhecido “spin room”.
O “spin room” ocorre nas ante-salas das convenções, enquanto políticos e seus assessores sáem de suas conferências privadas em direção à multidão midiática. Frases são então minuciosamente selecionadas em disparos sonoros ecoando pelas quatro paredes das ante-salas. Jornalistas, naturalmente pescando frases, as adotam e usam em suas reportagens.
O processo não é dos mais fáceis, e Taibbi tem a tendência juvenil de simplificar o que descreve ao ponto do ridículo, mas muitas vezes, com certa eficiência, assessores conseguem “vender” suas posições sobre determinado evento sem grandes dificuldades. Ao fisgar a frase emitida pelo assessor a esmo, determinado profissional acaba levando o contexto de seu artigo ao conteúdo professado pelo sócio do clube-do-bolinha. É mais uma fascinante função da imprensa em suas diversidades.
Pois, igualmente, Palin foi classificada como feminista porque “é uma mulher que gosta de armas, é uma lider política de confiança, luta por seus valores tão ferozmente quanto qualquer homem”. Não há, no entanto, nenhuma evidência de que sua filosofia e seu moralismo sejam, de fato, feministas, exceto pelo fato de que feministas exigiram e ainda exigem o tratamento igual entre os sexos, e Palin conquistou sua igualdade como governadora, e agora como vice-presidente do candidato republicano.
John McCain a escolheu sobre Joe Lieberman, amigo experiente e conhecedor das estratégias democratas, sobre os postulantes Mitt Romney e Mike Huckabee, e sobre outras considerações, inclusive duas mulheres, mais experientes e renomadas. Se tanto republicanos quanto democratas viram-se satisfeitos pela escolha de Joe Biden à vice-presidência de Barack Obama, no caso de Sarah Palin a decisão é dividida. Essa divisão pode ser justamente o motivo de sua escolha.
Enquanto Biden foi a escolha segura em uma candidatura inexperiente, Palin foi a escolha arriscada em uma candidatura de lema tradicionalista. Republicanos, em grande parte, gabam-se da governadora porque o campo de McCain providenciou aos Estados Unidos a chance de mudar sua história independente de quem for eleito em Novembro. Além disso, por ser uma jovem conservadora e mãe de cinco filhos, incluindo uma infante que requer atenções especiais, representa o futuro do partido.
Já democratas criticaram McCain e seu juízo por trazer à Casa Branca alguém ainda menos experiente do que Obama. Inclusive, o argumento de que Obama seja inexperiente demais à Casa Branca mudou. Agora, ambos trazem inexperiência e “frescôr” ao bilhete, mas republicanos argumentam que em seu bilhete as funções se apresentam na ordem certa. Mesmo assim, considerando a idade de McCain, ao nomear alguém que apenas administrou uma cidade pequena e um estado com mais montanhas do que pessoas, faz de Palin um alvo certo.
No dia 2 de Outubro, Joe Biden e Sarah Palin engajarão-se no primeiro debate vice-presidencial dessas eleições. Biden traz consigo o respeito governamental em política externa, e Palin a intenção reformista, agora voltada à reforma energética. Ao contrário de McCain, a governadora apóia escavações nas reservas ecológicas do Alaska, e argumenta que seria esta a principal solução para o crescente preço do petróleo.
Para debater com Biden, Palin terá de se cuidar para não cometer nenhuma gafe. Recentemente, demonstrou que esta não será tarefa das mais fáceis. Explicando seu posicionamento a respeito de escavações nas reservas de seu estado, Palin disse:
“Essa guerra no Oriente-Médio, por petróleo, tornar-se-ia inútil se tivessemos melhores reservas.”
Por outro lado, justamente por não ser de Washington, e por ser mulher, o campo de McCain apostou na polêmica escolha para contra-balancear o efeito “celebridade” de Barack Obama. Que não haja o menor engano: Essas eleições estão quase no bolso do candidato democrata. O humor nacional não está para conservadorismo, muito menos social, com regras que restringem a liberdade incondicional do ser humano em uma nação que se julga livre.
Quiçá seja essa a maior mudança histórica testemunhada pelas gerações atuais. Há vinte anos, eleger um democrata era uma façanha astronômica, que culminou na liderança majoritária dos republicanos, de Reagan a George H. W. Bush a George W. Bush. Apenas Jimmy Carter, de péssima aprovação pública, e Bill Clinton, de razoável aprovação pública, conseguiram romper o sistema conservador.
Mas isso vem mudando nos Estados Unidos, cada vez mais liberal ou independente. Libertários, que intensificaram a base nos últimos dez anos, mantém a crença no mercado-livre e globalização, mas repudiam qualquer espécie de restrições individuais. A mídia é pesadamente liberal, e para cada blog conservador há de dois a cinco outros blogs democratas. Mesmo no governo de Bush, o casamento entre homossexuais e o direito à escolha feminina foram trazidos de volta à pauta diária com algumas conquistas liberais, e posições como a de John McCain, pró reforma imigratória, seriam raras sob a jurisdição conservadora não fosse o crescimento de grupos liberais.
Portanto, essas podem ser as primeiras eleições a ditar o novo rumo dos Estados Unidos. Para McCain, tentar atrair o voto feminino independente ao incluir uma jovem e sorridente governadora ao seu bilhete, é também a única forma que encontrou para sugerir que sua administração também simpatiza com o humor liberal da nação.
Porém, mesmo funcionando, não é uma tentativa honesta, ao meu ver. Se algo ocorrer à saúde de McCain, a sósia da atriz Tina Fey será a nova presidente dos Estados Unidos, mais inexperiente do que Barack Obama, e mais conservadora do que George W. Bush. Aliás, mais inexperiente, também, do que o atual presidente.
Apenas para não me prolongar mais do que já feito, novamente, argumento que ser mulher e reinventar a história presidencial meramente por isso, não é o suficiente para garantir o bom governo. O mesmo digo de Obama: Ser negro, assim reiventando a história presidencial dos Estados Unidos, não lhe garante o mérito do bom governo. Portanto, julgando suas ideologias, confesso que Palin me assusta mais do que Bush. Já Obama traz muitas dúvidas em sua candidatura pelas constantes mudanças de opinião sobre determinados assuntos.
Como disse um dos delegados democratas em Denver, Obama até precisa firmar sua posição liberal, mas também precisa, e principalmente, ser eleito. Sobre Palin, outro delegado democrata confirmou que a governadora tinha muita experiência em política externa, já que governa o Alaska, estado tão próximo à Rússia.
Por causa do furacão Gustav, a convenção republicana diluiu os eventos programados para a Segunda-Feira. Discursaram apenas Laura Bush ao lado de Cindy McCain, enquanto Bush e Cheney dedicavam-se ao desastre natural iminente, que poderia ter sido pior para New Orleans. Hoje à noite, Bush pode aparecer via satélite para falar de John McCain.
Segundo o Gallup, a semana começa com 49-43% a Barack Obama sobre John McCain.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Cindy McCain,
Joe Biden,
John McCain,
Laura Bush,
Minnesota,
Sarah Palin,
St. Paul
Friday, August 29, 2008
O Sonho de Obama
45 anos depois do histórico discurso do Pastor Martin Luther King, “Eu tive um Sonho”, Barack Obama, pela primeira vez na história das convenções, deu seu discurso de aceitação à candidatura presidencial democrata em um estádio para quase 80 mil pessoas (ou mais, dependendo da fonte).
O Invesco Field abrigou eleitores e delegados, cidadãos comuns e políticos renomados segurando bandeiras dos Estados Unidos, e não cartazes pedindo a cabeça de John McCain, ou vangloriando Obama. A idéia da noite - além de encerrar o estabelecimento da candidatura, também histórica por ser a primeira de um negro a um dos principais partidos de qualquer país ocidental - foi delinear seu plano governamental, e contra-atacar republicanos pelas últimas semanas de constantes intimidações.
O senador pelo Illinois disse que a nação é melhor do que os últimos oito anos, e que pretende trazer a independência petrolífera e energética, mais empregos, corte de impostos à classe média e aumento tributário aos mais abastados, e, é claro, disse que debateria política externa com seu adversário quando o mesmo desejasse. Se Obama tem uma qualidade irrefutável é sua capacidade de formular e elocubrar retóricas.
A convenção democrata chegou ao fim em uma semana que favorece seu candidato oficial à presidência novamente nas pesquisas. Obama vence McCain, segundo o instituto Gallup, por 48-42%.
Brooks, os Sonhos, e o Absurdo
David Brooks, do The New York Times, brinca com o discurso do candidato democrata. De acordo com formulações conservadoras, a sociedade estadunidense vive tempos tão bons quanto quaisquer. Portanto, quando Obama fala de esperanças e sonhos, torna-se alvo fácil de um partido que crê, piamente, nos bons tempos.
Questionando a maioria dos republicanos experientes, e mesmo os mais jovens, a administração de George W. Bush não está entre as melhores. Muitos entendem o fracasso da Casa Branca, mas não deixam de ser conservadores. De fato, muitos bons republicanos dizem que o governo de Bush não foi conservador. Cortou impostos em tempos de guerra, mas não economizou em outros dispêndios.
Negligenciou New Orleans e todo o estado de Louisiana, e agora gasta em sua reconstrução, além dos interesses protegidos de Dick Cheney e a família Bush com contratos inegociáveis de companhias como Enron e Halliburton para a reconstrução e infra-estrutura militar no Iraque. Sem contar nos motivos da guerra, deturpados a cada novo instante, celebrados muito antes do tempo.
A coluna de Brooks corre na veia da maioria dos conservadores, entre eles independentes e libertários, republicanos e democratas da era Reagan. Não é que não estejamos navegando uma crise, mas sim, estes pensam, é apenas uma, e não a pior das crises. Mesmo sendo a pior, acreditam muitos, o indivíduo tem a capacidade de canalizar seus esforços à obtenção de seu próprio sucesso sem precisar do governo.
Tudo se resume, segundo Brooks, ao elitismo de Obama. Sim, esse jovem negro, filho de mãe solteira, miscigenado e algemado à América, é tema de chacotas entre conservadores e libertários. Resume-se à sua inexperiência, ao mesmo tempo que culmina em sua crueldade fria e calculada, o negro comunista que deseja apenas deturpar a nação a sonhar, ao invés de confrontar a realidade.
Não discordo, porém, do cinismo de Brooks na íntegra. Para mim, como político, Obama não pode ser perfeito, nem deve como ser humano assumi-lo. Não só padece de imperfeições político-humanas, mas também tem a mão em suas próprias polêmicas, mesmo com pouco tempo de senado no currículo.
Mesmo assim, McCain representa a continuidade do sistema falido que, em oito anos, diminuiu a produção interna, aumentou a dívida externa, negligenciou áreas como a saúde universal e a educação, alienando milhares de pessoas. Sem contar na incapacidade governamental de funcionar conforme o proposto, deixando a promessa da reforma energética para o próximo candidato.
Ao contrário do que se pensa, o país está mais fragilizado, suas tropas comprometidas em um conflito infinito, sua população perdendo moradia, emprego, seguranças sociais e, voilá, a esperança e a capacidade de sonhar.
Logo, Brooks deve brincar e exercer sua liberdade de expressão, mas também poderia virar a página e ler a coluna de seu colega, Paul Krugman, que também confia em sua posição demasiadamente, mas escreve o óbvio ululante: Democratas falam o idioma que se quer ouvir falar. Republicanos encontram-se emparedados entre procurar o desvínculo dessa adminstração falida e encontrar virtudes na filosofia conservadora.
A Bola no Campo Republicano
John McCain acaba de anunciar Sarah Palin, governadora do Alaska, à vice-presidência de sua candidatura. A convenção Republicana começa, oficialmente, a partir da próxima Terça-Feira, dia 2 de Setembro, e o partido clama o holofote momentâneo.
A surpreendente escolha de Palin, 44 anos, governadora há apenas dois anos, cristã conservadora, chega em um momento que o campo de McCain procura atrair mulheres à sua plataforma. Explorando a fraqueza do partido Democrata mediante a vitória de Barack Obama sobre a derrotada Hillary Clinton, e também atentando ao jargão de “mudança” que determina o pleito de seu rival, Palin pode contribuir ao partido republicano.
A próxima semana é de John McCain e Sarah Palin.
RF
O Invesco Field abrigou eleitores e delegados, cidadãos comuns e políticos renomados segurando bandeiras dos Estados Unidos, e não cartazes pedindo a cabeça de John McCain, ou vangloriando Obama. A idéia da noite - além de encerrar o estabelecimento da candidatura, também histórica por ser a primeira de um negro a um dos principais partidos de qualquer país ocidental - foi delinear seu plano governamental, e contra-atacar republicanos pelas últimas semanas de constantes intimidações.
O senador pelo Illinois disse que a nação é melhor do que os últimos oito anos, e que pretende trazer a independência petrolífera e energética, mais empregos, corte de impostos à classe média e aumento tributário aos mais abastados, e, é claro, disse que debateria política externa com seu adversário quando o mesmo desejasse. Se Obama tem uma qualidade irrefutável é sua capacidade de formular e elocubrar retóricas.
A convenção democrata chegou ao fim em uma semana que favorece seu candidato oficial à presidência novamente nas pesquisas. Obama vence McCain, segundo o instituto Gallup, por 48-42%.
Brooks, os Sonhos, e o Absurdo
David Brooks, do The New York Times, brinca com o discurso do candidato democrata. De acordo com formulações conservadoras, a sociedade estadunidense vive tempos tão bons quanto quaisquer. Portanto, quando Obama fala de esperanças e sonhos, torna-se alvo fácil de um partido que crê, piamente, nos bons tempos.
Questionando a maioria dos republicanos experientes, e mesmo os mais jovens, a administração de George W. Bush não está entre as melhores. Muitos entendem o fracasso da Casa Branca, mas não deixam de ser conservadores. De fato, muitos bons republicanos dizem que o governo de Bush não foi conservador. Cortou impostos em tempos de guerra, mas não economizou em outros dispêndios.
Negligenciou New Orleans e todo o estado de Louisiana, e agora gasta em sua reconstrução, além dos interesses protegidos de Dick Cheney e a família Bush com contratos inegociáveis de companhias como Enron e Halliburton para a reconstrução e infra-estrutura militar no Iraque. Sem contar nos motivos da guerra, deturpados a cada novo instante, celebrados muito antes do tempo.
A coluna de Brooks corre na veia da maioria dos conservadores, entre eles independentes e libertários, republicanos e democratas da era Reagan. Não é que não estejamos navegando uma crise, mas sim, estes pensam, é apenas uma, e não a pior das crises. Mesmo sendo a pior, acreditam muitos, o indivíduo tem a capacidade de canalizar seus esforços à obtenção de seu próprio sucesso sem precisar do governo.
Tudo se resume, segundo Brooks, ao elitismo de Obama. Sim, esse jovem negro, filho de mãe solteira, miscigenado e algemado à América, é tema de chacotas entre conservadores e libertários. Resume-se à sua inexperiência, ao mesmo tempo que culmina em sua crueldade fria e calculada, o negro comunista que deseja apenas deturpar a nação a sonhar, ao invés de confrontar a realidade.
Não discordo, porém, do cinismo de Brooks na íntegra. Para mim, como político, Obama não pode ser perfeito, nem deve como ser humano assumi-lo. Não só padece de imperfeições político-humanas, mas também tem a mão em suas próprias polêmicas, mesmo com pouco tempo de senado no currículo.
Mesmo assim, McCain representa a continuidade do sistema falido que, em oito anos, diminuiu a produção interna, aumentou a dívida externa, negligenciou áreas como a saúde universal e a educação, alienando milhares de pessoas. Sem contar na incapacidade governamental de funcionar conforme o proposto, deixando a promessa da reforma energética para o próximo candidato.
Ao contrário do que se pensa, o país está mais fragilizado, suas tropas comprometidas em um conflito infinito, sua população perdendo moradia, emprego, seguranças sociais e, voilá, a esperança e a capacidade de sonhar.
Logo, Brooks deve brincar e exercer sua liberdade de expressão, mas também poderia virar a página e ler a coluna de seu colega, Paul Krugman, que também confia em sua posição demasiadamente, mas escreve o óbvio ululante: Democratas falam o idioma que se quer ouvir falar. Republicanos encontram-se emparedados entre procurar o desvínculo dessa adminstração falida e encontrar virtudes na filosofia conservadora.
A Bola no Campo Republicano
John McCain acaba de anunciar Sarah Palin, governadora do Alaska, à vice-presidência de sua candidatura. A convenção Republicana começa, oficialmente, a partir da próxima Terça-Feira, dia 2 de Setembro, e o partido clama o holofote momentâneo.
A surpreendente escolha de Palin, 44 anos, governadora há apenas dois anos, cristã conservadora, chega em um momento que o campo de McCain procura atrair mulheres à sua plataforma. Explorando a fraqueza do partido Democrata mediante a vitória de Barack Obama sobre a derrotada Hillary Clinton, e também atentando ao jargão de “mudança” que determina o pleito de seu rival, Palin pode contribuir ao partido republicano.
A próxima semana é de John McCain e Sarah Palin.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
George W. Bush,
Hillary Clinton,
Invesco Field,
John McCain,
Martin Luther King,
Sarah Palin
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