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Tuesday, October 13, 2009

Respondendo ao Bagual

Jens pergunta:

"Oi Roy.
Li no Diário Gauche que a Casa Branca declarou guerra à Fox News: Anita Dunn, diretora de comunicações do Barack, disse à CNN que a Fox News opera, praticamente, ou como o setor de pesquisas ou como o setor de comunicações do Partido Republicano. "A rede Fox está em guerra contra Barack Obama e a Casa Branca, [e] não precisamos fingir que o modo como essa organização trabalha seria o modo que dá legitimidade ao trabalho jornalístico."
Que tal nos explicar com mais detalhes este imbróglio? Em termos de Brasil, seria como o Planalto do Palácio declarar guerra à Veja, ou seja, uma bomba arrasa quarteirão no campo midiático. Qual foi a repercussão aí? Os barões da mídia não saíram às ruas histéricos berrando contra o "cerceamento à liberdade de imprensa", como fazem as vestais da imprensa tupiniquim?
Minha curiosidade foi atiçada. Se possível, satisfaça minha sede de conhecimento (ou gossips, hehehe).

Um abraço."

Bagual, espero que não se incomode se respondo por aqui mesmo tendo o tema repercussões estritamente domésticas. Acho que nem para o pessoal brasileiro é mais mistério a ilegitimidade da Fox News, canal do australiano conservador Rupert Murdoch. Mesmo assim, você traçou uma comparação que não daria necessariamente certo nos parâmetros dos Estados Unidos.

Para quem não sabe, Murdoch lançou a Fox News como “a resposta contundente à mídia liberal” nos Estados Unidos. No entanto, ao contrário do Brasil, onde a mídia é extremamente concentrada entre algumas poucas grandes empresas (Globo, Diários Associados, Abril etc), sendo que uma ou duas revistas (Isto É, Veja) e um ou outro canal (majoritariamente a Globo) dominam a formação de opinião pública e fazem um único papel de oposição ao governo lulista, ou apoio a governos que se encaixam melhor, ideologicamente, ao próprio padrão desses meios de comunicação, aqui nos Estados Unidos a mídia é muito mais dividida, segmentada, muito mais expansiva e, ao mesmo tempo, muito mais capitalista. Explico:

Enquanto a Fox News atrai públicos republicanos e/ou conservadores, a MSNBC atrai públicos liberais e/ou democratas. A CNN, apesar de mais neutra, também sempre foi considerada liberal, e o mesmo se aplica ao The New York Times, The Miami Herald, The LA Times, The Chicago Tribune, e assim por diante. A maioria dos jornais, aliás, incluindo o próprio San Francisco Chronicle, jornal onde o grande Mark Twain escreveu algum dia em sua vida, tem uma tendência liberal. Poderiamos explicar isso com a própria sensação de obrigação da mídia em seu cerne, proferida por Joseph Pulitzer e seu “jornalismo amarelo”. Voltando à televisão (já que a CNN é comparada constantemente com o The New York Times), há ao menos três ou quatro canais (NBC, canais da Fox locais, CBS etc) competindo pelas notícias locais no estado e na grande cidade (no caso Miami, ou New York, ou Georgia etc). Além disso, sempre há um canal melhor reconhecido pelo público local por ser estritamente local (o canal 7, na grande Miami, por exemplo). Esses jornais são mais superficiais, em grande parte, mas também tendem ao lado liberal de questionar o governo e trazê-lo a juízo público. Acredito veementemente, Jens, que aqui a mídia é tão perfidiosa quanto no Brasil, mas por questões econômicas e pelo fato de que a maioria da midia estadunidense não está diretamente ligada a respectivos governos regionais, o que acaba ocorrendo é que alguém do governo, seja ele liberal ou republicano, especificamente em questões de moralismo social, sempre paga o pato.

Claro que a Fox não compete com esses canais. Compete com os conservadores econômicos da CNBC, com os liberais da MSNBC e com os veteranos da CNN. O grande problema é que sua total falta de compromisso com a verdade e opiniões que não poucas vezes incitaram a violência (contra homossexuais ou médicos aborcionistas, por exemplo), já atravessam a garganta da Casa Branca. Barack Obama não deu uma única entrevista a ninguém do canal (mesmo depois da insistência incansável de Bill O’Reilly, um dos âncoras renomados, à época da campanha presidencial), e após meses de calúnias e ataques incabíveis, esta Casa Branca resolveu contra-atacar. Foi a Fox News que lançou o movimento dos “birthers”, ou aqueles que questionam a nacionalidade de Obama. Foi a Fox News que incitou as famigeradas “festas de chá”, onde conservadores se reuniram para denunciar o “socialismo iminente do presidente nazista”. Foi a Fox News que emperrou o debate sobre a saúde estadunidense desde que lançaram os rumores de que Obama tinha “painéis de morte” onde burocratas decidiriam quem morreria e quem viveria depois de uma certa idade se precisasse de serviços médicos, entre outras barbaridades mentirosas.

Concluindo, pela primeira vez temos um presidente democrata que não está interessado em passar oito anos se defendendo na Casa Branca, como assim fizeram Bill Clinton e, antes dele, Jimmy Carter. O que a Fox News faz não é novo, mas depois do desastre político que causaram na Flórida em 2000, e agora com um presidente de caráter raro no palácio presidencial, o time de Obama está se divertindo em rechaçá-los, o que sim é novidade.

Tu sabes, Jens, que o capital é sempre o que mais importa aqui nos Estados Unidos e no mundo. Obama pode até conseguir avançar uma campanha contra a Fox News, mas não vencerá a disputa se sua intenção é censurar o canal ou tirá-lo do ar e, se conseguir fazê-lo, estou convencido de que isso não seria uma boa ideia. O maior problema é que liberais assumidos não frequentam a Fox, e conservadores assumidos raramente assistem a MSNBC (apesar de que assistem, massivamente, a CNN). Essa divisão faz com que as pessoas estejam apenas em contato com o que já concordam, o que considero problemático. Mas os desavisados hora ou outra caem em qualquer canal e acabam ludibriados pela Fox ou MSNBC. Portanto, as artimanhas da Fox continuarão enquanto tiverem espectadores, e sempre terão, provavelmente.

Tuesday, June 24, 2008

Curtas, enquanto ainda há tempo


Etanol, o Próximo Porteiro e o Brasil

Não sou perito nesse assunto, portanto, não fingirei saber esclarece-lo melhor do que outros capacitados, incluindo meus leitores e leitoras. O etanol, no entanto, faz parte de uma das polêmicas centrais, essenciais à escolha do Próximo Porteiro. Caso haja quem saiba, declare-se que ouviremos todos.

Nos Estados Unidos o etanol é majoritariamente produzido por fazendeiros que se encontram em alguns pontos específicos do país, especialmente no estado de Iowa. É extraído do milho, mas de acordo com uma matéria do The Miami Herald dessa passada Segunda-Feira, o etanol brasileiro, extraído da cana-de-açúcar, pode produzir até oito vezes mais energia do que o produzido na América do Norte.

John McCain propõe a expansão do mercado em acordos com o Brasil para abrir as portas estadunidenses ao combustível produzido na terra tropical.

Barack Obama propõe aumentar as tarifas à importação do combustível brasileiro, e estimular a produção interna do ethanol.

O The New York Times sugere que Obama tenha contatos e ligações com os fazendeiros locais, o que o torna parcial a favorecê-los. Também menciona algumas das desvantagens mais importantes em barrar a importação do Brasil e estimular a produção interna do etanol. A crise alimentícia com a escassez de milho e de seus derivados torna-se ainda mais complicada, a falta aumenta, fazendeiros enriquecem, mas a fome finalmente surge na boca do povo, ou assim pinta a imagem o pintor conforme desejar. Pela eficiência da produção do ethanol extraído da cana-de-açúcar comparado à ineficiência do produzido nos Estados Unidos, surge mais um argumento favorecendo a expansão do mercado.

Mesmo assim, procurando a independência de importações e demandas internacionais, ambos candidatos precisarão focar-se nesse tema, crucial ao próximo mandato, ou ignorá-lo, como fez George Bush. Nem todos contrários ao aumento da produção interna do etanol favorecem a John McCain. Muitos dizem que o ethanol não é o caminho, simplesmente. O aumento de usinas nucleares e a industrialização de carros que suportem mais litros por quilômetro também estão em pauta, e o mesmo pode se dizer da opção de se escavar nas costas do país por petróleo em alto mar, tendo menor potencial e mais risco do que outras alternativas.

Entrevistado pelo Morning Joe, o colunista Tom Friedman diz que é necessário desestimular a população a comprar e usar a gasolina, ao mesmo tempo que faz-se necessário castrar os lucros das companhias petrolíferas. Todos concordam, no entanto, que a geração de energia independente é um dos maiores desafios do país, e cairá nas mãos do Próximo Porteiro, em todo seu limitado poder.


South Florida e a População Hispana

De acordo com o instituto Zogby de pesquisas, Barack Obama lidera no Sul da Flórida por 16 pontos percentuais, com uma margem suficiente de indecisos para virar o resultado com a aproximação das eleições.

A notícia, porém, é excelente para Obama, que conquista cada vez mais a população hispana, base que mais favorecia a senadora por New York, Hillary Clinton, e que agora passa a aderir, lentamente, ao campo do nomeado candidato democrata.


Gallup

O entusiasmo dos eleitores decaiu depois das primárias, mas estamos antes das Convenções e a escolha dos vice-presidentes de cada partido, muito tempo para declarar que os resultados signifiquem mais do que o desinteresse natural que as pessoas têm pelo mundo, quando preocupam-se com as próprias vidas. A ficha ainda deve cair, e perceberão novamente que “suas vidas” ao mundo pertencem.

No entanto, Barack Obama segue estável liderando por 4 pontos percentuais (46-42%) com uma margem de erro de três pontos percentuais.


Cheap Shots

Porrada neles e nelas! Os rumores e as falsidades sempre corrompem a política. Mas, pensando bem, se fosse aqui reportar todas as asneiras da grande e pequena mídia nos irrelevantes detalhes que vendem estas eleições, não falaria nunca, talvez conforme o desejado e esperado por nossos governantes, do que realmente importa.

Bola pra frente, rapêizi!

RF

Monday, March 24, 2008

Curta-Metragem-Cerebral

David Mamet, um dos mais famosos roteiristas norte-americanos renegou seu liberalismo dizendo não mais ser um “liberal de cérebro morto”.

Assim escreve Jonah Goldberg em um artigo de Opinião da manhã de hoje no The Miami Herald. Claramente conservador, Goldberg usa em Mamet o exemplo de como esquerdistas supostamente desvinculam intelecto a qualquer pessoa que decida pelo caminho do conservadorismo.

Pode estar certo, o colunista, como também pode estar certo Mamet em sua decisão. Similar à mesma, ou assim me ocorre, parece ser a de Lula quando disse a Antônio Ermírio: “Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ele está com problema. Se conhecer uma pessoa muito nova de direita, também está com problema. Então, quando a gente tem 60 anos, Antônio Ermírio, é a idade do ponto de equilíbrio, em que a gente não é nem um nem outro, a gente se transforma no caminho do meio, aquele caminho que precisa ser seguido pela sociedade”, (dito extraído do blog Bahia de Fato).

Mamet disse que se informou antes da decisão. Leu Milton Friedman, Thomas Sowell, Paul Johnson e Shelby Steele, entre outros. O argumento que Goldberg escolhe apresentar pelo roteirista é simples: “Ele percebeu que o governo pode ser incompetente, corporações às vezes miópicas e o exército imperfeito,” mas isso não significa que o governo seja o mal personificado, corporações misógenas e o exército uma espécie de quartel general das maldades. Ambos podem estar certos.

Por ter mudado seu prisma político, já há quem o critique. A isso, o roteirista responde: “Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. E você, faz o quê?” Novamente, ele pode estar certo, e certamente criticá-lo ou dizer que sua mudança é voltar ao quadrado, à caixa lacrada do pensamento unilateral me parece menos nobre e inteligente do que o necessário para debater um escritor experiente.

A moral dessa “curta” é que Mamet pode estar certo, e Goldberg também, em muitos pontos. O pensamento “liberal” ou “conservador” pouco diz a respeito de indivíduos. Em contraste, as atitudes e filosofias em seus mais minuciosos detalhes são os únicos critérios de verdadeira avaliação individual.

Portanto, de nada adianta Goldberg utilizar-se das conclusões pessoais de Mamet para demonizar o outro lado, como segue em sua coluna: “Clooney (George, o ator) declarou há alguns meses: ‘Sim, eu sou um liberal, e estou cansado de que o termo seja considerado ruim, eu não sei de uma ocasião na história em que liberais estiveram no lado errado de temas sociais.’”

Goldberg apenas refuta o comentário de Clooney como conservadores clamam que liberais fazem, e vice-versa. “Ah, sim, aí vemos um excelente conhecimento histórico à mostra!” Não oferece um contra-argumento, não refuta a lógica do ator, e de fato, questionando-me, não me lembro, ao menos nos Estados Unidos, qual foi a última vez que liberais estiveram no lado oposto de mudanças sociais benéficas, desde o movimento civil ao feminismo, a outros direitos morais e sociais.

Em tempos pré-eleitorais e de retóricas campanhistas, o povo vê-se fadado a perseguir o próprio rabo se não compreender porque decide que X ou Y possa ser melhor do que seu rival quando chegar à Casa Branca. “Liberais” ou “esquerdistas”, “conservadores” ou “direitistas”, não refletem o que o eleitor comum e a eleitora bem-informada pretendem para a própria família, os próprios filhos, o próprio país. Isso vai além da literatura e do sofismo. Isso faz parte da consciência civil, da vida real, dos problemas concretos, do dia-a-dia alucinado que nos permite sair do quadrado, da caixa unilateral que rege a mentalidade de outros ditadores, que nunca são os nossos.

RF

(Breve PS: Barack Obama já se recuperou segundo as pesquisas do instituto Gallup, e lidera Hillary Clinton 48-45%.)