Se alguém assistiu o último debate presidencial nos Estados Unidos deve ter percebido que John McCain, ao responder uma das perguntas de Tom Brokaw, referiu-se a Barack Obama como “aquele ali”. “Aquele ali” pode até parecer um termo leviano, mas até mesmo eu, branquelo, percebi não racismo nas palavras de McCain, mas nos ouvidos de muita gente.
Puff Diddy (nota: Acho sempre engraçado quando assisto jogos entre a Canarinho e outros times, porque enquanto na Canarinho temos o Kaká, o Dudu, o técnico Dunga etc., em outros time há o John, o Scott, o Juan Román etc. Os apelidos são realmente de matar, mas esse apelido, “Puff Diddy”, é para mim o mais ridículo de todos) produziu um vídeo para seu blogue que criou um pequeno movimento entre os democratas com o lema “eu voto naquele ali”. O rapper caçoou de McCain dizendo “velhinho, nós estamos em 2008, não em 1958!” “Aquele ali” é uma clássica referência racista.
Ao fim da semana passada, em uma assembléia republicana, uma senhora levantou-se e disse a McCain: “Nós temos de enfatizar que Obama é árabe. Não podemos votar em um árabe.” O candidato respondeu: “Obama não é árabe, e tem todas as qualificações humanas para ser um bom presidente.” Seu rival democrata agradeceu horas depois.
Esse foi o fim das campanhas negativas de McCain. À semana passada, Obama chegou a ficar 11 pontos percentuais adiante de McCain. No início da semana estava a sete pontos em vantagem, e hoje, oito dias depois, a pesquisa voltou aos sete pontos. O senador pelo Illinois desistiu da estratégia “Karl Rove”, talvez especificamente depois de ter de defender seu rival para que seus ataques não se tornassem escalada xenofóbica, ou talvez apenas pelo resultado escandaloso das pesquisas, que não o favorecem nem depois dos debates, nem depois do debate de Sarah Palin e Joe Biden, e nem mesmo com os ataques negativos, que já surtiram mais efeito.
O fato é que agora McCain passou a ser a “zebra” da disputa, e sua afirmação como candidato passa a ser similar à de Obama, quando teve de contar aos eleitores de onde vinha, e que era honroso e talentoso o suficiente para merecer seus votos.
Faltam três semanas. O debate desta Quarta-Feira será o último. Se o candidato republicano pensa que a mídia “já o descartou” como reclama, está enganado. Os sete pontos são justos e curtos para que o efeito racista seja realmente eliminado na data das eleições. As campanhas negativas devem diminuir, em vez de aumentar.
Contudo, “aquele outro” é, para todos os efeitos, o “um” da vez. O “outro”, “aquele ali”, desde praticamente o início das preliminares, e logo das campanhas às eleições gerais, é John McCain.
Volto ao comentário da Santa quando da nomeação oficial de Barack Obama à candidatura oficial pelo partido Democrata. Santa disse que a mídia, e logo eu, classificávamos a nomeação como histórica “mesmo antes de ter acontecido”. Senti a mordida, e logo vi o texto antagônico em seu blogue, como se Obama e Lula fossem quase a mesma gente.
Pois, o “histórico” referia-se à nomeação, mas acho que a mordida referia-se à candidatura presidencial. Meu histórico baseou-se na realidade, e a mordida baseou-se em uma rígida opinião (falsa). Essa rigidez precisa amolecer urgentemente.
Faltando apenas três semanas para as eleições gerais, depois de um ano de comentários, mas mais importante, de aprendizado, de leituras, de engajamento, de questões respondidas, outras ainda não compreendidas, e muitas, muitas, mas muitas mesmo, discussões políticas, algumas civilizadas, outras violentas; depois de um ano de política estadunidense, posso afirmar de boca cheia que Obama não precisa vencer, nem precisaria, para que sua candidatura fosse considerada histórica.
Mesmo que Obama não mereça a presidência (para mim, merece mais do que McCain), mesmo que não seja uma figura exemplar de honestidade e santidade, mesmo que tenha menos virtudes do que sua eloquência, a história está feita, escrita e assinada. Melhor, não é mérito de Obama, mas do povo americano.
Sei que em minha platéia haverá cinicos pensando o demônio daqui. Estupidez, perdão. Repito: estupidez, e assunto encerrado. O que não é estúpido é que há trinta, quarenta, cinquenta anos atrás as pessoas ainda tinham o direito de dizer que odiavam negros sem a menor repercussão social. Podiam dizer que “negro bom é negro morto” e ainda vingar dentro do politicamente correto. Pretos escolados eram contados com dedos de uma mão. Apesar de muitos auto-ditadas, eram ainda tidos marginais. As escolas ainda praticavam a política de Jim Crow, segregadoras, e no sul do país era tão comum quanto caçar, linchar um negro andarilho solitário.
Hoje, aquele que foi soldado, herói nacional pelos seus valores mais arcaicos, aquele que não só é branco, mas “de boa família”, propietário de 13 casas, 11 carros, e uma esposa herdeira de milhões de dólares limpos, senador há duas décadas e quase meia, ex-prisioneiro de guerra, é realmente a “zebra” dessa corrida. Se McCain vencer será mais surpreendente do que a vitória de George W. Bush sobre um outro caucasiano WASP, Al Gore, e do que a vitória de Bush Junior sobre outro herói militar, John Kerry.
Hoje, o negro, filho de imigrante e mãe solteira, cuja avó branca ainda admitiu ter medo de negros, é o principal candidato desta disputa. Terão de falsificar muito, impedir muitos votos e mentir muito nas pesquisas para que McCain as apague, ou algo como o que ocorreu com Hillary Clinton em New Hampshire deverá suceder novamente (as pesquisas, na média, erraram, historicamente, em raríssimas ocasiões).
McCain ainda pode muito bem vencer. Faz pleno sentido, e espero que os democratas o entendam com a profundidade necessária. Mesmo assim, estas eleições foram, desde o início, fadadas a pertencer “àquele ali”.
O país tem seus defeitos, e sua população tem dos seus, mas isso é inédito na civilização ocidental, aquela que Mahatma Ghandi ainda disse ser “uma boa idéia”.
RF
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Monday, October 13, 2008
Aquele ali, e a Zebra
Essas Palavras Vos Trazem
Al Gore,
Barack Obama,
Hillary Clinton,
John Kerry,
John McCain,
Tom Brokaw
Friday, September 12, 2008
A trégua Acabou
Por 24 horas, no dia 11 de Setembro, democratas e republicanos se uniram para lembrar a data e a tragédia massiva que tomou conta dos Estados Unidos pela primeira vez em mais de um século. A partir da meia noite de hoje, no entanto, a trégua acabou.
Enquanto John McCain e Barack Obama apareciam juntos no Ground Zero, local onde as torres do centro financeiro mundial são lentamente reerguidas, a cordialidade e a simpatia pessoal de cada candidato se manifestou em uma imagem propriamente estadunidense. À noite, em um foro em que os senadores apareceram separadamente questionados por moderadores oficiais, ambos explicaram em maiores detalhes o que fariam para o país, nos idiomas conservador e liberal.
O fato é que no dia 10 de Setembro a maioria dos jornais impressos e televisionados debateram durante a íntegra de suas programações os ataques de propagandas políticas republicanas contra Obama. E, pior do que tudo, ambos ataques discutidos são completamente falsos. Se não, vejamos:
“Você pode colocar batom em um porco, mas ele continuará sendo um porco.”
Antes que meus leitores da direita ululante pulem de seus assentos dizendo: “Ahá! Te peguei!”
A frase que Obama disse em um discurso na noite de 9 de Setembro referia-se à política econômica de McCain. A mesma frase foi usada por McCain duas vezes quando referia-se à política de Hillary Rodham Clinton. Aliás, esse é um ditado popular na política norte-americana, que basicamente quer dizer que mascarar o feio não o torna bonito, ajeitar o errado não o faz certo.
Se você adivinhou que o campo republicano, guiado pelo já aposentado juíz Karl Rove, usou a frase fora de contexto para clamar que Obama chamou Sarah Palin de porca, acertou em cheio. Primeiro ataque completamente falso e sujo do campo do senador pelo Arizona. O mesmo tipo de ataque, inclusive, que o derrotou contra George W. Bush nas preliminares republicanas de 2000.
A segunda propaganda também usa Palin, muitíssimo mais popular do que o candidato à presidência, para dizer que Obama apoiava educação sexual para crianças do jardim de infância.
Um dos grandes quesitos a distanciar o eleitorado liberal da atração de Palin é seu posicionamento em relação à educação sexual. Pela governadora do Alaska, nenhuma criança, de nenhuma idade, seria educada a mais do que abstinência. Distribuição de preservativos, então, nem pensar, afinal, quanto mais camisinha distribuída, mais sexo os adolescentes irão ter. Faz sentido? Não, mas nem precisa.
Novamente, o fato é que Obama jamais apoiou tamanho absurdo, e o mesmo ataque já foi feito por seu rival ao senado, quando elegeu-se pela primeira vez, sem funcionar justamente por ser falso. Obama nada tinha a ver com a legislação em questão, que visava educar crianças do jardim de infância a identificarem predadores sexuais, e alertar os pais sobre o assunto, uma paranóia nacional. Ou seja, o candidato democrata nem apoiou a legislação, e nem se tratava de educação sexual, propriamente dita.
Portanto, o campo de Obama, que vem sofrendo esta semana uma queda nas pesquisas (perdendo de McCain por uma média de 3-5% nas pesquisas gerais), pretende começar a atacar também.
Democratas de todo o país sentiram-se revoltados em 2004 porque as distrações que classificaram John Kerry como elitista e alienado (comparado a Bush, para que tenham idéia do tamanho da distração) não foram devidamente contra-atacadas. O candidato democrata pretendia elevar-se, pensando que o ano favorecia democratas, mas acabou perdendo pela maioria de votos, não só pelos colégios eleitorais.
Mesmo assim, graças ao estilo Rove de montar dossiês, mentir repetidamente até que a mentira cole, e distrair o público do que realmente importa em 2008, a campanha novamente parte de substâncias mínimas e muita fofoca.
O eleitorado não agradece.
RF
Enquanto John McCain e Barack Obama apareciam juntos no Ground Zero, local onde as torres do centro financeiro mundial são lentamente reerguidas, a cordialidade e a simpatia pessoal de cada candidato se manifestou em uma imagem propriamente estadunidense. À noite, em um foro em que os senadores apareceram separadamente questionados por moderadores oficiais, ambos explicaram em maiores detalhes o que fariam para o país, nos idiomas conservador e liberal.
O fato é que no dia 10 de Setembro a maioria dos jornais impressos e televisionados debateram durante a íntegra de suas programações os ataques de propagandas políticas republicanas contra Obama. E, pior do que tudo, ambos ataques discutidos são completamente falsos. Se não, vejamos:
“Você pode colocar batom em um porco, mas ele continuará sendo um porco.”
Antes que meus leitores da direita ululante pulem de seus assentos dizendo: “Ahá! Te peguei!”
A frase que Obama disse em um discurso na noite de 9 de Setembro referia-se à política econômica de McCain. A mesma frase foi usada por McCain duas vezes quando referia-se à política de Hillary Rodham Clinton. Aliás, esse é um ditado popular na política norte-americana, que basicamente quer dizer que mascarar o feio não o torna bonito, ajeitar o errado não o faz certo.
Se você adivinhou que o campo republicano, guiado pelo já aposentado juíz Karl Rove, usou a frase fora de contexto para clamar que Obama chamou Sarah Palin de porca, acertou em cheio. Primeiro ataque completamente falso e sujo do campo do senador pelo Arizona. O mesmo tipo de ataque, inclusive, que o derrotou contra George W. Bush nas preliminares republicanas de 2000.
A segunda propaganda também usa Palin, muitíssimo mais popular do que o candidato à presidência, para dizer que Obama apoiava educação sexual para crianças do jardim de infância.
Um dos grandes quesitos a distanciar o eleitorado liberal da atração de Palin é seu posicionamento em relação à educação sexual. Pela governadora do Alaska, nenhuma criança, de nenhuma idade, seria educada a mais do que abstinência. Distribuição de preservativos, então, nem pensar, afinal, quanto mais camisinha distribuída, mais sexo os adolescentes irão ter. Faz sentido? Não, mas nem precisa.
Novamente, o fato é que Obama jamais apoiou tamanho absurdo, e o mesmo ataque já foi feito por seu rival ao senado, quando elegeu-se pela primeira vez, sem funcionar justamente por ser falso. Obama nada tinha a ver com a legislação em questão, que visava educar crianças do jardim de infância a identificarem predadores sexuais, e alertar os pais sobre o assunto, uma paranóia nacional. Ou seja, o candidato democrata nem apoiou a legislação, e nem se tratava de educação sexual, propriamente dita.
Portanto, o campo de Obama, que vem sofrendo esta semana uma queda nas pesquisas (perdendo de McCain por uma média de 3-5% nas pesquisas gerais), pretende começar a atacar também.
Democratas de todo o país sentiram-se revoltados em 2004 porque as distrações que classificaram John Kerry como elitista e alienado (comparado a Bush, para que tenham idéia do tamanho da distração) não foram devidamente contra-atacadas. O candidato democrata pretendia elevar-se, pensando que o ano favorecia democratas, mas acabou perdendo pela maioria de votos, não só pelos colégios eleitorais.
Mesmo assim, graças ao estilo Rove de montar dossiês, mentir repetidamente até que a mentira cole, e distrair o público do que realmente importa em 2008, a campanha novamente parte de substâncias mínimas e muita fofoca.
O eleitorado não agradece.
RF
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Hillary Clinton,
John Kerry,
John McCain,
Karl Rove,
Sarah Palin
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