A recessão econômica nos Estados Unidos afeta o dia a dia de pessoas comuns mais do que se imagina. Se por um lado o preço da gasolina abaixou dramaticamente nos últimos três meses, por outro, de desempregados em número recorde coletaram seguro-desemprego no mesmo trimestre.
Os desafios do século XXI são diversos, e sempre foram, em qualquer século. Talvez o incrível seja a repetição de erros humanos que, ao ocorrerem não eram estranhos ao comportamento de nossa espécie, mas ao se repetirem levantam enormes questões sobre nossa capacidade evolutiva. A natureza certamente tem seu tempo para corrigir suas próprias aberrações, criando outras no percurso, mas sempre lidando com seu ciclo em harmonia paradoxa ao ritmo da evolução do pensamento humano. Este, por sua vez, não tem ordem específica, e seu ritmo nem sempre leva ao rumo certo.
Há pouco tempo, vivíamos em um país que passou a aterrorizar segmentos de sua população mais do que qualquer ameaça terrorista concreta nos últimos sete anos. Hoje em dia nos concentramos nesse remoimento interno de inseguranças futuras às quais quase todos estamos vulneráveis. Enquanto as “guerras ao terror”, “ao sexo”, “às drogas” e “ao imigrante” apenas expandiram o foco, a construção de melhores valores deixou de ser prioridade.
A crise econômica pode levar as três grandes companhias automobilísticas estadunidenses à falência. Tratam-se da General Motors, Chrysler e Ford, que trarão seu caso ao governo ainda hoje de que parte dos $700 bilhões de dólares dedicatos ao resgate financeiro nacional seja a elas dedicada.
O presidente-eleito, Barack Obama, já pediu ao presidente George W. Bush que trabalhasse com seu poder executivo para forçar um pacto que as ajudasse. As três companhias terão de cortar sua força trabalhista a partir de 2009, e a questão não transcende de quantos serão cortados. Existe a possibilidade de que todos, enfim, sejam demitidos, e uma, duas ou as três grandes companhias automobilísticas nacionais escorram pelo ralo da semi-depressão.
Por outro lado, opositores do resgate dizem que a linha deve ser riscada, e os limites ao resgate de companhias privadas deve ser delineado. Isto, depois da semana em que o secretário do tesouro, Henry Paulson, mudou o plano original do resgate anunciando que não mais comprará propriedades condenadas, mas que injetará quantias maiores ao benefício de investidores. Também, após semanas intensas de discussões em torno de outro resgate parcial a proprietários às márgens de perder imóveis com melhores chances de pagá-los na íntegra caso o resgate venha a tempo.
Parte da polêmica envolve a qualidade dos produtos fabricados pelas companhias estadunidenses. São, no geral, carros com pouca milhagem pelo galão de gasolina, de qualidade e teconologia inferiores a carros importados do Japão ou Alemanha. Obama pretende atar qualquer resgate à demanda da fabricação de produtos mais tecno-ecológicos e duradouros, seguindo a filosofia de que “não se pode deixar uma crise sem aproveitar as oportunidades que esta traz”.
Faltando 63 dias para a troca de gabinete presidencial, as especulações do campo de Obama em relação a futuros planos de sua administração têm se tornado quase uma demonstração de falta de coordenação política, algo não visto na campanha do presidente-eleito. À semana passada, uma série de notícias veiculadas por supostos íntimos do time de transição presidencial ofuscaram a tranquilidade antes vista no horizonte do futuro homem mais poderoso dos Estados Unidos.
Porém, Obama, que hoje renunciou seu cargo como senador pelo estado de Illinois, terá de lidar com um momento crucial, com perdão pelo clichê, na história de uma das peças mais ativas do quebra-cabeças internacional. Resgatar ou não a indústria auto-mobilística tornar-se-á o primeiro teste do futuro presidente. Mais dinheiro público investido em mais resgates astronômicos para previnir a extinção de centenas de milhares de empregos parece, novamente, ser a única solução, mas a insegurança - especialmente com a mudança nos planos de Paulson, que agora preside autoritariamente sobre os $700 bilhões aprovados pelo Congresso, Senado e Presidente - prevalece.
E, novamente, nem contamos as feridas que a guerra no Iraque e Afeganistão causaram ao Oriente Médio e o papel dos Estados Unidos na resolução destas múltiplas crises. Hoje, a nação rói unhas e passa noites em branco sem saber quais ventos traz o amanhã.
Portanto, no momento não nos importa saber se Hillary Clinton ou o governador do estado de New México, Bill Richardson, serão secretários de estado da administração de Obama à não ser que a notícia seja definitiva. O que Obama pretende fazer tem de ser esclarecido, concretamente, o mais rápido possível, e se devagar, cautelosamente, que traga ousadia e firmeza quando venha. A nação não quer saber se o presidente fechará o presídio de Guantánamo Bay à não ser que seja este seu plano definitivo.
E, enquanto todos os receios acima mencionados nos assombram, a população gay protesta a injusta e, para mim, desumana decisão popular de banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornando um direito garantido pela constituição, ilegal segundo a mesma.
Do futuro presidente, seja justo ou o oposto, se espera mais habilidade, engenhosidade e seriedade do que se espera do atual. Infelizmente, a Crise e Obama caminham lado a lado a partir do dia 20 de Janeiro. Obama precisará estar fresco no cargo presidencial como foi à pele de candidato. O caos, afinal de contas, não está nada fresco.
RF
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Monday, November 17, 2008
Obama e a Crise
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Bill Richardson,
Chrysler,
General Motors,
George W. Bush,
Harold Ford Jr.,
Henry Paulson,
Hillary Clinton
Monday, October 20, 2008
Colin Powell, o Endossamento de Aço
Ocorreu no programa Meet the Press, ancorado pelo veterano Tom Brokaw. Sem querer tirar o mérito de Brokaw, o falecido Tim Russert, que revolucionou o programa e o tornou o mais temido e honroso de todos os talk-shows jornalísticos, faz tremenda falta.
Mesmo assim, o ex general Colin Powell, militar durante 35 anos de sua vida, filho de imigrantes jamaicanos, crescido no Bronx de Nova-York, decidiu endossar Barack Obama a presidente na NBC, às dez horas da manhã do passado Domingo. Como todos os demais analistas da MSNBC já haviam mencionado, o apoio era esperado.
Como a única figura política da administração de George W. Bush a escapar ilesa dos escândalos iniciados em 2003, e republicano que, em 2000, endossara Bush e Dick Cheney à presidência e vice-presidência, Powell é talvez a pessoa de confiança mais abrangente da nação. Admirado por brancos, negros, homens, mulheres, militares e pessoas pacíficas, Powell respondeu as perguntas de Brokaw sem titubear, sem rodeios, direto e certeiro, mesmo que algumas delas não tenham sido fáceis.
O motivo central de seu suporte a Obama é que, segundo Powell, John McCain tem se mostrado inapto a lidar com o problema mais contundente da nação, a economia. Enquanto o senador pelo Arizona expressou-se erraticamente na trilha de sua campanha, suspendendo a mesma, logo retornando, declarando não participar do primeiro debate e, logo, participando, utilizando de seu tempo de campanha para massivamente atacar Obama, o senador por Illinois comportou-se, disse Powell, “quase de modo oposto”.
Desde o início das campanhas gerais, Obama já tinha em seu sítio eletronico alguns planos delineados, recentemente detalhados, à economia. Para que por aqui não recáia o provável 1984 que recái nos Estados Unidos, relembro dois fatos:
1 – Desde a evidência da nomeação de Barack Obama à candidatura de seu partido, já escrevi que o mesmo levava vantagem em seus planos econômicos, mas que as guerras no Iraque e Afeganistão no contexto de relações externas favoreceriam a John McCain. Caso houvesse um ataque terrorista, mencionei, o mesmo seria utilizado vantajosamente pelo candidato republicano. Caso houvesse recessão, o contrário seria verdadeiro.
2 – Houve indícios severos de uma recessão popular, infelizmente apenas levados a sério pelo governo anos depois, com a falência de Fannie Mae e Freddie Mac, resgatadas pelo governo, e com a falência da Lehman Brothers e da AIG, respectivamente compradas pelos bancos poderosos de suas nações. O banco Washington Mutual também faliu, e foi logo comprado pelo Chase. Apenas então que Henry Paulson, Secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, representante da Reserva Federal (FED) alardearam a Casa Branca exigindo $750 bilhões de dólares, finalmente conquistados após três semanas de negociações.
No percurso, outros temas captaram a mente da população:
1 – O aumento de tropas no início de 2008, apoiado por John McCain e cunhado por George W. Bush, teve relativa eficiência. Resultou em uma redução concreta nas mortes de soldados estadunidenses no Iraque, mas ainda não pavimentou uma rodovia concreta à independência do país. A redução, contudo, contribuiu com a campanha de McCain.
2 – A escavação por petróleo nas costas marítimas era proibída em moratório nacional há quase duas décadas. Desde o aumento absurdo nos preços do combustível, Bush e McCain foram os primeiro e segundo, respectivamente, a pedir pelo retiro do moratório. Obama demorou um pouco para concordar, mas foi praticamente forçádo a fazê-lo. De certo modo, isto favoreceu a McCain, mas não prejudicou a Obama.
3 – Sarah Palin trouxe à base uma das maiores polarizações vistas nas últimas décadas, aproximando-se da extrema direita, e trazendo à tona os temas do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Segunda Emenda constitucional, forjada à garantia de que cidadãos pudessem possuir e usar armas para defesa própria ou caça esportiva, e o ensino do Design Inteligente e/ou Criacionismo nas mesmas aulas que ensinam ciências e história em escolas estaduais e federais. Por um lado, Palin conseguiu empolgar uma campanha que definhava. Por outro, jamais apagou a clara vantagem de Obama nas pesquisas.
Nem mesmo a guerra no Iraque distraiu a população. Os indicadores econômicos demonstram tamanha estapafúrdia que apenas o candidato que pudesse passar tranquilidade aos bolsos de norte-americanos seria bem visto, e, de fato, apesar de ter subido nas pesquisas com a escolha de Palin, McCain acabou caindo a uma média de 7-10 pontos em relação a Barack Obama. O mapa atual, caso assim permaneça, demonstra que o republicano precisa escalar uma descomunal montanha se quiser conquistar os 270 colégios eleitorais necessários.
Colin Powell confirmou o que muitos já sabiam:
McCain não tem um plano concreto para a economia. Se, por um lado, promete agir de maneira totalmente distintinta do que agiu o atual presidente, por outro oferece a perpetuação de sua política econômica. Promete congelar gastos sociais e gastar apenas com a defesa. Promete cortar mais impostos, mas ele mesmo não consegue superar o fato de que os únicos beneficiados seriam os donos de grandes empresas, já que a maioria das pequenas empresas (média de 95%) lucram menos do que 250 mil dólares anuais. O “Joe, the plumber” (João, o encanador) geralmente ganha muito menos do que isso, na faixa de 47 mil dólares anuais, segundo Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel da economia em 2008.
Krugman também endossa Barack Obama. À Sexta-Feira passada, escreveu em sua coluna que o dever do próximo presidente, que tecnicamente não tem grande controle sobre a crise, é gastar com seu país, desenvolver sua infra-estrutura, oferecer respaldo aos desempregados e desassegurados da nação, e não congelar os gastos essenciais. Sim, há corrupção, e certamente o quartagésimo-quarto presidente dos Estados Unidos tem meu total apoio a caçá-la e erradicá-la, mas isto não significa que o dinheiro que eu alegremente pago ao governo possa ser apenas investido no exército. Muito pelo contrário. Por mim, nós, como soldados desarmados, temos o dever de investir em nosso país, com nossos recursos, por nossos interesses de uma vez por todas.
Powell, por sua vez, enalteceu a escolha de Joe Biden à vice-presidência enquanto se disse “desapontado” pela escolha de Sarah Palin, a quem julga despreparada em demasia para uma eventual crise na qual deva assumir o trono da Casa Branca. Biden e sua experiência bipartidária em relações externas, segundo o ex Secretário de Estado de Bush, o fazem “pronto para o primeiro dia.”
Faltam 15 dias para as eleições que ocorrerão no dia 4 de Novembro. Por enquanto, as pesquisas favorecem a Obama com excelentes margens em estados antes garantidos aos republicanos. Podemos esperar, contudo, que a corrida fique mais emocionante daqui para frente. Os ataques de McCain e Palin, agora implorando aos eleitores a não eleger um “socialista” à presidência, ainda podem surtir efeitos inesperados (ou secretamente esperados, no caso do racismo enrustido). Contudo, acredito mais do que nunca que todos sabemos em qual cavalo devemos apostar todas as fichas.
RF
PS: Ironia
A economia sempre preocupou qualquer nação acima da maioria dos outros temas. Entretanto, foi a guerra no Iraque que causou o maior índice de impopularidade ao presidente George W. Bush. Como Powell disse ao endossar Obama, “sem as armas de destruição em massa, não havia motivo algum para entrar em guerra contra Sadam Hussein”.
Mesmo assim, a guerra acaba se tornando uma distração, ao invés de tema central destas eleições. Através dela, o candidato que mais se parece e mais próximo está à base que cometeu os erros em 2003, pode se beneficiar e ludibriar os eleitores com sua falsa segurança e tendências bélicas. O tempo passa, os temas trocam de lugar, mas nunca mudam.
Essas Palavras Vos Trazem
Ben Bernanke,
Colin Powell,
FED,
George W. Bush,
Henry Paulson,
John McCain,
Sarah Palin
Friday, October 10, 2008
“A economia esmaga a raça”.
Por Bruno Venancio“A crise corrente começou com a explosão da “bolha imobiliária”, que levou a uma grande quantidade de hipotecas não pagas, logo a grandes perdas de muitas instituições financeiras. O choque incicial criou efeitos secundários, enquanto a falta de capital fez com que bancos se retirassem do mercado, levando a declínios ainda maiores nos preços das propriedades, o que originou mais perdas, e assim por diante – um circulo vicioso de “desvalorização”.
A queda livre acelerou depois [do fracasso] de Lehman. Mercados monetários, já em problemas, efetivamente se fecharam – uma das frases circulando atualmente é que as únicas coisas que as pessoas querem comprar agora são notas do Tesouro e garrafas de água.
A resposta a essa queda livre da parte dos dois grandes poderes do mundo – os Estados Unidos, em um lado, e as 15 nações que usam o Euro, do outro lado – foi terrivelmente inadequada.”
Assim explica Paul Krugman, em sua coluna de hoje no The New York Times. Depois de explicar que os líderes dos Estados Unidos, incluindo Henry Paulson, secretário do Tesouro, falharam em formular um plano conciso e intelectualmente são para reafirmar a economia da nação, ao mesmo tempo ajudando a evitar um colapso mundial da bolsa de valores, Krugman afirma que um novo plano de resgate deve ser concluído nesse fim de semana.
“Por que nesse fim de semana? Porque ocorrem dois grandes encontros em Washington: um encontro com os principais oficiais financeiros de grandes nações desenvolvidas, na Sexta Feira; e logo o anual encontro do Banco Mundial/Fundo Monetário Internacional ao Sábado e Domingo. Se esses encontros terminarem sem ao menos um acordo em princípio a um resgate global – se todos forem para a casa com nada mais do que vagos pensamentos de que eles pretendem continuar controlando a situação – a oportunidade de ouro terá sido perdida, e a queda livre pode facilmente piorar.
O que deve ser feito? Os Estados Unidos e a Europa devem dizer, ‘Sim, Primeiro Ministro.’ O plano Inglês (injetar 50 bilhões de euros no mercado) não é perfeito, mas existe o acordo geral entre economistas que [o plano] oferece de longe o melhor cenário disponível para um resgate abrangente.
E o tempo de agir é agora. Você pode pensar que as coisas não podem piorar – mas elas podem, e se nada for feito nos próximos dias, elas vão piorar.”
Sei que transcrevi e traduzi quase toda a coluna de Krugman, mas para quem ainda queria, aqui, uma melhor explicação sobre a atual situação econômica, o encontra melhor nas palavras de Krugman.
Tendo dito isto, passo ao que mais me vale.
Pela segunda vez consecutiva na semana que ainda passa, Barack Obama vence John McCain nas pesquisas do Gallup por 11 pontos percentuais (52-41%). Resultado este que inclui pesquisas conluídas ontem, depois do segundo debate presidencial, e após uma semana inteira de ataques ao caráter de Obama por associação.
Em um “townhall” (vide explicação no sidebar do blogue), McCain foi confrontado por um eleitor que o implorou (literalmente) a levantar a associação do pastor Jeremiah Wright, o ex terrorista doméstico William Ayers e qualquer outra pessoa suspeita na vida do candidato democrata, no próximo e último debate a ser conduzido entre os principais candidatos à presidência.
Faltando 25 dias para o 4 de Novembro, a campanha de McCain, consciente de que perde quando o assunto é economia, desviou-se do tema para tentar plantar a semente da dúvida em eleitores independentes ou indecisos. Por enquanto, o plano não só não funciona como passa a levantar questões sobre McCain e sua vice, Sarah Palin, que sem isso não teriam levantado.
Joe Biden, vice-presidente no bilhete democrata, disse a uma platéia de sua base que “McCain não teve a coragem de olhar nos olhos de Obama e atacá-lo por Wright ou Ayers [no segundo debate],” e concluiu, “de onde eu venho, se você tem algo a me dizer, diga olhando nos meus olhos!”
As associações de Palin ao Partido Separatista do Alaska, incluindo seu auxílio como prefeita e governadora outorgando certos cargos a oficiais da organização que, segundo diversas fontes, tornou-se antro de racistas e xenófobos de todos os estados do país, emergem enquanto Palin tornou-se ícone da separação partidária que assola o país há décadas. Segundo o conservador David Brooks, Palin representa a explícita divisão, rancor e ressentimento entre as classe mais e menos “educadas”. Seu orgulho caipira, em outras palavras, poderia ajudar o candidato republicano em outras eleições, talvez há alguns muitos anos atrás.
Meu palpite:
Sarah Palin não só não ajudou a McCain, mas é o principal motivo de sua queda nas pesquisas. O fator racial ainda deve ser analisado, mas por enquanto Obama parece vencer apesar de qualquer racismo. Esse é o moto de nossos dias: “A economia esmaga a raça”.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
David Brooks,
Henry Paulson,
John McCain,
Paul Krugman,
Sarah Palin
Thursday, October 02, 2008
Mais sobre a Crise
Quando escrevi no passado texto que estava ao lado dos republicanos na lei de resgate econômico ontem aprovada pelo Senado por 75-28 votos, referia-me especificamente aos motivos dados por 95 democratas contrários à lei no Congresso.
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
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Barack Obama,
Henry Paulson,
Joe Biden,
John McCain,
Katie Couric,
Nancy Pelosi,
Sarah Palin
Tuesday, September 30, 2008
Essa Maldita Crise
O que tomou o ambiente politico nesta Segunda-Feira pode (deve) ser a prova mais contundente da incompetência da administração de George W. Bush em oito anos de governo. Porém, além de danificar ainda mais a credibilidade do atual presidente, a batalha no Congresso sinaliza um Washington partidário e dividido. Nessa divisão cáem de cada lado os candidatos presidenciais John McCain e Barack Obama.
John McCain havia suspenso sua camapanha a partir da Quinta-Feira passada. Ligara a Obama para pedir que seu adversário fizesse o mesmo, mas antes de dar-lhe o tempo necessário à decisão, anunciou que sequer participaria do debate antes de uma resolução concreta do resgate washingtoniano a Wall Street.
Não houve muitos analistas ingênuos ou cínicos o suficiente dizendo que McCain realizava mais do que uma jogada campanhista, mas o resultado do voto do Congresso ontem à tarde deixou claro que o senador pelo Arizona não foi dos mais beneficientes. Tampouco, contudo, acredito que tenha sido o responsável (único) do desmoronamento.
No Domingo, Nancy Pelosi e o lider da minoria, John Boehner, ao lado do candidato presidencial pelo partido Republicano, prometeram os votos necessários para a passagem da lei que autorizaria o uso federal de 700 bilhões de dólares, sem grandes restrições, sem cláusulas que possibilitariam apelos judiciais caso o uso fosse menos do que correto, sem fundos de garantia e sem uma cláusula preventiva em caso de falência.
A lei, segundo Pelosi, tinha o objetivo de viabilizar lucros potenciais a contribuintes quando/se o mercado voltar a se estabilizar. Um dos principais motivos da recessão atual é justamente o que já discutimos aqui desde o início do ano, a incapacidade de repagar dívidas de cartões de crédito, compras de carros, casas e outros bens essenciais, o que basicamente cria um rombo nos bancos, que não possúem mais o capital emprestado, e não podem mais seguir emprestando. O governo então procurava comprar essas dívidas, e em troca, ao invés de mais ações, a exigência política incluía comprar terrenos impagados pela metade do preço ou menos, a fins de que em alguns anos possam vendê-los pelo dobro do que pagaram ou mais.
Entretanto, antes de apresentar a lei ao voto dos representantes, Pelosi deu um discurso envenenado, partidário, acusando Bush e sua administração e atribuindo aos mesmos a responsabilidade da atual situação. Quando a lei caiu, feriu-se e logo morreu por 228 a 205 votos, Pelosi surpreendeu-se, mas não devia.
Henry Paulson, secretário do tesouro, ajoelhou-se em um só pé à semana passada diante de Pelosi, que lhe disse em alto e bom tom: “Não sabia que você era cristão, mas não sou eu fazendo isso, e sim seus colegas.”
Há alguns pequenos fatos incontestáveis quando se trata dessa lei. Em primeiro lugar, tanto Obama quanto McCain encontraram seus piores momentos no debate quando tentaram, sem o menor sucesso, responder essa questão, a primeira de Jim Lehrer. Logo, McCain se comprometeu a contribuir para uma resolução rápida, mas não teve sucesso. Também prometeu a Pelosi que sua casa tinha os votos necessários para a passagem, o que não ocorreu, e jamais foi claro quanto sua posição exata no tema. Obama questionou e investigou, mas nada mais, e sua posição, apesar de mais transparente, jamais foi explícita. O fato mais importante é que o discurso de Pelosi foi usado como excelente desculpa pelos republicanos, e não devia, sinceramente.
Não sei se choco leitores quando escrevo que, nesse caso, estou com republicanos. Essa lei que outorgaria à administração de Bush a mesma força entregue em 2003, que viabilizou a guerra no Iraque, me parecia e ainda soa muito suspeita. Por isso sinto-me mal em não conseguir, não importa o quanto leia, entender a situação na íntegra. Parece-me muito perigoso viver na ignorância econômica nos dias atuais.
Para mim, republicanos pediam ainda mais supervisão, menos dinheiro outorgado, mais garantia popular, mais segurança, e não estiveram sós em seus cálculos. 95 democratas votaram contra a lei pelos mesmos motivos, o que legitima a perspectiva de que a crise, esta sim, foi bipartidária. Jamais o congresso e o senado trabalharam tão bem em suas contra-partes do que na criação do abismo que a nação agora se encontra.
Portanto, pelo que conheço atualmente, também teria me oposto. A consequência não da oposição, mas da incompetência dos congressistas em concordar com uma lei pouco mais complexa do que a de três páginas e meia apresentada por George Bush, decretou a maior queda no DOW constatada na historia da bolsa de valores, 777 pontos. A Bovespa caiu mais de 13% e antes da meia noite de ontem, a moeda japonesa caía mais de 5%. A consequência de não aprovar qualquer lei em uma ou duas semanas pode, sem dúvida alguma, trazer o país ao freio não completo, mas parcial, e uma vagarosidade inédita em tempos modernos, desde a última Grande Depressão nos anos 30.
Alguma lei será aprovada, não duvidem, mas acredito que será melhor e mais adequada do que a vista ontem. Acredito também que o partido republicano não está unido, como clamam seus congressistas e senadores, mas pelo menos ainda encontra alguma base ideológica no conservadorismo fiscal. Democratas continuam levianos demais para o meu gosto liberal, mas bravo, de cidadão do mundo.
Pergunto-me: Os empresários que predam e precisam do resgate para que seus bancos sigam emprestando, e pequenos e grandes negócios sigam crescendo, ganharam e ainda ganham dezenas e centenas de milhões de dólares anuais em abonos.
Em vez do socialismo federal, onde o dinheiro que o coletivo deu ao governo em impostos é usado pelo estado para “resgatar” bancos que, atualmente, ganham lucros menos absurdos, grotescos e obscenos pela incompetência constatada no crédito doado a qualquer pessoa eternamente; em vez de exigir que até mesmo o operário e a faxineira doem seus cinquenta centavos para garantir que os lucros absurdos, grotescos e obscenos permaneçam assim, por que esses empresários, banqueiros, milionários desproporcionais da nação tão beneficiados da administração bushista não dão de seu próprio dinheiro e comprometem-se a ganhar menos lucros para ajudar ao menos suas próprias comunidades a florecer o necessário para evitar maiores depressões?
Não seria isto o capitalismo de Ronald Reagan, onde o dinheiro excessivo que certos gananciosos iludidos reservam para o fundo imaginário de seus cofres reais escorrega aos bicos dos mais pobres, o capitalismo que pede a independência popular, a anarquia de Bakunin, objetivo do socialismo de Karl Marx?
Definitivamente, capitalistas ferrenhos são tão utópicos e inocentes quanto socialistas ferrenhos. A mesma natureza humana que não consegue desviar-se da corrupção socialista, tampouco consegue livrar-se da corrupção capitalista. Ambos, em realidade, viram a casaca temporariamente quando a casa cái.
Sim, existe a direita e existe a esquerda, Sandra Camurça. Mas em nossa humanidade, ambas são extremamente descoordenadas.
RF
John McCain havia suspenso sua camapanha a partir da Quinta-Feira passada. Ligara a Obama para pedir que seu adversário fizesse o mesmo, mas antes de dar-lhe o tempo necessário à decisão, anunciou que sequer participaria do debate antes de uma resolução concreta do resgate washingtoniano a Wall Street.
Não houve muitos analistas ingênuos ou cínicos o suficiente dizendo que McCain realizava mais do que uma jogada campanhista, mas o resultado do voto do Congresso ontem à tarde deixou claro que o senador pelo Arizona não foi dos mais beneficientes. Tampouco, contudo, acredito que tenha sido o responsável (único) do desmoronamento.
No Domingo, Nancy Pelosi e o lider da minoria, John Boehner, ao lado do candidato presidencial pelo partido Republicano, prometeram os votos necessários para a passagem da lei que autorizaria o uso federal de 700 bilhões de dólares, sem grandes restrições, sem cláusulas que possibilitariam apelos judiciais caso o uso fosse menos do que correto, sem fundos de garantia e sem uma cláusula preventiva em caso de falência.
A lei, segundo Pelosi, tinha o objetivo de viabilizar lucros potenciais a contribuintes quando/se o mercado voltar a se estabilizar. Um dos principais motivos da recessão atual é justamente o que já discutimos aqui desde o início do ano, a incapacidade de repagar dívidas de cartões de crédito, compras de carros, casas e outros bens essenciais, o que basicamente cria um rombo nos bancos, que não possúem mais o capital emprestado, e não podem mais seguir emprestando. O governo então procurava comprar essas dívidas, e em troca, ao invés de mais ações, a exigência política incluía comprar terrenos impagados pela metade do preço ou menos, a fins de que em alguns anos possam vendê-los pelo dobro do que pagaram ou mais.
Entretanto, antes de apresentar a lei ao voto dos representantes, Pelosi deu um discurso envenenado, partidário, acusando Bush e sua administração e atribuindo aos mesmos a responsabilidade da atual situação. Quando a lei caiu, feriu-se e logo morreu por 228 a 205 votos, Pelosi surpreendeu-se, mas não devia.
Henry Paulson, secretário do tesouro, ajoelhou-se em um só pé à semana passada diante de Pelosi, que lhe disse em alto e bom tom: “Não sabia que você era cristão, mas não sou eu fazendo isso, e sim seus colegas.”
Há alguns pequenos fatos incontestáveis quando se trata dessa lei. Em primeiro lugar, tanto Obama quanto McCain encontraram seus piores momentos no debate quando tentaram, sem o menor sucesso, responder essa questão, a primeira de Jim Lehrer. Logo, McCain se comprometeu a contribuir para uma resolução rápida, mas não teve sucesso. Também prometeu a Pelosi que sua casa tinha os votos necessários para a passagem, o que não ocorreu, e jamais foi claro quanto sua posição exata no tema. Obama questionou e investigou, mas nada mais, e sua posição, apesar de mais transparente, jamais foi explícita. O fato mais importante é que o discurso de Pelosi foi usado como excelente desculpa pelos republicanos, e não devia, sinceramente.
Não sei se choco leitores quando escrevo que, nesse caso, estou com republicanos. Essa lei que outorgaria à administração de Bush a mesma força entregue em 2003, que viabilizou a guerra no Iraque, me parecia e ainda soa muito suspeita. Por isso sinto-me mal em não conseguir, não importa o quanto leia, entender a situação na íntegra. Parece-me muito perigoso viver na ignorância econômica nos dias atuais.
Para mim, republicanos pediam ainda mais supervisão, menos dinheiro outorgado, mais garantia popular, mais segurança, e não estiveram sós em seus cálculos. 95 democratas votaram contra a lei pelos mesmos motivos, o que legitima a perspectiva de que a crise, esta sim, foi bipartidária. Jamais o congresso e o senado trabalharam tão bem em suas contra-partes do que na criação do abismo que a nação agora se encontra.
Portanto, pelo que conheço atualmente, também teria me oposto. A consequência não da oposição, mas da incompetência dos congressistas em concordar com uma lei pouco mais complexa do que a de três páginas e meia apresentada por George Bush, decretou a maior queda no DOW constatada na historia da bolsa de valores, 777 pontos. A Bovespa caiu mais de 13% e antes da meia noite de ontem, a moeda japonesa caía mais de 5%. A consequência de não aprovar qualquer lei em uma ou duas semanas pode, sem dúvida alguma, trazer o país ao freio não completo, mas parcial, e uma vagarosidade inédita em tempos modernos, desde a última Grande Depressão nos anos 30.
Alguma lei será aprovada, não duvidem, mas acredito que será melhor e mais adequada do que a vista ontem. Acredito também que o partido republicano não está unido, como clamam seus congressistas e senadores, mas pelo menos ainda encontra alguma base ideológica no conservadorismo fiscal. Democratas continuam levianos demais para o meu gosto liberal, mas bravo, de cidadão do mundo.
Pergunto-me: Os empresários que predam e precisam do resgate para que seus bancos sigam emprestando, e pequenos e grandes negócios sigam crescendo, ganharam e ainda ganham dezenas e centenas de milhões de dólares anuais em abonos.
Em vez do socialismo federal, onde o dinheiro que o coletivo deu ao governo em impostos é usado pelo estado para “resgatar” bancos que, atualmente, ganham lucros menos absurdos, grotescos e obscenos pela incompetência constatada no crédito doado a qualquer pessoa eternamente; em vez de exigir que até mesmo o operário e a faxineira doem seus cinquenta centavos para garantir que os lucros absurdos, grotescos e obscenos permaneçam assim, por que esses empresários, banqueiros, milionários desproporcionais da nação tão beneficiados da administração bushista não dão de seu próprio dinheiro e comprometem-se a ganhar menos lucros para ajudar ao menos suas próprias comunidades a florecer o necessário para evitar maiores depressões?
Não seria isto o capitalismo de Ronald Reagan, onde o dinheiro excessivo que certos gananciosos iludidos reservam para o fundo imaginário de seus cofres reais escorrega aos bicos dos mais pobres, o capitalismo que pede a independência popular, a anarquia de Bakunin, objetivo do socialismo de Karl Marx?
Definitivamente, capitalistas ferrenhos são tão utópicos e inocentes quanto socialistas ferrenhos. A mesma natureza humana que não consegue desviar-se da corrupção socialista, tampouco consegue livrar-se da corrupção capitalista. Ambos, em realidade, viram a casaca temporariamente quando a casa cái.
Sim, existe a direita e existe a esquerda, Sandra Camurça. Mas em nossa humanidade, ambas são extremamente descoordenadas.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Henry Paulson,
Jim Lehrer,
John Boehner,
John McCain,
Nancy Pelosi
Tuesday, September 23, 2008
De Crise em Crise
Na semana do debate presidencial entre os candidatos John McCain e Barack Obama, a crise econômica imprescindível há décadas nos Estados Unidos dita novamente o tom das campanhas. Mas há um novo problema velho, constatado por analistas recentemente e divulgado com foco crescente desde os eventos da semana passada.
Obama conquistou a liderança depois de quase duas semanas, enquanto McCain encontra força em estados essenciais como a Flórida, e vence em camadas republicanas clássicas, como homens brancos e cubanos. O senador pelo Illinois deveria estabelecer a base de mulheres brancas, mas a escolha de Sarah Palin mostra-se indiscutivelmente eficiente nesse sentido. E há uma porcentagem em estados essenciais como Ohio, Virginia e Michigan que permanece indecisa, apesar de registrada. Essa é a porcentagem dos potenciais racistas nacionais.
Andrew Sullivan, comentarista e autor da coluna The Daily Dish no jornal The Atlantic.com, diz que o candidato democrata deve vencer por sete pontos percentuais nas pesquisas para confiar em seus resultados. Como o próprio libertário afirma, talvez a questão do racismo tenha sido racionalizada e elaborada como algo distinto, mas infelizmente existe um consenso entre essa camada de que um homem negro na Casa Branca seria demais para o psicológico da nação.
Para John McCain, a economia sôfrega causa maior problema do que o combate ao terrorismo forjado pela administração de George W. Bush.
Pelo que entendo, a falência econômica do país é diretamente ligada à irresponsabilidade tanto de bancos, seguradoras, e companhias de investimento e financiamento, quanto de seus clientes, que muitas vezes assumiram dívidas colossais sem os meios concretos de pagá-las. As companhias em questão ofereceram uma série de regulações nebulosas, e a outorgação de créditos excessivos a indivíduos e empresas pequenas, que esperavam uma melhor projeção futura tanto no crescimento (vulgo “bolha”) do mercado imobiliário quanto de injeções consumistas.
Aqui poderia tecer minhas próprias teorias conspiratórias. Economistas e empresários sabiam da possibilidade desse estouro há pelo menos dois anos. Já ao início do ano passado, minha mãe como milhares de outras pessoas ao redor do país perdiam suas casas depois de as haverem comprado em hipotecas maleáveis, esperando que em seis a doze meses os valores de suas propriedades aumentassem tanto quanto vinham aumentando até então, o que permitiria aos credores o refinanciamento e, logo, o corte do custo hipotecário mensal.
Para empregados de empresas como a Merrill Lynch, a Lehman Brothers, o Washington Mutual, a AIG, a crise causou demissões e inseguranças massivas. Para empresários, o resgate governamental pode garantir a permanência do capital repartido entre os responsáveis centrais da crise, enquanto o cidadão comum paga a conta da dívida absurda que a administração de Bush deixou às futuras gerações.
Tanto Barack Obama quanto John McCain concordam com o resgate, assumindo, como muitos economistas, que a ação do que considero “socialismo para os ricos” é a menos pior das alternativas. O Secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, pede 700 bilhões de dólares agora debatidos no Congresso, mas os pede sem restrições, para que possa por um lado exercer a independência capitalista, e por outro, beneficiar-se da mais pura ideologia esquerdista.
Como escrevi em uma coluna opinativa ao jornal estudantil The Falcon Times, ninguém veio ao meu resgate. Consumidores irresponsáveis (infelizmente, como houve em minha própria família) realmente não deveriam causar tanto desequilibrio no mercado, e talvez a própria irresponsabilidade lhes sirva de lição. Não se trata, afinal de contas, de pessoas que viviam às márgens da pobreza, ou que não tinham condições de alugar apartamentos de acordo com suas necessidades (como em minha família), mas sim de pessoas que queriam conquistar o “sonho americano” de possuir a casa própria.
Nada de errado com o sonho, mas talvez a mídia, o governo e as entidades ativistas não governamentais devessem acentuar que alugar apartamentos pode não ser a melhor alternativa, mas é a melhor alternativa para determinados patamares econômicos, e nisso tampouco há nada de errado. Ou seja, caso a cultura dos Estados Unidos não enfatizasse tanto que quem não tem propriedade não tem voz, e caso isso fosse menos contundente, de fato as pessoas se conformariam em alugar propriedades em vez de sujar o nome na praça.
Favoreço, incondicionalmente, que todos os cidadãos tenham seguro de saúde, mesmo que fumem, bebam ou gastem seu salário com outras prioridades. Favoreço também que o governo tenha condições de providenciar a quem não tem moradia, trabalho, e alimentação básica, mas isso faz mais sentido em países como o Brasil. Nos Estados Unidos, contudo, o mais importante é realmente a saúde, com mais de 15% da população nas mãos de contas hospitalares insólitas, e outra porcentagem menos exata de pessoas asseguradas, mas cujas companhias não oferecem a cobertura necessária para problemas mais graves.
Sou radicalmente contrário, contudo, a salvar pessoas que assumiram dívidas na compra de suas casas e não puderam, eventualmente, arcar com as despesas. Mais contrário ainda ao resgate governamental das empresas que faliram. “A falência também é prevista no modelo do capitalismo moderno,” disse um colunista.
Obama deveria vencer estas eleições que, finalmente, resumem-se à central questão do refortalecimento econômico de uma nação que seguiu à risca a filosofia do mercado aberto por oito anos, e destruiu, praticamente, a cultura de créditos fáceis nos Estados Unidos. Deveria vencer enquanto a administração Bush tem conexões explícitas com as mesmas companhias petrolíferas que hoje acumulam lucros recordes enquanto a população sofre com a média triplicada dos preços da gasolina, com as construtoras que reconstróem o Iraque e providenciam infra-estrutura às tropas estadunidenses, e certamente agora favorece o socialismo aos ricos que testemunhamos após eventos da semana passada.
Talvez, os 7% descritos por Andrew Sullivan sejam mais importantes do que imaginamos. Por hora, Obama vence McCain por 48-44% de acordo com o Gallup.
RF
Obama conquistou a liderança depois de quase duas semanas, enquanto McCain encontra força em estados essenciais como a Flórida, e vence em camadas republicanas clássicas, como homens brancos e cubanos. O senador pelo Illinois deveria estabelecer a base de mulheres brancas, mas a escolha de Sarah Palin mostra-se indiscutivelmente eficiente nesse sentido. E há uma porcentagem em estados essenciais como Ohio, Virginia e Michigan que permanece indecisa, apesar de registrada. Essa é a porcentagem dos potenciais racistas nacionais.
Andrew Sullivan, comentarista e autor da coluna The Daily Dish no jornal The Atlantic.com, diz que o candidato democrata deve vencer por sete pontos percentuais nas pesquisas para confiar em seus resultados. Como o próprio libertário afirma, talvez a questão do racismo tenha sido racionalizada e elaborada como algo distinto, mas infelizmente existe um consenso entre essa camada de que um homem negro na Casa Branca seria demais para o psicológico da nação.
Para John McCain, a economia sôfrega causa maior problema do que o combate ao terrorismo forjado pela administração de George W. Bush.
Pelo que entendo, a falência econômica do país é diretamente ligada à irresponsabilidade tanto de bancos, seguradoras, e companhias de investimento e financiamento, quanto de seus clientes, que muitas vezes assumiram dívidas colossais sem os meios concretos de pagá-las. As companhias em questão ofereceram uma série de regulações nebulosas, e a outorgação de créditos excessivos a indivíduos e empresas pequenas, que esperavam uma melhor projeção futura tanto no crescimento (vulgo “bolha”) do mercado imobiliário quanto de injeções consumistas.
Aqui poderia tecer minhas próprias teorias conspiratórias. Economistas e empresários sabiam da possibilidade desse estouro há pelo menos dois anos. Já ao início do ano passado, minha mãe como milhares de outras pessoas ao redor do país perdiam suas casas depois de as haverem comprado em hipotecas maleáveis, esperando que em seis a doze meses os valores de suas propriedades aumentassem tanto quanto vinham aumentando até então, o que permitiria aos credores o refinanciamento e, logo, o corte do custo hipotecário mensal.
Para empregados de empresas como a Merrill Lynch, a Lehman Brothers, o Washington Mutual, a AIG, a crise causou demissões e inseguranças massivas. Para empresários, o resgate governamental pode garantir a permanência do capital repartido entre os responsáveis centrais da crise, enquanto o cidadão comum paga a conta da dívida absurda que a administração de Bush deixou às futuras gerações.
Tanto Barack Obama quanto John McCain concordam com o resgate, assumindo, como muitos economistas, que a ação do que considero “socialismo para os ricos” é a menos pior das alternativas. O Secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, pede 700 bilhões de dólares agora debatidos no Congresso, mas os pede sem restrições, para que possa por um lado exercer a independência capitalista, e por outro, beneficiar-se da mais pura ideologia esquerdista.
Como escrevi em uma coluna opinativa ao jornal estudantil The Falcon Times, ninguém veio ao meu resgate. Consumidores irresponsáveis (infelizmente, como houve em minha própria família) realmente não deveriam causar tanto desequilibrio no mercado, e talvez a própria irresponsabilidade lhes sirva de lição. Não se trata, afinal de contas, de pessoas que viviam às márgens da pobreza, ou que não tinham condições de alugar apartamentos de acordo com suas necessidades (como em minha família), mas sim de pessoas que queriam conquistar o “sonho americano” de possuir a casa própria.
Nada de errado com o sonho, mas talvez a mídia, o governo e as entidades ativistas não governamentais devessem acentuar que alugar apartamentos pode não ser a melhor alternativa, mas é a melhor alternativa para determinados patamares econômicos, e nisso tampouco há nada de errado. Ou seja, caso a cultura dos Estados Unidos não enfatizasse tanto que quem não tem propriedade não tem voz, e caso isso fosse menos contundente, de fato as pessoas se conformariam em alugar propriedades em vez de sujar o nome na praça.
Favoreço, incondicionalmente, que todos os cidadãos tenham seguro de saúde, mesmo que fumem, bebam ou gastem seu salário com outras prioridades. Favoreço também que o governo tenha condições de providenciar a quem não tem moradia, trabalho, e alimentação básica, mas isso faz mais sentido em países como o Brasil. Nos Estados Unidos, contudo, o mais importante é realmente a saúde, com mais de 15% da população nas mãos de contas hospitalares insólitas, e outra porcentagem menos exata de pessoas asseguradas, mas cujas companhias não oferecem a cobertura necessária para problemas mais graves.
Sou radicalmente contrário, contudo, a salvar pessoas que assumiram dívidas na compra de suas casas e não puderam, eventualmente, arcar com as despesas. Mais contrário ainda ao resgate governamental das empresas que faliram. “A falência também é prevista no modelo do capitalismo moderno,” disse um colunista.
Obama deveria vencer estas eleições que, finalmente, resumem-se à central questão do refortalecimento econômico de uma nação que seguiu à risca a filosofia do mercado aberto por oito anos, e destruiu, praticamente, a cultura de créditos fáceis nos Estados Unidos. Deveria vencer enquanto a administração Bush tem conexões explícitas com as mesmas companhias petrolíferas que hoje acumulam lucros recordes enquanto a população sofre com a média triplicada dos preços da gasolina, com as construtoras que reconstróem o Iraque e providenciam infra-estrutura às tropas estadunidenses, e certamente agora favorece o socialismo aos ricos que testemunhamos após eventos da semana passada.
Talvez, os 7% descritos por Andrew Sullivan sejam mais importantes do que imaginamos. Por hora, Obama vence McCain por 48-44% de acordo com o Gallup.
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