Quando escrevi no passado texto que estava ao lado dos republicanos na lei de resgate econômico ontem aprovada pelo Senado por 75-28 votos, referia-me especificamente aos motivos dados por 95 democratas contrários à lei no Congresso.
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
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Thursday, October 02, 2008
Mais sobre a Crise
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Henry Paulson,
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Nancy Pelosi,
Sarah Palin
Tuesday, September 30, 2008
Essa Maldita Crise
O que tomou o ambiente politico nesta Segunda-Feira pode (deve) ser a prova mais contundente da incompetência da administração de George W. Bush em oito anos de governo. Porém, além de danificar ainda mais a credibilidade do atual presidente, a batalha no Congresso sinaliza um Washington partidário e dividido. Nessa divisão cáem de cada lado os candidatos presidenciais John McCain e Barack Obama.
John McCain havia suspenso sua camapanha a partir da Quinta-Feira passada. Ligara a Obama para pedir que seu adversário fizesse o mesmo, mas antes de dar-lhe o tempo necessário à decisão, anunciou que sequer participaria do debate antes de uma resolução concreta do resgate washingtoniano a Wall Street.
Não houve muitos analistas ingênuos ou cínicos o suficiente dizendo que McCain realizava mais do que uma jogada campanhista, mas o resultado do voto do Congresso ontem à tarde deixou claro que o senador pelo Arizona não foi dos mais beneficientes. Tampouco, contudo, acredito que tenha sido o responsável (único) do desmoronamento.
No Domingo, Nancy Pelosi e o lider da minoria, John Boehner, ao lado do candidato presidencial pelo partido Republicano, prometeram os votos necessários para a passagem da lei que autorizaria o uso federal de 700 bilhões de dólares, sem grandes restrições, sem cláusulas que possibilitariam apelos judiciais caso o uso fosse menos do que correto, sem fundos de garantia e sem uma cláusula preventiva em caso de falência.
A lei, segundo Pelosi, tinha o objetivo de viabilizar lucros potenciais a contribuintes quando/se o mercado voltar a se estabilizar. Um dos principais motivos da recessão atual é justamente o que já discutimos aqui desde o início do ano, a incapacidade de repagar dívidas de cartões de crédito, compras de carros, casas e outros bens essenciais, o que basicamente cria um rombo nos bancos, que não possúem mais o capital emprestado, e não podem mais seguir emprestando. O governo então procurava comprar essas dívidas, e em troca, ao invés de mais ações, a exigência política incluía comprar terrenos impagados pela metade do preço ou menos, a fins de que em alguns anos possam vendê-los pelo dobro do que pagaram ou mais.
Entretanto, antes de apresentar a lei ao voto dos representantes, Pelosi deu um discurso envenenado, partidário, acusando Bush e sua administração e atribuindo aos mesmos a responsabilidade da atual situação. Quando a lei caiu, feriu-se e logo morreu por 228 a 205 votos, Pelosi surpreendeu-se, mas não devia.
Henry Paulson, secretário do tesouro, ajoelhou-se em um só pé à semana passada diante de Pelosi, que lhe disse em alto e bom tom: “Não sabia que você era cristão, mas não sou eu fazendo isso, e sim seus colegas.”
Há alguns pequenos fatos incontestáveis quando se trata dessa lei. Em primeiro lugar, tanto Obama quanto McCain encontraram seus piores momentos no debate quando tentaram, sem o menor sucesso, responder essa questão, a primeira de Jim Lehrer. Logo, McCain se comprometeu a contribuir para uma resolução rápida, mas não teve sucesso. Também prometeu a Pelosi que sua casa tinha os votos necessários para a passagem, o que não ocorreu, e jamais foi claro quanto sua posição exata no tema. Obama questionou e investigou, mas nada mais, e sua posição, apesar de mais transparente, jamais foi explícita. O fato mais importante é que o discurso de Pelosi foi usado como excelente desculpa pelos republicanos, e não devia, sinceramente.
Não sei se choco leitores quando escrevo que, nesse caso, estou com republicanos. Essa lei que outorgaria à administração de Bush a mesma força entregue em 2003, que viabilizou a guerra no Iraque, me parecia e ainda soa muito suspeita. Por isso sinto-me mal em não conseguir, não importa o quanto leia, entender a situação na íntegra. Parece-me muito perigoso viver na ignorância econômica nos dias atuais.
Para mim, republicanos pediam ainda mais supervisão, menos dinheiro outorgado, mais garantia popular, mais segurança, e não estiveram sós em seus cálculos. 95 democratas votaram contra a lei pelos mesmos motivos, o que legitima a perspectiva de que a crise, esta sim, foi bipartidária. Jamais o congresso e o senado trabalharam tão bem em suas contra-partes do que na criação do abismo que a nação agora se encontra.
Portanto, pelo que conheço atualmente, também teria me oposto. A consequência não da oposição, mas da incompetência dos congressistas em concordar com uma lei pouco mais complexa do que a de três páginas e meia apresentada por George Bush, decretou a maior queda no DOW constatada na historia da bolsa de valores, 777 pontos. A Bovespa caiu mais de 13% e antes da meia noite de ontem, a moeda japonesa caía mais de 5%. A consequência de não aprovar qualquer lei em uma ou duas semanas pode, sem dúvida alguma, trazer o país ao freio não completo, mas parcial, e uma vagarosidade inédita em tempos modernos, desde a última Grande Depressão nos anos 30.
Alguma lei será aprovada, não duvidem, mas acredito que será melhor e mais adequada do que a vista ontem. Acredito também que o partido republicano não está unido, como clamam seus congressistas e senadores, mas pelo menos ainda encontra alguma base ideológica no conservadorismo fiscal. Democratas continuam levianos demais para o meu gosto liberal, mas bravo, de cidadão do mundo.
Pergunto-me: Os empresários que predam e precisam do resgate para que seus bancos sigam emprestando, e pequenos e grandes negócios sigam crescendo, ganharam e ainda ganham dezenas e centenas de milhões de dólares anuais em abonos.
Em vez do socialismo federal, onde o dinheiro que o coletivo deu ao governo em impostos é usado pelo estado para “resgatar” bancos que, atualmente, ganham lucros menos absurdos, grotescos e obscenos pela incompetência constatada no crédito doado a qualquer pessoa eternamente; em vez de exigir que até mesmo o operário e a faxineira doem seus cinquenta centavos para garantir que os lucros absurdos, grotescos e obscenos permaneçam assim, por que esses empresários, banqueiros, milionários desproporcionais da nação tão beneficiados da administração bushista não dão de seu próprio dinheiro e comprometem-se a ganhar menos lucros para ajudar ao menos suas próprias comunidades a florecer o necessário para evitar maiores depressões?
Não seria isto o capitalismo de Ronald Reagan, onde o dinheiro excessivo que certos gananciosos iludidos reservam para o fundo imaginário de seus cofres reais escorrega aos bicos dos mais pobres, o capitalismo que pede a independência popular, a anarquia de Bakunin, objetivo do socialismo de Karl Marx?
Definitivamente, capitalistas ferrenhos são tão utópicos e inocentes quanto socialistas ferrenhos. A mesma natureza humana que não consegue desviar-se da corrupção socialista, tampouco consegue livrar-se da corrupção capitalista. Ambos, em realidade, viram a casaca temporariamente quando a casa cái.
Sim, existe a direita e existe a esquerda, Sandra Camurça. Mas em nossa humanidade, ambas são extremamente descoordenadas.
RF
John McCain havia suspenso sua camapanha a partir da Quinta-Feira passada. Ligara a Obama para pedir que seu adversário fizesse o mesmo, mas antes de dar-lhe o tempo necessário à decisão, anunciou que sequer participaria do debate antes de uma resolução concreta do resgate washingtoniano a Wall Street.
Não houve muitos analistas ingênuos ou cínicos o suficiente dizendo que McCain realizava mais do que uma jogada campanhista, mas o resultado do voto do Congresso ontem à tarde deixou claro que o senador pelo Arizona não foi dos mais beneficientes. Tampouco, contudo, acredito que tenha sido o responsável (único) do desmoronamento.
No Domingo, Nancy Pelosi e o lider da minoria, John Boehner, ao lado do candidato presidencial pelo partido Republicano, prometeram os votos necessários para a passagem da lei que autorizaria o uso federal de 700 bilhões de dólares, sem grandes restrições, sem cláusulas que possibilitariam apelos judiciais caso o uso fosse menos do que correto, sem fundos de garantia e sem uma cláusula preventiva em caso de falência.
A lei, segundo Pelosi, tinha o objetivo de viabilizar lucros potenciais a contribuintes quando/se o mercado voltar a se estabilizar. Um dos principais motivos da recessão atual é justamente o que já discutimos aqui desde o início do ano, a incapacidade de repagar dívidas de cartões de crédito, compras de carros, casas e outros bens essenciais, o que basicamente cria um rombo nos bancos, que não possúem mais o capital emprestado, e não podem mais seguir emprestando. O governo então procurava comprar essas dívidas, e em troca, ao invés de mais ações, a exigência política incluía comprar terrenos impagados pela metade do preço ou menos, a fins de que em alguns anos possam vendê-los pelo dobro do que pagaram ou mais.
Entretanto, antes de apresentar a lei ao voto dos representantes, Pelosi deu um discurso envenenado, partidário, acusando Bush e sua administração e atribuindo aos mesmos a responsabilidade da atual situação. Quando a lei caiu, feriu-se e logo morreu por 228 a 205 votos, Pelosi surpreendeu-se, mas não devia.
Henry Paulson, secretário do tesouro, ajoelhou-se em um só pé à semana passada diante de Pelosi, que lhe disse em alto e bom tom: “Não sabia que você era cristão, mas não sou eu fazendo isso, e sim seus colegas.”
Há alguns pequenos fatos incontestáveis quando se trata dessa lei. Em primeiro lugar, tanto Obama quanto McCain encontraram seus piores momentos no debate quando tentaram, sem o menor sucesso, responder essa questão, a primeira de Jim Lehrer. Logo, McCain se comprometeu a contribuir para uma resolução rápida, mas não teve sucesso. Também prometeu a Pelosi que sua casa tinha os votos necessários para a passagem, o que não ocorreu, e jamais foi claro quanto sua posição exata no tema. Obama questionou e investigou, mas nada mais, e sua posição, apesar de mais transparente, jamais foi explícita. O fato mais importante é que o discurso de Pelosi foi usado como excelente desculpa pelos republicanos, e não devia, sinceramente.
Não sei se choco leitores quando escrevo que, nesse caso, estou com republicanos. Essa lei que outorgaria à administração de Bush a mesma força entregue em 2003, que viabilizou a guerra no Iraque, me parecia e ainda soa muito suspeita. Por isso sinto-me mal em não conseguir, não importa o quanto leia, entender a situação na íntegra. Parece-me muito perigoso viver na ignorância econômica nos dias atuais.
Para mim, republicanos pediam ainda mais supervisão, menos dinheiro outorgado, mais garantia popular, mais segurança, e não estiveram sós em seus cálculos. 95 democratas votaram contra a lei pelos mesmos motivos, o que legitima a perspectiva de que a crise, esta sim, foi bipartidária. Jamais o congresso e o senado trabalharam tão bem em suas contra-partes do que na criação do abismo que a nação agora se encontra.
Portanto, pelo que conheço atualmente, também teria me oposto. A consequência não da oposição, mas da incompetência dos congressistas em concordar com uma lei pouco mais complexa do que a de três páginas e meia apresentada por George Bush, decretou a maior queda no DOW constatada na historia da bolsa de valores, 777 pontos. A Bovespa caiu mais de 13% e antes da meia noite de ontem, a moeda japonesa caía mais de 5%. A consequência de não aprovar qualquer lei em uma ou duas semanas pode, sem dúvida alguma, trazer o país ao freio não completo, mas parcial, e uma vagarosidade inédita em tempos modernos, desde a última Grande Depressão nos anos 30.
Alguma lei será aprovada, não duvidem, mas acredito que será melhor e mais adequada do que a vista ontem. Acredito também que o partido republicano não está unido, como clamam seus congressistas e senadores, mas pelo menos ainda encontra alguma base ideológica no conservadorismo fiscal. Democratas continuam levianos demais para o meu gosto liberal, mas bravo, de cidadão do mundo.
Pergunto-me: Os empresários que predam e precisam do resgate para que seus bancos sigam emprestando, e pequenos e grandes negócios sigam crescendo, ganharam e ainda ganham dezenas e centenas de milhões de dólares anuais em abonos.
Em vez do socialismo federal, onde o dinheiro que o coletivo deu ao governo em impostos é usado pelo estado para “resgatar” bancos que, atualmente, ganham lucros menos absurdos, grotescos e obscenos pela incompetência constatada no crédito doado a qualquer pessoa eternamente; em vez de exigir que até mesmo o operário e a faxineira doem seus cinquenta centavos para garantir que os lucros absurdos, grotescos e obscenos permaneçam assim, por que esses empresários, banqueiros, milionários desproporcionais da nação tão beneficiados da administração bushista não dão de seu próprio dinheiro e comprometem-se a ganhar menos lucros para ajudar ao menos suas próprias comunidades a florecer o necessário para evitar maiores depressões?
Não seria isto o capitalismo de Ronald Reagan, onde o dinheiro excessivo que certos gananciosos iludidos reservam para o fundo imaginário de seus cofres reais escorrega aos bicos dos mais pobres, o capitalismo que pede a independência popular, a anarquia de Bakunin, objetivo do socialismo de Karl Marx?
Definitivamente, capitalistas ferrenhos são tão utópicos e inocentes quanto socialistas ferrenhos. A mesma natureza humana que não consegue desviar-se da corrupção socialista, tampouco consegue livrar-se da corrupção capitalista. Ambos, em realidade, viram a casaca temporariamente quando a casa cái.
Sim, existe a direita e existe a esquerda, Sandra Camurça. Mas em nossa humanidade, ambas são extremamente descoordenadas.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Henry Paulson,
Jim Lehrer,
John Boehner,
John McCain,
Nancy Pelosi
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