Ontem foi noite de debates tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Aqui, a governadora do Alaska, Sarah Palin, e o senador por Delaware, Joe Biden, debutaram no único debate vice-presidencial disponível à analise eleitoral.
As expectativas em relação a Palin eram realmente baixas. A mídia, especialmente a entrevista de Katie Couric paulatinamente televisionada em duas semanas, preocupou-se com a possibilidade (deliciosa, para quem trabalha com a mídia) de que a governadora caísse sobre a própria face em suas respostas, mas não foi, exatamente, o que vimos.
Começo com a nota pessoal: Odiei o debate. Quando falo em ódio não se trata da raiva passageira que sentem uns quando confrontam opiniões opostas, mas da reviravolta intestinal que se dá quando ouvimos duas pessoas falarem como se fossem “mui amigas”, enquanto o país se degladia polarizado entre a esquerda de Barack Obama e a direita de Sarah Palin.
O formato foi limitante, e as perguntas jamais foram seguidas caso o respectivo candidato não as respondesse. Isto permitiu a Palin, logo no início do debate, dizer a Gwen Ifill:
“Posso não responder conforme a moderadora espere, ou conforme [Biden] espere, mas falarei diretamente ao povo estadunidense sobre meu trabalho.”
Não é que Palin venceu o debate, mas Biden, apesar de claramente melhor, explicitamente melhor preparado e com a lingua afiada de detalhes vividos em sua vasta carreira no Senado, não conseguiu finalizá-lo. Seja por cordialidade excessiva, ou pelo fato de que sua adversária é tão distinta do que a média política, o senador democrata a tratou com enorme respeito e cuidado.
Porém, Palin foi excelente. Isto é, caso meus leitores tenham como “excelente” a façanha de conseguir não explodir em pleno palco, e ter decorado palavra por palavra (algumas erradas, outras lidas enquanto respondia a Biden) ditada pelos conselheiros da campanha de republicana.
O que a governadora conseguiu, no entanto, foi parecer mais popular do que Biden. Piscava à moderadora, falava direto para a câmera, e fazia referências populares para melhor identificação com a classe média. Ao mesmo tempo, parte de seu “populismo” soou e viu-se ensaiado, propositalmente atirado aos ares dos espectadores, o que não significa que não tenha funcionado.
Em diversas ocasiões referiu-se como “Joe Sixpack” (o João da Brahma), “hockey mom” (mãe de um time de hockey), e quando respondeu ao recorde de Biden, que votou a favor da resolução presidencial que fatalmente permitiu a George W. Bush invadir o Iraque, disse “oh, man (ô, carinha), dá pra perceber que não sou de Washington, não entendo essa mentalidade de mudar de posição dependendo da disputa”.
O ponto mais fraco de Palin foram os detalhes, eternos detalhes. Desde chamar o general das forças armadas no Afeganistão de McLelan (o nome certo é Gen. David McKiernan), a sair-se em todas as ocasiões, cem por cento delas, com chavões e retóricas republicanas, a ignorar constantemente o tema da pergunta, para falar o que mais lhe convinha.
O ponto mais fraco de Biden foi não ter respondido todos os ataques com a “agressividade” necessária em um debate de tamanhas proporções. Além disso, o fato de não ter concordado com Obama em algumas ocasiões, e o fato de ter votado a favor da resolução acima mencionada, fez com que algumas de suas palavras soassem menos genuínas, e certamente o senador por Delaware jamais incendiou o debate.
Alguns temas não foram contestados do lado de Palin, portanto atribúo a vitória a Biden. Essencialmente, Palin jamais disputou o recorde de McCain comparado ao recorde de Bush, apesar de ter tido a chance. Em relação a decisões políticas das quais se arrepende, Palin falou estritamente de seu estado, e dos vetos que deixou de assinar em ocasiões para chegar ao compromisso que achava correto. Além disso, a governadora disse que lutaria para que seu poder como vice-presidente fosse aumentado.
Outros dois momentos dos menos temerosamente tediosos valem a menção:
Quando Palin e Biden responderam a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Biden começou dizendo que lutaria para que todos os casais, independente do sexo, tivessem os mesmos direitos sob as asas constitucionais. Palin disse que jamais discriminaria entre casais do mesmo sexo, mas que era contra essa união e que lutaria para que o conceito de casamento não fosse mudado. O problema? Biden concordou, logo depois. Esse seria exatamente um dos assuntos essenciais para mostrar a diferença entre os partidos e as ideologias de cada candidato, mas passou praticamente em branco, apesar de que eu, ao menos, não acreditei por um instante que a governadora realmente se importa com homossexuais.
O outro ocorreu quando Biden falava de seus filhos feridos, e de sua esposa e filha mortas em um acidente automobilístico pouco antes de sua primeira eleição ao Senado. Biden chegou a engasgar um pouco, como de costume quando fala no assunto em qualquer circunstância, e quase chorou. Palin simplesmente ignorou o que Biden disse, e sua resposta expressou-se excitante, mas fria, quando usou novos jargões republicanos, desnexados da sequência do debate.
Em minha humilde opinião, caso alguém realmente acredite que Palin venceu o debate, isso só foi possível pela baixa expectativa criada pela mídia nas duas semanas anteriores. No geral, a maioria dos analistas concorda que não houve, concretamente, a menor mudança no quadro eleitoral, e os vice-presidentes não são mais critério na batalha.
RF
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Friday, October 03, 2008
A Pit-Bull e o Velho Pastor Americano
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Gwen Ifill,
Joe Biden,
John McCain,
Sarah Palin
Thursday, October 02, 2008
Mais sobre a Crise
Quando escrevi no passado texto que estava ao lado dos republicanos na lei de resgate econômico ontem aprovada pelo Senado por 75-28 votos, referia-me especificamente aos motivos dados por 95 democratas contrários à lei no Congresso.
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
É preciso esclarecer a afirmação, já que jamais disse que republicanos não usavam de astúcia política em tempos eleitorais, bem como usam os democratas. Muito pelo contrário. Tendo depois analisado com maior cuidado, percebi que o partido conservador pode mesmo ter jogado, displiscentemente, com a decisão radical.
Pode muito bem ter sido apelação partidária. Parte dos congressistas republicanos explicaram que a lei não tinha transparência, atribuição de responsabilidade e segurança ao contribuinte mediano suficientes. Parte, grande parte, deu um discurso em frente ao Capitolólio Federal dizendo que Nancy Pelosi, porta-voz do Congresso, fora partidária demais em seu discurso.
Karl Rove, em entrevista à Fox News, disse que jamais testemunhara discurso tão partidário em sua vida. Poderia dizer que Papai Noel é seu verdadeiro padrasto, e soaria tão genuíno quanto.
O país encontra-se já de certo modo estagnado. A ausência do crédito, somada ao escalante preço da gasolina e a falência de empresas que empregavam milhares de pessoas, são partes da crise antes profundamente ressentida pela população comum.
Digamos que Henry Paulson, secretário do tesouro, realmente tenha apenas percebido a gravidade da crise ontem. Pois, sendo grave como é, e nossos representantes incunbidos de conhecerem melhor os detalhes da lei do que nós, os governados, o descaro de não aprová-la por desventura de um discurso partidário é mais grave do que a própria economia desmoronada.
Porém, seria ingênuo acreditar que republicanos desistiram de apoiar a lei pelo discurso de Pelosi. A nova lei, velha em essência, mas enfeitada de adoçantes, parece conter pedidos atraentes aos conservadores, como não deixar que a data de vencimento de certos cortes tributários expire, e renovar por mais um ano o corte a milhões de cidadãos da classe média forçados a pagar o chamado Imposto Mínimo Alternativo (criado em uma era que 250 mil dólares tornavam a pessoa milionária, em sentido figurado).
Esses adoçantes também são denominados “porco” pelo populista The New York Post. O programa Morning Joe, da MSNBC, apresentou uma pequena relação de setores poupados de impostos, e o quanto o governo perderá. Entre eles, impostos de pistas de corrida, pesquisas em lã, distribuidores de rum nas Ilhas Virgens e Puerto-Rico, alguns deixando de providenciar ao governo mais de 100 milhões de dólares anuais cada.
Ao mesmo tempo, esse “porco” particular é classicamente conservador. Os impostos são renovados anualmente para manter sempre náipes especiais entre as mangas de democratas quando precisam que seus adversários partidários e colegas congressistas/senadores assinem leis que lhes interessem. Pois, é muito provável que republicanos se opuseram à lei do resgate para conquistar esses adoçantes.
Tenho outra teoria, infundada nos jornais que li e assisti, portanto duvidem.
Quiçá, para elevar a candidatura de John McCain como “ás” político, quando se apresentou a “negociar” a situação convenceu seus colegas que precisava ao menos aparentar distância maior da política de George W. Bush. Podendo atribuir ainda mais culpa ao partido Democrata pelo discurso de Pelosi, McCain venceria alguma simpatia eleitoral, procurando demonstrar o quanto foi responsável – e, por tabela, o quanto Barack Obama foi irresponsável – quando o país mais precisou de sua presença.
Obama agora vence, segundo pesquisas conduzidas nessa semana, em Ohio (estado essencial para Bush em 2004), Flórida (estado essencial para Bush em 2000) e Pennsylvania (estado sempre essencial a uma vitória presidencial) por 7-12 pontos em cada. Ainda perde entre mulheres e homens brancos, e cidadãos com mais de 65 anos. Ganha massivamente entre negros, eleitores novos, e eleitores jovens, com 45 anos ou menos. Empata entre eleitores cristãos, segundo a maior parte das pesquisas.
Esse favorecimento deu-se, indubitavelmente, pela crise econômica testemunhada. O campo de McCain sofreu com a mesma, e pode sofrer ainda mais após o debate entre Sarah Palin e Joe Biden.
Caso alguém duvide da incompetência de Palin, ainda, mastiguem essa resposta. Quando Katie Couric perguntou quais jornais Palin lia, a governadora do Alaska respondeu: “Todos.”
Amanhã será um novo dia, novamente, na corrida presidencial. O único debate vice-presidencial começa hoje, às 9AM, horário de Nova York.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Henry Paulson,
Joe Biden,
John McCain,
Katie Couric,
Nancy Pelosi,
Sarah Palin
Tuesday, September 02, 2008
Tempestade Republicana
“Considerado histórico pela mídia,... Mesmo antes de acontecer... Pode?” (Comentário extraído do texto anterior, de Santa).
Em primeiro lugar, também sinto saudades. Visito seu blog frequentemente, mas comento menos. Mesmo assim, estou sempre por lá, pode acreditar.
Se bem entendo, você comenta que a mídia considera histórica a eleição de Barack Obama antes de que ele tenha sido eleito. No caso do post anterior, contudo, o elemento histórico foi a nomeação de Obama, um afro-descendente, pela primeira vez na história do ocidente, representando um dos dois principais partidos da nação.
A mídia exagera muito, especialmente nas matitas pereiras que mais atráem eleitores, conforme veremos a seguir.
Sarah Palin
Por que John McCain, prestes a tornar-se o nomeado à candidatura presidencial republicana mais velho da história, escolheu a candidata mais nova e menos experiente a assumir sua vice-presidência?
Em dias de leituras e programas midiáticos focados em Sarah Palin e nos furacões Gustav e Hannah, creio que cheguei à pessoal conclusão de seu objetivo nessa campanha. Nem tanto dos furacões, mas sim da jovem governadora do Alaska.
É mãe de cinco filhos, inclusive a última e mais recente geração, uma menina cuja síndrome genética era conhecida por Palin antes de dar à luz. Governa o Alaska há 18 meses, e antes disso foi prefeita de uma cidade do mesmo estado, de sete mil habitantes. Posiciona-se como conservadora social e esperta em reforma energética, ao menos seguindo conceitos republicanos.
O irônico é que a mídia, quando fala em Palin, fala em uma “maverick”, o que traduzir-se-ia como uma “ás”, uma política capaz de reformar. Com essa bandeira reformista, potencialmente carrega os votos evengélicos, entre os mais conservadores.
Afinal, vende-se como anti-aborto, membra da Associação Nacional de Rifles, caçadora nata e motorista de uma caminhonete enfeitada de adesivos com tiradas interiorinas clássicas, como: “Vegetariano: Antiga palavra indígena para ‘péssimo caçador’”.
A relativa novata apóia a reforma, mas insiste que esta se trata meramente em devolver aos Estados Unidos suas raízes sócio-conservadoras. Afinal, quando diz que “mudou as regras” de seu estado, quer dizer que o tornou mais conservador, mais restrito, menos individualmente livre.
O mesmo jogo eufemista ocorre quando citam seu feminismo. De acordo com jornalistas que dedicaram os últimos quatro dias para descobrir quem é Sarah Palin, a mesma não se auto-denomina feminista. Ou seja, o adjetivo foi totalmente pintado pela mídia. Sobre isto, eis o interessante aprendizado:
Há alguns meses assistia o programa de Bill Maher na HBO e sua conversa com Matt Taibbi, repórter descolado da revista Rolling Stones, a falar sobre as primárias. Em suas conversas com Taibbi, Maher sempre atribui uma missão ao jovem jornalista, e nesse caso foi a cobertura do discurso de um dos postulantes democratas ao fim de uma preliminar. No saguão do centro escolhido para o discurso do candidato democrata (no caso, creio que se tratava de Hillary Clinton) enquanto ocorria a contagem oficial dos votos, Taibbi filmava direto do conhecido “spin room”.
O “spin room” ocorre nas ante-salas das convenções, enquanto políticos e seus assessores sáem de suas conferências privadas em direção à multidão midiática. Frases são então minuciosamente selecionadas em disparos sonoros ecoando pelas quatro paredes das ante-salas. Jornalistas, naturalmente pescando frases, as adotam e usam em suas reportagens.
O processo não é dos mais fáceis, e Taibbi tem a tendência juvenil de simplificar o que descreve ao ponto do ridículo, mas muitas vezes, com certa eficiência, assessores conseguem “vender” suas posições sobre determinado evento sem grandes dificuldades. Ao fisgar a frase emitida pelo assessor a esmo, determinado profissional acaba levando o contexto de seu artigo ao conteúdo professado pelo sócio do clube-do-bolinha. É mais uma fascinante função da imprensa em suas diversidades.
Pois, igualmente, Palin foi classificada como feminista porque “é uma mulher que gosta de armas, é uma lider política de confiança, luta por seus valores tão ferozmente quanto qualquer homem”. Não há, no entanto, nenhuma evidência de que sua filosofia e seu moralismo sejam, de fato, feministas, exceto pelo fato de que feministas exigiram e ainda exigem o tratamento igual entre os sexos, e Palin conquistou sua igualdade como governadora, e agora como vice-presidente do candidato republicano.
John McCain a escolheu sobre Joe Lieberman, amigo experiente e conhecedor das estratégias democratas, sobre os postulantes Mitt Romney e Mike Huckabee, e sobre outras considerações, inclusive duas mulheres, mais experientes e renomadas. Se tanto republicanos quanto democratas viram-se satisfeitos pela escolha de Joe Biden à vice-presidência de Barack Obama, no caso de Sarah Palin a decisão é dividida. Essa divisão pode ser justamente o motivo de sua escolha.
Enquanto Biden foi a escolha segura em uma candidatura inexperiente, Palin foi a escolha arriscada em uma candidatura de lema tradicionalista. Republicanos, em grande parte, gabam-se da governadora porque o campo de McCain providenciou aos Estados Unidos a chance de mudar sua história independente de quem for eleito em Novembro. Além disso, por ser uma jovem conservadora e mãe de cinco filhos, incluindo uma infante que requer atenções especiais, representa o futuro do partido.
Já democratas criticaram McCain e seu juízo por trazer à Casa Branca alguém ainda menos experiente do que Obama. Inclusive, o argumento de que Obama seja inexperiente demais à Casa Branca mudou. Agora, ambos trazem inexperiência e “frescôr” ao bilhete, mas republicanos argumentam que em seu bilhete as funções se apresentam na ordem certa. Mesmo assim, considerando a idade de McCain, ao nomear alguém que apenas administrou uma cidade pequena e um estado com mais montanhas do que pessoas, faz de Palin um alvo certo.
No dia 2 de Outubro, Joe Biden e Sarah Palin engajarão-se no primeiro debate vice-presidencial dessas eleições. Biden traz consigo o respeito governamental em política externa, e Palin a intenção reformista, agora voltada à reforma energética. Ao contrário de McCain, a governadora apóia escavações nas reservas ecológicas do Alaska, e argumenta que seria esta a principal solução para o crescente preço do petróleo.
Para debater com Biden, Palin terá de se cuidar para não cometer nenhuma gafe. Recentemente, demonstrou que esta não será tarefa das mais fáceis. Explicando seu posicionamento a respeito de escavações nas reservas de seu estado, Palin disse:
“Essa guerra no Oriente-Médio, por petróleo, tornar-se-ia inútil se tivessemos melhores reservas.”
Por outro lado, justamente por não ser de Washington, e por ser mulher, o campo de McCain apostou na polêmica escolha para contra-balancear o efeito “celebridade” de Barack Obama. Que não haja o menor engano: Essas eleições estão quase no bolso do candidato democrata. O humor nacional não está para conservadorismo, muito menos social, com regras que restringem a liberdade incondicional do ser humano em uma nação que se julga livre.
Quiçá seja essa a maior mudança histórica testemunhada pelas gerações atuais. Há vinte anos, eleger um democrata era uma façanha astronômica, que culminou na liderança majoritária dos republicanos, de Reagan a George H. W. Bush a George W. Bush. Apenas Jimmy Carter, de péssima aprovação pública, e Bill Clinton, de razoável aprovação pública, conseguiram romper o sistema conservador.
Mas isso vem mudando nos Estados Unidos, cada vez mais liberal ou independente. Libertários, que intensificaram a base nos últimos dez anos, mantém a crença no mercado-livre e globalização, mas repudiam qualquer espécie de restrições individuais. A mídia é pesadamente liberal, e para cada blog conservador há de dois a cinco outros blogs democratas. Mesmo no governo de Bush, o casamento entre homossexuais e o direito à escolha feminina foram trazidos de volta à pauta diária com algumas conquistas liberais, e posições como a de John McCain, pró reforma imigratória, seriam raras sob a jurisdição conservadora não fosse o crescimento de grupos liberais.
Portanto, essas podem ser as primeiras eleições a ditar o novo rumo dos Estados Unidos. Para McCain, tentar atrair o voto feminino independente ao incluir uma jovem e sorridente governadora ao seu bilhete, é também a única forma que encontrou para sugerir que sua administração também simpatiza com o humor liberal da nação.
Porém, mesmo funcionando, não é uma tentativa honesta, ao meu ver. Se algo ocorrer à saúde de McCain, a sósia da atriz Tina Fey será a nova presidente dos Estados Unidos, mais inexperiente do que Barack Obama, e mais conservadora do que George W. Bush. Aliás, mais inexperiente, também, do que o atual presidente.
Apenas para não me prolongar mais do que já feito, novamente, argumento que ser mulher e reinventar a história presidencial meramente por isso, não é o suficiente para garantir o bom governo. O mesmo digo de Obama: Ser negro, assim reiventando a história presidencial dos Estados Unidos, não lhe garante o mérito do bom governo. Portanto, julgando suas ideologias, confesso que Palin me assusta mais do que Bush. Já Obama traz muitas dúvidas em sua candidatura pelas constantes mudanças de opinião sobre determinados assuntos.
Como disse um dos delegados democratas em Denver, Obama até precisa firmar sua posição liberal, mas também precisa, e principalmente, ser eleito. Sobre Palin, outro delegado democrata confirmou que a governadora tinha muita experiência em política externa, já que governa o Alaska, estado tão próximo à Rússia.
Por causa do furacão Gustav, a convenção republicana diluiu os eventos programados para a Segunda-Feira. Discursaram apenas Laura Bush ao lado de Cindy McCain, enquanto Bush e Cheney dedicavam-se ao desastre natural iminente, que poderia ter sido pior para New Orleans. Hoje à noite, Bush pode aparecer via satélite para falar de John McCain.
Segundo o Gallup, a semana começa com 49-43% a Barack Obama sobre John McCain.
RF
Em primeiro lugar, também sinto saudades. Visito seu blog frequentemente, mas comento menos. Mesmo assim, estou sempre por lá, pode acreditar.
Se bem entendo, você comenta que a mídia considera histórica a eleição de Barack Obama antes de que ele tenha sido eleito. No caso do post anterior, contudo, o elemento histórico foi a nomeação de Obama, um afro-descendente, pela primeira vez na história do ocidente, representando um dos dois principais partidos da nação.
A mídia exagera muito, especialmente nas matitas pereiras que mais atráem eleitores, conforme veremos a seguir.
Sarah Palin
Por que John McCain, prestes a tornar-se o nomeado à candidatura presidencial republicana mais velho da história, escolheu a candidata mais nova e menos experiente a assumir sua vice-presidência?
Em dias de leituras e programas midiáticos focados em Sarah Palin e nos furacões Gustav e Hannah, creio que cheguei à pessoal conclusão de seu objetivo nessa campanha. Nem tanto dos furacões, mas sim da jovem governadora do Alaska.
É mãe de cinco filhos, inclusive a última e mais recente geração, uma menina cuja síndrome genética era conhecida por Palin antes de dar à luz. Governa o Alaska há 18 meses, e antes disso foi prefeita de uma cidade do mesmo estado, de sete mil habitantes. Posiciona-se como conservadora social e esperta em reforma energética, ao menos seguindo conceitos republicanos.
O irônico é que a mídia, quando fala em Palin, fala em uma “maverick”, o que traduzir-se-ia como uma “ás”, uma política capaz de reformar. Com essa bandeira reformista, potencialmente carrega os votos evengélicos, entre os mais conservadores.
Afinal, vende-se como anti-aborto, membra da Associação Nacional de Rifles, caçadora nata e motorista de uma caminhonete enfeitada de adesivos com tiradas interiorinas clássicas, como: “Vegetariano: Antiga palavra indígena para ‘péssimo caçador’”.
A relativa novata apóia a reforma, mas insiste que esta se trata meramente em devolver aos Estados Unidos suas raízes sócio-conservadoras. Afinal, quando diz que “mudou as regras” de seu estado, quer dizer que o tornou mais conservador, mais restrito, menos individualmente livre.
O mesmo jogo eufemista ocorre quando citam seu feminismo. De acordo com jornalistas que dedicaram os últimos quatro dias para descobrir quem é Sarah Palin, a mesma não se auto-denomina feminista. Ou seja, o adjetivo foi totalmente pintado pela mídia. Sobre isto, eis o interessante aprendizado:
Há alguns meses assistia o programa de Bill Maher na HBO e sua conversa com Matt Taibbi, repórter descolado da revista Rolling Stones, a falar sobre as primárias. Em suas conversas com Taibbi, Maher sempre atribui uma missão ao jovem jornalista, e nesse caso foi a cobertura do discurso de um dos postulantes democratas ao fim de uma preliminar. No saguão do centro escolhido para o discurso do candidato democrata (no caso, creio que se tratava de Hillary Clinton) enquanto ocorria a contagem oficial dos votos, Taibbi filmava direto do conhecido “spin room”.
O “spin room” ocorre nas ante-salas das convenções, enquanto políticos e seus assessores sáem de suas conferências privadas em direção à multidão midiática. Frases são então minuciosamente selecionadas em disparos sonoros ecoando pelas quatro paredes das ante-salas. Jornalistas, naturalmente pescando frases, as adotam e usam em suas reportagens.
O processo não é dos mais fáceis, e Taibbi tem a tendência juvenil de simplificar o que descreve ao ponto do ridículo, mas muitas vezes, com certa eficiência, assessores conseguem “vender” suas posições sobre determinado evento sem grandes dificuldades. Ao fisgar a frase emitida pelo assessor a esmo, determinado profissional acaba levando o contexto de seu artigo ao conteúdo professado pelo sócio do clube-do-bolinha. É mais uma fascinante função da imprensa em suas diversidades.
Pois, igualmente, Palin foi classificada como feminista porque “é uma mulher que gosta de armas, é uma lider política de confiança, luta por seus valores tão ferozmente quanto qualquer homem”. Não há, no entanto, nenhuma evidência de que sua filosofia e seu moralismo sejam, de fato, feministas, exceto pelo fato de que feministas exigiram e ainda exigem o tratamento igual entre os sexos, e Palin conquistou sua igualdade como governadora, e agora como vice-presidente do candidato republicano.
John McCain a escolheu sobre Joe Lieberman, amigo experiente e conhecedor das estratégias democratas, sobre os postulantes Mitt Romney e Mike Huckabee, e sobre outras considerações, inclusive duas mulheres, mais experientes e renomadas. Se tanto republicanos quanto democratas viram-se satisfeitos pela escolha de Joe Biden à vice-presidência de Barack Obama, no caso de Sarah Palin a decisão é dividida. Essa divisão pode ser justamente o motivo de sua escolha.
Enquanto Biden foi a escolha segura em uma candidatura inexperiente, Palin foi a escolha arriscada em uma candidatura de lema tradicionalista. Republicanos, em grande parte, gabam-se da governadora porque o campo de McCain providenciou aos Estados Unidos a chance de mudar sua história independente de quem for eleito em Novembro. Além disso, por ser uma jovem conservadora e mãe de cinco filhos, incluindo uma infante que requer atenções especiais, representa o futuro do partido.
Já democratas criticaram McCain e seu juízo por trazer à Casa Branca alguém ainda menos experiente do que Obama. Inclusive, o argumento de que Obama seja inexperiente demais à Casa Branca mudou. Agora, ambos trazem inexperiência e “frescôr” ao bilhete, mas republicanos argumentam que em seu bilhete as funções se apresentam na ordem certa. Mesmo assim, considerando a idade de McCain, ao nomear alguém que apenas administrou uma cidade pequena e um estado com mais montanhas do que pessoas, faz de Palin um alvo certo.
No dia 2 de Outubro, Joe Biden e Sarah Palin engajarão-se no primeiro debate vice-presidencial dessas eleições. Biden traz consigo o respeito governamental em política externa, e Palin a intenção reformista, agora voltada à reforma energética. Ao contrário de McCain, a governadora apóia escavações nas reservas ecológicas do Alaska, e argumenta que seria esta a principal solução para o crescente preço do petróleo.
Para debater com Biden, Palin terá de se cuidar para não cometer nenhuma gafe. Recentemente, demonstrou que esta não será tarefa das mais fáceis. Explicando seu posicionamento a respeito de escavações nas reservas de seu estado, Palin disse:
“Essa guerra no Oriente-Médio, por petróleo, tornar-se-ia inútil se tivessemos melhores reservas.”
Por outro lado, justamente por não ser de Washington, e por ser mulher, o campo de McCain apostou na polêmica escolha para contra-balancear o efeito “celebridade” de Barack Obama. Que não haja o menor engano: Essas eleições estão quase no bolso do candidato democrata. O humor nacional não está para conservadorismo, muito menos social, com regras que restringem a liberdade incondicional do ser humano em uma nação que se julga livre.
Quiçá seja essa a maior mudança histórica testemunhada pelas gerações atuais. Há vinte anos, eleger um democrata era uma façanha astronômica, que culminou na liderança majoritária dos republicanos, de Reagan a George H. W. Bush a George W. Bush. Apenas Jimmy Carter, de péssima aprovação pública, e Bill Clinton, de razoável aprovação pública, conseguiram romper o sistema conservador.
Mas isso vem mudando nos Estados Unidos, cada vez mais liberal ou independente. Libertários, que intensificaram a base nos últimos dez anos, mantém a crença no mercado-livre e globalização, mas repudiam qualquer espécie de restrições individuais. A mídia é pesadamente liberal, e para cada blog conservador há de dois a cinco outros blogs democratas. Mesmo no governo de Bush, o casamento entre homossexuais e o direito à escolha feminina foram trazidos de volta à pauta diária com algumas conquistas liberais, e posições como a de John McCain, pró reforma imigratória, seriam raras sob a jurisdição conservadora não fosse o crescimento de grupos liberais.
Portanto, essas podem ser as primeiras eleições a ditar o novo rumo dos Estados Unidos. Para McCain, tentar atrair o voto feminino independente ao incluir uma jovem e sorridente governadora ao seu bilhete, é também a única forma que encontrou para sugerir que sua administração também simpatiza com o humor liberal da nação.
Porém, mesmo funcionando, não é uma tentativa honesta, ao meu ver. Se algo ocorrer à saúde de McCain, a sósia da atriz Tina Fey será a nova presidente dos Estados Unidos, mais inexperiente do que Barack Obama, e mais conservadora do que George W. Bush. Aliás, mais inexperiente, também, do que o atual presidente.
Apenas para não me prolongar mais do que já feito, novamente, argumento que ser mulher e reinventar a história presidencial meramente por isso, não é o suficiente para garantir o bom governo. O mesmo digo de Obama: Ser negro, assim reiventando a história presidencial dos Estados Unidos, não lhe garante o mérito do bom governo. Portanto, julgando suas ideologias, confesso que Palin me assusta mais do que Bush. Já Obama traz muitas dúvidas em sua candidatura pelas constantes mudanças de opinião sobre determinados assuntos.
Como disse um dos delegados democratas em Denver, Obama até precisa firmar sua posição liberal, mas também precisa, e principalmente, ser eleito. Sobre Palin, outro delegado democrata confirmou que a governadora tinha muita experiência em política externa, já que governa o Alaska, estado tão próximo à Rússia.
Por causa do furacão Gustav, a convenção republicana diluiu os eventos programados para a Segunda-Feira. Discursaram apenas Laura Bush ao lado de Cindy McCain, enquanto Bush e Cheney dedicavam-se ao desastre natural iminente, que poderia ter sido pior para New Orleans. Hoje à noite, Bush pode aparecer via satélite para falar de John McCain.
Segundo o Gallup, a semana começa com 49-43% a Barack Obama sobre John McCain.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Cindy McCain,
Joe Biden,
John McCain,
Laura Bush,
Minnesota,
Sarah Palin,
St. Paul
Thursday, August 28, 2008
A Noite que Convenceu
A noite que selou a nomeação de Barack Obama à presidência por unanimidade, e a vice-presidência de Joe Biden, finalmente convenceu o eleitorado democrata, e talvez até tenha despertado a curiosidade dos menos adeptos a trabalhar intensamente pela eleição de seu candidato.
Bill Clinton
Se Hillary Clinton cumpriu seu dever com notável dificuldade na noite de Terça-Feira, seu marido, o ex presidente Bill Clinton, o único democrata desde Jimmy Carter, discursou com veemência e serenidade.
O quadro pintado pela mídia era de quase desespero. O clã clintoniano estava magoado, e de fato sentia-se magoado tanto antes quanto depois das primárias. Porém, duvidar da união partidária a essas alturas do campeonato quiçá seja mais um desejo não realizado dos jornalistas da MSNBC, CNN e Fox News, porque, todos sabemos, a intriga sempre vende.
O que Clinton disse ontem convenceu pelo conteúdo e pela forma que foi dito. O carinho que expressou por seu partido, por sua esposa e, principalmente, por Obama, comoveu a todos os delegados, fanáticos e simpatizantes. Democratas esperam que o efeito aos eleitores indecisos ali presentes tenha sido o mesmo.
A favor do ex presidente esteve a conotação histórica do dia: A nomeação oficial de um candidato afro-descendente a um dos principais partidos dos Estados Unidos. Um candidato que, segundo indicações explícitas, tem tudo para liderar a nação a partir de 2009.
Apesar de ovacionado em pé pela platéia alucinada, Clinton foi rápido no gatilho a mencionar que a convenção era de Obama, e citou seu nome outras 14 vezes. Quando, no meio do discurso, o público gritou o jargão “sim, nós podemos” copiosamente, o ex presidente os interrompeu dizendo: “Sim, ele pode, mas primeiro precisamos elegê-lo”.
Como recentemente descrito por aqui nos últimos textos, a antipatia entre o senador por Illinois e o ex presidente tornou-se contundente quando perguntaram a Clinton se Obama teria o necessário para guiar as forças armadas. A resposta foi fria, distanciada, algo como “ninguém está preparado” para o cargo antes de assumi-lo.
Ontem, Bill Clinton disse também ter sido criticado pela inexperiência, por neófito, quando concorria contra Bob Dole. A história de seus oito anos, relativamente prósperos ao país, comprova a insignificância dos detalhes corrompidos em ataques partidários.
Comentaristas, âncoras e analistas políticos adoram baseball, aparentemente, pois todos clamaram que, dessa vez, o clã clintoniano mandou a bola “para fora do parque, cruzando o estacionamento, pousando perto dos prédios do outro lado da rua do estádio”.
A Chamada
O costume é permitir o voto de todos os delegados de todos os estados presentes na convenção. Há três meses, muitos ainda temiam que esse voto, o final e oficial, decidiria o nome do próximo candidato presidencial do partido Democrata.
Contudo, a chamada de ontem foi apenas espetáculo. Entre todos os cenários possíveis, o aqui comentado resultou concreto.
Os estados antecedendo New York passaram o direito ao voto até chegarem no mesmo, e Hillary Clinton pediu aos seus delegados, e a todos os demais delegados, que as regras convencionais fossem suspensas, e que Barack Obama fosse nomeado à presidência po unanimidade.
Historicamente, é a primeira vez que um afro-descendente luta com concretas chances pelo cargo mais poderoso da nação.
A aceitação e o discurso de Joe Biden
Nomeado à vice-presidência na mesma noite, o senador Joe Biden foi apresentado por seu filho, chefe judiciário de Delaware, Beau Biden.
Narrando sua tragetória comovente, desde a perda de sua filha e esposa ao novo casamento e suas raízes, e seu trajeto histórico no senado estadunidense, Biden aproveitou a ocasião para fortalecer o partido ainda mais.
Anunciando que ele é “realmente amigo de John McCain, e colega no senado,” disse também que discorda de sua política e pediu aos eleitores de seu partido que fizessem de tudo para enviar a mensagem à Casa Branca.
Confiou a Obama o título de lider sábio, e disse que o país precisa mais de liderança calculada do que de “um bom soldado”. O heroísmo de McCain, se depender dos democratas, não valerá nada nesse jogo.
Obama ainda surpreendeu os telejornais, delegados e eleitores ali presentes quando dirigiu-se ao Pepsi Centre a aparecer no palco ao lado de seu vice-presidente.
Disse pouco, e aparentou beijar a boca da esposa de Biden, e ao clamar pela família, mencionou o nome do senador, seu filho Beau, e “Mama Biden”. O vexame, contudo, mal foi explorado pelos sérios comentaristas, ainda empolgados com o acontecimento ao melhor estilo “show-business”.
As pesquisas de Quarta-Feira demonstravam a primeira liderança do senador pelo Arizona nas pesquisas do Gallup, por 46-44% sobre Barack Obama. Amanheceram na Quinta-Feira com a vantagem devolvida ao candidato democrata, 46-45% sobre John McCain.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Beau Biden,
Bill Clinton,
Colorado,
Denver,
Hillary Clinton,
Jimmy Carter,
Joe Biden,
John McCain,
Mama Biden,
MSNBC,
Pepsi Centre
Tuesday, August 26, 2008
Convenção Conveniente
Para Luma e Jens, necessariamente nessa ordem:
Se a Época roubou meus textos e publicou sem minha permissão, mas ainda me fez a gentileza de manter as iniciais ao fim dos textos, eu sou o RF da Época. Se não, eu sou o verdadeiro RF, o da Época, não sei por que cargas d’água, roubou só as iniciais.
Sobre a Convenção:
“Kick Off” deve ser traduzido, no caso da primeira noite da convenção democrata em Denver, como “chute no saco”. Para quem o tem, sabe a dor que o perfidioso e avassalador ato causa, e para quem não tem, quero dizer o saco, que se contente em imaginar o sacrifício. Para meus coterrâneos, “kick off” significa “dar a largada” ao evento astronômico, que culmina à nomeação final do candidato democrata, Barack Obama.
Entre os discursos agendados para ontem, dois chamaram a atenção maior da mídia, o de Michelle Obama e o do senador Ted Kennedy, que interrompeu seu tratamento contra o diagnosticado câncer no cérebro para acender a chama da convenção.
Quando ouvi o requebrado epitáfio de Nancy Pelosi, lider do Congresso, só não adormeci porque é engraçado, às vezes, testemunhar os gaguejos políticos em público. Pelosi comoveu o público somente quando narrou, em idéias abstratas, como Obama está certo e McCain errado. A maioria do público apóia Barack Obama. Não foi difícil comovê-los.
Kennedy foi introduzido com um vídeo a homenageá-lo, seus anos de serviço político, o fato de ser parente de John F. Kennedy e de Robert Kennedy, e porque sua vida vê-se concretamente ameaçada. Foi ovacionado em pé, e urrou em nome do partido e de seu candidato. O tema da noite foi fixar o patriotismo do casal Obama, e suas raízes originalmente norte-americanas.
Michelle Obama, por exemplo, explicou “porque ama a América”. Em menos de uma hora, viu-se obrigada a refutar as absurdas acusações (que, mesmo verdadeiras, não dizem nada sobre os assuntos mais importantes à população) contra seu sentimento nacionalista. Se há alguns meses disse que “pela primeira vez” ela está “realmente orgulhosa dos Estados Unidos” (pela candidatura de seu marido), ontem apenas precisou salientar que sua vida representa a vida do estadunidense mediano, e que sua escalada política baseia-se nas possibilidades que o país lhe deu e dá.
Até na escolha de Joe Biden para vice presidente, o campo democrata trouxe as eleições a uma nota menos “celebridade” e mais concreta, monótona, em outras palavras.
Não deixo o cinismo de lado, contudo, porque o palanque montado ontem e as intenções dos presentes mais me pareceu adequado a uma torcida de futebol do que a eleições presidenciais. Bill Maher, apresentador do programa Real Time, na HBO, lembrou Chris Mathews e Keith Olbermann da MSNBC que o partido dedicou a primeira noite da convenção para defender Obama de acusações risíveis. “De repente, o filho de mãe solteira nascido no Hawaí é o elitista”, disse Maher, também lembrando que o partido dos milionários não é o democrata.
O fato é que tanto McCain quanto Obama pertencem à elite. Caso não pertencessem, não estariam concorrendo à presidência. Independentes, mesmo os mais populares Libertários, concorrem em outro planeta, outras eleições. São todos um bando de “Enéas”.
Nas últimas semanas, o campo de McCain usou Clinton, Biden, a viagem de Obama à Europa e a paranóia da guerra contra o terror para abalar o candidato democrata, não sem sucesso. Mesmo assim, e ainda assim, o ano é democrata, e o partido, consciente disso, não pretende concluir a campanha pacificamente.
No campo de batalha, há dois partidos com filosofias opostas, mas preocupações similares pelas concretas preocupações populares. Porém, em suas campanhas, parecem concorrer a dois países diferentes. O primeiro, vive a constante ameaça de ser atacado por palestinos. O segundo, vive a constante ameaça econômica.
Ambos procuram atingir a paranóia popular. Conclusão: Não importa o que cada candidato seja, pense, ou faça no futuro. Enquanto ainda não eleito, todos os discursos, todos os planos, todos os esquemas estão necessariamente voltados ao espetáculo. Como, pergunto-me, escrever sobre o processo sem sentir-me um palhaço? Pois, quiçá hei de descobri-lo.
Hoje à noite tem mais, a saga clintoniana entra em cena... Tcham-tcham!
RF
Se a Época roubou meus textos e publicou sem minha permissão, mas ainda me fez a gentileza de manter as iniciais ao fim dos textos, eu sou o RF da Época. Se não, eu sou o verdadeiro RF, o da Época, não sei por que cargas d’água, roubou só as iniciais.
Sobre a Convenção:
“Kick Off” deve ser traduzido, no caso da primeira noite da convenção democrata em Denver, como “chute no saco”. Para quem o tem, sabe a dor que o perfidioso e avassalador ato causa, e para quem não tem, quero dizer o saco, que se contente em imaginar o sacrifício. Para meus coterrâneos, “kick off” significa “dar a largada” ao evento astronômico, que culmina à nomeação final do candidato democrata, Barack Obama.
Entre os discursos agendados para ontem, dois chamaram a atenção maior da mídia, o de Michelle Obama e o do senador Ted Kennedy, que interrompeu seu tratamento contra o diagnosticado câncer no cérebro para acender a chama da convenção.
Quando ouvi o requebrado epitáfio de Nancy Pelosi, lider do Congresso, só não adormeci porque é engraçado, às vezes, testemunhar os gaguejos políticos em público. Pelosi comoveu o público somente quando narrou, em idéias abstratas, como Obama está certo e McCain errado. A maioria do público apóia Barack Obama. Não foi difícil comovê-los.
Kennedy foi introduzido com um vídeo a homenageá-lo, seus anos de serviço político, o fato de ser parente de John F. Kennedy e de Robert Kennedy, e porque sua vida vê-se concretamente ameaçada. Foi ovacionado em pé, e urrou em nome do partido e de seu candidato. O tema da noite foi fixar o patriotismo do casal Obama, e suas raízes originalmente norte-americanas.
Michelle Obama, por exemplo, explicou “porque ama a América”. Em menos de uma hora, viu-se obrigada a refutar as absurdas acusações (que, mesmo verdadeiras, não dizem nada sobre os assuntos mais importantes à população) contra seu sentimento nacionalista. Se há alguns meses disse que “pela primeira vez” ela está “realmente orgulhosa dos Estados Unidos” (pela candidatura de seu marido), ontem apenas precisou salientar que sua vida representa a vida do estadunidense mediano, e que sua escalada política baseia-se nas possibilidades que o país lhe deu e dá.
Até na escolha de Joe Biden para vice presidente, o campo democrata trouxe as eleições a uma nota menos “celebridade” e mais concreta, monótona, em outras palavras.
Não deixo o cinismo de lado, contudo, porque o palanque montado ontem e as intenções dos presentes mais me pareceu adequado a uma torcida de futebol do que a eleições presidenciais. Bill Maher, apresentador do programa Real Time, na HBO, lembrou Chris Mathews e Keith Olbermann da MSNBC que o partido dedicou a primeira noite da convenção para defender Obama de acusações risíveis. “De repente, o filho de mãe solteira nascido no Hawaí é o elitista”, disse Maher, também lembrando que o partido dos milionários não é o democrata.
O fato é que tanto McCain quanto Obama pertencem à elite. Caso não pertencessem, não estariam concorrendo à presidência. Independentes, mesmo os mais populares Libertários, concorrem em outro planeta, outras eleições. São todos um bando de “Enéas”.
Nas últimas semanas, o campo de McCain usou Clinton, Biden, a viagem de Obama à Europa e a paranóia da guerra contra o terror para abalar o candidato democrata, não sem sucesso. Mesmo assim, e ainda assim, o ano é democrata, e o partido, consciente disso, não pretende concluir a campanha pacificamente.
No campo de batalha, há dois partidos com filosofias opostas, mas preocupações similares pelas concretas preocupações populares. Porém, em suas campanhas, parecem concorrer a dois países diferentes. O primeiro, vive a constante ameaça de ser atacado por palestinos. O segundo, vive a constante ameaça econômica.
Ambos procuram atingir a paranóia popular. Conclusão: Não importa o que cada candidato seja, pense, ou faça no futuro. Enquanto ainda não eleito, todos os discursos, todos os planos, todos os esquemas estão necessariamente voltados ao espetáculo. Como, pergunto-me, escrever sobre o processo sem sentir-me um palhaço? Pois, quiçá hei de descobri-lo.
Hoje à noite tem mais, a saga clintoniana entra em cena... Tcham-tcham!
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Denver,
Hillary Clinton,
Joe Biden,
John McCain
Monday, August 25, 2008
Revoltando
Enquanto a chama olímpica ainda queimava, Barack Obama escolheu seu vice presidente, Joe Biden, senador veterano do pequeno estado de Delaware, uma escolha relativamente segura. Apesar de ter recebido a mensagem na Sexta-Feira de madrugada, a querida tormenta Fay deixou alguns vestígios desagradáveis em minha vizinhança, e vos falhei com a confiança do segredo. À próxima:
A Convenção Democrata em Denver larga hoje à noite e segue pelos próximos dias a estabelecer a candidatura de Barack Obama e seu mais novo vice presidente. Se eleitores distraídos e indecisos esperavam o momento certo para começar a prestar atenção no processo, este é o momento.
A partir de hoje, concluindo o ciclo inicial assim que John McCain anunciar seu vice presidente, a escolha do próximo porteiro passa a ser mais concisa e feroz. Os ataques aumentam, crescendo pelo campo republicano, e contra-atacando pelo campo democrata.
Paul Krugman, do The New York Times, publicou em sua coluna desta Segunda-Feira que percebe a crescente agressividade da campanha de Obama como algo positivo. Mesmo antes de saber que o senador de Illinois surrupiaria a nomeação de seu partido, McCain e seu campo tentaram destruir sua imagem de qualquer maneira, primeiro pintando-o como anti-patriota, anti-americano e, logo depois, pelo pouco efeito dos ataques iniciais, chamando-o de fraco e inocente, o que tampouco colou, ao que o candidato democrata tornou-se elitista e esnobe, acima dos interesses da classe média.
Obama contra-ataca, recentemente, usando a incapacidade demonstrada por McCain quando não soube responder quantas casas tinha. Krugman alerta que o elitismo já foi usado contra Kerry, e em seu caso, certamente funcionou. O contra-ataque de Obama, opina o colunista, assusta republicanos, conscientes da época antipática a republicanos e suas posses.
Segundo o instituto Gallup, com números similares no sítio eletrônico de Rasmussen, uma sólida porcentagem de eleitores (39% ou mais) aprova a escolha de Joe Biden para a vice presidência. Porém, quando Obama o anunciou, o campo de McCain automaticamente o atacou, lançando mais de um anúncio televisivo para despertar a fúria dos eleitores de Hillary Clinton, apontando que o candidato não a convidou ao bilhete, traindo assim a vontade dos membros de seu partido.
Além disso, Biden foi um dos grandes críticos da inexperiência de Obama, e o partido republicano não deixaria de explorar tão valioso o detalhe. O candidato e seu vice não farão campanhas juntos até o fim da convenção. Depois disso, será o deus-nos-acuda que todos conhecemos.
Segundo o Gallup, pela segunda semana consecutiva, a liderança de Obama sobre McCain diminuiu e o empate em 45% prevalece. Rasmussen aponta a liderança de Obama por 46-43%. De acordo com eleitores registrados, a escolha seria Barack Obama por 3 pontos percentuais. A cobertura apenas começou, e o blogueiro que vos relata ainda deve aprofundar a colher. Paciência, por hora.
PS: Sobre as Fezes: As besteiras que eu disse vieram da empolgação pela festa e pela ilusão desproporcional não só pelos talentos brasileiros, mas pelo sentido das Olimpíadas. O Brasil, por exemplo, não é potência esportiva e nem sei se deveria ser. Apenas para não deixar muito no ar.
A Convenção Democrata em Denver larga hoje à noite e segue pelos próximos dias a estabelecer a candidatura de Barack Obama e seu mais novo vice presidente. Se eleitores distraídos e indecisos esperavam o momento certo para começar a prestar atenção no processo, este é o momento.
A partir de hoje, concluindo o ciclo inicial assim que John McCain anunciar seu vice presidente, a escolha do próximo porteiro passa a ser mais concisa e feroz. Os ataques aumentam, crescendo pelo campo republicano, e contra-atacando pelo campo democrata.
Paul Krugman, do The New York Times, publicou em sua coluna desta Segunda-Feira que percebe a crescente agressividade da campanha de Obama como algo positivo. Mesmo antes de saber que o senador de Illinois surrupiaria a nomeação de seu partido, McCain e seu campo tentaram destruir sua imagem de qualquer maneira, primeiro pintando-o como anti-patriota, anti-americano e, logo depois, pelo pouco efeito dos ataques iniciais, chamando-o de fraco e inocente, o que tampouco colou, ao que o candidato democrata tornou-se elitista e esnobe, acima dos interesses da classe média.
Obama contra-ataca, recentemente, usando a incapacidade demonstrada por McCain quando não soube responder quantas casas tinha. Krugman alerta que o elitismo já foi usado contra Kerry, e em seu caso, certamente funcionou. O contra-ataque de Obama, opina o colunista, assusta republicanos, conscientes da época antipática a republicanos e suas posses.
Segundo o instituto Gallup, com números similares no sítio eletrônico de Rasmussen, uma sólida porcentagem de eleitores (39% ou mais) aprova a escolha de Joe Biden para a vice presidência. Porém, quando Obama o anunciou, o campo de McCain automaticamente o atacou, lançando mais de um anúncio televisivo para despertar a fúria dos eleitores de Hillary Clinton, apontando que o candidato não a convidou ao bilhete, traindo assim a vontade dos membros de seu partido.
Além disso, Biden foi um dos grandes críticos da inexperiência de Obama, e o partido republicano não deixaria de explorar tão valioso o detalhe. O candidato e seu vice não farão campanhas juntos até o fim da convenção. Depois disso, será o deus-nos-acuda que todos conhecemos.
Segundo o Gallup, pela segunda semana consecutiva, a liderança de Obama sobre McCain diminuiu e o empate em 45% prevalece. Rasmussen aponta a liderança de Obama por 46-43%. De acordo com eleitores registrados, a escolha seria Barack Obama por 3 pontos percentuais. A cobertura apenas começou, e o blogueiro que vos relata ainda deve aprofundar a colher. Paciência, por hora.
PS: Sobre as Fezes: As besteiras que eu disse vieram da empolgação pela festa e pela ilusão desproporcional não só pelos talentos brasileiros, mas pelo sentido das Olimpíadas. O Brasil, por exemplo, não é potência esportiva e nem sei se deveria ser. Apenas para não deixar muito no ar.
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Denver,
Hillary Clinton,
Joe Biden,
John McCain
Friday, July 11, 2008
Fechando a Semana
Para Barack Obama a semana poderia ter terminado melhor. Uma das maiores controvérsias da administração de George W. Bush são as leis relacionadas à quarta emenda constitucional, que proíbe o governo de acessar informações privadas de seus cidadãos sem mandatos explícitos e completa exposição de todos os detalhes e motivos da busca.
O FISA (Foreign Surveilance Intelligence Act) foi criado em 1978 com o intuito de alargar o poder do governo na contra-inteligência estrangeira, podendo assim grampear telefones e acessar informações privadas, como extratos bancários e outras contas cotidianas, sem a necessidade da burocracia implementada para proteger o indivíduo do poder governamental.
Não acredito na santidade da constituição, mas acredito que a idéia da burocracia advenha da consciência primária, básica, até mesmo primitiva, de que quem no poder está, o poder pode abusar, e quem não tem poder é o abusado, no caso, a população comum.
Desde o 11 de Setembro, Bush elevou o poder do FISA, permitindo o acesso de dados privados de indivíduos considerados “suspeitos”, o que em muitos casos, mais do que se imagina, significou cavar no quintal de pessoas totalmente inocentes e desnexadas à famigerada Guerra contra o Terror. Melhor dizendo, o governo dos Estados Unidos aterrorizou sua população.
Esse terror fez com que muitos inocentados processassem companhias de celulares pela disponibilização de seus dados e contas a agências investigativas federais. Bush e sua base conservadora sabiam que FISA perderia algumas batalhas, mas não poderia perder a guerra antes de seu retiro do cargo.
Permitir processos civis a companhias de celulares, e aumentar a fiscalização burocrática dos agentes federais faria com que o público soubesse de inúmeros casos de investigações e dinheiro público gasto na espionagem de indivíduos inocentes– bem como sabe dos inocentes detidos em Guantánamo Bay graças à vitória do Congresso e Senado democratas de viabilizar maiores recursos legais aos prisioneiros da baía cubana.
Ontem o Senado tinha a chance de domar o poder do FISA e da administração de Bush através de um voto que bloquearia a proibição do processo civil a companhias que cooperassem com agentes federais ao acesso de dados privados. Também exigiria maiores restrições e procedimentos burocráticos tanto para trazer à tona os erros da administração quanto para evitar futuros enganos.
Barack Obama juntou-se à maioria, e os republicanos decaptaram os esforços democratas. Conseguiram garantir a imunidade dos atos inconstitucionais do FISA, e a prosperidade da administração atual. Isso é suficiente para causar grandes desilusões quanto às últimas duvidosas posições de Obama, desde o início das campanhas às eleições gerais.
Senadores como Hillary Clinton, de NY, Joe Biden, de Delaware, Christopher Dodd, de Connecticut, e muitos outros próximos conhedidos das primárias democratas juntaram-se à minoria e perderam. Obama juntou-se à maioria e, para muitos observadores dessa histórica campanha, perdeu também. Afinal, em recente passado prometeu lutar pela quarta emenda constitucional, destruir o inescrupuloso poder do FISA, e construir um governo que estadunidenses possam realmente chamar de “livre”. No fim do dia, o centralizado Obama votou contra suas palavras, e colocou em dúvida, novamente, sua integridade política.
Vitória Democrata
Para a sorte do partido, Ted Kennedy surpreendeu o Senado com sua aparição enquanto votavam contra a implementação de cortes salariais a médicos atendentes do programa chamado Medicare, específico a idosos do país.
Paul Krugman explica o nascimento do conflito em 2003, com a administração atual gastando 17% a mais com o Medicare através do uso de seguradoras intermediárias para cobrir os serviços à populaçãp idosa, ao invés de remunerá-los diretamente. O resumo, contudo, é que com o corte de aproximadamente 10% nos salários de médicos atendentes do Medicare, muitos não continuariam no plano, e a privatização do seguro estadual veria-se ainda mais provável, algo que democratas consideram um engano, já que seguradoras privadas selecionam os mais saudáveis entre os idosos, e negam serviço aos que realmente mais precisam.
Antes de mais nada, o teatro: Ted Kennedy, recentemente diagnosticado de câncer no cérebro, apareceu e clamou que a lei o afetava pessoalmente, já que, como idoso, Kennedy também faz parte da faixa etária beneficiada pelo Medicare. Assim sendo, e aos aplausos de um Senado lotado (todos os senadores estiveram presentes menos John McCain), os democratas conseguiram bloquear o corte planejado pelos republicanos.
Placar final e Gallup
O Gallup fecha com a vitória de Barack Obama por 1% a mais do que a média da semana: 46-43%.
O placar final aqui d’A Escolha do Próximo Porteiro para a semana é:
Barack Obama 4 x 1 John McCain
O FISA (Foreign Surveilance Intelligence Act) foi criado em 1978 com o intuito de alargar o poder do governo na contra-inteligência estrangeira, podendo assim grampear telefones e acessar informações privadas, como extratos bancários e outras contas cotidianas, sem a necessidade da burocracia implementada para proteger o indivíduo do poder governamental.
Não acredito na santidade da constituição, mas acredito que a idéia da burocracia advenha da consciência primária, básica, até mesmo primitiva, de que quem no poder está, o poder pode abusar, e quem não tem poder é o abusado, no caso, a população comum.
Desde o 11 de Setembro, Bush elevou o poder do FISA, permitindo o acesso de dados privados de indivíduos considerados “suspeitos”, o que em muitos casos, mais do que se imagina, significou cavar no quintal de pessoas totalmente inocentes e desnexadas à famigerada Guerra contra o Terror. Melhor dizendo, o governo dos Estados Unidos aterrorizou sua população.
Esse terror fez com que muitos inocentados processassem companhias de celulares pela disponibilização de seus dados e contas a agências investigativas federais. Bush e sua base conservadora sabiam que FISA perderia algumas batalhas, mas não poderia perder a guerra antes de seu retiro do cargo.
Permitir processos civis a companhias de celulares, e aumentar a fiscalização burocrática dos agentes federais faria com que o público soubesse de inúmeros casos de investigações e dinheiro público gasto na espionagem de indivíduos inocentes– bem como sabe dos inocentes detidos em Guantánamo Bay graças à vitória do Congresso e Senado democratas de viabilizar maiores recursos legais aos prisioneiros da baía cubana.
Ontem o Senado tinha a chance de domar o poder do FISA e da administração de Bush através de um voto que bloquearia a proibição do processo civil a companhias que cooperassem com agentes federais ao acesso de dados privados. Também exigiria maiores restrições e procedimentos burocráticos tanto para trazer à tona os erros da administração quanto para evitar futuros enganos.
Barack Obama juntou-se à maioria, e os republicanos decaptaram os esforços democratas. Conseguiram garantir a imunidade dos atos inconstitucionais do FISA, e a prosperidade da administração atual. Isso é suficiente para causar grandes desilusões quanto às últimas duvidosas posições de Obama, desde o início das campanhas às eleições gerais.
Senadores como Hillary Clinton, de NY, Joe Biden, de Delaware, Christopher Dodd, de Connecticut, e muitos outros próximos conhedidos das primárias democratas juntaram-se à minoria e perderam. Obama juntou-se à maioria e, para muitos observadores dessa histórica campanha, perdeu também. Afinal, em recente passado prometeu lutar pela quarta emenda constitucional, destruir o inescrupuloso poder do FISA, e construir um governo que estadunidenses possam realmente chamar de “livre”. No fim do dia, o centralizado Obama votou contra suas palavras, e colocou em dúvida, novamente, sua integridade política.
Vitória Democrata
Para a sorte do partido, Ted Kennedy surpreendeu o Senado com sua aparição enquanto votavam contra a implementação de cortes salariais a médicos atendentes do programa chamado Medicare, específico a idosos do país.
Paul Krugman explica o nascimento do conflito em 2003, com a administração atual gastando 17% a mais com o Medicare através do uso de seguradoras intermediárias para cobrir os serviços à populaçãp idosa, ao invés de remunerá-los diretamente. O resumo, contudo, é que com o corte de aproximadamente 10% nos salários de médicos atendentes do Medicare, muitos não continuariam no plano, e a privatização do seguro estadual veria-se ainda mais provável, algo que democratas consideram um engano, já que seguradoras privadas selecionam os mais saudáveis entre os idosos, e negam serviço aos que realmente mais precisam.
Antes de mais nada, o teatro: Ted Kennedy, recentemente diagnosticado de câncer no cérebro, apareceu e clamou que a lei o afetava pessoalmente, já que, como idoso, Kennedy também faz parte da faixa etária beneficiada pelo Medicare. Assim sendo, e aos aplausos de um Senado lotado (todos os senadores estiveram presentes menos John McCain), os democratas conseguiram bloquear o corte planejado pelos republicanos.
Placar final e Gallup
O Gallup fecha com a vitória de Barack Obama por 1% a mais do que a média da semana: 46-43%.
O placar final aqui d’A Escolha do Próximo Porteiro para a semana é:
Barack Obama 4 x 1 John McCain
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Christopher Dodd,
George Bush,
Hillary Clinton,
Joe Biden,
John McCain,
Medicare,
Roy Frenkiel,
Ted Kennedy
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