Caro Jens, (Resposta a sua resposta na Toca do Lobo)
Lendo sua carta à amiga carioca, e vendo a maioria das impressões deixadas pelos seus interlocutores, sinto a necessidade de ao menos responder, aqui, o que penso sobre o tema:
1 - A primeira coisa a concordar é que o buraco é, de fato, mais embaixo. Operações bem sucedidas a parte, precisamos, em principio, entender que o sucesso delas não pode ser medido a curto prazo. Mesmo que o exército e a polícia militar tenham cercado, tomado e instalado UPPs em todos os morros da cidade, qual é a garantia de que as UPPs funcionarão, por exemplo, depois dos jogos planejados para o Brasil em 2014 e 2016? A tomada dos morros serve para desmontar o que estava anteriormente estabelecido durante décadas, um antro perfeitamente seguro para a liderança do crime organizado carioca. No entanto, enquanto apenas os morros permanecerem seguros, uma série de outros problemas velhos e novos ressurgem. Primeiro, os quartéis generais dos “cartéis” brasileiros foram afetados, mas não outros centros e quartéis urbanos ou interiorinos. Segundo, criminosos refugiados das favelas alastram-se a cidades do interior, inclusive em outros estados, como Minas Gerais. O crime urbano, aquele que ocorre além das favelas, também queda inafetado. Terceiro, enquanto a estrutura viciosa que leva ao tráfico de drogas e, mais, à violência pelo controle do mercado negro continuar intacta ou simbolicamente abalada, nada impede que uma nova geração de criminosos mais sofisticados se forme.
Caso o intuito das autoridades é de engajar-se em um confronto direto com toda e qualquer espécie de crime em qualquer lugar onde esteja, há inúmeras reformas pendentes. À não ser que todo o confrontamento termine com a morte dos criminosos, onde os apreendidos ficam presos? Nos mesmos presídios super-populados historicamente? Além disso, “vamos acabar com o crime” é uma frase linda e completamente irreal. Ainda há acusados de estupro livres no Brasil porque as entidades responsáveis pela convocatória ao sentenciamento ou até mesmo aos mandatos de prisão frequentemente erram ou desconhecem o endereço do criminoso.
2 – Está claro para quem enxerga de fora que essa resolução governamental ocorre às vésperas dos grandes jogos, as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Evolucionalmente falando faz sentido: Quanto mais olhos estrangeiros atingem a vista do país, mais o país quer se enfeitar para aparecer.
Porém, estamos carecas de saber que a situação não é nova, que as políticas passadas perpetuaram e agravaram a situação, que a população carioca (e em todos os demais estados que convivem com favelas) sempre fez vista grossa intimidada não diferente da vista grossa feita pelos alemães inocentes quando passavam frente aos guetos dos renegados dos nazistas, e que os fatores envolvidos na criação e sustento dessas favelas são complexos, geralmente ignorados e nenhuma atitude radical é tomada para sua resolução.
Está certo que a política brasileira dos últimos oito anos atendeu a necessidades reais do país e que o mesmo encontra-se a caminho de erradicar a miséria absoluta e em constante ritmo de inclusão social. Ainda assim, a exclusão ainda é extrema, a miséria absoluta ainda existe, o descaso governamental ainda é grande e, o pior, o debate é muito estreito.
A maioria das postagens “preocupadas” que li pelas redes sociais dita culpas: “São os ricos e a classe média que abastecem esses lugares!” Mito total e absoluto. Pobres também usam drogas, muitas drogas, e mesmo se todos fossem vítimas de uma crise econômica ímpar, a demanda continuaria e haveria fornecimento. “Os usuários fomentam o tráfico!” Claro, e assim sempre será, aliás, é o óbvio ululante. Mas pedir que usuários não existam é o equivalente a pedir que homossexuais deixem de existir para aqueles que ainda se incomodam. “Ah”, lá vem doutor encher o saco, “mas usuário não nasce usuário!” Verdade, verdade, mas torna-se usuário, usa, existe e sempre se tornará, sempre usará e sempre existirá. O uso de drogas faz parte da natureza humana e sempre fará, tanto medicinal quanto recreativamente. “A culpa é do governo!” E quem elege o governo em um país supostamente democrático? Onde estão os constituentes querendo um debate sério sobre o tema?
3 – Drogas são objetos inanimados. Ao contrário de armas, brancas ou de fogo, que só servem para ferir ou matar, drogas tem inúmeros propósitos, desde cosméticos a medicinais a psicológicos a recreativos. Não atacam ninguém, não pedem que ninguém as use e viciam talvez 90 vezes menos do que as pessoas, pesadamente desinformadas em um sistema comandado por pessoas que fazem de tudo para que o debate sério não seja levantado, acreditam.
Esse debate precisa ocorrer. Não só sobre favelas, ou sobre tráfico de drogas, mas sobre a natureza das drogas em si, a viabilidade de sua regularização, códigos penais diferentes do brasileiro (vide o holandês), a origem da proibição às drogas (pesadamente política, e não medicinal, como muitos ainda acreditam), as alternativas de romper com o código legislativo das Nações Unidas, além de temas sociais já discutidos, mas aparentemente ainda negligenciados, como os que você cita, Jens, em sua menção do texto do professor da UFRGS.
É muito simples, fácil e, na minha opinião inútil culpar uma classe (facilmente antagonizada pela classe “rival”) pelo consumo de drogas, e assim fazendo culpar usuários. Isso só perpetua a perseguição do próprio rabo: Usuários existem e sempre existirão. A guerra contra as drogas nos Estados Unidos não só não amenizou a situação, como um crescimento exponencial da violência e do consumo ocorreu desde que a guerra foi originalmente declarada. Se usuários sempre existem, o que mais importará é onde obterão o mesmo produto que obterão de todos os modos. O maior exemplo da ineficiência da proibição, além das próprias drogas, se não suficiente, é o da Proibição dos anos ’30 nos Estados Unidos, época que facilmente elevou o status quo do crime organizado estadunidense. Quantas novas proibições com os mesmos resultados serão ditadas antes de perceberem sua inutilidade?
Outro detalhe: Confirme, se possível, qual é a porcentagem de usuários de drogas que se viciam e se matam com as mesmas. Aposto que ficará surpreso. A grande maioria dos usuários não se matarão, como tanto gostariam tantos. Não se matarão, não se viciarão, e não causarão dano a absolutamente ninguém. Fumantes de maconha viverão mais tempo do que fumantes de cigarro, e causarão menos danos públicos caso continuem fumando em privado. Resumindo, não confiem em mim, pesquisem, informem-se pelas fontes certas, mas meu ponto é que a proibição das drogas gera muito mais problemas do que sua eventual regularização.
Digo mais, como opino a favor de uma rede social de confiança interna, onde todos cuidam de todos mesmo com a intenção final de cuidar apenas de si (ruas seguras aumentam minha liberdade individual), também penso que de nada adiantará antagonizar o grupo de viciados que sim se matam e danificam. De nada adianta criar mais um segmento excluído pela população. Quanto menos marginalizarmos, creio, menos marginais teremos.
Concluindo, acredito que as operações no Rio de Janeiro foram um desastre tanto estrategica quanto socialmente falando. Não acredito que a violência diminuirá a longo prazo por causa delas, mas acredito que a polícia e o exército podem desviar o crime do Rio de Janeiro em tempo suficiente de receber os olhos do mundo para as Olimpíadas e a Copa do Mundo, mesmo que tanques às ruas potencialmente criem novos “terroristas”, e que a repressão militar gere maior repressão social que, como qualquer outra, tende a explodir cedo ou tarde à face de quem reprime. Ainda assim, desejo boa sorte a todos, e se amor serve para alguma coisa, também amo o Rio de Janeiro.
RF