Wednesday, December 01, 2010

Sobre Drogas e o Amor ao Rio

Caro Jens, (Resposta a sua resposta na Toca do Lobo)

Lendo sua carta à amiga carioca, e vendo a maioria das impressões deixadas pelos seus interlocutores, sinto a necessidade de ao menos responder, aqui, o que penso sobre o tema:

1 - A primeira coisa a concordar é que o buraco é, de fato, mais embaixo. Operações bem sucedidas a parte, precisamos, em principio, entender que o sucesso delas não pode ser medido a curto prazo. Mesmo que o exército e a polícia militar tenham cercado, tomado e instalado UPPs em todos os morros da cidade, qual é a garantia de que as UPPs funcionarão, por exemplo, depois dos jogos planejados para o Brasil em 2014 e 2016? A tomada dos morros serve para desmontar o que estava anteriormente estabelecido durante décadas, um antro perfeitamente seguro para a liderança do crime organizado carioca. No entanto, enquanto apenas os morros permanecerem seguros, uma série de outros problemas velhos e novos ressurgem. Primeiro, os quartéis generais dos “cartéis” brasileiros foram afetados, mas não outros centros e quartéis urbanos ou interiorinos. Segundo, criminosos refugiados das favelas alastram-se a cidades do interior, inclusive em outros estados, como Minas Gerais. O crime urbano, aquele que ocorre além das favelas, também queda inafetado. Terceiro, enquanto a estrutura viciosa que leva ao tráfico de drogas e, mais, à violência pelo controle do mercado negro continuar intacta ou simbolicamente abalada, nada impede que uma nova geração de criminosos mais sofisticados se forme.

Caso o intuito das autoridades é de engajar-se em um confronto direto com toda e qualquer espécie de crime em qualquer lugar onde esteja, há inúmeras reformas pendentes. À não ser que todo o confrontamento termine com a morte dos criminosos, onde os apreendidos ficam presos? Nos mesmos presídios super-populados historicamente? Além disso, “vamos acabar com o crime” é uma frase linda e completamente irreal. Ainda há acusados de estupro livres no Brasil porque as entidades responsáveis pela convocatória ao sentenciamento ou até mesmo aos mandatos de prisão frequentemente erram ou desconhecem o endereço do criminoso.

2 – Está claro para quem enxerga de fora que essa resolução governamental ocorre às vésperas dos grandes jogos, as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Evolucionalmente falando faz sentido: Quanto mais olhos estrangeiros atingem a vista do país, mais o país quer se enfeitar para aparecer.

Porém, estamos carecas de saber que a situação não é nova, que as políticas passadas perpetuaram e agravaram a situação, que a população carioca (e em todos os demais estados que convivem com favelas) sempre fez vista grossa intimidada não diferente da vista grossa feita pelos alemães inocentes quando passavam frente aos guetos dos renegados dos nazistas, e que os fatores envolvidos na criação e sustento dessas favelas são complexos, geralmente ignorados e nenhuma atitude radical é tomada para sua resolução.

Está certo que a política brasileira dos últimos oito anos atendeu a necessidades reais do país e que o mesmo encontra-se a caminho de erradicar a miséria absoluta e em constante ritmo de inclusão social. Ainda assim, a exclusão ainda é extrema, a miséria absoluta ainda existe, o descaso governamental ainda é grande e, o pior, o debate é muito estreito.

A maioria das postagens “preocupadas” que li pelas redes sociais dita culpas: “São os ricos e a classe média que abastecem esses lugares!” Mito total e absoluto. Pobres também usam drogas, muitas drogas, e mesmo se todos fossem vítimas de uma crise econômica ímpar, a demanda continuaria e haveria fornecimento. “Os usuários fomentam o tráfico!” Claro, e assim sempre será, aliás, é o óbvio ululante. Mas pedir que usuários não existam é o equivalente a pedir que homossexuais deixem de existir para aqueles que ainda se incomodam. “Ah”, lá vem doutor encher o saco, “mas usuário não nasce usuário!” Verdade, verdade, mas torna-se usuário, usa, existe e sempre se tornará, sempre usará e sempre existirá. O uso de drogas faz parte da natureza humana e sempre fará, tanto medicinal quanto recreativamente. “A culpa é do governo!” E quem elege o governo em um país supostamente democrático? Onde estão os constituentes querendo um debate sério sobre o tema?

3 – Drogas são objetos inanimados. Ao contrário de armas, brancas ou de fogo, que só servem para ferir ou matar, drogas tem inúmeros propósitos, desde cosméticos a medicinais a psicológicos a recreativos. Não atacam ninguém, não pedem que ninguém as use e viciam talvez 90 vezes menos do que as pessoas, pesadamente desinformadas em um sistema comandado por pessoas que fazem de tudo para que o debate sério não seja levantado, acreditam.

Esse debate precisa ocorrer. Não só sobre favelas, ou sobre tráfico de drogas, mas sobre a natureza das drogas em si, a viabilidade de sua regularização, códigos penais diferentes do brasileiro (vide o holandês), a origem da proibição às drogas (pesadamente política, e não medicinal, como muitos ainda acreditam), as alternativas de romper com o código legislativo das Nações Unidas, além de temas sociais já discutidos, mas aparentemente ainda negligenciados, como os que você cita, Jens, em sua menção do texto do professor da UFRGS.

É muito simples, fácil e, na minha opinião inútil culpar uma classe (facilmente antagonizada pela classe “rival”) pelo consumo de drogas, e assim fazendo culpar usuários. Isso só perpetua a perseguição do próprio rabo: Usuários existem e sempre existirão. A guerra contra as drogas nos Estados Unidos não só não amenizou a situação, como um crescimento exponencial da violência e do consumo ocorreu desde que a guerra foi originalmente declarada. Se usuários sempre existem, o que mais importará é onde obterão o mesmo produto que obterão de todos os modos. O maior exemplo da ineficiência da proibição, além das próprias drogas, se não suficiente, é o da Proibição dos anos ’30 nos Estados Unidos, época que facilmente elevou o status quo do crime organizado estadunidense. Quantas novas proibições com os mesmos resultados serão ditadas antes de perceberem sua inutilidade?

Outro detalhe: Confirme, se possível, qual é a porcentagem de usuários de drogas que se viciam e se matam com as mesmas. Aposto que ficará surpreso. A grande maioria dos usuários não se matarão, como tanto gostariam tantos. Não se matarão, não se viciarão, e não causarão dano a absolutamente ninguém. Fumantes de maconha viverão mais tempo do que fumantes de cigarro, e causarão menos danos públicos caso continuem fumando em privado. Resumindo, não confiem em mim, pesquisem, informem-se pelas fontes certas, mas meu ponto é que a proibição das drogas gera muito mais problemas do que sua eventual regularização.

Digo mais, como opino a favor de uma rede social de confiança interna, onde todos cuidam de todos mesmo com a intenção final de cuidar apenas de si (ruas seguras aumentam minha liberdade individual), também penso que de nada adiantará antagonizar o grupo de viciados que sim se matam e danificam. De nada adianta criar mais um segmento excluído pela população. Quanto menos marginalizarmos, creio, menos marginais teremos.

Concluindo, acredito que as operações no Rio de Janeiro foram um desastre tanto estrategica quanto socialmente falando. Não acredito que a violência diminuirá a longo prazo por causa delas, mas acredito que a polícia e o exército podem desviar o crime do Rio de Janeiro em tempo suficiente de receber os olhos do mundo para as Olimpíadas e a Copa do Mundo, mesmo que tanques às ruas potencialmente criem novos “terroristas”, e que a repressão militar gere maior repressão social que, como qualquer outra, tende a explodir cedo ou tarde à face de quem reprime. Ainda assim, desejo boa sorte a todos, e se amor serve para alguma coisa, também amo o Rio de Janeiro.

RF

Monday, October 18, 2010

SOS Sanidade Internacional

Conforme comentei hoje em um dos poucos e bons blogues que acompanho por aqui, meu professor de política externa dos Estados Unidos, Dr, Lawrence Abrahams, da Nigeria, já tinha dado o palpite de que todos os governos que conhece, apesar de declararem publicamente seu estado laico, julgam e preconizam leis baseadas em fés pessoais. Criticar o Brasil, portanto, pelo excesso de cultura religiosa enrustida e embutida às abertas nas campanhas eleitorais seria um exercício fútil. A mesma crítica cabe a países social e economicamente mais desenvolvidos, como os Estados Unidos, onde a guerra santa ocorre em grande intensidade.

Entretanto, tudo tem limites. Se a sociedade ainda contraria massivamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a prática do aborto, é compreensível que os movimentos religiosos ganhem espaço político no estado. No entanto, mesmo que algumas leis que deveriam ser de cunho estritamente laico não o sejam, ainda há o limite da sanidade que dita respeitar as diversidades culturais, étnicas e religiosas dos demais observantes de seletas ortodoxias. Quando o governante do país assume uma postura de caçador/a de bruxas de outras culturas, etnias e religiões, a democracia deixa de existir, a demagogia e o autoritarianismo morais prevalecem e um holocausto como o ocorrido sob o comando Nazista periga ressurgir na história da humanidade.

Sem o menor exagero, é isso que a Chanceler alemã Angela Merkel está promovendo quando discursou nesse final de semana que a tentativa de construir uma sociedade multi-cultural falhou no país. “Multikulti”, como os alemães conhecem o conceito da convivência harmoniosa entre membros de diferentes etnias, diz Merkel, não tem mais lugar em sua sociedade. A afirmação nasce com um pedido tenebroso: De agora em diante imigrantes na Alemanha precisam não só aprender o idioma e assimilar-se aos costumes, mas também adotar valores cristãos, caso contrário não são mais oficialmente bem vindos.

Diz Merkel que a Alemanha tem o direito de exigir isso de seus imigrantes, não apenas apoiar sua integração. Uma exigência claramente destinada ao “outro” de nossa geração mais do que aos judeus, perseguidos por Adolph Hitler de 1935 a 1945 na mesma Alemanha sob as leis de Nurenberg.

Certamente podemos traçar a construção dessa perigosa mentalidade à paranóia mundial que explodiu depois do 11 de Setembro de 2001 (New York, EUA), do 11 de Março de 2004 (Madrid, Espanha), do tenebroso dia de Novembro de 2008 quando ocorreram os ataques em Mumbai, na Índia, e desde a empreitada megalomaníaca de George W. Bush apoiado pelo Primeiro Ministro da Inglaterra, Tony Blair. A partir do extremo medo gerado à mente das massas começou o preconceito e discriminação generalizados a árabes e muçulmanos em todo o mundo. O cálculo moderno permite associar o “inimigo” ao “estrangeiro” sem a necessidade do encobrimento moral, algo que sem um “outro” generalizado seria difícil de acontecer justamente pós-Hitler no mesmo país.

O perigo dessa afirmação é iminente. Jamais antes em minha vida percebi sinais tão cabulosos de tempos incertos como nesse discurso de Angela Merkel. É de um absurdo imprescindível no Ocidente livre desde ao menos trinta anos antes de meu nascimento.

Antes da Segunda Guerra Mundial as mudanças que afetaram as minorias vigentes, especialmente judeus, foram paulatinas e pegaram a maioria da população de surpresa. Foi essa quebra de espirito politico antes de tudo (primeiro tiram a cidadania da pessoa, depois tentam tirar sua humanidade) que possibilitou a violência nazista contra praticamente indefesos judeus. Quem resistiu o fez faminto, sem identidade civil e privado de direitos humanos. O primeiro passo, ironicamente, foi expulsar uma massa de indesejados do país e proibir a entrada de novos imigrantes.

A Chanceler Angela Merkel deu o primeiro passo a viabilizar uma nova guerra santa ou ideológica como a declarada pelo ditador alemão do século 20. Suas palavras não só são extremamente vergonhosas para uma líder de seu porte, mas extremamente perigosas. É necessário que a comunidade internacional se una antes da tragédia. Imploro a todos que entrem em total estado de alerta.

Como judeu jurei toda minha vida, e repito o juramento agora estendendo as mãos a integrantes de um povo primo, mas politicamente rival dos judeus: “Holocausto nunca mais!” Por favor, espalhem essa consciência. Não podemos permitir que isso ocorra novamente em pleno século 21.

RF

Wednesday, October 13, 2010

Idiotas, Imbecís e Bobos – Escândalos Políticos Universais

Se algum dia se depararem com algum estrangeiro criticando personagens políticos como Tiririca, o finado Clodovil ou a reelegibilidade de políticos como Fernando Collor de Mello ou Paulo Maluf, citem os seguintes quatro casos de personalidades políticas nos Estados Unidos para traçar o parâmetro universal da estupidez humana. Está certo que essas figuras aqui não ganham tanto território quanto no Brasil (apesar da boa notícia da rejeição massiva de Collor no Alagoas, um bom passo adiante), mas existem e não são raras. Ao menos uma das “otoridades” aqui mencionadas pode chegar a cargos insustentáveis no poderio estadunidense, conforme podemos observar:

4 – Sarah Palin – A ex-candidata à vice-presidência no bilhete de John McCain é a epítome da banalidade política institucionalizada. Entre os casos aqui exemplificados ela é a personalidade que mais longe pode chegar em sua carreira política apesar de ter exposto todo seu brilho no último ciclo eleitoral. Nos meses seguintes à derrota, membros de sua campanha se pronunciaram e explicaram o quão difícil foi trabalhar com um dos atuais símbolos do Partido Republicano. Difícil justamente pela ignorância política da mesma, pela dificuldade de memorizar nomes corretamente e pela extrema dificuldade de discorrer sobre temas politicamente carregados. Palin é famosa por frases como: “Claro que sou capaz de lidar com a política externa do país, eu vejo a Rússia do quintal da minha casa!” Além disso, Palin já fazia parte de um inquérito sobre sua conduta ética quando governadora do Alaska. À época pressionou e pediu a demissão de um oficial de justiça por um caso pessoal envolvendo o oficial e a filha de Palin. Suas filhas, aliás, sempre dão o que falar. Enquanto Palin se gaba por ser mãe de familia e exemplo vivo de moralismo e ética familiares, suas filhas, especialmente Bristol, aparecem e expõem ao público quanto controle a mamãe tem em sua própria casa. Bristol já engravidou aos dezesseis anos, foi abandonada e depois re-assumida pelo jovem pai, e sempre reaparece como bom ou mal menino para infernizar a carreira pública de sua sogra.

3 – Christine O’Donnell – Candidata republicana ao Senado em um estado onde quase nunca houve incumbentes republicanos, O’Donnell foi a primeira política “desoberta” por Bill Maher. Aliás, no filme “Religulous” produzido pelo comediante, a candidata de Delaware torna-se um dos exemplos clássicos sobre a mistura de crenças individuais e a legislação de determinados estados é a história da candidata. O’Donnell já participou de um grupo de “bruxas” (Wiccans, uma religião pagã suficientemente popular em alguns estados do país), e apesar disso ser um detalhe sórdido em sua vida agora pública, não é o unico. O’Donnell é também contra a masturbação, algo que usou como mote em sua própria campanha eleitoral. Seus valores pesadamente religiosos tampouco fazem o fim de sua linha. A candidata ao Senado encontra supostamente recorreu a verbas de suas campanhas para uso pessoal. Na semana em que mais arrecadou verbas, inclusive, não teve uma única propaganda produzida. É, aliás, o único escândalo ao qual ela não quer referir-se e sobre o qual não dá mais entrevistas. Afinal, a primeira coisa que sai de sua boca em sua nova propaganda política é: “Meu nome é Christine O’Donnell, e não sou uma bruxa.”

2 – Carl Paladino – governador republicano de Nova York, criou uma aliança com um grupo de rabinos ortodoxos de seu estado para denunciar os impropérios do homossexualismo. Em seu discurso, rodeado de ultra-ortodoxos judeus com seus chapéus e roupas pretas e barbas selvagens, Paladino disse que não queria transmitir a imagem que seu estado considera homossexuais e “pessoas normais” o mesmo. O governador foi enfático ao dizer que seus valores familiares não compartilhados pelos liberais e progressistas em Washington lhe dão suficiente autoridade moral para condenar o homossexualismo, seus trajes inconvencionais e seu comportamento libertino. Ainda teve a coragem de citar, explicitamente, que o sucesso da comunidade heterossexual e o sucesso de indivíduos homossexuais não se equiparam. Em outras palavras, o homossexual jamais poderá ter uma vida bem sucedida pelo simples fato de assim sê-lo. O maior escândalo não está em suas palavras preconceituosas e o fato de que Paladino criticou os trajes de homossexuais rodeado por urubus ultra-ortodoxos que parecem ter saído da Holanda do século 18. Paladino teve uma corrente de e-mails exposta na qual o governador enviava fotos e vídeos de bestialidade (sexo com bichinhos inocentes) para seus colegas e amigos. Além disso, recentemente teve sua “segunda família” descoberta pelos rivais políticos. Sim, Paladino, o lider em questões de cunho moral não só tinha uma amante, mas uma família secreta.

1 – Rich Iott – É o segundo político republicano às vésperas das eleições gerais nos Estados Unidos “descoberto” pelo comediante Bill Maher. Rich Iott só leva o prêmio de primeiro lugar porque seu escândalo é imperdoável para qualquer base no país. O candidato a Representante do Congresso tem um hobby peculiar: Como gosta de história, pratica encenações de episódios épicos. No entanto, o personagem que encenava era o típico soldado da SS ou da Luftwaffe, o exército e a força áerea nazistas. Iott disse que iniciou seu ciclo no grupo conhecido como Wikings (wikings.or é seu portal, se é que já não foi retirado do ar), para conectar-se com o filho adolscente. O repórter de Bill Maher foi o primeiro a falar sobre o tema, e agora o candidato está queimado na via pública por todos os meios de comunicação. Apesar de Iott declarar que não é nazista e não simpatiza com sua filosofia, em sua entrevista consegiu cavar buraco ainda mais profundo quando disse que sempre esteve fascinado que um país geograficamente limitado tenha conquistado tantas coisas “incríveis” de um ponto de vista “estritamente militar”. Daí para “os nazistas foram incríveis” nos anais midiáticos foi menos de meio passo.

Claro que há outros casos, e certamente há casos envolvendo políticos de ambos partidos. Esses, no entanto, provavelmente resumem a espécie de ignorância política à qual temos de nos acostumar. Quem sabe essa imagem melhore o conceito que as pessoas tem pelos Estados Unidos. É um critério a menos a se emular, ao menos.

RF

Monday, October 04, 2010

Rápidas sobre as eleições rápidas; Cada vez mais rápidas

Eis que a CNN reporta na tarde de Sábado que uma candidata ex “guerrilheira marxista” deverá assumir - pela primeira vez uma mulher - o cargo presidencial.

Há dois anos, quando presente na redação do Estado de Minas dos Diários Associados, vi a ficha criminal de Dilma Rousseff pendurada em uma das divisórias. Desde então, ainda antes da quase consumação de sua vitória agora postergada ao segundo turno já sabia o que a ficha representava para a história brasileira.

Sabia que alguns usariam a informação para enquadrá-la como criminosa. Pois bem, seria praticamente impossível que um assaltante fosse eleito presidente nos Estados Unidos. Já diriam certos macacos que um afro descendente ainda vai lá, mas um assaltante? Jamais.

Porém, o contexto da ditadura militar (aprovada e parcialmente financiada pela política externa estadunidense da geração) e meu próprio relacionamento direto com o Brasil automaticamente me dão o conhecimento necessário para não enquadrar os crimes de Dilma naquela época no contexto dos crimes cometidos atualmente em sociedades ultra populadas e de cotidianos violentos. O que ela fazia, aliás, não pode ser sana ou remotamente comparado a atos terroristas categorizados como tal em sociedades ou contra sociedades mais ou menos livres. Digo mais:

Conheci outros “criminosos” anti-militares da época e sei que ao menos um ou dois seriam capazes de governar o país tão bem ou melhor do que Lula.

Ou seja, o contexto da revolução democrática no Brasil, especificamente mirando a atuação dos soldados de rua, não dos eventuais líderes corruptos, é completamente brasileiro. Citar que uma “guerrilheira marxista”, ex ou não, poderá ser a primeira mulher presidente do Brasil é no mínimo uma meia-verdade, ou um ângulo extrema e vexaminosamente reducionista da imprensa. Por aí segue o etnocentrismo da mídia no país:

Seu maior problema talvez seja sua precipitação constante em julgar outros países de acordo com seus próprios valores, utlizando-se desse julgamento para atingir objetivos geralmente mercantis. Apesar de ser uma característica midiática clássica, a importância do etnocentrismo nos Estados Unidos é ampla por dois motivos principais:

1 – Como hegemonia atual o regime do país interfere mesmo que indiretamente nas ocupações políticas e econômicas de outros países em outras regiões do planeta. A política externa dos Estados Unidos, como costumeiro, já é voltada a seus próprios interesses e muitas vezes ignora a realidade doméstica das regiões com as quais trata amistosamente ou não. A mídia nos Estados Unidos infelizmente segue a mesma linha cultural de seu governo – mesmo podendo, por mídia, tornar-se uma boa contrapartida, o que ocorre em apenas poucos e bons canais – e ignora, na maioria das vezes, a realidade doméstica das regiões das quais reporta.

2 – O que a população local pensa em uma república democrática representativa como os Estados Unidos – o Brasil também, nesse caso – é bastante relevante quanto aos eventuais resultados eleitorais. Vale lembrar que em Novembro temos as eleições para senadores, representantes e governadores (entre outros politicos) no país, portanto o que a mídia reporta ajuda a moldar a mentalidade eleitoral, inevitavelmente. No caso da CNN, o mero fato de mencionar que uma mulher marxista assumirá o poder causa uma associação imediata na mente dos televidentes, seja ela positiva ou pejorativa. Lembremo-nos, pois, que como os personagens no mundo fictício de George Orwell em “1984”, as pessoas tem geralmente memória curta, e não se lembram que Lula foi o maior militante esquerdista (leia-se marxista) da história contemporânea brasileira e ainda assim seu melhor presidente centralista. O objetivo seria, pragmaticamente falando, a comunicação rápida e imediata de algo muito mais complexo com menor número de palavras possível. A CNN, que clama ter mais notícias por minuto (mesmo não sendo melhores notícias em qualquer periodo), preza sua economia temporal. No mais, acredito que seja a única forma de conversar com os desacostumados e desorientados telespectadores do país.

Culturalmente falando, no entanto, a mentalidade nos Estados Unidos é quase totalmente voltada às forças mercadológicas. Não importa quão à esquerda esteja parte da população, já sabemos que é uma esquerda completamente diferente da latino-americana. Como a mídia brasileira deixa parecer que Dilma é mesmo a criminosa da estirpe mencionada nas curtas da CNN, a CNN compra a imagem do ponto de vista mercadológico da mídia brasileira. O interesse da CNN nas eleições brasileiras, afinal, pode ser mais extenso do que parece. A companhia Time Warner, Inc., matriz da CNN, tem mais de um canal seu apresentado nos serviços a cabo em vastas regiões brasileiras. O resto, como diriam por aqui, é história.

Mais rápida: Ao contrário das eleições passadas à presidência dos Estados Unidos, a imagem do presidente que se retira contribuiu, no Brasil, imensamente à aprovação popular da provável próxima presidente. Enquanto a aprovação de George W. Bush atingiu o menor nível na história moderna, a aprovação de Lula não podia ser maior. No entanto, ao contrário de outros momentos na história brasileira, há melhoras concretas a ostentar em troco dessa aprovação. Espero que os eleitores brasileiros sejam sábios e, no mais, a “sorte” está lançada.

RF

Wednesday, September 29, 2010

Se - If

Se soubesse se saber, saberia se saber ou se sentir. Se esquecer ou se ignorar-se, se o respaldo se reflete em si ou se remete a outros seres, saberia saber-se também. Se não, se entenderia por si seu próprio ser sem ser, e se sim, pelo sim se atenderia sem a menor hesitação.

Me arrefece esse “se” se me permite, já que se basta-se em permitir-me já sinto-me melhor. Me queima se se consome e se desaparece-se sem fazer-se mais que aparição. Me cansa se me arremata e se assim engole-se como se engole o gole da cachaça. Meu espontâneo devaneia. Se sonha-se, são seus sonhos seus. Se me sonha, sonha-me seus sonhos como meus.

Se aqui encostando-se se encarna-me, imaginem-me encostado em seu encosto. Se me encanta, encantaria-se comigo? Se me espanta, espanto-me sem si. Se, portanto, sentir-se eu, ei de sentir-me seu.

Se o tempo se expande; se o espaço sideral se rende ao surreal de seus sentidos paradoxais; se a tela branca preenche-se em meus dedos preenchendo-me os vazios; “se” que me tormenta, “se” sedento das águas das tormentas; “se” eu amanhã “ser” eu amanhã “me” eu amanhã não sei.

Se manda, se abre, se tem, se tema, sem tema nem trema, se bem que simplesmente não sei.

Se hoje novamente, “se” novamente, “se” todos os dias, ei de perder-me em razão. Se sigo sem saber-me ou saber se se sabe ei de perder a razão, ou há a razão de perder-se se assim desejar-se perdida. “Se” tempo, temporário, certamente. Se tempo se entende por tempo, vagaroso ou aos relampejos, sem causa. Se talvez, seria mais lógico. Sem se sim ou se não. E sem mais enrolação.

RF

Friday, September 24, 2010

Ideias Essenciais

(Alerta de estraga-prazeres para quem não viu o filme “Inception”: Não darei detalhes sobre o filme, mas discutirei um aspecto central do mesmo, assim que, estejam avisados).

Não sou o maior fã do trabalho de Leonardo Di Caprio, mas devo admitir que, por suas conexões em Hollywood, geralmente o escolhem para excelentes papéis. É o que penso sobre seu papel em “Inception”, de Christopher Nolan, 2010, mas do qual não discorrerei para não estragar ainda mais a trama aos que não assistiram. A ideia central, no entanto, dessa fantástica obra de ficção científica-psicológica nos interessa no contexto de uma questão que sempre me intrigou e ainda intriga, assim como às massas:

Um indivíduo pode mudar o mundo?

Em “Inception”a pessoa torna-se uma ideia. A ideia define a pessoa. O depósito de uma ideia “estrangeira” em mente alheia é a forma de definir essa pessoa contra sua vontade sem violar sua própria vontade. É o crime do filme, em poucas palavras. Complicado? Nem tanto.

Apesar do método complexo usado para atingir o objetivo de influenciar a mente de uma pessoa de modo a parecer que não houve influência externa alguma, na vida real uma ideia, mesmo frágil, pode atiçar fogo no mundo. Ideias das mais simples, palavras das mais simples representando ideias complexas ou ideias mais sofisticadas em si são como uma doença viral altamente contagiosa. Uma vez encontrando o anfitrião tomam conta de seu corpo. Caso se aprofundem o suficiente, definem a vida de sua vítima.

“Liberdade”. “Igualdade”. “Fraternidade”. “Paz”. “Nação/Nacionalismo”.

John Lennon era um jovem rebelde e um adulto bastante desvinculado de uma única percepção da realidade. Desvinculado até demais para ser mais do que um vocalista, mesmo de uma banda como os Beatles. Quando conheceu Yoko Ono, a união gerou uma ideia: “Paz”. Essa ideia definiu John Lennon mais do que sua música. Para os Estados Unidos o fato de um artista famoso investir na campanha dos cartazes simples pedindo chance à paz é mais lembrado do que o artista em si, ou sua morte nas mãos de um esquizofrênico.

Ghandi podia inspirar-se em sua própria história religiosa para atravancar o Império Britânico como um guerreiro de sua tribo. Não fosse a concepção de uma simples ideia, provavelmente conheceríamos outro Ghandi: “A resistência à violência deve ser pacífica”. Logo, o símbolo de Ghandi certamente mudou a história do planeta, nem que seja como um exemplo nem tão vastamente seguido, mas emulado por figuras importantes como Martin Luther King.

O mesmo ocorre em desvirtudes históricas, como as ideias de Adolf Hitler e todos os demais tiranos que Hitler acaba personificando tão bem. Ideias definem comportamentos. Às vezes além da capacidade consciente da própria mãe da ideia vislumbrar o processo que lhe toma.

As ideias acima mencionadas foram e são compradas por indivíduos ao longo da história. Pelo teor do construtivismo (já mencionado
aqui anteriormente), a mesma ideia pode determinar atitudes e realidades diferentes. Um exemplo da cultura popular:

Quem já jogou e terminou o jogo “Red, Dead*, Redemption” (Rockstar, 2010, para sistemas de Playstation 3 e X-Box 360) testemunhou uma certa veemência histórica do oeste norte-americano e das cidades mexicanas fronteiriças do século 18. A vida de John Marston se desenvolve na fronteira dos Estados Unidos com o México (omitindo a segregação racial vigente e as disputas entre americanos e mexicanos, é certo), inicialmente em seu país de origem, e termina em uma jornada às terras sulistas dos hispanos de Montezuma. Nos Estados Unidos o conceito de “liberdade” ainda vinha ligado à libertinagem criminosa e, ao mesmo tempo, independência individual da influência direta de qualquer governo, seja ele local ou federal. Nos Estados Unidos a população precisa de mais atividade coletiva, mais interesse pelo bem estar do público, e não só do indivíduo, para aparar os efeitos da libertinagem. No México, a noção de liberdade é diretamente ligada à revolução armada e à destruição do governo vigente para trocá-lo por outro. O público disputa o território consigo mesmo, e a troca de governo é necessária para que o novo esteja tão envolvido quanto o passado na vida dos indivíduos, não mais nem menos.

O Presidente estadunidense Barack Obama também teve seu confrontamento e papel direto no reino das ideias. À época das preliminares ainda foi abordado pela camapanha eleitoral de Hillary Clinton como um professor de palavras, sem experiência necessária para concretizar a mudança verdadeira. Obama contestou usando um discurso escrito com seu ex aliado político, Deval Patrick, entitulado “Só Palavras”, questionando se as palavras acima citadas, “liberdade”, “igualdade”, “fraternidade” e “paz” são mesmo apenas palavras. Como um bom democrata, seu ideal que aqui encontra o construtivismo é que palavras expressam ideias e ideias mudam o mundo. Por suas palavras ganhou o prêmio Nobel da Paz. As atitudes, no entanto, são outros milhões.

Fatidicamente, ao procurar uma melhor análise dos papéis de nações-estados, indivíduos e o cenário global nas relações internacionais, nos deparamos com dezenas – se não centenas – de ideias diferentes. O mesmo ocorre com a ilusão ótica democrática, pois todas não podem estar concomitantemente certas. O que o construtivismo oferece de diferente é justamente o reconhecimento quase exclusivo do papel das ideias na construção da realidade, e não vice-versa. Portanto, se as ideias de Nicolau Machiavelli ainda influenciam o pensamento realista neo-conservador nos Estados Unidos não é porque a realidade é “realista” e sim porque o “realismo” desses indivíduos, sociedades e governos alimenta a realidade.

E então, leitoras e leitores: Individuos podem mudar o mundo? Ideias podem mudar o mundo?

RF

PS:

Para quem quer ainda mais estraga-prazeres ou para quem viu o filme, linko
aqui um exemplo de "Inception" pelos quadrinhos de Tio Patinhas da Disney (Ingles).



Thursday, September 23, 2010

De Fora para Dentro

Na camada das ideias democráticas também existe ilusão ótica. O que uns enxergam redondo, outros vem quadrado. De fato, às vésperas das eleições nos Estados Unidos e no Brasil, as experiências sensoriais – apesar de aparecerem as percepções em conglomerações de ideias – diferem uma da outra. Em seis anos de moradia contínua fora do Brasil cada vez que converso sobre a situação brasileira com brasileiros na terra natal, fora dela e em foros de debates virtuais encontro opiniões extremamente diferentes uma da outra. Um grita branco, o outro vermelho, e sempre tem um imbecíl que atiça fogo em pano rosa só para causar pânico.

Parte da população brasileira, por exemplo, parece satisfeita com os avanços sociais e políticos brasileiros dos últimos dez anos. Já outra parte demonstra o desejo sórdido de fugir para as colinas em pio temor ao fim do mundo. Caso estivessemos falando de classes sociais diferentes opinando, compreenderia melhor o disparate. Entretanto, o que vemos é que pessoas de situações financeiras idênticas, níveis educacionais idênticos e participações diretas no processo democrático idênticas opinam o oposto quando singelamente abrem as janelas de suas casas e atiram o olhar para a rua. Cão sem dono…?

É impossível que ambos os lados estejam certos, e as perspectivas opostas traçam-se nos mesmos setores. Há pessoas que acreditam que a igualdade social no Brasil realmente cresceu e outros que dizem que a desigualdade aumentou. É impossível que ambas visões estejam concomitantemente certas. Há os que dizem que o Brasil está em processo acelerado de desenvolvimento, equiparando condições de vida nos Estados Unidos a condições de vida no Brasil. Outros dizem que o Brasil está se tornando um estado totalitário e criando pessoas preguiçosas e improdutivas. Ambos não podem, ao mesmo tempo, estarem certos. Impossível.

Mitos

Nesses últimos três anos perdi a capacidade sentimental de devanear ideologias, o que me entristece, de certo modo, mas quando só estou com meus chips entre quatro paredes e a luz apagada consigo dormir mais tranquilo. Ainda assim, ignorar posições ideológicas é simplesmente impossível. Mesmo quase completamente por fora do que ocorre politicamente no Brasil para essas eleições (salvo opiniões de amigos conceituados quando estive no Brasil e uma ou outra notícia pingada), leio as maiores estapafúrdias em discursos ideológicos em foros de debate virtuais. Mesmo aquém da ideologia, ou além dela, as opiniões às vezes parecem tiradas de um livro de ficção científica, uma moderna e fabricada “torre de Babel”. É o que ouço nas mesas dos botecos brasileiros, nas casas de meus amigos e familiares nos Estados Unidos e no Brasil. Três pessoas juntas conversando em três idiomas.

São esses absurdos proferidos que me fazem perguntar se estar tão sentimentalmente “perto” de uma situação não nos faz perder a objetividade e justo juízo. Afinal, muito pode haver de errado na conduta política brasileira (acreditem, eu sei e opino isso fortemente), mas nunca em trinta anos vi um governo menos corrupto e menos “oligárquico” do que o próximo ou o passado. Todos monopolizaram, roubaram e enganaram seus constituintes. O de Lula sequer recorde em calamidades conquistou, logo por favor com esse desespero infantil.

Nos setenta dias que passei em solos mineiros e paulistas em seis anos não senti um país menos livre, e sim mais livre. Não senti um país menos patriota, e sim significativamente mais respeitoso à própria dinâmica de propriedade pública do que antes.

A violência, é claro, piorou. Assim também a falta contínua na infraestrutura ainda apresenta graves problemas - mesmo com o gargalo da infraestrutura melhor abastecido - que somados à explosão populacional geram mesmo mais violência, mais problemas relacionados ao trânsito social comum e mais problemas de super-crescimento urbano. Não vi, no entanto, um país pior do que o que antes via. Até admito que há alguns detalhes que tornam minha vivência no Brasil mais difícil depois de ter me mudado para os Estados Unidos, mas mesmo em detalhes há clara melhoria.

Além disso, a experiência nos Estados Unidos de total desapego ao próximo e péssima intra-identificação social parece querer invadir a mente de indivíduos de camadas sociais mais abastadas. Agora é moda dizer que quem está feliz com Lula “quer mamar nas tetas do governo”.

Pois, no Brasil conversei com taxistas (especialmente em São Paulo, como muitos sabem, ótimas referências políticas), porteiros de edifícios e empregadas domésticas, nenhum “mamante das tetas do governo”, todos trabalhadores árduos por salários melhores do que os que ganhavam no passado, e todos satisfeitos com a assistência social do governo de Lula. Se esse populismo é bom para o Brasil nos próximos anos é outra conversa, mas dizer que o Brasil está “sequestrado pela esquerda” é justamente enxergar-se de tão perto que embaçado.

A esquerda, no entanto, não é isenta. Com clamores de que a “mídia golpista” isso e aquilo apenas perdem a compostura. Se a mídia fosse mesmo golpista, Lula não teria sido eleito. Golpes que falham mediante a capacidade de um não-governo não são golpes, são gases. A mídia brasileira é, realmente, mercantilista e anti-mercantilista, dependendo do dia e de seus próprios interesses.

Mas golpista… Novamente, golpista seria se às portas de Outubro Dilma não estivesse com a bola que está, e se Lula não regozijasse da popularidade que tem. A camada majoritária agora aceita e quer esse populismo, e não o contrário. A minoria agora é “os outros”.

Que vês?

E o estrangeiro no exterior (o estrangeiro no Brasil também é importante, mas falemos sobre os que jamais sequer pisaram o solo brasileiro)? Em minha terceira aula de especialização na América Latina, encontro perspectivas de norte-americanos, europeus e latino-americanos de outros países do sul das Américas que percebem um crescimento ululante no país. Exaltam o investimento em educação (a tão criticada educação) nos últimos trinta anos, a capacidade inovativa brasileira, o crescimento tecnológico especialmente no setor energético com a disseminação do etanol, o crescimento econômico relativamente estável da última década e a participação mais ativa do Brasil como hegemonia Sul-Americana. Não que essa exaltação não possa partir da mesma motivação da exaltação de Pinochet no passado, pois pode, mas ao mesmo tempo há motivos concretos para que a percepção leve à admiração pública:

- A educação brasileira é provada nas faculdades profissionais, por alunos que cada vez mais populam as mais renomadas instituições em busca de mestrados e doutorados em todas as áreas.

- A economia brasileira é provada por profissionais que encontram oportunidades diretas de mercado no Brasil em relações que antes eram realmente de “centro” e “periferia” (com bastante sacanagem e exploração), mas que agora chegam de igual a igual.

- A tecnologia brasileira é provada no setor energético com o etanol, especialmente, mas também em outras áreas como a descoberta de petróleo no pré-sal, algo, geopoliticamente falando, essencial.

A própria revista The Economist publicou uma matéria recente sobre a explosão latino-americana, e o Brasil, segundo jornalistas do veículo, se destaca e sobressalta na região. É a mesma revista, aliás, que há menos de três meses anunciou que o Brasil deverá erradicar sua miséria absoluta em dez anos. Sem isso podemos falar de algo mais?

Essa disparidade absoluta na percepção do “risco país” (em alusão ao Risco Brasil) domesticamente torna-se ainda mais paradoxal quando justaposta à percepção generalizada de estrangeiros no exterior. É justamente aqui que o cão está enterrado.

No cenário de relações internacionais uma das maiores dificuldades é atravessar o ruído da estática e compreender, de fora para dentro, o que ocorre em uma determinada região. Um dos erros mais graves de nossos conflitos civilizatórios é enxergar um grupo de pessoas de uma nação-estado como fosse homogêneo, o que raramente (se é que) ocorre dentro das nações-estado atualmente erguidas.

Por outro lado, às vezes me pergunto se não seria preciso estar fora do país para entender o que ocorre dentro dele além de percepções geralmente parciais a filosofias políticas específicas, e interesses específicos de pessoas que concretamente dependem de uma decisão política ou outra. Um exemplo que me ocorre é o da menina que dizia querer um político no governo por seu posicionamento em relação aos bingos, já que trabalhava em um.

Não podemos, é claro, perguntar ao estrangeiro qual é a natureza e o teor do país observado, nem mesmo qual é a base de sua cultura ou quais sentimentos melhor se expressam nela. Todavia, talvez haja mesmo tempos em que compreender o desenvolvimento vis a vis o cenário internacional de uma região não pode ser baseado no que as pessoas da própria região dizem. A objetividade da análise dependeria, assim, exclusivamente de dados frios e positivistas, e não de opiniões ou sensações políticas. Por outro lado, sem compreender que parte da população rejeita um sistema sobre o outro, a análise externa torna-se humanamente pífia. Portanto ambos lados, o humano e o pragmático, precisam ser considerados, de dentro para fora certamente… Talvez também, necessariamente, de dentro para dora.

E você, bravo leitor e corajosa leitora a chegar até aqui, o que pensa disso? É possível enxergar a situação de fora para dentro com melhor objetividade quando a pergunta é “qual é o nosso papel no mundo”?

RF

Friday, September 17, 2010

Blogagem Coletiva - Perdão

Nunca acatei as sugestões das blogagens coletivas de Glorinha em seu Café com Bolo, mas quase sempre as acompanhei no Luz de Luma. Hoje, entretanto, não só gostei do tema como me parece pertinente e temporal. Hoje é a véspera de Yom Kipur, o Dia do Perdão judaico, considerado o mais santo para a religião. Trata-se de um dia de expiação, jejum e arrependimento. Em contexto divino o louvor e o perdão ao “ser maior” não me interessam no momento, mas sim as sensações de pedir perdão e perdoar tanto em contexto pessoal quanto coletivo.

Pedir perdão em si não é tão difícil. O complicado é saber deixar que nos perdoem ao redimir-nos de nossos erros e ainda mais complicado é saber perdoar. Dessa filosofia sei bem os truques.

Talvez a ausência do perdão seja quase sempre o grande problema de nossa humanidade e de nossas vidas individuais. Como na literatura grega, para mim o pior e o mais comum dos defeitos humanos é o orgulho, o “hubris”, que tanto pragueja heróis, deuses e semi-deuses desta mitologia, e tanto nos fere diariamente. Pelos nossos orgulhos, assim conclúo, cerceamos liberdades, censuramos bons afetos, mareamos certidões e deturpamos ressentimentos. Tanto pedir perdão quanto perdoar tornam-se façanhas enormes quando nos “amamos” tanto que agimos em proteção indefinida de nossos “nossos” mais intrínsecos. O conceito de “hubris” mistura-se à ideia de “takyah” (originalmente uma espécie de guarita), palavra usada para descrever a necessidade sentida por religiosos de fazer o necessário para proteger a religião, mesmo precisando mentir para tanto.

Ao parecer quando sentimos que o orgulho corre risco de ferimentos, logo nos convencemos das mais absurdas mentiras para protegê-lo. Conversamos nossos monólogos e desconversamos nossos verdadeiros sentimentos. Damos as costas a quem mais queremos abraçar e estendemos a mão a quem menos nos aceita. Rejeitamos amores que nós mesmos pedimos, amizades que nós mesmos cultivamos e planos que nós mesmos tecemos. Nos contradizemos nas calúnias usadas para resolver nossas contradições.

Óbvio que nem tudo é perdoável, mas nem todo pedido de perdão é sincero. Portanto, redimir-nos dos erros é mais importante do que simplesmente verbalizar o arrependimento. Não que o ato em si seja nulo. Balbuciar um pedido de desculpas é às vezes um ataque frontal ao nosso “hubris”, e logo a “takyah” age protegendo-o: “Não preciso pedir desculpas, fulano já sabe que estou arrependido/a.” “Para que dizer perdão, fulana é de família.” “Ah, mas se fulanos nem admitem seus erros para mim, por que eu vou me esforçar sozinho/a?”

Contudo, de que adianta verbalizar se as atitudes não condizem com os atos? Dizer é um primeiro passo. Repetir os mesmos erros torna-se grave problema.

O perdão é também privilégio de intimidades. Quanto maior a intimidade, maiores as chances de um perdão sincero de todas as partes. O perdão de uma mãe tende a ser ilimitado. O perdão entre amigos, compreensível. Ao aceitar determinadas pessoas em nossas vidas, aceitamos também seus defeitos e o perdão chega embutido. Já o perdão entre amantes vive sempre equilibrado na ponta de um bambu.

Quando o orgulho ultrapassa, contudo, a capacidade de perdoar-se em familia, o “hubris” ganha sua mais temerosa forma. De certo modo esse é o grande problema no cenário internacional, um dos maiores cernes de nossos conflitos tribais e nacionais. Por defender um orgulho às vezes abstrato e outras vezes circunstancial, culpamos os demais e inventamos pecados alheios. Assim, inventamos também o que não perdoar.

Seja o extremista cristão enfurecido com o extremista muçulmano ou o cidadão disputando empregos com o imigrante, o branco contra o negro e o negro contra o branco, criam-se problemas e criam-se rancores. Mágoas passadas revivem como sintomas pós-traumáticos. A América Latina não se esquece dos conquistadores espanhóis. O Oriente Médio vive de passados turbulentos e futuros incertos. Sendo todos membros da família humana, encontramos nesse dilema nossa mais profunda alienação.

Acima de tudo, perdoar e ser perdoado faz muito bem. Martin Luther King já pregou: “De nada adianta odiar se metade das pessoas que odeio não sabe disso e a outra não se importa.” Perdoar quem merece e, às vezes, quem não merece, nos torna seres humanos necessariamente melhores.

RF

Tuesday, September 14, 2010

Suscitatio Braga

O que me traz hoje ao blogue é puro orgulho. Há muito tempo não recomendo meus blogues favoritos no corpo da postagem, mas a realidade é que essa será a primeira recomendação de boca cheia em muito tempo, e certamente uma das mais recomendadas da história d’Os Intensos, incluindo as empreitadas do Reação Cultural.

Acreditem, esse “menino” já é mais homem em muitos sentidos do que muito marmanjo, e faz bem tudo que quer fazer. Apoiem, leiam e se interessem, algo me diz que ganha quem apostar nele. Sangue bom, cuca boa, leve-profundo, bom humor e boa prosa. Com vocês, o blogue de Rafael Braga:

Suscitatio

O que é Suscitatio?

Friday, September 10, 2010

Pastor Jones v. Imam Rauf

Não sei o quanto a notícia repercutiu no mundo, mas aqui nos Estados Unidos o planejamento de uma demonstração de intolerância contra o Islã ganhou espaço central nos noticiários e na veia política pré-eleitoral. O pastor Terry Jones, de Gainesville, Florida, marcou para o dia 11 de Setembro uma reunião de fiéis anti-islâmicos para a queimada de livros do Alcorão. Conforme disse à âncora da CNN, Soledad O’Brien, “até mesmo muçulmanos moderados deveriam nos apoiar”, pois “é uma demonstração anti-extremismo” e não anti-Islã.

Às vésperas das eleições que podem ceifar o partido Democrata da maioria em ambas casas do Congresso conquistada pós-Bush, a polarização das duas ideologias extremas dos Estados Unidos atinge seu ápice. A presidência de Barack Obama, marcada pelo tórrido clima econômico que parece não querer melhorar e por mais fracassos do que sucessos democráticos – especialmente considerando pedidos de democratas progressistas – parece enredar-se cada vez mais em arame farpado. A controvérsia da construção de uma mesquita justamente onde o atentado do 11 de Setembro ocorreu acabou criando ainda mais pânico na direita fanática, que procura líderes em um momento típico de uma genuína Idade das Trevas do sul, oeste e sudeste estadunidenses.

A extrema direita religiosa do país não representa a maioria de seus habitantes tal como extremistas muçulmanos não representam a maioria em suas religiões. É importante lembrar que nos Estados Unidos há centenas de mesquitas construídas, algumas mais controversas do que outras, mas a liberdade de expressão é ainda massivamente respeitada, salvo em casos de indivíduos arruaceiros, assassinos e não menos extremistas do que seus criados inimigos. Portanto, queimar livros santos para muçulmanos foi considerado abominável até mesmo pela base republicana, e mesmo assim ninguém pôde ou pode vetar a reunião. O mesmo ocorre com a mesquita onde derrubaram as Torres Gêmeas, a liberdade de capital, no caso, do Imam responsável pela escolha do local é absoluta.


Comparar, entretanto, a construção de um templo religioso com a queimada de livros de uma outra religião seria a soberba estapafúrdia. A liberdade é comparável, mas os atos partem de pessoas com diferentes perspectivas e motivações além da fé, ou de sua intensidade, comum. Já havia uma mesquita integrada ao mesmo sítio onde o Imam pretende construir um melhor ponto referencial aos seus seguidores. Apesar do próprio Imam Rauf apresentar argumentos etnocêntricos para defender seu direito mesmo podendo politicamente utilizar-se de uma assimilação perfeita à cultura dos Estados Unidos e defender-se com o puro direito do livre investimento, liberdade de expressão e de adoração de qualquer deidade ou religião, os direitos em si existem e serão respeitado caso assim decidir o lider. Jones, no entanto, incita um conflito diretamente étnico, ausente de direitos maiores do que o “porque quis” típico de uma libertinagem ainda permitida, e mesmo tendo esse direito, a liberdade acima comparada, seu uso seria exclusivamente conflituoso.


Quem posicionou-se contra a construção da mesquita de Imam Rauf citou a potencial ofensa à memória de vítimas do maior atentado islâmico contra o Oeste de nossa história contemporânea. É compreensível que o desconhecimento generalizado de uma cultura de diversas etnias e segmentos religiosos realmente traga uma suspeita generalizada – ora chamada de preconceito – contra a prática da mesma religião à qual um grupo de terroristas clamou pertencer. Porém justificar o preconceito ao invés de aproveitar a oportunidade de estender as mãos a representantes desta dita religião é justamente o que mais agrava a opinião pública contra o Oeste e contra a democracia que neo-conservadores estadunidenses querem espalhar por todas as curvas e pontas do planeta. Filosofia, aliás, adotada pela nova administração supostamente liberal de Obama.

É impossível deixar de pensar em Samuel Huntington quando escreveu o famoso texto sobre “O Conflito das Civilizações”, um prisma neo-realista sobre conflitos étnicos e a inevitabilidade de guerras entre membros de distintas raças. Justamente pensando nessa inevitabilidade sob a luz do contraponto da aparente facilidade de se resolver esses conflitos é que entendo quão ignorantes podemos ser. Mesmo que a maioria se oponha veementemente à atitude de Imam Rauf ou do Pastor Terry Jones, a maior demonstração de nossa suposta democracia (considerando que ela falta em tantos outros setores da civilização ocidental) é justamente permitir a alimentação de combustível ao conflito. Um protesto em massa no Afeganistão já esclareceu que habitantes daquele país recebem apenas a notícia do evento de Jones, entitulado “Dia Internacional da Queimada do Corão”, e não o que a opinião pública doméstica considera. De modo similar muitos cidadãos estadunidenses ainda pensam que todos os muçulmanos simpatizam com Bin Laden, e jamais saberiam, mesmo se todos os muçulmanos assim simpatizassem, suas causas e motivos pela mesma tendência etnocêntrica.

Não seria impossível evitar conflitos entre civilizações e etnias diferentes. Tecnicamente não precisaria nem ser tão difícil. Mas é...

RF

Wednesday, September 08, 2010

Desintimidade e Ano Novo Judaico

Noite de ano novo judaico, mais uma repartição temporal que me espera, e uma curta crônica existencialista para acompanhar o café. Aos judeus/judias, Shaná Tová. Aos demais, paz. Com vocês:

A Desintimidade

Frizara o olhar no canto da sala de onde a entrada prostava-se da porta ao corredor a vislumbrar o inexistente. A menina de cabelos cacheados, morena, brincava com uma bola de futebol de salão antiga, tijolo. Como fosse menino dava dribles na mesa de jantar, nas cadeiras e nos vasos que enfeitavam sua casa. Ria-se sozinha ou de si. Ele consolava-se com a ideia de que o mundo desmilinguira. Via o coerente no sorriso da imaginada, na consciência sórdida de que ela não existia, na necessidade e nos exercícios mentais que ele precisara exercer para fazê-la existir.

Eram duas horas da manhã, mas não conseguia dormir. Sofria de um mal que todos sofremos vez ou outra em nossas vidas, uma espécie de gripe moral. Nas memórias escondia seus brinquedos e apetrechos santos, assim construindo mundos novos onde se refugiava quando a solidão batia. Com a pancada despertava e não conseguia voltar a dormir. Coisas de nefelibatas. Sabia que se o telefone não tocasse seria circunstancialmente apenas natural. O sobrenatural se materializava enquanto o tempo sobrava-lhe, enquanto sobrava-lhe somente tempo.

Esvaziara mais cedo os retratos de sua casa. Não queria discriminar ninguém no processo de luto. Seguir adiante é sempre uma tarefa nova, um “passo-de-fé”, especialmente em fases similares à dele. A infante seguia ali, agora montando um quebra-cabeças de mil peças. Ele a media de cabo a rabo, das pontas dos dedos aos cabelos arrepiados da franja. Tinha os olhos da mãe, o nariz do pai e as feições dos dois avôs. Era particularmente bela. Talvez o maior problema na montagem de sua existência foi o fato de nunca ter sido muito organizada. Era isso: Saiu mal planejada. Um problema que qualquer um teria enormes dificuldades de resolver, mas que não lhe servia de estorvo, apenas o aliviava.


Observando os movimentos da menina atinha-se ao bem querer que ainda lhe sobrava. O bem do amor é também o mal do amor. A poesia era nula, a música muda e os olhos cegos de vandavais íntimos. Não fosse a ideia da criança teria enlouquecido. Sabia que podia conversar com ela apenas por não existir. A ideia do desvínculo é das mais crueis existentes, aliás. Quem existe deixa de existir. Os conflitos são enormes, mesmo que antes e algum tempo depois não sejam ou deixem de ser conflitos.


Assim faz-se de conta a intimidade, caçoa-se de nós quando desintimida. Assim se perde e pouco ou nada há a se fazer para que não se perca. A metamorfose que nem sempre ocorre e, portanto é santa quando ocorre, também se prostitui à marca dos tempos. Somos seres de intimidades e desintimidades. Contudo, morre apenas quem quer morrer. Faz-se da ilusão, da inexistência dessa pessoa inventada, a calmaria de sua existência em outros corpos.


Aos suspiros transpirava o ar puro e gélido que adentrara sua pele e oriçara seu olfato da janela aberta. Ao parecer teria mais um verão cheirando a inverno. A menina certamente adormecera. O calendário dava sinais de meses distintos, talvez devesse retornar os retratos aos seus devidos postos. Amanhecia praticamente, era um dia novo e pensava em se desfazer dos fantasmas. Não queria criar novos.


Assim é a desintimidade, ganhar novos espaços e perder os antigos, conquistar novos estados e abdicar da soberania de outros, pesar os valores e entender os desvalores. Assim nos desintimida. Pede tempo para pensar e desfazer suas malas mesmo não tendo-lhe pedido que as desfaça, mas dá-lhe tempo a refazê-las em outro lugar. Não que se surpreendesse por ser esta sua natureza. Afinal assim é o mundo e assim sempre foi. Dá-se boa noite mesmo querendo dizer bom dia. O mundo é um jogo de intimidades e desintimidades e nós somos atrapalhados jogadores. Alguns ganham mais do que outros, mas a maioria termina empatada.


Deixou os retratos guardados por preferência conscisente. Não queria acordar a princesa. Deu-lhe boa noite e se recolheu.


RF

Monday, August 30, 2010

Novo Dia, Vida Nova

“E tem dias como hoje
Quando o sol volta a brilhar,
Mesmo triste eu já sorrio,
Recomeço a suspirar:
“Ai, ai, ai, ai, até que enfim sinto-me assim” ("Tempos Interessantes", 2006)

Não sei bem o que será do blog para os próximos meses. Provavelmente voltarei a me concentrar no assunto de relações internacionais, como o costumeiro já há um ano e meio, e acrescentarei alguma ou outra crônica ou poesia. No momento, sei que terei o que falar, e sei que isso pode ser ainda esta semana. Mas quero fazer uma divisa. Ontem foi ontem. Hoje é hoje. Páginas viradas.

Abraços,

RF

Wednesday, August 25, 2010

Tempo Corrupto

Me mostre um caminho agora
Um jeito de estar sem você
O apego não quer ir embora
Diaxo, ele tem que querer
(Dona Cila – Maria Gadú)

1

O comum, incomum, perturba
A alma d’antes calma e satisfeita
É que o tempo quando bem feito
Vive enfeitando suas desfeitas,
Vem-se, foi-se, vái-se
Convencendo-me a desejar:
“Eu queria ser o tempo
Ter essa liberdade,
Despir-me da necessidade
De estúpidas vaidades.”

Não há então lembranças,
Nem histórias nem estórias
Mal contadas.
Não há, pois, ilusões,
Nem trilhas desviadas.
Há uma maré furiosa de sentimentos
Atentos à aforria
De uma escravidão que me libertou.

Ora a hora é ainda turbulenta,
Quem dera eu reacender a chama,
Voltar a acreditar nos planos,
Feitos rarefeitos por nós dois,
Ora a hora é de distância,
Quem dera eu fazer brilhar a vela
Voltar a esquentar meu peito
Agora tão vazio quanto o seu.

Vá que eu fico e vou,
Queria ser o tempo,
Mas não sou.
Se voltar aos abraços, abraços
Só não se descuide,
Aviso a miúde:
Se seus lábios se renderem ao vão
Que preenche o universo
Separando-os dos meus,
Sentirá minha saliva fresca
Invadindo sua boca
Mais uma vez.

RF

2

De que adianta, meu “eu” pergunta,
Dizer que eu quero, dizer que eu sinto,
Se do outro lado do mundo
Ela está em outra?
Pareço irrequieto, tentando esperar
O momento certo de me declarar,
Mas já passou o tento, já passou o momento
E eu, com meu “eu”, respondo,
Já sei…

Ainda, porém, a amo demais,
Amo tudo que veio dela
Tudo que sua memória me traz
Até os vendavais

De que adianta chorar o ontem
Se hoje já chegou a passar?
E do outro lado do universo
Ela se põe a chorar
E eu a tagarelar
Implorar por mais um dia
Mais um mês, uma semana
E eu me contesto, no contexto,
Já sei…

Ainda porém, a quero demais,
Quero tudo que escorre dela,
Tudo que sua presença me faz,
Até os temporais,

Então, de que adianta pedir ao tempo
Que se apure em passar,
Se meu peito é quem manda
Minha dor, paixão e ar?

RF

Monday, August 23, 2010

Famosos no Exterior, Famosos na Terra Natal

Neste passado Sábado me juntei à plateia de imigrantes brasileiros no Sul da Flórida no Colony Theater, localizado no coração da movimentada Lincoln Road no centro de Miami, para prestigiar o encerramento do décimo-quarto Festival de Cinema Brasileiro na Flórida e a apresentação da impecável Maria Gadu. Foi paixão à primeira vista, bem como foi, no melhor dos sentidos, a apresentação de Lenine encerrando o mesmo evento há quatro anos atrás. Na ocasião, meu texto sobre o espetáculo me rendeu a oportunidade de ter meus textos publicados periodicamente no maior jornal para imigrantes da região, o Achei USA. Pudera, a presença de Lenine me inspirara e transcendi a inspiração ao texto. Não conhecia o artista antes disso, mesmo vivendo no Brasil nos anos antecedentes.

Maria Gadu, nascida Mayra Aygadoux, me causou a mesma excelente impressão. Perguntando aos amigos e amigas ainda morando no Brasil descobri que a intérprete de 23 anos é relativamente conhecida no país. Nascida em São Paulo, no entanto, em 2007 foi convidada pelo amigo e percussionista de sua banda, Doga, à Europa, onde verdadeiramente iniciou sua carreira. Gadu já cantava suas composições e interpretava canções internacionais ou regionais desde a infância. Foi no início de sua adolescência que compôs um de seus maiores sucessos, “Shimbalaiê”, enquanto contemplava um por-do-sol. Apesar de sua raíz brasileira forte, apenas voltando da Europa e juntando-se a amigos de infância ligados a Jayme Monjardim Matarazzo e fazendo-se ouvir pelo diretor, produtor e cineasta “herdeiro” de Maysa, a diva brasileira, é que sua carreira decolou.

Foi convidada por Monjardim para interpretar a canção “Ne Me Quittes Pas” de Jacques Brel (1959), também cantada por Maysa, na minissérie da Rede Globo, além de fazer uma ponta como atriz na mesma obra. Primeiro conquistou e aprendeu a Europa, e só depois fez o mesmo no Brasil. Lenine tem um conto parecido. Apesar de ter arrebentado entre brasileiros e estrangeiros especialmente na Europa, só fez sucesso no país natal algum tempo depois.
Enquanto a fama de artistas dos mais originais da terra da “Independência ou Morte” borbulha fora da pátria, a pátria às vezes demora a pescar as bolhas.

Assisti ao bloco do CQC em que Rafael Cortez entrevistava Lenine e em tom sarcástico acusava a “auto-venda” do compositor às novelas que mal assiste. Não fossem as novelas, contudo, Lenine jamais seria famoso. E aqui não há intenção de degradar nenhum estilo musical, apenas elevar alguns que por qualquer motivo acabam rendendo mais fora do Brasil do que dentro mesmo representando o melhor que há nele. No caso dos estilos MPB, Bossa Nova, Jazz e Blues, a arte parece primeiro romper a barreira do exterior para respingar de volta ao interior da nação.

De certo modo, isso me remete ao futebol e aos acontecimentos esportivos no Brasil nos próximos seis anos. Desde que o santista Neymar recusou ofertas do exterior a polêmica sobre a exportação de talentos esportivos ao invés de seu maior rendimento dentro do país aumentou, e esquentou ainda mais com a declaração de Felipe Scolari, técnico do Palmeiras: “Se fosse meu time, eu vendia.”

No futebol existe a questão da valorização tanto física quanto financeira do atleta quando joga em equipes de prestígio na Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Itália, especialmente. No entanto, como a próxima Copa do Mundo e as futuras Olimpíadas serão hospedadas pelo Brasil existe também a questão da identidade do atleta e sua valorização regional. Mesmo assim, parece ocorrer algo similar a outros campos, como o artístico: A valorização precisa vir de fora para que haja o reconhecimento interno, como o reconhecimento da FIFA e do COI.

Porém, o outro lado da navalha contribui ao reino das ideias no liberalismo institucional e construtivismo. Segundo o primeiro paradigma, a arte brasileira (ou seu futebol) são instituições que incrementam as relações internacionais e contribuem a uma certa organização através da comunicação e assimilação de ideias novas em um ambiente global caótico. Já para construtivistas não há como “mudar” o mundo sem que ideias novas sejam suficientemente difundidas, e no caso da arte brasileira descoberta fora do Brasil é exatamente o que ocorre, a difusão de novas ideias através de novas vozes, nomes, escritos e atletas. Nesse reino “abstrato” de relações humanas o Brasil não de hoje consegue vender-se em estilo ao exterior, projetando assim uma imagem cada vez mais clara da hegemonia Sul-Americana.

Nós, que por hora ou para sempre vivemos no exterior agradecemos a globalização nesse sentido. É um enorme privilégio apreciar Maria Gadu mesmo não a tendo apreciado desde seu lançamento real em 2008, mesmo tendo visitado o Brasil duas vezes e acumulando mais de dois meses nesse período. Posso falar de Gadu para brasileiros que vivem nas capitais do país e que jamais souberam de sua existência, mesmo que conheçam, nem sabem exatamente de onde, sua interpretação de “Ne Me Quittes Pas” através da minissérie Maysa.

A inspiração, ao menos, nada tem de abstrata. Tenho o coração, a mente e o corpo mais leves e mais apaixonados depois de ouvi-la. Sei que é essa a reação causada quando todos veem o que melhor tem a oferecer os brasileiros em qualquer lugar do planeta.

RF

Thursday, August 19, 2010

Ninguém

Gosto de Ninguém porque Ninguém me tem
Ninguém me ama também,
E se Ninguém me ama,
Ninguém é minha dama,
E minha dama é minha ama,
Minha Ama é Ninguém.

Monday, August 16, 2010

Distantes

Hollywood finalmente descobriu o tema moderno das relações à distância e lança um filme sobre o assunto (Going The Distance, Nanette Burstein, Setembro de 2010). Isso talvez signifique que essa espécie de relações geralmente criticada no passado comece a ganhar espaço no cotidiano nacional. Pelas facilidades tecnológicas e pela realidade “virtual” disponível, encontrar alguém que se enquadre nas qualidades que procuramos passa a ser uma tarefa por um lado mais fácil (há mais lugares no mundo além do qual você se encontra para encontrar um romance) e por outro muito mais complexa (o leque de possibilidades aumenta, mas a distância segue a mesma).

É mais fácil do que nunca viajar ao destino do/da amado/a, há cada vez mais passagens de avião, barco, helicóptero e ônibus que se encaixem no nosso orçamento, e por causa da mesma realidade “virtual” podemos compartilhar sons e imagens ao vivo estando cada amante do lado oposto do planeta. A telefonia também melhorou bastante na última década.

Relações à distância ganham cada vez mais espaço nas realidades “reais” de nossos cotidianos. Mais e mais pessoas se rendem à arte de encontrar afinidades em escritores de blogues, em salas de bate-papo “virtuais” e em outros ambientes cibernéticos (salas de debates "virtuais" e comentários de blogues, como foi meu caso). As distâncias não diminuíram, mas encurtaram imitando a canção de Gilberto Gil (Antena Parabólica): “Antes mundo era pequeno, porque terra era grande… Hoje mundo é muito grande, porque terra é pequena.”

Não há dúvida de que quando falamos sobre relações internacionais no reino das ideias do liberalismo institucional, precisamos falar de romances internacionais também.

Afinal, além do chamado “brain drain”, quando alunos de um país em desenvolvimento estudam em um país desenvolvido e, ao conquistarem o diploma voltam para suas terras natais; além do processo migratório em todos os seus ciclos e além da inter-dependência crescente entre estados-nações, também temos a confluência de sentimentos, pensamentos, ideias e ideologias (ou ideais) casados entre duas pessoas de regiões distintas do planeta. Esse casamento no sentido figurado (ou literal) proporciona uma miscigenação cultural ainda maior. Chega até a ser comum que um brasileiro se case com uma sueca na Irlanda, ou que uma canadense encontre um francês na Colômbia e assim por diante.

As desvantagens são claras: A distância impede a intimidade maior, a convivência intrínseca com o/a amado/a, as carícias físicas que tanto fazem falta, o apoio concreto em horas de necessidade e regozijo intenso em horas de comemoração, além do dinheiro gasto em cada investida de reaproximação. As vantagens? Encontra-se alguém que há quinze anos não se encontraria, mesmo que essa pessoa esteja em outro polo do universo conhecido e fora de alcance material. Trabalha-se e conversa-se os planos muito antes da chance de concretizá-los, dando assim tempo para saber se era isso mesmo o que se queria e esperava, ou se era outra coisa. Conhece-se a pessoa em seu lado mais psicológico (espiritual, para os que preferirem) que sexual/físico em primeira instância, e a comunicação precisa beirar o perfeito se a relação promete durar.

A maior desvantagem de um relacionamento à distância passa a ser a vivência de dois lugares ao mesmo tempo, logo a falta de concentração em um único lugar. Se estou em Miami, meu coração por quatro anos esteve em Belo Horizonte sem que pudesse de fato me mudar à capital mineira, mas sem que pudesse vivenciar meu cotidiano em Miami com o devido foco.

Relacionamentos, no entanto, começam e terminam às vezes sem grandes necessidades de explicações maiores. A distância pode ser substituída por outros defeitos ou qualidades quando a relação dá-se em um único espaço físico. Não é ela que proporciona nem freia romances e amores verdadeiros. Apesar da distância (é claro, desde que o plano seja algum dia juntar os dois corpos em uma mesma cidade, no mínimo), o término não ocorre por causa dela. Pode até acrescentar às dificuldades, agravá-las, mas não causa por si só, geralmente, inícios ou fins.

Gosto da música de Alanis Morisette Out is Through na qual a cantora escreve sobre como relacionamentos tendem a ter os mesmos problemas, começar de modos similares e terminar por motivos semelhantes, e como talvez o único modo de “sair” dos problemas de um relacionamento seja “atravessá-los” e não rompê-los. Acredito que, enquanto há sentimentos e as falhas não sejam das mais graves (violência doméstica, abuso etc), trabalhar a relação seja o modo mais fácil de evitar tanto a solidão quanto decepções futuras. Mas também acredito que as pessoas mudam com o tempo. Isso é algo que a distância justamente ajuda a mascarar. A mudança às vezes acontece não enquanto estamos dormindo, mas enquanto estamos acordados em nossa própria casa assistindo televisão e nosso/a parceiro/a passando revertérios intransferíveis.

Tive o privilégio de ser namorado de uma pessoa que jamais conheceria não existisse a via cibernética, e não importa o que o futuro nos traga, já trouxe um belo passado. A moral da história para mim é que amar é ilimitado, as formas de amar e os motivos que nos fazem amar também. A isso jamais subtraímos, apenas somamos, e sempre há o que somar. Já os fins existem e precisam existir para que existam novos começos.

E você? O que pensa sobre relações à distância?

RF

Wednesday, August 04, 2010

Ode a menos "outros"

Anunciaram recentemente que na Califórnia a proibição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (a chamada Proposição 8) foi efetivamente cancelada e julgada inconstitucional pelas normas do estado. Um passo para frente à futura geração de homossexuais foi mais uma vez dado, dessa vez no liberal estado da Califórnia que tem a cidade de São Francisco, talvez a mais gay se não contarmos South Beach. Historicamente, “If You’re Going to San Francisco,” de Rodney Atkins (“Se você vai a São Francisco”) marca uma geração que sabia que “encontrar pessoas gentis”, ou homossexuais no linguajar poeticamente correto da época na cidade californiana, era a regra da região.

O mesmo passo foi dado adiante na América Latina iniciando pela Argentina que, em 22 de Julho, legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A população brasileira ainda se divide e, de acordo com o centro de pesquisas, anda na margem de erro favorável a um ou a outro. Porém, o mundo parece mudar em um sentido de quebra de parâmetros com a constante diminuição do “outro”. O “outro” nos Estados Unidos, terra que supostamente aceita todos e tudo – o que é intrinsecamente debatível – era o homossexual, e ainda que a tendência mundial com a saída de George W. Bush da Casa Branca fosse inclinar-se ao liberalismo, isto não ocorreu dentro do país como o esperado.

A “esquerda” ainda assim ganha forças com o crescimento do liberalismo, de certo modo, mas este liberalismo no sentido de comportamento social não é uma simples questão de paradigmas políticos.

A maioria das pesquisas que vi em distintos países mostrava uma clara linha fina entre aqueles que apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e os que contratriam. A discórdia social sobre o moralmente correto é ainda questionável. Ainda há muitos em qualquer dos países que total ou parcialmente legitimaram o ato homossexual que contrariam moralmente a regra por motivos religiosos ou simplesmente normativos. Em cidades rurais da própria Flórida a menção da homossexualidade pode ser punida com a morte. A realidade é menos engraçada do que a retratada no cinema.

A diferença é que a lei está finalmente cumprindo sua função e institucionalizando o “outro”, assim conformando-se à pura realidade, algo que ainda há de ser feito em relação a tantas outras áreas em tantos outros lugares do mundo. Talvez outra diferença do atual neo-liberalismo seja a transição do passado otimista apesar de positivista ao que finalmente cria ideias (como a comunicação via Internet) tão poderosas que recriam, por si, uma nova realidade mundial.

Assim, ainda acredito que independente das pesquisas a grande maioria já aceita menos “outros” e mais “alguéns” em suas vidas no mundo todo do que em qualquer outra época que pudermos citar em nossa ínfima história.

Transparece daí que pessoas de cores diferentes, de religiões diferentes, de etnias diferentes e preferências sexuais diferentes são as mesmas perante a lei não apenas para a punição, mas também para os direitos que esta confere. Um passo grande em uma grandiosa caminhada que alguns já percorreram sozinhos, literalmente cruzando a pé os Estados Unidos, testemunhando gangues de Klu Klux Klan e ativistas negros discutindo a gritos e insultos cada um de lado da rua oposto, separados pela polícia, e onde foram bem recebidos mesmo sendo homossexuais até mesmo pelos mais inocentes opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo; um passo grande a ser dado não apenas por esses ativistas, mas por todos nós, em nossas mentes e corações, enquanto lutamos pelo “outro” enquanto o “outro” não se tornar nenhum de nós.

Aos meus amigos e amigas gays espalhados pelo planeta: Parabéns pela vitória, a guerra, pressinto, será vencida dessa vez.

RF

Tuesday, July 27, 2010

De volta ao Cotidiano (ou Uma Viagem que Teve Fim)

Sinto voltar do Brasil, honrosos leitores e nobres leitoras, com o tom solene que sempre tive. A viagem por 41 dias foi extensa, repleta de revertérios em todos os seus piripaques, recheada de boas memórias e lembranças excepcionais. O Brasil que encontrei certamente era o mesmo de quando o deixei, mas eu mudei, e mudaram todos à minha volta, uma tendência genuinamente humana. Não mudei para o melhor em tudo que gostaria ou no que poderia, mas em alguns pontos mais do que imaginava. Assim, o mundo mudou comigo, o Brasil mudou comigo e enxerguei tudo com novos olhos mesmo sendo os velhos de sempre.

Devia estar acostumado às mudanças sendo o nômade que sempre fui, mas não me acostumo com facilidade à falta de algo que tive por quatro anos, essa ida e vinda, as recepções de minha ilustre convidada, esse relacionamento intenso com o país mesmo estando longinquo de suas terras. É algo que ainda tenho e preciso relembrar sua posse mesmo que me fuja à memória vez em outra, mas que já não é mais o que era antes.

Apesar disso, ainda vi um Brasil vistoso, sinuoso, tentador, ao mesmo tempo carregando defeitos coloniais e primitivos, assim carregando também um modernismo como o nem ocorrido ao futuro.

Em Belo Horizonte, vivi uma cidade em expansão total, construções por todas as partes, sonhos de um consumo que aumenta e cresce com a qualidade de vida de cidadãos brasileiros. Comi as mesmas e outras comidas que, como na vez anterior, roubaram meu apetite para todo o sempre que me resta. Bebi da mesma cerveja que, no ano anterior, ainda me era quase proibida, mas seduziu meu paladar enquanto o álcool apaziguava a mente. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor,” diria Chico Science em sua Nação Zumbi.

Em São Paulo, Gan-Ananda mais do que nunca magistral me recebeu de portas abertas. Os cinco cães latindo em nossa jubilosa recepção, e o bucólico envolvente que sempre me atraiu e atrairá. Meu melhor amigo canino, no entanto, vê-se enjaulado pela idade e por própria defesa, já que os mais novos procuram massacrá-lo em troca da liderança da matilha, e Luar jamais foi de levar desaforos para casa. Leva-os, agora, à jaula que lhe será casa até o fim de sua história nesta Terra. Assim é a vida nas chácaras e nos campos dos interiores.

Infelizmente, São Paulo, a Capital, não me foi tão cordial. Fétida, espirrava seus esgotos na minha cara enquanto passeava por suas ruas sujas, populadas pelos desesperados e inatendidos da cidade. Quando acompanhava alguém de carro, fosse táxi ou pessoal, rodava à menos velocidade do que percorria uma carruagem imperial, ou assim contam dois gêmeos jornalistas que muito me agradaram ainda em Belo Horizonte. Tão vagoroso é o trânsito de São Paulo e tanta insegurança expelida pelos noticiários da nação, já isso por suas ruas melindrosas, que a violência é um ato constante em agressões distintas, ora físicas, ora verbais, ora auditivas, ora olfativas e ora emocionais. O Brasil é violento por natureza, mesmo sendo pragmaticamente pacífico.

Ouvi duas boas notícias que resumem minha percepção sobre o futuro do estado brasileiro. A primeira, baseada em estudos da revista The Economist, dita que a miséria crônica deve ser erradicada do país em dez anos. Sugiro que apenas assim possamos realmente começar a falar sobre outros temas, incluindo a infra-estrutura. Seja quem for o próximo presidente (ou Senhora Presidente) do Brasil nos próximos quatro a oito anos, deverá se preocupar em não mudar essa trajetória particular. Educação, saúde e infra-estrutura em desenvolvimento tampouco fariam mal, mas a miséria crônica precisa deixar de existir em qualquer região que pretende o verdadeiro e duradouro desenvolvimento. A segunda boa nova é o projeto de lei federal que proibirá o espancamento de pais e mães a seus filhos e filhas. Por espancamento explique-se bater para educar, algo que nos Estados Unidos já existe há muitos anos, controverso, é certo, mas que acho essencial para que possamos começar a discutir a própria educação. Por essas duas notícias entendo o futuro brasileiro, algo em meu externo. Prossigo recontando de minhas jornadas internas, pois.

Talvez pelos próprios pesos, aproveitei menos o que o país tem a me oferecer de melhor, mas acredito ter aproveitado o que provei. Pudera, antes de viajar tive minha casa arrombada e todos os meus pertences furtados, portanto tendo de me mudar a uma região mais segura em plenos Estados Unidos. Ainda no Brasil, os piripaques começaram: O melhor amigo de meu pai sofreu uma parada cardíaca, com duas artérias quase inteiramente entupidas. Outro de seus amigos mais antigos sofre a insolência de um câncer que já carcomeu muita de sua qualidade de vida. Cheguei com minha anfitriã amada gripada, seu filho gripado, e logo gripei depois de injetado com a vacina contra a gripe suína, marrano que certamente sou. Minha anfitriã ainda sofreu uma crise no apêndice e teve de gentilmente doá-lo ao cirurgião de um hospital na capital mineira. Acompanhei - mesmo necessitando de um certo apelo para evitar meus internos transtornos -seus passos até que pudesse dá-los mais por si.

Logo chegou a hora de dizer adeus, não sem a inconveniência de outras gripes, outras cirurgias e outras mortes. Para mim, o sombrio do tempo que se passara mais rápido do que quis e mais devagar do que me arrependo ter desejado estava estampado no ar. O Brasil perdeu uma das copas mais feias da história do esporte. O mundo escureceu com a morte de José Saramago. A política perde cada vez mais a pouca sanidade que clama ter. O Flamengo perdeu seu goleiro e Eliza Samudio perdeu a vida. O Brasil fica ligado nas notícias, nos crimes, nas esperanças falsas das novelas, mas eu não soube reclamar e, mesmo sem reclusão, incomodei quem não devia com meus incômodos internos.

Vi grandes e pequenos, a maioria trabalhadores, batalhadores, outros mais preguiçosos, criminosos e/ou não. Vi muitos dos que amei e outros que vim a amar depois de tê-los visto por primeira vez. Vi um Brasil mais verde-e-amarelo que antes em meus trinta anos de Brasil, a noção do patriotismo mais viva do que nunca na boca do povo. Vi o perigo e estive bem acompanhado para enfrentá-lo. Vi salvações e pude apreciá-las com as pessoas certas, mesmo tendo ignorado algumas destas.

Mas volto, de certo jeito, de mãos vazias a uma Miami que tampouco mudou. Quem mudou fui eu e ainda reluto, em luto, para acostumar-me às mudanças. Sei que o que deixei no Brasil ficará lá até minha volta, mas que já não serei o mesmo quando voltar, e nem serão eles e elas os mesmos que achei há quatro ou mais anos, ou há alguns dias ou poucas semanas atrás.

Volto com um galo na cabeça que não quero que deixe de cantar, com um beijo mordido, de coração explodindo de muitos amores e alguns arrependimentos, sabendo que pude ser melhor quando fui pior, mas sabendo acima de tudo que o que se ama é, talvez, o único que nunca muda, não importa o quanto mudemos todos nós.

RF

Tuesday, July 13, 2010

Dia Mundial do Rock N Roll

Das pedras que rolam, o mundo mudou muito desde Chuck Berry, Elvis Presley, The Beach Boys e os Beatles. Provavelmente a arte contemporânea que mais mudou o mundo comemora hoje seu dia mundial.

E vocês? Qual é o top 10 Rock n Roll de suas vidas? Postem nos comentários se estiverem com vontade, mas se não, “stick to the man!”

Friday, June 18, 2010

Digo adeus porque posso

Saravá, Gigante Saramago. Alguns me perguntam por que sinto a necessidade de contestar ou discutir ou até mesmo brigar com opiniões alheias (apesar de meu respeito eterno pela liberdade de expressão e de achar que toda e qualquer opinião é necessária a um debate íntegro sobre qualquer produto da condição humana contraditória) sempre que as encontro. Em nome do grande escritor de nosso idioma, o único nobelista, respondo hoje, aqui e de uma vez por todas:

1 – Porque quando há injustiça, discórdia ou agressão à realidade, a única coisa que me resta é a palavra, especialmente a escrita.

2 – Porque escritores e pensadores como Saramago assim me permitem. Faço porque posso, e ponto final. Espero algum dia fazer melhor.

Abrax,

RF