Tuesday, July 27, 2010

De volta ao Cotidiano (ou Uma Viagem que Teve Fim)

Sinto voltar do Brasil, honrosos leitores e nobres leitoras, com o tom solene que sempre tive. A viagem por 41 dias foi extensa, repleta de revertérios em todos os seus piripaques, recheada de boas memórias e lembranças excepcionais. O Brasil que encontrei certamente era o mesmo de quando o deixei, mas eu mudei, e mudaram todos à minha volta, uma tendência genuinamente humana. Não mudei para o melhor em tudo que gostaria ou no que poderia, mas em alguns pontos mais do que imaginava. Assim, o mundo mudou comigo, o Brasil mudou comigo e enxerguei tudo com novos olhos mesmo sendo os velhos de sempre.

Devia estar acostumado às mudanças sendo o nômade que sempre fui, mas não me acostumo com facilidade à falta de algo que tive por quatro anos, essa ida e vinda, as recepções de minha ilustre convidada, esse relacionamento intenso com o país mesmo estando longinquo de suas terras. É algo que ainda tenho e preciso relembrar sua posse mesmo que me fuja à memória vez em outra, mas que já não é mais o que era antes.

Apesar disso, ainda vi um Brasil vistoso, sinuoso, tentador, ao mesmo tempo carregando defeitos coloniais e primitivos, assim carregando também um modernismo como o nem ocorrido ao futuro.

Em Belo Horizonte, vivi uma cidade em expansão total, construções por todas as partes, sonhos de um consumo que aumenta e cresce com a qualidade de vida de cidadãos brasileiros. Comi as mesmas e outras comidas que, como na vez anterior, roubaram meu apetite para todo o sempre que me resta. Bebi da mesma cerveja que, no ano anterior, ainda me era quase proibida, mas seduziu meu paladar enquanto o álcool apaziguava a mente. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor,” diria Chico Science em sua Nação Zumbi.

Em São Paulo, Gan-Ananda mais do que nunca magistral me recebeu de portas abertas. Os cinco cães latindo em nossa jubilosa recepção, e o bucólico envolvente que sempre me atraiu e atrairá. Meu melhor amigo canino, no entanto, vê-se enjaulado pela idade e por própria defesa, já que os mais novos procuram massacrá-lo em troca da liderança da matilha, e Luar jamais foi de levar desaforos para casa. Leva-os, agora, à jaula que lhe será casa até o fim de sua história nesta Terra. Assim é a vida nas chácaras e nos campos dos interiores.

Infelizmente, São Paulo, a Capital, não me foi tão cordial. Fétida, espirrava seus esgotos na minha cara enquanto passeava por suas ruas sujas, populadas pelos desesperados e inatendidos da cidade. Quando acompanhava alguém de carro, fosse táxi ou pessoal, rodava à menos velocidade do que percorria uma carruagem imperial, ou assim contam dois gêmeos jornalistas que muito me agradaram ainda em Belo Horizonte. Tão vagoroso é o trânsito de São Paulo e tanta insegurança expelida pelos noticiários da nação, já isso por suas ruas melindrosas, que a violência é um ato constante em agressões distintas, ora físicas, ora verbais, ora auditivas, ora olfativas e ora emocionais. O Brasil é violento por natureza, mesmo sendo pragmaticamente pacífico.

Ouvi duas boas notícias que resumem minha percepção sobre o futuro do estado brasileiro. A primeira, baseada em estudos da revista The Economist, dita que a miséria crônica deve ser erradicada do país em dez anos. Sugiro que apenas assim possamos realmente começar a falar sobre outros temas, incluindo a infra-estrutura. Seja quem for o próximo presidente (ou Senhora Presidente) do Brasil nos próximos quatro a oito anos, deverá se preocupar em não mudar essa trajetória particular. Educação, saúde e infra-estrutura em desenvolvimento tampouco fariam mal, mas a miséria crônica precisa deixar de existir em qualquer região que pretende o verdadeiro e duradouro desenvolvimento. A segunda boa nova é o projeto de lei federal que proibirá o espancamento de pais e mães a seus filhos e filhas. Por espancamento explique-se bater para educar, algo que nos Estados Unidos já existe há muitos anos, controverso, é certo, mas que acho essencial para que possamos começar a discutir a própria educação. Por essas duas notícias entendo o futuro brasileiro, algo em meu externo. Prossigo recontando de minhas jornadas internas, pois.

Talvez pelos próprios pesos, aproveitei menos o que o país tem a me oferecer de melhor, mas acredito ter aproveitado o que provei. Pudera, antes de viajar tive minha casa arrombada e todos os meus pertences furtados, portanto tendo de me mudar a uma região mais segura em plenos Estados Unidos. Ainda no Brasil, os piripaques começaram: O melhor amigo de meu pai sofreu uma parada cardíaca, com duas artérias quase inteiramente entupidas. Outro de seus amigos mais antigos sofre a insolência de um câncer que já carcomeu muita de sua qualidade de vida. Cheguei com minha anfitriã amada gripada, seu filho gripado, e logo gripei depois de injetado com a vacina contra a gripe suína, marrano que certamente sou. Minha anfitriã ainda sofreu uma crise no apêndice e teve de gentilmente doá-lo ao cirurgião de um hospital na capital mineira. Acompanhei - mesmo necessitando de um certo apelo para evitar meus internos transtornos -seus passos até que pudesse dá-los mais por si.

Logo chegou a hora de dizer adeus, não sem a inconveniência de outras gripes, outras cirurgias e outras mortes. Para mim, o sombrio do tempo que se passara mais rápido do que quis e mais devagar do que me arrependo ter desejado estava estampado no ar. O Brasil perdeu uma das copas mais feias da história do esporte. O mundo escureceu com a morte de José Saramago. A política perde cada vez mais a pouca sanidade que clama ter. O Flamengo perdeu seu goleiro e Eliza Samudio perdeu a vida. O Brasil fica ligado nas notícias, nos crimes, nas esperanças falsas das novelas, mas eu não soube reclamar e, mesmo sem reclusão, incomodei quem não devia com meus incômodos internos.

Vi grandes e pequenos, a maioria trabalhadores, batalhadores, outros mais preguiçosos, criminosos e/ou não. Vi muitos dos que amei e outros que vim a amar depois de tê-los visto por primeira vez. Vi um Brasil mais verde-e-amarelo que antes em meus trinta anos de Brasil, a noção do patriotismo mais viva do que nunca na boca do povo. Vi o perigo e estive bem acompanhado para enfrentá-lo. Vi salvações e pude apreciá-las com as pessoas certas, mesmo tendo ignorado algumas destas.

Mas volto, de certo jeito, de mãos vazias a uma Miami que tampouco mudou. Quem mudou fui eu e ainda reluto, em luto, para acostumar-me às mudanças. Sei que o que deixei no Brasil ficará lá até minha volta, mas que já não serei o mesmo quando voltar, e nem serão eles e elas os mesmos que achei há quatro ou mais anos, ou há alguns dias ou poucas semanas atrás.

Volto com um galo na cabeça que não quero que deixe de cantar, com um beijo mordido, de coração explodindo de muitos amores e alguns arrependimentos, sabendo que pude ser melhor quando fui pior, mas sabendo acima de tudo que o que se ama é, talvez, o único que nunca muda, não importa o quanto mudemos todos nós.

RF

3 comments:

Halem Souza said...

Roy, concordo que a erradicação da miséria por aqui deve ser o ponto principal da agenda política (de qualquer linha partidária) nos próximos anos: não há possibilidade de vida civilizada com a barriga vazia.

Mas discordo que o Brasil seja violento por natureza. O Brasil é violento, em termos de nação, como todo o planeta é(com exceção da Escandinávia, hehehe...). Só que aqui a violência se juunta a uma desigualdade de renda brutal (o que, certamente, agrava essa violência). E falo isso sem nenhum desejo de parecer patriota.

Falando em patriotismo, não notei esse sentimento com tanta intensidade nesses últimos meses não. E, nesse caso, o olhar de quem vem de fora do país tem melhores condições de fazer o "diagnóstico".

Fico feliz que os problemas de saúde tenham sido superados. Vida que segue.

Boa sorte na volta aos EUA. Continuamos por aqui, acompanhando.

Um abraço.

Roy Frenkiel said...

Halem, concordo plenamente com todas as suas definicoes, e isso que tambem sou patriota de todas as patrias que tenho. Na verdade, talvez tenha me expressado mal. O que quis dizer e que o Brasil e pacifico no relmo das relacoes internacionais, mas nao e mais pacifico do que os Estados Unidos, por exemplo, se voce dissecar a realidade domestica do pais. A violencia existe e e extremamente presente na vida das pessoas, mesmo que muita gente consiga ignora-la. Enquanto os Estados Unidos sao belicos para fora, o Brasil tende a ser "belico" para dentro.

Mas tem uma coisa que eu nao mencionei. Como disse a Lili, acredito que a maioria das pessoas seja de bem, e sofrem muitos pelas pirracas de poucos. Acho que o nao mais poder "bater para educar" pode ajudar um pouco a evitar que algumas pessoas de bem caiam ao lado do mal.

Quanto ao patriotismo, na verdade e algo subjetivo. Cheguei em epoca de copa, e ao contrario de antes, mesmo depois do Brasil perder muita gente ainda usava a camisa da Selecao. A recepcao aos jogadores foi mais calma do que todas as vezes passadas que eu vi. Mas nao so no ambito da Copa, parecia que era mais natural ostentar a bandeira, e parece que a propaganda nacional (muito voltada a campanha de Dilma, esta certo), parece apoiar mais do Brasil pelo bem do brasileiro. Conversando com a secretaria da casa, ela me disse que as pessoas andam encarando mais a sujeira nas ruas (especialmente em BH, que alaga pelo entulho) com menos complascencia, e assim por diante.

Espero estar certo, nao porque acredito que ser patriota vale alguma coisa, mas pelo minimo de respeito que uma pessoa precisa ter de sua propria casa.

Abraxao, e obrigado pelos melhores votos. Espero voltar ao Brasil em breve.

RF

Roy Frenkiel said...

Em tempo, faleceu ontem o amigo de papai (e meu tio) que sofria de cancer.

Que descanse em eterna paz,

RF