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Thursday, September 23, 2010

De Fora para Dentro

Na camada das ideias democráticas também existe ilusão ótica. O que uns enxergam redondo, outros vem quadrado. De fato, às vésperas das eleições nos Estados Unidos e no Brasil, as experiências sensoriais – apesar de aparecerem as percepções em conglomerações de ideias – diferem uma da outra. Em seis anos de moradia contínua fora do Brasil cada vez que converso sobre a situação brasileira com brasileiros na terra natal, fora dela e em foros de debates virtuais encontro opiniões extremamente diferentes uma da outra. Um grita branco, o outro vermelho, e sempre tem um imbecíl que atiça fogo em pano rosa só para causar pânico.

Parte da população brasileira, por exemplo, parece satisfeita com os avanços sociais e políticos brasileiros dos últimos dez anos. Já outra parte demonstra o desejo sórdido de fugir para as colinas em pio temor ao fim do mundo. Caso estivessemos falando de classes sociais diferentes opinando, compreenderia melhor o disparate. Entretanto, o que vemos é que pessoas de situações financeiras idênticas, níveis educacionais idênticos e participações diretas no processo democrático idênticas opinam o oposto quando singelamente abrem as janelas de suas casas e atiram o olhar para a rua. Cão sem dono…?

É impossível que ambos os lados estejam certos, e as perspectivas opostas traçam-se nos mesmos setores. Há pessoas que acreditam que a igualdade social no Brasil realmente cresceu e outros que dizem que a desigualdade aumentou. É impossível que ambas visões estejam concomitantemente certas. Há os que dizem que o Brasil está em processo acelerado de desenvolvimento, equiparando condições de vida nos Estados Unidos a condições de vida no Brasil. Outros dizem que o Brasil está se tornando um estado totalitário e criando pessoas preguiçosas e improdutivas. Ambos não podem, ao mesmo tempo, estarem certos. Impossível.

Mitos

Nesses últimos três anos perdi a capacidade sentimental de devanear ideologias, o que me entristece, de certo modo, mas quando só estou com meus chips entre quatro paredes e a luz apagada consigo dormir mais tranquilo. Ainda assim, ignorar posições ideológicas é simplesmente impossível. Mesmo quase completamente por fora do que ocorre politicamente no Brasil para essas eleições (salvo opiniões de amigos conceituados quando estive no Brasil e uma ou outra notícia pingada), leio as maiores estapafúrdias em discursos ideológicos em foros de debate virtuais. Mesmo aquém da ideologia, ou além dela, as opiniões às vezes parecem tiradas de um livro de ficção científica, uma moderna e fabricada “torre de Babel”. É o que ouço nas mesas dos botecos brasileiros, nas casas de meus amigos e familiares nos Estados Unidos e no Brasil. Três pessoas juntas conversando em três idiomas.

São esses absurdos proferidos que me fazem perguntar se estar tão sentimentalmente “perto” de uma situação não nos faz perder a objetividade e justo juízo. Afinal, muito pode haver de errado na conduta política brasileira (acreditem, eu sei e opino isso fortemente), mas nunca em trinta anos vi um governo menos corrupto e menos “oligárquico” do que o próximo ou o passado. Todos monopolizaram, roubaram e enganaram seus constituintes. O de Lula sequer recorde em calamidades conquistou, logo por favor com esse desespero infantil.

Nos setenta dias que passei em solos mineiros e paulistas em seis anos não senti um país menos livre, e sim mais livre. Não senti um país menos patriota, e sim significativamente mais respeitoso à própria dinâmica de propriedade pública do que antes.

A violência, é claro, piorou. Assim também a falta contínua na infraestrutura ainda apresenta graves problemas - mesmo com o gargalo da infraestrutura melhor abastecido - que somados à explosão populacional geram mesmo mais violência, mais problemas relacionados ao trânsito social comum e mais problemas de super-crescimento urbano. Não vi, no entanto, um país pior do que o que antes via. Até admito que há alguns detalhes que tornam minha vivência no Brasil mais difícil depois de ter me mudado para os Estados Unidos, mas mesmo em detalhes há clara melhoria.

Além disso, a experiência nos Estados Unidos de total desapego ao próximo e péssima intra-identificação social parece querer invadir a mente de indivíduos de camadas sociais mais abastadas. Agora é moda dizer que quem está feliz com Lula “quer mamar nas tetas do governo”.

Pois, no Brasil conversei com taxistas (especialmente em São Paulo, como muitos sabem, ótimas referências políticas), porteiros de edifícios e empregadas domésticas, nenhum “mamante das tetas do governo”, todos trabalhadores árduos por salários melhores do que os que ganhavam no passado, e todos satisfeitos com a assistência social do governo de Lula. Se esse populismo é bom para o Brasil nos próximos anos é outra conversa, mas dizer que o Brasil está “sequestrado pela esquerda” é justamente enxergar-se de tão perto que embaçado.

A esquerda, no entanto, não é isenta. Com clamores de que a “mídia golpista” isso e aquilo apenas perdem a compostura. Se a mídia fosse mesmo golpista, Lula não teria sido eleito. Golpes que falham mediante a capacidade de um não-governo não são golpes, são gases. A mídia brasileira é, realmente, mercantilista e anti-mercantilista, dependendo do dia e de seus próprios interesses.

Mas golpista… Novamente, golpista seria se às portas de Outubro Dilma não estivesse com a bola que está, e se Lula não regozijasse da popularidade que tem. A camada majoritária agora aceita e quer esse populismo, e não o contrário. A minoria agora é “os outros”.

Que vês?

E o estrangeiro no exterior (o estrangeiro no Brasil também é importante, mas falemos sobre os que jamais sequer pisaram o solo brasileiro)? Em minha terceira aula de especialização na América Latina, encontro perspectivas de norte-americanos, europeus e latino-americanos de outros países do sul das Américas que percebem um crescimento ululante no país. Exaltam o investimento em educação (a tão criticada educação) nos últimos trinta anos, a capacidade inovativa brasileira, o crescimento tecnológico especialmente no setor energético com a disseminação do etanol, o crescimento econômico relativamente estável da última década e a participação mais ativa do Brasil como hegemonia Sul-Americana. Não que essa exaltação não possa partir da mesma motivação da exaltação de Pinochet no passado, pois pode, mas ao mesmo tempo há motivos concretos para que a percepção leve à admiração pública:

- A educação brasileira é provada nas faculdades profissionais, por alunos que cada vez mais populam as mais renomadas instituições em busca de mestrados e doutorados em todas as áreas.

- A economia brasileira é provada por profissionais que encontram oportunidades diretas de mercado no Brasil em relações que antes eram realmente de “centro” e “periferia” (com bastante sacanagem e exploração), mas que agora chegam de igual a igual.

- A tecnologia brasileira é provada no setor energético com o etanol, especialmente, mas também em outras áreas como a descoberta de petróleo no pré-sal, algo, geopoliticamente falando, essencial.

A própria revista The Economist publicou uma matéria recente sobre a explosão latino-americana, e o Brasil, segundo jornalistas do veículo, se destaca e sobressalta na região. É a mesma revista, aliás, que há menos de três meses anunciou que o Brasil deverá erradicar sua miséria absoluta em dez anos. Sem isso podemos falar de algo mais?

Essa disparidade absoluta na percepção do “risco país” (em alusão ao Risco Brasil) domesticamente torna-se ainda mais paradoxal quando justaposta à percepção generalizada de estrangeiros no exterior. É justamente aqui que o cão está enterrado.

No cenário de relações internacionais uma das maiores dificuldades é atravessar o ruído da estática e compreender, de fora para dentro, o que ocorre em uma determinada região. Um dos erros mais graves de nossos conflitos civilizatórios é enxergar um grupo de pessoas de uma nação-estado como fosse homogêneo, o que raramente (se é que) ocorre dentro das nações-estado atualmente erguidas.

Por outro lado, às vezes me pergunto se não seria preciso estar fora do país para entender o que ocorre dentro dele além de percepções geralmente parciais a filosofias políticas específicas, e interesses específicos de pessoas que concretamente dependem de uma decisão política ou outra. Um exemplo que me ocorre é o da menina que dizia querer um político no governo por seu posicionamento em relação aos bingos, já que trabalhava em um.

Não podemos, é claro, perguntar ao estrangeiro qual é a natureza e o teor do país observado, nem mesmo qual é a base de sua cultura ou quais sentimentos melhor se expressam nela. Todavia, talvez haja mesmo tempos em que compreender o desenvolvimento vis a vis o cenário internacional de uma região não pode ser baseado no que as pessoas da própria região dizem. A objetividade da análise dependeria, assim, exclusivamente de dados frios e positivistas, e não de opiniões ou sensações políticas. Por outro lado, sem compreender que parte da população rejeita um sistema sobre o outro, a análise externa torna-se humanamente pífia. Portanto ambos lados, o humano e o pragmático, precisam ser considerados, de dentro para fora certamente… Talvez também, necessariamente, de dentro para dora.

E você, bravo leitor e corajosa leitora a chegar até aqui, o que pensa disso? É possível enxergar a situação de fora para dentro com melhor objetividade quando a pergunta é “qual é o nosso papel no mundo”?

RF

Wednesday, July 02, 2008

Barack Obama, mais um político

Já vos contei que me afiliei à campanha de Barack Obama? Também doei 15 dólares de meu suado salário à sua campanha, já que meu voto é proibido, sendo eu apenas residente, e ainda não cidadão, dos Estados Unidos.

Por que vos conto? Dois motivos:

1 – Geralmente, quem aqui me visita é brasileiro e vive no Brasil, o que automaticamente significa das duas, uma: Ou você não se importa com a política local, logo quem eu favorecer fará pouca diferenca; ou você se importa com a política, no geral, e gostaria de ler uma análise objetiva da situação. Como acredito que a total imparcialidade seja produto da imaginação popular, avisando de minha parcialidade evito maiores confusões.

2 – Para o texto que agora decorre, me é pessoalmente importante não ser confundido com um hipócrita.

Quando das eleições de 2005 no Brasil, alinhei-me atrás de ninguém, e era o único, jovem ou velho, profissional ou amador, que escrevia contra Lula e, ao mesmo tempo, apoiava sua reeleição. O teor principal de meus textos, à época, era “o Brasil não pode apoiar-se na escolha do menos pior”. Ainda penso assim, e agora devo admitir que penso assim também sobre Barack Obama.

Algumas de suas atitudes me encantaram, como a forma menos hostil de atacar seus rivais, a maior honestidade nas respostas, e sua predisposição jovial, algo que Collor também demonstrou, se muito não me engano. Algumas de suas promessas fizeram sentido em Dezembro de 2007, mas hoje já significam resultados eleitorais distintos.

Obama pedia a retirada gradual das tropas estadunidenses do Iraque em 16 meses, algo hoje em dia controverso, já que a situação no país demonstra melhoras devido à escalada de tropas de George Bush ao ano passado. Era a favor de uma reforma no método de arrecadação de fundos a campanhas, prometendo realizá-la durante esta disputa, mas logo tirou o corpo fora quando melhor lhe coube. Além disso, ainda dá sinais de inconsistência quanto a sua política externa (a favor de Israel e radicalmente contra o Irã enquanto fala com judeus, mas mais diplomático quando fala para o público; contra o NAFTA de Bill Clinton, mas assegurando o Canadá que o “contra” é apenas política e retórica; entre outros casos).

Conforme escreveu Arianna Huffington, do The Huffington Post, Obama está trilhando o natural caminho político de centralizar-se. Estrategicamente falando, isso é necessário em diferentes níveis para conquistar fragmentos das bases adversárias. Lula, que era de esquerda, o fez durante 8 anos de governo, não apenas em sua campanha. McCain também construiu uma história desviada ao centro quando o tema é meio-ambiente, reforma imigratória, e procedimentos interrogatórios considerados torturosos, realizados em prisões como a de Guantánamo Bay.

O problema, segundo Huffington, é que os vitoriosos, geralmente, são os candidatos com ideologias salientadas e firmes posições. Obama parece estar se movimentando erroneamente à direita, para cair de costas no centro, ambas posições descartáveis estrategicamente.

Procurando aumentar sua base de eleitores evangélicos, Obama declarou ontem que nomeará um comitê para delinear “Iniciativas Baseadas na Fé” à nação. Para um candidato liberal, esse talvez seja o maior e mais bizarro dos erros. Liberais-Democratas são famosos por persistir, em todos os dilemas sócio-morais, na separação entre o estado e a religião. Assim, que diabos seriam “Iniciativas Baseadas na Fé”, ou carinhosamente apelidadas “F.B.I.”?

Adiante, McCain explorou uma das importantes decisões judiciais da semana passada para atacar Obama. À semana passada, a Suprema Corte decidiu que o estupro de crianças não poderia acarretar a pena de morte. Obama, que se disse contrário à pena máxima salvo em raros casos, diz-se contrário a essa decisão. McCain diz que Obama critica a corte conservadora de Bush, mas que, nesse caso, quando a corte delibera uma decisão democrata, o senador pelo Illinois repentinamente discorda da mesma, relembrando ao populacho que o candidato democrata apenas diz o que melhor seria visto pela maioria dos eleitores.

A conclusão é o título desse texto: Barack Obama é apenas mais um político, e John Fitzgerald Kennedy o era também, como Bill Clinton ou Jimmy Carter, dos piores aos melhores. Porém, base a base, comparemos Obama a McCain e deixemos claro porque meu voto iria para o democrata:

1 – Oriente Médio: McCain não duvida, nossos inimigos estão no Oriente Médio e são os mesmos inimigos de Israel. Obama foi visto como anti-sionista, e a campanha de Clinton conseguiu ligá-lo a dois pastores anti-semitas da comunidade afro-americana. Enquanto o som do baile foi indicado pelo republicano, o democrata fez só dançar, e acabou posicionando-se, perante a comunidade judaica, como um bom “americano”, tentando acalmar a insegurança de uma base essencial ao estado da Flórida e New York. Errado, acredito que seja. Necessário, talvez, mas será mesmo que estamos tão carentes de mentira e hipocrisia que precisamos mais dela para confiar em algum candidato?

2 – Enquanto McCain virtualmente não se importa com os recursos usados pelos EUA para “estabilizar” o Iraque, Obama ao menos pertence à base que o pressionará a fazer o melhor possível guiando uma retirada paulatina dentro do contexto atual. Enquanto McCain parte da base acusada de entrar no Iraque pelo petróleo (algo que se concretiza ainda mais com a possibilidade do retorno das companhias petrolíferas do país ao Iraque), Obama parte da base que deseja satisfazer a opinião pública mundial e acabar com o conflito o quanto antes.

3 – Economicamente falando, ambos partidos protegem seus interesses, e se alguém o faz mais, esse alguém é provavelmente republicano, racicínio de democrata, olhem lá. A esperança é que, seja quem for, assuma reformar o NAFTA para prejudicar menos o mundo e ajudar mais a própria população estadunidense.

4 – Quanto às famigeradas “F.B.I.”, traço um paralelo ao comentário de Carlson Tucker da MSNBC: “Se o assunto for segurança nacional, McCain vence só pela natureza do argumento.”

Se o assunto for iniciativas baseadas em morais religiosas, os republicanos sempre perderão. McCain é contra o aborto, contra o casamento entre homossexuais e não me espantaria que seu vice fosse alguém como Mike Huckabee, que procura reformar a constituição para adaptá-la ao Novo Testamento protestante. Ponto final.

Esse gigantesco texto já faz o resumo da semana. O Gallup de hoje mostra Obama com 47-42% de McCain.

Até a next,

RF