Na camada das ideias democráticas também existe ilusão ótica. O que uns enxergam redondo, outros vem quadrado. De fato, às vésperas das eleições nos Estados Unidos e no Brasil, as experiências sensoriais – apesar de aparecerem as percepções em conglomerações de ideias – diferem uma da outra. Em seis anos de moradia contínua fora do Brasil cada vez que converso sobre a situação brasileira com brasileiros na terra natal, fora dela e em foros de debates virtuais encontro opiniões extremamente diferentes uma da outra. Um grita branco, o outro vermelho, e sempre tem um imbecíl que atiça fogo em pano rosa só para causar pânico.
Parte da população brasileira, por exemplo, parece satisfeita com os avanços sociais e políticos brasileiros dos últimos dez anos. Já outra parte demonstra o desejo sórdido de fugir para as colinas em pio temor ao fim do mundo. Caso estivessemos falando de classes sociais diferentes opinando, compreenderia melhor o disparate. Entretanto, o que vemos é que pessoas de situações financeiras idênticas, níveis educacionais idênticos e participações diretas no processo democrático idênticas opinam o oposto quando singelamente abrem as janelas de suas casas e atiram o olhar para a rua. Cão sem dono…?
É impossível que ambos os lados estejam certos, e as perspectivas opostas traçam-se nos mesmos setores. Há pessoas que acreditam que a igualdade social no Brasil realmente cresceu e outros que dizem que a desigualdade aumentou. É impossível que ambas visões estejam concomitantemente certas. Há os que dizem que o Brasil está em processo acelerado de desenvolvimento, equiparando condições de vida nos Estados Unidos a condições de vida no Brasil. Outros dizem que o Brasil está se tornando um estado totalitário e criando pessoas preguiçosas e improdutivas. Ambos não podem, ao mesmo tempo, estarem certos. Impossível.
Mitos
Nesses últimos três anos perdi a capacidade sentimental de devanear ideologias, o que me entristece, de certo modo, mas quando só estou com meus chips entre quatro paredes e a luz apagada consigo dormir mais tranquilo. Ainda assim, ignorar posições ideológicas é simplesmente impossível. Mesmo quase completamente por fora do que ocorre politicamente no Brasil para essas eleições (salvo opiniões de amigos conceituados quando estive no Brasil e uma ou outra notícia pingada), leio as maiores estapafúrdias em discursos ideológicos em foros de debate virtuais. Mesmo aquém da ideologia, ou além dela, as opiniões às vezes parecem tiradas de um livro de ficção científica, uma moderna e fabricada “torre de Babel”. É o que ouço nas mesas dos botecos brasileiros, nas casas de meus amigos e familiares nos Estados Unidos e no Brasil. Três pessoas juntas conversando em três idiomas.
São esses absurdos proferidos que me fazem perguntar se estar tão sentimentalmente “perto” de uma situação não nos faz perder a objetividade e justo juízo. Afinal, muito pode haver de errado na conduta política brasileira (acreditem, eu sei e opino isso fortemente), mas nunca em trinta anos vi um governo menos corrupto e menos “oligárquico” do que o próximo ou o passado. Todos monopolizaram, roubaram e enganaram seus constituintes. O de Lula sequer recorde em calamidades conquistou, logo por favor com esse desespero infantil.
Nos setenta dias que passei em solos mineiros e paulistas em seis anos não senti um país menos livre, e sim mais livre. Não senti um país menos patriota, e sim significativamente mais respeitoso à própria dinâmica de propriedade pública do que antes.
A violência, é claro, piorou. Assim também a falta contínua na infraestrutura ainda apresenta graves problemas - mesmo com o gargalo da infraestrutura melhor abastecido - que somados à explosão populacional geram mesmo mais violência, mais problemas relacionados ao trânsito social comum e mais problemas de super-crescimento urbano. Não vi, no entanto, um país pior do que o que antes via. Até admito que há alguns detalhes que tornam minha vivência no Brasil mais difícil depois de ter me mudado para os Estados Unidos, mas mesmo em detalhes há clara melhoria.
Além disso, a experiência nos Estados Unidos de total desapego ao próximo e péssima intra-identificação social parece querer invadir a mente de indivíduos de camadas sociais mais abastadas. Agora é moda dizer que quem está feliz com Lula “quer mamar nas tetas do governo”.
Pois, no Brasil conversei com taxistas (especialmente em São Paulo, como muitos sabem, ótimas referências políticas), porteiros de edifícios e empregadas domésticas, nenhum “mamante das tetas do governo”, todos trabalhadores árduos por salários melhores do que os que ganhavam no passado, e todos satisfeitos com a assistência social do governo de Lula. Se esse populismo é bom para o Brasil nos próximos anos é outra conversa, mas dizer que o Brasil está “sequestrado pela esquerda” é justamente enxergar-se de tão perto que embaçado.
A esquerda, no entanto, não é isenta. Com clamores de que a “mídia golpista” isso e aquilo apenas perdem a compostura. Se a mídia fosse mesmo golpista, Lula não teria sido eleito. Golpes que falham mediante a capacidade de um não-governo não são golpes, são gases. A mídia brasileira é, realmente, mercantilista e anti-mercantilista, dependendo do dia e de seus próprios interesses.
Mas golpista… Novamente, golpista seria se às portas de Outubro Dilma não estivesse com a bola que está, e se Lula não regozijasse da popularidade que tem. A camada majoritária agora aceita e quer esse populismo, e não o contrário. A minoria agora é “os outros”.
Que vês?
E o estrangeiro no exterior (o estrangeiro no Brasil também é importante, mas falemos sobre os que jamais sequer pisaram o solo brasileiro)? Em minha terceira aula de especialização na América Latina, encontro perspectivas de norte-americanos, europeus e latino-americanos de outros países do sul das Américas que percebem um crescimento ululante no país. Exaltam o investimento em educação (a tão criticada educação) nos últimos trinta anos, a capacidade inovativa brasileira, o crescimento tecnológico especialmente no setor energético com a disseminação do etanol, o crescimento econômico relativamente estável da última década e a participação mais ativa do Brasil como hegemonia Sul-Americana. Não que essa exaltação não possa partir da mesma motivação da exaltação de Pinochet no passado, pois pode, mas ao mesmo tempo há motivos concretos para que a percepção leve à admiração pública:
- A educação brasileira é provada nas faculdades profissionais, por alunos que cada vez mais populam as mais renomadas instituições em busca de mestrados e doutorados em todas as áreas.
- A economia brasileira é provada por profissionais que encontram oportunidades diretas de mercado no Brasil em relações que antes eram realmente de “centro” e “periferia” (com bastante sacanagem e exploração), mas que agora chegam de igual a igual.
- A tecnologia brasileira é provada no setor energético com o etanol, especialmente, mas também em outras áreas como a descoberta de petróleo no pré-sal, algo, geopoliticamente falando, essencial.
A própria revista The Economist publicou uma matéria recente sobre a explosão latino-americana, e o Brasil, segundo jornalistas do veículo, se destaca e sobressalta na região. É a mesma revista, aliás, que há menos de três meses anunciou que o Brasil deverá erradicar sua miséria absoluta em dez anos. Sem isso podemos falar de algo mais?
Essa disparidade absoluta na percepção do “risco país” (em alusão ao Risco Brasil) domesticamente torna-se ainda mais paradoxal quando justaposta à percepção generalizada de estrangeiros no exterior. É justamente aqui que o cão está enterrado.
No cenário de relações internacionais uma das maiores dificuldades é atravessar o ruído da estática e compreender, de fora para dentro, o que ocorre em uma determinada região. Um dos erros mais graves de nossos conflitos civilizatórios é enxergar um grupo de pessoas de uma nação-estado como fosse homogêneo, o que raramente (se é que) ocorre dentro das nações-estado atualmente erguidas.
Por outro lado, às vezes me pergunto se não seria preciso estar fora do país para entender o que ocorre dentro dele além de percepções geralmente parciais a filosofias políticas específicas, e interesses específicos de pessoas que concretamente dependem de uma decisão política ou outra. Um exemplo que me ocorre é o da menina que dizia querer um político no governo por seu posicionamento em relação aos bingos, já que trabalhava em um.
Não podemos, é claro, perguntar ao estrangeiro qual é a natureza e o teor do país observado, nem mesmo qual é a base de sua cultura ou quais sentimentos melhor se expressam nela. Todavia, talvez haja mesmo tempos em que compreender o desenvolvimento vis a vis o cenário internacional de uma região não pode ser baseado no que as pessoas da própria região dizem. A objetividade da análise dependeria, assim, exclusivamente de dados frios e positivistas, e não de opiniões ou sensações políticas. Por outro lado, sem compreender que parte da população rejeita um sistema sobre o outro, a análise externa torna-se humanamente pífia. Portanto ambos lados, o humano e o pragmático, precisam ser considerados, de dentro para fora certamente… Talvez também, necessariamente, de dentro para dora.
E você, bravo leitor e corajosa leitora a chegar até aqui, o que pensa disso? É possível enxergar a situação de fora para dentro com melhor objetividade quando a pergunta é “qual é o nosso papel no mundo”?
RF
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Thursday, September 23, 2010
De Fora para Dentro
Essas Palavras Vos Trazem
brasileiros no exterior,
Dilma,
Lula,
Politica,
Roy Frenkiel,
Serra,
The Economist
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