O inevitável milagre inevitou-se, e o senador por Illinois de 47 anos de idade, nativo do Hawaí, filho de um imigrante e uma professora, Barack Obama, conquistou a nomeação irrefutável de seu partido.
Ontem assisti aos noticiários ao vivo enquanto a história era feita, e pela primeira vez na humanidade moderna, um negro conquistou a nomeação de qualquer partido nos Estados Unidos, e até mesmo na Europa, e na maioria dos países “livres”. Assisti enquanto lhe faltavam 11, logo 10, logo cinco e eventualmente quatro delegados para atingir o número mágico de 2,118. Pouco depois do fechamento das urnas em South Dakota e Montana, marcando o fim da temporada pré-eleitoral do partido Democrata, Obama já retinha dois ou três delegados a mais do que o necessário.
A Lógica Democrata
Para que se candidatasse sem a interferência de super-delegados, qualquer dos candidatos precisava reter, inicialmente, uma maioria de 2,025 delegados, contando o apoio dos super-oficiais, para que a decisão não se transcedesse à Convenção em Denver, Colorado. Pela disputa escandalosa pelos estados da Flórida e Michigan, punidos pelo DNC (Diretório Nacional do Partido Democrata), o número alargou-se.
Quando escrevi no texto passado que o voto popular não é o que mais contava, referia-me ao caso exclusivo de que a decisão passasse aos super-delegados. Nesse caso, e no caso de que os votos completos de Michigan e Florida realmente importassem para um potencial virada de Clinton, negado pela realidade de sua derrota extensa, o voto popular seria realmente esculachado. Pela retenção dos delegados necessários, contudo, Clinton jamais conseguiria ultrapassar a conta final de 2,152 de seu rival, mesmo conquistando o apoio de todos os delegados ainda indecisos antes das primárias de ontem, aproximadamente 173, e mesmo que conquistasse na íntegra os votos dos dois estados excluídos por regras convencionais.
Super-delegados, como já mencionado anteriormente, são oficiais eleitos pelo povo, como prefeitos e governadores. Como cada estado tem centenas de distritos, todos os distritos carregam um número de delegados (quem retém qualquer cargo político em qualquer distrito) e super-delegados. Barack Obama levou a maioria dos estados, massacrou Clinton na Super-Terça-Feira (5 de Fevereiro), sobreviveu o 4 de Março, e segurou sua posição vencendo bem onde podia, e perdendo onde não podia, sempre dando passos inalcançáveis adiante.
Assim, o voto popular fez-se valer, mesmo que Clinton tenha uma pequena vantagem depois da contagem final dos últimos dois estados, não é suficiente para negar a vitória de Obama na maioria das primárias e assembléias populares, especialmente em primárias abertas a quem não pertence ao partido.
O que traz o futuro
John McCain já deu um discurso ontem salientando suas diferenças entre sua politica e a democrata. A disputa presidencial finalmente começa, e hoje é apenas o marco do primeiro dia, em que Hillary Clinton ainda permanece nas notícias como potencial vice-presidente do atual nomeado democrata.
Salientou a intenção do candidato rival de conversar com seus inimigos sem exigências e condições prévias, as restrições mercantis que compõem a filosofia democrata, a proliferação da intervenção governamental em áreas que, segundo republicanos, a população deveria responsabilizar-se só, e o anseio de seu rival a sair do Iraque deixando o caos para trás.
Obama, em St. Paul, Minneapolis, no sítio da convenção republicana, elogiou a senadora por New York, sua rival e ex primeira dama, e elogiou os feitos de John McCain dizendo: “Sempre reconhecerei as virtudes de meu oponente, mesmo que ele decida ignorar as minhas.” Mas também salientou que McCain votou como Bush em muitas ocasiões, e quando se opôs ao presidente pela conduta da guerra no Iraque, exigia o envio de mais tropas ao país. Além disso, as diferenças filosóficas são ímpares tanto à direita quanto à esquerda. A maioria dos argumentos são perfeitamente previsíveis.
O fato é que a disputa começou, e a largada de hoje é oficial, a presidência dos Estados Unidos, seu cargo mais alto, seu ofício mais árduo, está finalmente em jogo entre dois potenciais futuros presidentes.
Vice-Presidente?
Hillary Clinton disse ontem que estaria pronta a assumir o cargo de vice-presidente de Barack Obama, se for convidada. Esse dito acaba pressionando o campo de Barack Obama a aceitar a proposta ou ser tido como arrogante por ignorá-la. Muitos dos que apóiam Hillary Clinton ou Barack Obama não confiam no bilhete, mas há um consenso de que o mesmo seria o melhor para ambos.
Como a maioria das previsões que leio terminam descobrindo-se completamente erradas, aqui não me arrisco a prever nada. Ainda é cedo, e Obama tecnicamente não precisa decidir quem assumirá seu primeiro posto oficial por hora.
E agora, José?
Pastor Wright, o nome engraçado, a idade de McCain, a esposa de McCain, os comentários da esposa de Obama... Esses nomes e fatos gozados ainda saltarão aos montes pelos próximos seis meses. Meu trabalho será procurar o que mais caracterizaria essas eleições ao interesse internacional, para não alienar os poucos compadres e comadres que me lêem.
Se Obama for eleito, não sei se será o melhor presidente. Melhor do que McCain? Desconfio que sim. Melhor do que Clinton? Difícil responder. Mas o povo quis mudança, e derrubou a inevitabilidade de uma ex primeira dama que concorreu com a certeza da vitória. E é um mulato, de nome estranho, há exatos duzentos anos do fim do mercado escravo nos Estados Unidos, em 1808.
RF
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Wednesday, June 04, 2008
Monday, June 02, 2008
A Reta Final (?)
Puerto Rico
Hillary Clinton vence no país por uma excelente margem, mas não consegue se aproximar dramaticamente aos números de Barack Obama. Segundo analistas, o campo de Clinton conta o voto popular de modo distinto, e apenas assim clamam reter a maior porcentagem nesse quesito. Já Barack Obama vê-se a pouco mais de 40 delegados para cravar sua vitória oficial como nomeado à candidatura pelo partido.
Michigan e Flórida
Está acabando. As primárias, digo, a chance do voto popular, da escolha nacional e até pseudo-internacional (no caso de Hawai e Puerto Rico) de cidadãos trabalhadores ou esforçados, pobres, ricos, pretos, brancos, homens e mulheres. Esses já não terão muito a dizer nem a fazer.
Pensando bem, não tiveram muito a dizer ou a fazer quando o DNC, o quartel general do partido Democrata, decidiu que os votos de Michigan e Flórida valeriam pela metade. Aparece uma senhora mostrando-se à câmara com o ar das graças desgraçado, raivoso, injuriado, gritando: “Votaremos por McCain em Novembro! Esse não é modo de se tratar as mulheres do partido!”
Jamais na história dos Estados Unidos tantos votaram por um candidato como votaram por Hillary Clinton nos estados da Flórida e Michigan em primárias. Um dos motivos da penalização do partido Democrata aos delegados dos estados “excluídos” era o medo de que não houvesse tempo o suficiente para mobilizar as campanhas em estados tão grandes, destinados ao 4 de Março, e não ao início da temporada eleitoral, em Janeiro. Pois, esse motivo foi desmentido, e fosse apenas pelo mérito do voto, Clinton tem um caso quanto aos eleitores serrados ao meio.
Mas a candidata concordou abertamente, antes das primárias, que não faria campanha nos dois estados antecipados, e que não faria caso dos resultados, especificamente em Michigan, de onde Barack Obama retirou o nome das urnas.
Como nenhum dos candidatos fez campanhas oficiais nos estados, e como o DNC já havia estabelecido previamente que os delegados de Michigan ou Flórida não seriam sentados à Convenção nacional ao fim de Agosto, se Clinton diz que aqueles votos a pertencem por direito irrefutavel, está enganada. Há o que disputar, sem dúvidas, mas ambos lados têm o que dizer, e ambos lados disputarão, caso assim a história desenvolver-se, a nomeação final pelos super delegados perante os altos oficiais democratas com defesas igualmente fortes.
A maior mentira é: O voto popular é o que mais conta. Não que Clinton esteja mentindo quando diz isso. Quem mente são os cidadão do país aos próprios. Esse sistema eleitoral considera o invidivíduo muito menos do que gostariam todos, e quase todos os envolvidos sabem. Se sabem, ou não se importam, ou não acreditam na força do indivíduo para mover a sociedade. O indivíduo tem força sim, mas só para mover sua própria vida.
Pela decisão do DNC, Barack Obama ganhou poucos delegados em comparação à sua rival, mas poderia ser pior, já que, contados pela metade, os votos garantem à senadora por NY uma margem relativamente menor do que a esperada.
Mudando as regras em emenda especial, o DNC decidiu que 2,118 delegados seriam necessários para reter a nomeação indisputável, quase 100 a mais do que o número original de 2,025. Obama tem 2,070 (CNN) contra 1,915 de Clinton. Em super-delegados, Obama lidera Clinton por 329 a 291, sendo que no Domingo de sua derrota em Puerto Rico (a senadora venceu com 68% do voto, sendo que apenas 400 mil eleitores dos 3 milhões registrados compareceram), o senador por Illinois ganhou o apoio de mais dois oficiais democratas.
Quem é o melhor (para o Brasil?)?
Lendo o texto de Marta Ramos ao Achei USA contra Barack Obama, a favor de Hillary Clinton e, se não, John McCain, atentei-me a um fenômeno que vem ocorrendo entre quem gosta de pensar no mundo e vive no Brasil, no qual antes não havia tão bem reparado. Há muitos brasileiros que se preocupam com a escolha do melhor presidente aos Estados Unidos... Mas, para o Brasil, tio?
Lembrem-se que nasci em Israel, e já mencionei muitas vezes até mesmo por aqui que sou radicalmente contrário a essa espécie de votação. A exemplo, odeio israelenses que votam no presidente que melhor represente os interesses de Israel, um sério problema, ao meu ver, para o Oriente Médio.
Não sou nacionalista, se muito sou internacionalista, mas meus olhos e minha mente pifam em curto-circuito quando leio ou ouço algum argumento desse caráter. Ramos, que escreve uma coluna social ao maior jornal imigrante do Sul da Flórida, argumenta que Barack Obama é um falso e inflado produto da mídia. Diz que Hillary Clinton tem mais experiência e seria a escolha mais lógica, mas que John McCain “já ganhou”. Mobiliza brasileiros (que mostram-se pesadamente a favor de Obama, ao menos entre imigrantes locais) a votarem por John McCain. Diz que é o melhor, o mais honesto, e o de passado menos obscuro (McCain já esteve envolvido em pelo menos dois escândalos com lobbystas, tanto no passado quanto recentemente, além de ter mudado algumas de suas posições principais por motivos políticos).
Respeito a colunista e devo confessar que passei da idade de não aceitar as contrariantes opiniões alheias. Porém, seus elogios a John McCain são feitos pelo motivo de que talvez, talvez, e muito talvez, o candidato republicano seria a melhor opção ao Brasil. Aliás, os democratas, que geralmente aumentam programas sociais e são mais rigorosos na fiscalização e tributação de produtos internacionais, formam a pior escolha ao Brasil e à América Latina, enquanto republicanos, geralmente adeptos ao mercado livre e a irrestrição em tributos e qualidade dos produtos importados, constitúem a melhor opção.
Faria sentido que o Brasil, se dado ao voto, elegesse o presidente que favorecesse seus interesses (como ocorre com Puerto Rico). Nesse caso, estadunidenses também decidiriam quem é o melhor presidente ao Brasil (há um consenso enorme nos Estados Unidos de que Lula seja excelente nesse sentido, e pelo que vejo daqui, não há como discordar. Eu, de fora, elegeria Lula ao segundo mandato e gostaria de ter alguém como ele na próxima presidência, o que pode ser conflituoso a quem vive e testemunha a realidade em perfeita proximidade).
Todavia, como são dois países soberanos, o mínimo dever de seus moradores é eleger quem melhor cuidará do próprio terreno.
Se brasileiros se preocupam com a influência dos EU à política externa, e gostariam que esta fosse menos arrogante e mais complascente e compreensiva, quem opta por McCain tem os mesmos parâmetros e valores que os republicanos, algo que sempre achei raro no Brasil, mesmo entre a direita pensante. Afinal, aqui não existe uma real esquerda, e concordar com os amplos e vagos critérios ideológicos dos democratas não é tão difícil.
Com McCain, haverá mais guerras. Com Obama ou Clinton, talvez não, mas talvez nada mude nesse sentido. O que podemos ter certeza é que, com McCain, firmar-se-á a perpetuação de tudo o que trouxe os EU ao seu período mais impopular da história contemporânea mundial. Os valores serão sempre os protestantes, elitistas, racistas e homofóbicos. Não há meio termo. Escolham McCain, desejem outro Bush, e a ditadura republicana crescerá quase inalcançável.
South Dakota e Montana
Amanhã à noite essa parte da disputa termina. Clinton poderia facilitar ao seu partido e retirar-se da corrida antes da convenção. Tudo pode terminar, contudo, mesmo se ela assim não desejar. Basta que Obama vença amanhã, colecione mais 14-15 delegados, e receba o apoio final dos super-delegados indecisos. Por hoje é só.
RF
PS: Nunca mais achei a coluna de Marta Ramos a falar do tema, portanto, o link inexiste por hora.
Hillary Clinton vence no país por uma excelente margem, mas não consegue se aproximar dramaticamente aos números de Barack Obama. Segundo analistas, o campo de Clinton conta o voto popular de modo distinto, e apenas assim clamam reter a maior porcentagem nesse quesito. Já Barack Obama vê-se a pouco mais de 40 delegados para cravar sua vitória oficial como nomeado à candidatura pelo partido.
Michigan e Flórida
Está acabando. As primárias, digo, a chance do voto popular, da escolha nacional e até pseudo-internacional (no caso de Hawai e Puerto Rico) de cidadãos trabalhadores ou esforçados, pobres, ricos, pretos, brancos, homens e mulheres. Esses já não terão muito a dizer nem a fazer.
Pensando bem, não tiveram muito a dizer ou a fazer quando o DNC, o quartel general do partido Democrata, decidiu que os votos de Michigan e Flórida valeriam pela metade. Aparece uma senhora mostrando-se à câmara com o ar das graças desgraçado, raivoso, injuriado, gritando: “Votaremos por McCain em Novembro! Esse não é modo de se tratar as mulheres do partido!”
Jamais na história dos Estados Unidos tantos votaram por um candidato como votaram por Hillary Clinton nos estados da Flórida e Michigan em primárias. Um dos motivos da penalização do partido Democrata aos delegados dos estados “excluídos” era o medo de que não houvesse tempo o suficiente para mobilizar as campanhas em estados tão grandes, destinados ao 4 de Março, e não ao início da temporada eleitoral, em Janeiro. Pois, esse motivo foi desmentido, e fosse apenas pelo mérito do voto, Clinton tem um caso quanto aos eleitores serrados ao meio.
Mas a candidata concordou abertamente, antes das primárias, que não faria campanha nos dois estados antecipados, e que não faria caso dos resultados, especificamente em Michigan, de onde Barack Obama retirou o nome das urnas.
Como nenhum dos candidatos fez campanhas oficiais nos estados, e como o DNC já havia estabelecido previamente que os delegados de Michigan ou Flórida não seriam sentados à Convenção nacional ao fim de Agosto, se Clinton diz que aqueles votos a pertencem por direito irrefutavel, está enganada. Há o que disputar, sem dúvidas, mas ambos lados têm o que dizer, e ambos lados disputarão, caso assim a história desenvolver-se, a nomeação final pelos super delegados perante os altos oficiais democratas com defesas igualmente fortes.
A maior mentira é: O voto popular é o que mais conta. Não que Clinton esteja mentindo quando diz isso. Quem mente são os cidadão do país aos próprios. Esse sistema eleitoral considera o invidivíduo muito menos do que gostariam todos, e quase todos os envolvidos sabem. Se sabem, ou não se importam, ou não acreditam na força do indivíduo para mover a sociedade. O indivíduo tem força sim, mas só para mover sua própria vida.
Pela decisão do DNC, Barack Obama ganhou poucos delegados em comparação à sua rival, mas poderia ser pior, já que, contados pela metade, os votos garantem à senadora por NY uma margem relativamente menor do que a esperada.
Mudando as regras em emenda especial, o DNC decidiu que 2,118 delegados seriam necessários para reter a nomeação indisputável, quase 100 a mais do que o número original de 2,025. Obama tem 2,070 (CNN) contra 1,915 de Clinton. Em super-delegados, Obama lidera Clinton por 329 a 291, sendo que no Domingo de sua derrota em Puerto Rico (a senadora venceu com 68% do voto, sendo que apenas 400 mil eleitores dos 3 milhões registrados compareceram), o senador por Illinois ganhou o apoio de mais dois oficiais democratas.
Quem é o melhor (para o Brasil?)?
Lendo o texto de Marta Ramos ao Achei USA contra Barack Obama, a favor de Hillary Clinton e, se não, John McCain, atentei-me a um fenômeno que vem ocorrendo entre quem gosta de pensar no mundo e vive no Brasil, no qual antes não havia tão bem reparado. Há muitos brasileiros que se preocupam com a escolha do melhor presidente aos Estados Unidos... Mas, para o Brasil, tio?
Lembrem-se que nasci em Israel, e já mencionei muitas vezes até mesmo por aqui que sou radicalmente contrário a essa espécie de votação. A exemplo, odeio israelenses que votam no presidente que melhor represente os interesses de Israel, um sério problema, ao meu ver, para o Oriente Médio.
Não sou nacionalista, se muito sou internacionalista, mas meus olhos e minha mente pifam em curto-circuito quando leio ou ouço algum argumento desse caráter. Ramos, que escreve uma coluna social ao maior jornal imigrante do Sul da Flórida, argumenta que Barack Obama é um falso e inflado produto da mídia. Diz que Hillary Clinton tem mais experiência e seria a escolha mais lógica, mas que John McCain “já ganhou”. Mobiliza brasileiros (que mostram-se pesadamente a favor de Obama, ao menos entre imigrantes locais) a votarem por John McCain. Diz que é o melhor, o mais honesto, e o de passado menos obscuro (McCain já esteve envolvido em pelo menos dois escândalos com lobbystas, tanto no passado quanto recentemente, além de ter mudado algumas de suas posições principais por motivos políticos).
Respeito a colunista e devo confessar que passei da idade de não aceitar as contrariantes opiniões alheias. Porém, seus elogios a John McCain são feitos pelo motivo de que talvez, talvez, e muito talvez, o candidato republicano seria a melhor opção ao Brasil. Aliás, os democratas, que geralmente aumentam programas sociais e são mais rigorosos na fiscalização e tributação de produtos internacionais, formam a pior escolha ao Brasil e à América Latina, enquanto republicanos, geralmente adeptos ao mercado livre e a irrestrição em tributos e qualidade dos produtos importados, constitúem a melhor opção.
Faria sentido que o Brasil, se dado ao voto, elegesse o presidente que favorecesse seus interesses (como ocorre com Puerto Rico). Nesse caso, estadunidenses também decidiriam quem é o melhor presidente ao Brasil (há um consenso enorme nos Estados Unidos de que Lula seja excelente nesse sentido, e pelo que vejo daqui, não há como discordar. Eu, de fora, elegeria Lula ao segundo mandato e gostaria de ter alguém como ele na próxima presidência, o que pode ser conflituoso a quem vive e testemunha a realidade em perfeita proximidade).
Todavia, como são dois países soberanos, o mínimo dever de seus moradores é eleger quem melhor cuidará do próprio terreno.
Se brasileiros se preocupam com a influência dos EU à política externa, e gostariam que esta fosse menos arrogante e mais complascente e compreensiva, quem opta por McCain tem os mesmos parâmetros e valores que os republicanos, algo que sempre achei raro no Brasil, mesmo entre a direita pensante. Afinal, aqui não existe uma real esquerda, e concordar com os amplos e vagos critérios ideológicos dos democratas não é tão difícil.
Com McCain, haverá mais guerras. Com Obama ou Clinton, talvez não, mas talvez nada mude nesse sentido. O que podemos ter certeza é que, com McCain, firmar-se-á a perpetuação de tudo o que trouxe os EU ao seu período mais impopular da história contemporânea mundial. Os valores serão sempre os protestantes, elitistas, racistas e homofóbicos. Não há meio termo. Escolham McCain, desejem outro Bush, e a ditadura republicana crescerá quase inalcançável.
South Dakota e Montana
Amanhã à noite essa parte da disputa termina. Clinton poderia facilitar ao seu partido e retirar-se da corrida antes da convenção. Tudo pode terminar, contudo, mesmo se ela assim não desejar. Basta que Obama vença amanhã, colecione mais 14-15 delegados, e receba o apoio final dos super-delegados indecisos. Por hoje é só.
RF
PS: Nunca mais achei a coluna de Marta Ramos a falar do tema, portanto, o link inexiste por hora.
Essas Palavras Vos Trazem
Achei USA,
Barack Obama,
Fora Lula,
Hillary Clinton,
John McCain,
Marta Ramos,
Montana,
Puerto Rico,
Roy Frenkiel,
South Dakota
Wednesday, May 21, 2008
Apostas a Quem Valha
O Estudante de Jornalismo
Kentucky para Hillary Clinton por 35 pontos, Oregon para Barack Obama, por enquanto com uma margem de aproximadamente 16 pontos percentuais. Ao ar, o senso de que ambas bases se asseguram, a compreensão de que a base da vencedora em Kentucky aposta em sua vice-presidência mais do que a base do vencedor em Oregon.
Obama coleciona a maioria dos delegados declarados, 1,993 a 1,770 de Clinton, e ainda vence em super-delegados, com 305 a 277. Clinton ainda diz que venceu pelo voto popular, e pode estar certa. Em um estado republicano como Kentucky, em que Obama não apareceu tanto quanto poderia, mas que gastou mais do que sua adversária, a senadora por NY pode competir em Novembro com maior facilidade do que o senador por Illinois.
A disputa chega a seu ápice anti-clímax: Faltam apenas três primárias, contando a de Porto Rico que não pesa tanto quanto as de Montana e South Dakota, que votarão no dia 3 de Junho, mas são todos pequenos, de futuros colégios eleitorais mais leves. O número de delegados disponíveis pode deixar Obama a alguns curtos passos de obter seus 2,025 delegados fatais, mas o jovem senador já passa a declarar vitória a gestos soturnos.
Em Iowa, gabou-se da maioria, elogiou sua rival, deu mais um de seus populares discursos, e a noite passou, o dia amanheceu, todos sabemos que falta pouco e, para muitos, dado está o que tinha de estar.
O Iludido
De um lado, trabalhadores, operários, funcionários de uma indústria pérfida e ardilosa, em um mundo globalizado onde as máquinas desaparecem daqui e surgem ali, mas os operários, os trabalhadores, os funcionários não possúem a mesma habilidade do transporte metafísico, e são apenas substituídos. Estes observam a senadora, e a admiram como admiravam seu marido.
Do outro lado, descendentes afro-americanos e indivíduos com diplomas universitários observam juntos em Obama uma chance ainda maior de voltear o gigante país e guiá-lo a melhores direções.
Por que os ignorados da nação agora se únem aos seus educados? Talvez os funcionários sejam menos educados, mas são também mais realistas, vivem a própria pele, vivem a própria situação. Talvez o mundo dê voltas, mas sempre chegue ao mesmo lugar.
O Cínico
Não existe “mais educado” ou “menos educado”, nem uma classe “operária” que se distingua tanto de quem apenas trabalha como faxineiro ou vendedor de uma rede de lanchonetes porque lhe falta opção, ou lhe faltaram oportunidades que a outros sobram. Aqui estão todos no mesmo barco, e apenas aqueles que sabem navegar o sistema têm um bom PhD.
Penso que vemos em candidatos políticos, não os heróis que quiçá algum dia víamos, mas os personagens de reality shows como o próprio Big Brother, pessoas que amamos odiar, das quais adoramos falar mal, por quem torcemos que um vença o outro ou outra, às vezes pelos motivos mais banais. Bem como eles são nossos macacos de circo, nós somos a platéia, e compramos o ingresso sem reclamar de mal-tempo ou agouros quaisquer, desde que possamos de algum modo observar o que ocorre.
Quando alguém deixa de se interessar pelo espetáculo é automaticamente julgado por alienado. O alienado que não se envolve na “política” do país. O alienado que não se importa com o que ocorre com sua nação. E sim, há dos alienados que não sabem, nem querem saber e têm raiva de quem sabe. Mas há também, sempre há, os que simplesmente desistiram de fazer parte da platéia circense, os “radicais”, os “iludidos”, os que não se conformam com o que aprendem nas faculdades de jornalismo, onde qualquer pergunta é válida, e qualquer tema vende.
Sim, os “cínicos” tentam fazer parte dos dois lados.
Professor Toni pergunta, justamente, quanto aposto em Barack Obama. Respondi que não aposto, nada, em ninguém que não em mim.
Quero dizer com isso que quem estiver na Casa Branca importa, de fato, e há um movimento popular crescente que passa a importar-se pela primeira vez na história moderna dos Estados Unidos. Esse interesse, cultivado, abre as portas, espero, a idéias novas, a modos novos de participar do desenvolvimento positivo de qualquer sociedade. Caso vença Obama, essa base não se perderá com tanta facilidade, cobrará de seu eleito, se envergonhará caso os desaponte, e participará, também espero, mais do processo para perceber que não podem mais seguir na platéia.
O cínico sabe que “vai dar cagada”. O cínico sabe que “do povo” só é quem do povo é. Mas comenta, atenta e espera que o nome do próximo presidente seja menos importante do que esse movimento crescente, no qual me vejo incluído, no qual posso apostar todas as minhas moedas de cobre e papelão.
RF
Kentucky para Hillary Clinton por 35 pontos, Oregon para Barack Obama, por enquanto com uma margem de aproximadamente 16 pontos percentuais. Ao ar, o senso de que ambas bases se asseguram, a compreensão de que a base da vencedora em Kentucky aposta em sua vice-presidência mais do que a base do vencedor em Oregon.
Obama coleciona a maioria dos delegados declarados, 1,993 a 1,770 de Clinton, e ainda vence em super-delegados, com 305 a 277. Clinton ainda diz que venceu pelo voto popular, e pode estar certa. Em um estado republicano como Kentucky, em que Obama não apareceu tanto quanto poderia, mas que gastou mais do que sua adversária, a senadora por NY pode competir em Novembro com maior facilidade do que o senador por Illinois.
A disputa chega a seu ápice anti-clímax: Faltam apenas três primárias, contando a de Porto Rico que não pesa tanto quanto as de Montana e South Dakota, que votarão no dia 3 de Junho, mas são todos pequenos, de futuros colégios eleitorais mais leves. O número de delegados disponíveis pode deixar Obama a alguns curtos passos de obter seus 2,025 delegados fatais, mas o jovem senador já passa a declarar vitória a gestos soturnos.
Em Iowa, gabou-se da maioria, elogiou sua rival, deu mais um de seus populares discursos, e a noite passou, o dia amanheceu, todos sabemos que falta pouco e, para muitos, dado está o que tinha de estar.
O Iludido
De um lado, trabalhadores, operários, funcionários de uma indústria pérfida e ardilosa, em um mundo globalizado onde as máquinas desaparecem daqui e surgem ali, mas os operários, os trabalhadores, os funcionários não possúem a mesma habilidade do transporte metafísico, e são apenas substituídos. Estes observam a senadora, e a admiram como admiravam seu marido.
Do outro lado, descendentes afro-americanos e indivíduos com diplomas universitários observam juntos em Obama uma chance ainda maior de voltear o gigante país e guiá-lo a melhores direções.
Por que os ignorados da nação agora se únem aos seus educados? Talvez os funcionários sejam menos educados, mas são também mais realistas, vivem a própria pele, vivem a própria situação. Talvez o mundo dê voltas, mas sempre chegue ao mesmo lugar.
O Cínico
Não existe “mais educado” ou “menos educado”, nem uma classe “operária” que se distingua tanto de quem apenas trabalha como faxineiro ou vendedor de uma rede de lanchonetes porque lhe falta opção, ou lhe faltaram oportunidades que a outros sobram. Aqui estão todos no mesmo barco, e apenas aqueles que sabem navegar o sistema têm um bom PhD.
Penso que vemos em candidatos políticos, não os heróis que quiçá algum dia víamos, mas os personagens de reality shows como o próprio Big Brother, pessoas que amamos odiar, das quais adoramos falar mal, por quem torcemos que um vença o outro ou outra, às vezes pelos motivos mais banais. Bem como eles são nossos macacos de circo, nós somos a platéia, e compramos o ingresso sem reclamar de mal-tempo ou agouros quaisquer, desde que possamos de algum modo observar o que ocorre.
Quando alguém deixa de se interessar pelo espetáculo é automaticamente julgado por alienado. O alienado que não se envolve na “política” do país. O alienado que não se importa com o que ocorre com sua nação. E sim, há dos alienados que não sabem, nem querem saber e têm raiva de quem sabe. Mas há também, sempre há, os que simplesmente desistiram de fazer parte da platéia circense, os “radicais”, os “iludidos”, os que não se conformam com o que aprendem nas faculdades de jornalismo, onde qualquer pergunta é válida, e qualquer tema vende.
Sim, os “cínicos” tentam fazer parte dos dois lados.
Professor Toni pergunta, justamente, quanto aposto em Barack Obama. Respondi que não aposto, nada, em ninguém que não em mim.
Quero dizer com isso que quem estiver na Casa Branca importa, de fato, e há um movimento popular crescente que passa a importar-se pela primeira vez na história moderna dos Estados Unidos. Esse interesse, cultivado, abre as portas, espero, a idéias novas, a modos novos de participar do desenvolvimento positivo de qualquer sociedade. Caso vença Obama, essa base não se perderá com tanta facilidade, cobrará de seu eleito, se envergonhará caso os desaponte, e participará, também espero, mais do processo para perceber que não podem mais seguir na platéia.
O cínico sabe que “vai dar cagada”. O cínico sabe que “do povo” só é quem do povo é. Mas comenta, atenta e espera que o nome do próximo presidente seja menos importante do que esse movimento crescente, no qual me vejo incluído, no qual posso apostar todas as minhas moedas de cobre e papelão.
RF
Essas Palavras Vos Trazem
Barack Obama,
Hillary Clinton,
Kentucky,
Montana,
Oregon,
Puerto Rico,
South Dakota
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