Tuesday, January 06, 2009

Americanismo

Americanismo. A obsessão brasileira por Barack Obama e sua trupe democrata é evidente, eminente e, de certo modo, estranha para quem não está acostumado a depender de decisões eleitorais de outros países para tocar a própria vida.

Sabemos, contudo, que o fato mais importante para a maioria das pessoas preocupadas com o cenário mundial foi a eleição de Obama à presidência dos Estados Unidos. Para o brasileiro comum, a história de um cidadão cuja raça e etnia viam-se nada menos do que marginais há quarenta anos, lembra muito, no mínimo, a trejetória conclusiva de Luis Inácio “Lula” da Silva na liderança do governo brasileiro.

Por outro lado, o mesmo depósito de esperança que de certo modo foi dado a Lula antes de seu primeiro mandato é reconhecido com um requinte de experiência no vernáculo brasileiro. Mesmo quem aprova o governo do presidente sabe que a esperança ainda é mais compreensível do que o fenômeno de sua intensidade, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Os mais experientes sabem que essa expectativa raramente é encontrada, quanto menos superada.

Americanismo, contudo, ainda vigente no mundo inteiro, toca a verdadeira sinfonia do cenário sócio-político mundial. Os olhos voltados a Obama, a expectativa desproporcional mesmo meio à experiência adquirida com Lula, e a revolta da população brasileira com o governo de George W. Bush.

A opinião:

Mais do que o Americanismo vigente, o grande dilema é causado pelo terceiro poder. Após o período de um ano acompanhando a campanha estadunidense, clareou a noção da influência midiática na decisão popular. Se no Brasil existe um certo coronelismo (claro até mesmo nos jornais brasileiros de imigrantes nos Estados Unidos), e nos Estados Unidos existe o capital prevalecendo sobre a necessidade de investigar e divulgar as notícias objetivamente, a mídia no mundo todo sofre de alguma ou outra parcialidade.

Um clássico exemplo é o tratamento do conflito médio-oriental entre Israel e países árabes, ou o intuito (que apóio, diga-se de passagem) da criação da Palestina, na mídia tanto popular quanto oligárquica no Brasil, Estados Unidos e Israel. As três nações não partilham, predominantemente, das mesmas raízes culturais, não praticam, massivamente, as mesmas religiões, não se alimentam dos mesmos alimentos e nem lêem os mesmos jornais. Mesmo assim, existe um traçado que, aqui analisado razamente, se repete quase idêntico.

A revista paulistana e esquerdista Piauí publicou em sua vigésima edição um artigo do ex jornalista israelense Yonathan Mendel criticando ferrenhamente o vocabulário jornalístico do estado judaico em relação ao tratamendo das Forças de Defesa Israelenses, e a disparidade em relação aos palestinos, especialmente os situados em territórios ocupados e na Faixa de Gaza. Sem dúvida alguma a revista parte da parcialidade explícita e o favorecimento ao lado palestino, o que para mim só pode ser explicado pela identificação esquerdista com o lado dos “mais fracos”, no caso, civis, árabes muçulmanos, que se encontram entre os mísseis imprecisos das FDI e militantes palestinos que, de fato, representam ameaça à existência de Israel (apesar de jamais representarem a ameaça que a mídia israelense gostaria que representasse).

Entretanto, quem conhece Israel por convivência concreta sabe que a esquerda e a direita inexistem nesse conflito particular. Não existe uma tendência verdadeira de proteger o capital ou o trabalhador, e sim um conflito real pela legitimidade da co-existência das duas nações. Fanáticos israelenses, tanto religiosos quanto sionistas, rejeitam a existência do estado da Palestina, e fanáticos muçulmanos rejeitam a existência do estado de Israel.

Na vigésima-sétima edição da mesma revista encontramos o artigo escrito por Daniela Pinheiro sobre o canal Al Jazeera, criado com o intuito de dar uma voz oficial ao lado árabe do conflito não só aos próprios árabes, mas ao resto do mundo. O artigo, contudo, apenas elogia o canal, jamais o questiona, e mostra somente o lado positivo de sua existência. Não que exista um lado negativo de sua existência em si, mas que exista, até mesmo se não quisermos cair no conto da ingenuidade, a parcialidade árabe no canal.

O mais recente ataque de Israel à Faixa de Gaza gerou nota similar nos canais da Globo e GNT. Enquanto o cessar-fogo foi interrompido por militantes do grupo Hamas, mesmo que em proporções menores, apenas pude descobri-lo, estando no Brasil, atraves do The New York Times. Os jornais brasileiros transmitiam exclusivamente o número de mortos palestinos comparado ao número de atingidos pelos mísseis Qassam em Israel, e copiosamente divulgavam exatamente os mesmos títulos: “Israel ataca”, “Israel alega”, “O mundo pede a cautela da milícia israelense”, e assim por diante. Críticas semelhantes já geraram a mesma polêmica nos Estados Unidos, através de canais que israelenses clamam parciais aos árabes, como a CNN e a NBC.

Novamente, o que não se discute é a intenção real dos militantes do Hamas (reparem que não os denomino terroristas), e sua mais absoluta rejeição da mera idéia da existência do estado judaico. Não divulgam o fato de que o popular Canal 2 israelense não existe para a maioria do mundo árabe, mas o Al Jazeera funciona comumente em Israel, ou o fato de que países de predominância muçulmana como o Egito, a Síria e o Irã, rejeitaram o acolhimento dos refugiados palestinos do Líbano, dos territórios ocupados e da Faixa de Gaza. Tampouco se aprofundam na notícia quando dizem que líderes como Vladimir Putin, George W. Bush e Gordon Brown pedem cautela a Israel, como se estes fossem cautelosos na resolução militar de seus conflitos. Ainda pior, ao meu ver, é sequer discutir como o próprio governo brasileiro reage aos problemas que enfrenta com a violência em suas grandes metrópoles, incluindo o tratamento das tropas de elite paulistanas e cariocas (ROTA e BOPE) às mazelas brasileiras.

Tal aprofundamento faz-se necessário para o conhecimento íntegro da situação pelos leitores e espectadores brasileiros. Ou seja, não basta escrever e divulgar o assunto paralelamente, como se não houvesse a menor relação entre as circunstâncias sociais de todos os países e líderes aqui citados, mas houvesse, necessariamente, uma intrínseca relação entre o conflito esquerdista e direitista no Oriente Médio, bem como o evidente nos Estados Unidos e América Latina.

O mesmo ocorre a partir do Americanismo popular, e da repercussão da notícia em torno da eleição do presidente Barack Obama, a assumir o cargo no dia 20 de Janeiro de 2009. Não há espaço suficiente para a discussão holística do tema, e comentários como “republicanos e democratas são um só partido nos Estados Unidos” circulam sem titubeio no vernáculo popular.

Concluindo, o problema não é divulgar as injustiças existentes no tratamento de Israel à Palestina, ou divulgar a eleição de Barack Obama entre a certeza de que Obama mudará os Estados Unidos e a oposta certeza de que Obama nada mudará no governo estadunidense. O maior problema é o que a mídia não divulga por extenso. Aqui, o pecado não se resume ao excesso, mas à falta de informação, debate e discussões reais tanto sobre a parcialidade midiática e governamental no Oriente Médio quanto sobre a filosofia governamental dos Estados Unidos. Ambos partem, ao meu ver, do mesmo Americanismo, já que o governo estadunidense está diretamente envolvido no conflito médio-oriental, o que também gera a idéia (falha e falida) de que este conflito tem base na contradição ideológica entre a esquerda e a direita.

O terceiro poder coroa reis e mata tiranos, mas também coroa tiranos e mata reis. A cura talvez não exista. Talvez não se trate, jamais, da insistência na imparcialidade utópica da mídia, mas sim no reconhecimento de que essa imparcialidade simplesmente não existe e nem tem como existir. Portanto, cabe a vocês leitores e espectadores, questionar se o que foi visto, divulgado e discutido é a versão completa dos fatos, e não apenas o intuito ideológico de segmentos, uns contra os outros.

Finalmente, caminhamos em 2009 a mais um ano de problemas complexos, tanto sociais quanto econômicos, ou, mais importante, dilemas sócio-econômicos em sua capacidade integral. Logo, desejo a todos um bom ano, não pelo ano, nem por Barack Obama, nem pela paz médio-oriental, e nem mesmo pela revolução energética, mas sim um bom ano pelo pensar, questionar e debater que apenas vocês, leitores e espectadores, podem e têm o dever de expandir. O “feliz” de 2009 depende muito disso. Boa sorte a todos e todas.
RF (Belo Horizonte, Dezembro de 2008)

7 comments:

Jens said...

Oi Roy.
Feliz 2009 pra você também, dentro do possível (a paz foi pras cucuias, vide a Faixa de Gaza; a prosperidade está manquitolando, vide a crise econômica. Assim, resta a saúde. Portanto, saúde e sorte!).
Uma observação: os misseis do Hamas são imprecisos; já os de Israel não. Como se explica então a matança de crianças nas escolas da ONU? Solução final?
No frigir dos ovos, a irracionalidade domina ambos os lados. Não me comovo mais com a sangueira, assim como estou deixando de me estarrecer com a mortandade em terras brasileiras. Só no feriado de Natal morreram 44 pessoas assinadas no RS. Acho que esta merda nunca terá fim.
***
Estou em Floripa e vou para a praia.
Boa estadia no Brasil.
Não estou muito bom dos cornos.
Ah, a toca mudou de endereço. Agora é: http://tocadojens.blogspot.com/
***
Um abraço.

Roy Frenkiel said...

Jens, os misseis do Hamas sao imprecisos, ou seja, quando eles os disparam, nao pensam nem calculam quem matariam. Digamos que os 8 misseis qassam disparados ontem tivessem todos atingidos alvos vivos. Quem morreria? Adultos, soldados, policiais, ativistas pro-sionistas? Jamais, e você sabe disso. Perdão se não posso expressar o que sinto ao ler-te com amenidade. Pego a prorrogativa nietzscheniana para tal, e se isto afastar vossos olhos dos meus pensamentos, seria apenas mais uma lamentável casualidade. A segunda pergunta que não cala é a seguinte: Fosse em teu quintal, e fossem teus vizinhos a atirarem pedras que, no mínimo, quebrariam tuas vidraças, no máximo, deixariam alguém de tua família cego, lesado ou até morto. O que farias? Darias a bunda? Sim, penso eu. Dar a bunda é melhor, mais avançado, mais evoluído do que simplesmente revidar com a força que temos, no caso, a de Israel sendo a mais forte. Seria melhor também que todo esse investimento bélico fosse traduzido por um investimento pacífico, na verdadeira construção de um movimento israelense-palestino. Mas isto não ocorre, aliás, em NENHUM lugar do mundo. No entanto, existe esse movimento que só posso classificar como estúpido de espurgar o comportomento israelense sem sequer ter chegado à Turquia para uma visita esporádica. Assim que, dá licença. O Hamas só não acaba com Israel sem titubeio porque NÃO pode. Caso pudesse, responda-se a ti, e não a mim, ou aqui: Se pudesse, você realmente acha que não fariam? Posso, devo e SOU contra as atitudes israelenses na Faixa de Gaza, mas nem por isso consigo apoiar a total falta de pensamento humano. Com perdão desde já,

RF

Lola said...

Oi, Roy,

Serei sincera. Em todos os lugares temos sérios problemas , se eu pudesse resolver todos, tentaria, mas, como não posso, estou me limitando a fazer minha parte por aqui, afinal, também temos muitos problemas, não menosprezando estes, pois são até mais graves. Por estes, o que posso fazer é assinar algumas petições que me enviam para que tenham paz, como os alertas que recebo do Care2. (http://www.thepetitionsite.com/taf/938380652)

Fiz uma singela homenagem às pessoas que passaram em minha casa no ano que passou. Além de ter uma novidade. Dê uma olhadinha lá.

Beijo em você e no seu amor.

Jens said...

Roy:
Quando o ódio ganha da razão, como é o caso conflito no Oriente Médio, a estupidez triunfa. Não há muito o que fazer, a não ser lamentar. Eu decidi que não lamento mais. Querem se matar? Matem-se. Que Jeová ou Maomé ou seja lá quem for os acolha. Eu simplesmente cansei de ser humano.
***
Fosse eu o agredido, não daria a bunda, teria ímpetos homicidas de vingança. Mas eu não sou um país e não possuo armas bélicas de baixa ou alta precisão. Quando a diplomacia - como forma de resolver conflitos entre nações - vai pro saco, a civilização também. Viva a barbárie. Viva la muerte!, como disse um general franquista.
***
A pergunta persite: a ONU diz que não tinha mísseis nas escolas atacadas. Israel diz que sim. Em quem devo acreditar? Independente da resposta, crianças morreram. Assim caminha a humanidade: a passos largos para o abismo.
***
Mas estamos aí, nos guardando pra quando o carnaval chegar.
***
No mais, um abraço. Discordar é salutar (entre pessoas civilizadas, of course. É o nosso caso, certo?)
Inté a próxima.

Roy Frenkiel said...

Eu concordo contigo, Jens. É realmente lamentável. Queima o meu filme.

Super abráx,

RF

Shi said...

Roy, me perdoe vc agora, mas é por essas e outras que eu tenho verdadeiras PAIXÃO por esse ser humano, esse Jens! E por vc meu carinho e admiração crescem a cada dia... rs ;-)
Bjo, queridão!
Shi

Roy Frenkiel said...

Queridos, sinceramente, mesmo que Jens tenha razão, há muito que não vejo discutido aqui. Ou seja, existe sim uma opinião fechada a respeito de Israel. Como se, de repente, mesmo as pessoas vivendo em um país cuos vereadores excedem a marca dos 40, e há deputados estaduais e federais, sem jamais terem ido a Israel ou ao Oriente Médio, sem jamais nem terem conversado muito com israelenses, já tem essa opinião tão perfeitamente formada sobre o Estado de Israel. Apesar de concordar com Jens, não posso deixar de ressalvar que a situação é muito mais complexa do que a depressão momentânea de uns e a felicidade de outros. Hoje fiquei sabendo que queimaram bandeiras de Israel e dos EUA no Rio de Janeiro. Como vocês acham que um israelense deve se sentir com uma notícia dessas? O que Jens omite em seu comentário é que reagir quando se é dono de uma casa e reagir quando se é diplomata de um país que recebe mísseis tanto do Líbano quanto da faixa de Gaza são duas situações muito similares, ao invés de opostas. O país é cercado em uma proporção de 1 israelense para quase 1000 árabes, e realmente, não pode reagir com o poder que tem porque as críticas só reacáem sobre Israel. O fato do Hamas e o Hizbolla jamais aceitarem nossa existência jamais cabem na imaginação de vocês, não é mesmo? É uma dicotomia que, sinceramente, não cabe ao seus intelectos. Fico triste e sinto-me pessoalmente ofendido com essas críticas completamente irracionais. Não me admire, por favor. Sou judeu e sou israelense até o fim, e isso vale muito mais do que times de futebol ou ser ou não Lulista. Feliz 2009.

RF