Friday, January 09, 2009

Quando um só lado torna-se o certo



Uma das grandes vantagens de se ler Friedrich Nietzsche é justamente poder atacar o que achamos errado sem precisar recorrer aos sentimentos fastidiosos da culpa e misericórdia com a palavra alheia, saber que ser só em uma opinião não nos torna menos certos, mas talvez até mais certos do que o movimento impensado de uma vasta maioria. Pois, é exatamente o que sinto quando falo sobre o atual conflito de Israel na Faixa de Gaza e Líbano.

Tenho nenhum ou quase nenhum inimigo verdadeiro. O Reação Cultural exaltou ao menos dois nomes, mas jamais o meu. Meus escritos são admirados (?) por alguns, mas apenas os mais “íntimos” nessa rede virtual, e pouco se fala sobre meu judaísmo, ou o fato de ter nascido em Israel.

Quando falo que sou contra a guerra, para mim o assunto é fechado. Sou contra a guerra, seja qual for, qualquer violência cometida entre seres humanos para com seres humanos. O que me estranha, me admira e me desaponta na reação brasileira, especificamente, é que os brasileiros são apenas contra a guerra quando esta é feita pelo governo estadunidense ou israelense. Ao contrário de Nietzsche, não estou curado do asco que sentiria Zaraturstra, mas me embrigado nele. Sinto que a maior das agressões contra a humanidade, contra o escasso raciocínio humano, é justamente quando um só lado torna-se o certo.

Israel é cercado pelo Líbano, Síria, Egito, Cisjordânia e ainda enfrenta dois graves problemas que o próprio país criou: a Faixa de Gaza e o Hamas. Nem a Síria, nem o Líbano, nem o Egito, nem a Cisjordânia aceitam os refugiados de Gaza, mas repentinamente é obrigação do menor entre os países, o único que não é, em sua integridade, nem cristão nem muçulmano, receber os mesmos refugiados que odeiam Israel desde, no mínimo, 1929, quando a cidade da então Inglaterra colonial, Hebron, foi saqueada por vândalos árabes que, a facadas, mataram quase cem judeus. Por que, eu vos pergunto? Porque Israel recebeu apoio do mesmo país que esperou o holocausto acontecer antes de reagir ao mesmo, que por pura culpa e excesso de judeus em seu território deu aos próprios uma merecida pátria? Esta é a estapafúrdia da desculpa usada pela ditosa esquerda pensante? Intragável e intolerável. A vergonha não está só com Israel, pelo seu uso do poder outorgado, poder que seria extrapolado por muçulmanos caso tivessem a menor das oportunidades, mas também com quem acusa Israel de ser fascista pelo simples fato de que a moda atual é o anti-americanismo, ou sua idolatração severa.

Para cada israelense existe 81,5 (para ser exato, os exageros mal vem) árabes, cristãos e muçulmanos, grande parte ainda em coexistência pacífica, e enquanto apenas em Israel o lado dos árabes é minimamente mostrado, apenas em Israel há uma universidade (uma das mais populares e melhores do país) a forçar a convivência entre árabes e judeus no mesmo dormitório, e apenas em Israel realizam-se congressos pró paz entre israelenses e árabes, apenas Israel, vejam bem, apenas Israel torna-se o estado fascista. Intolerável e intragável. Digo mais, incompreensível e irracional. Não quero voltar a acreditar que o anti-semitismo está impregnado no comportamento de não judeus, mas em minha posição, o que vocês pensariam?

Nenhuma organização israelense dá armas aos seus menores de idade, mesmo aqueles que clamam os territórios ocupados e que vivem em esmagadora minoria entre comunidades muçulmanas o fazem, mas apenas Israel é acusada de fascista. As forças armadas israelenses bombardeiam uma escola clamando existir nelas mísseis qassam, existência negada pela ONU, mas até agora não li da mídia estadunidense ou brasileira nenhuma retrospectiva aos inúmeros atentados terroristas especificamente alvejando ônibus escolares de crianças. Ou os mísses disparados, que podem acertar tanto um posto policial quanto uma escola de infantes, porque apenas Israel é acusada de fascismo. Confesso, sem a menor vergonha, ter nojo dessas acusações unilaterais. Mas não penso mudá-las, não me iludo com tamanha façanha. Apenas faço questão de salientar o outro lado da moeda, e questionar o pacifismo daquelas que ainda vestem a camisa de Che Guevara e Fidel Castro, ambos assassinos, do mesmo modo que as forças armas israelenses ou militantes palestinos o foram e são. Intolerável, intragável e incompreensível.

De minha queda, faço a dança. Vivam bem, é apenas o que quero. Tudo de bom a todos e todas.

Abráx,

RF

12 comments:

Jens said...

Oi Roy.
Quando era moleque, aluno do primário do Grupo Escolar José de Anchieta, um garoto judeu, Heldad, foi estudar na nossa classe. Fiquei seu amigo (os discriminados se reconhecem). Me incomodava particularmente o assédio que ele sofria por parte do Cláudio, que também era meu amiguinho. Influenciado pelos pais, principalmente a mãe de origem germânica, cara fazia questão de atormentar o Heldad pelo fato dele ser judeu. Uma vez levou uma bandeira estampada com o símbolo nazista e a agitava na frente do Heldad que, gordo e desajeitado, corria, chorando de raiva e humilhação, atrás do magro e ágil Cláudio, sem conseguir pegá-lo. Foi então que tornei ativa a minha solidariedade: segurei o Cláudio e fiz com que enfrentasse o Heldad no corpo a corpo. Levou um laço. Muitos de nós lavaram a alma com aquela peleja com gosto de justiça. Pouco tempo depois o Heldad abandonou a escola. A pressão e a intolerância se tornaram insuportáveis para um garoto de 9 anos. Nunca mais o vi. A pecha de anti semita não me serve. Este chapéu eu passo.
***
"Para cada israelense existe mil árabes, cristãos e muçulmanos". Sei não..., a continuar assim a situação logo vai se inverter.
***
Um abraço. Bom findi.

Roy Frenkiel said...

Jens, ela já é invertida. O anti-semitismo que prego é por andar pelas ruas de BH, e SP, e ver mensagens do tipo "Israel fascista", "Fora Israel", "Pau no loló de Israel", "Fora judaizada fascista" etc. Eu ainda não me sinto pessoalmente atacado, mas é injusto, desleal e irracional que apenas Israel seja criticada, como se do outro lado existisse apenas os santinhos. Amigo, não há nenhum especificamente culpado nessa história, não, creia se quiser. E é só isso que me incomoda. Estou cansado de ter de defender os palestinos contra os israelenses unilaterais, e os israelenses conta O MUNDO unilateral. Ponha-se na minha posição e veja se não tenho todo o direito de me sentir assim.

Enfim, já especifiquei no texto, porque ironias às vezes são mal-vindas, que a proporção exata (em Israel) é de 81,5 árabes para cada judeu. Eles só precisam decidir caminhar a Israel. E quando Israel acabar, tenho absoluta certeza de que muitos comemorão. Isto me emputece. Não há nação santa que eu conheça nesse mundinho de merda, mas a vilã, aparentemente, todo mundo já decidiu quem é. Ah, váfá.

Bom findi procê também, velho de guerra,

RF

mulher de sardas said...

eu fico lendo as coisas e pedindo para todo mundo me explicar toda hora porque, eu juro, não entendo nada disso...

só sei que de repente parece que o mundo explodiu.

que é uma guerra e eu sou tão ignorante que não sei nem de que lado ficar.

só fico aqui querendo que acabe.

são minha ingênuas esperanças que falam, mas sei que tudo vai muito, muito além de certo e errado, de santo e demônio.

um beijo pra ti e meus desejos de um belo 2009.

Shi said...

Puuuutz, pego todas as palavras da mulher de sardas e tomo pra mim, pq é exatamente como me sinto! :-S Uma lástima, tudo isso, vôte!
Bjo, querido!

Esyath said...

RF,

eu acho que os israelitas se tornaram mais evoluídos e pacíficos porque souberam se agrupar melhor e canalizar investimentos econômicas, precisavam de um pouco de democracia ocidental em seu seio para sobreviver, mas acho que você está certo quando exalta os bons predicados deles, porque os palestinos são bem mais radicais e egoístas... Não sei... Mas no fundo acho que enquanto ambos os lados só souberem gritar... ninguém será ouvido... O pior é que são idiotas... pois não percebem que não estão destruindo o lado opositor... mas a si mesmos... quando matam inocentes...

Beijos (Des)conexos!

loba said...

Acabei de deixar minha opinião sobre esta guerra em outro blog e repito aqui: pra mim, toda e qq guerra tem como responsáveis todos os lados envolvidos - não há lado inocente e lado culpado! E toda guerra é cruel, desumana e deixa um doloroso rastro de destruição!
Enfim, sou radicalmente contra qq tipo de guerra - seja ela entre nações ou esta constante e tb cruel guerra urbana que vivemos diariamente! Guerra pra mim é e sempre será injustificável!!!
Beijos Royzito!

Roy Frenkiel said...

É, Shi, eu entendo, mesmo. Acho que por não mais estar nos EUA, não vivo mais sob o conforto da proteção evangélica que realmente acredita na existência de um lado certo, no caso, o lado judaico. Aqui, no Brasil, está mais do que claro que o lado certo é o dos palestinos. Enfim, concordei cem por cento com os últimos quatro comentários.

bjx e abrax

RF

Lola said...

Olá, Roy,

Estou passando com pressa, só para avisar que respondi ao seu comentário lá em casa. Depois volto para ler com calma e comentar.

Beijo grande.

Cris said...

oi, Roy ,

Apesar das cenas dolorosas da ofensiva israelense que vemos nos noticiários , apesar de achar o óbvio em relação à conflitos armados de quaisquer proporções,ou seja, uma estupidez sem tamanho,a única certeza que tenho é que nada sei ; sei o que leio e vejo pela mídia e isso é pouco para opinar ou julgar. Israel teve suas cidades atacadas por foguetes do movimento islâmico fanático e se defendeu , como qualquer um de nós em situação semelhante, e com todo direito.

beijo.

Cris said...

Corrigindo:

aos conflitos , não à conflitos

Marcelo F. Carvalho said...

Roy, o horror do homem é que é uma merda... e isso nos torna cada vez mais indiferentes a paz e mais satisfeitos com a ignorância dos preconceitos. O povo judeu (milenar) é lindo, assim como os árabes racionais, os cristãos racionais, enfim, assim como o homem racional.
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Abraço forte!

Dani said...

Legal você ter postado o texto do Ali Kamel, um dos jornalistas mais lúcidos do Brasil e diz umas verdades que incomodam muita gente. No mínimo um om texto para reflexão, já que nos mostra uma versão diferente da veiculada pela mídia em geral. Não sei se você sabe, mas o Ali é muçulmano e sua esposa é judia.