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Wednesday, June 11, 2008

O as(es)pecto(pectro) da Economia

Economia


47 milhões de pessoas vivem sem seguro de saúde nos Estados Unidos, sem contar os indocumentados. O mês de Maio foi marcado pelo maior aumento de desempregados a curto prazo em 22 anos (portentagem que não chega aos 6% (5.5%, a subida foi de meio ponto em um mes), mas ainda assusta se comparada a outras eras e o fato de que a economia do país atualmente não é tão sólida quanto era nestas eras). O preço do galão de petróleo já ultrapassou a temerosa marca dos quatro dólares, e em alguns estados, pensar na marca dos cinco já é preocupação iminente.

Esses fatores, agregados à falta de uma reforma imigratória consistente, perante um seguro social prestes a falir com a aposentadoria dos chamados “Baby Boomers”, navegantes e frutos dos prósperos dias após a Segunda Guerra Mundial, e perante uma guerra no Iraque que abocanha um grande pedaço dos tributos da nação anualmente, tornam a discussão a definir uma recessão meramente acadêmica. Chuck Todd disse isso, ao vivo, pela MSNBC há alguns dias.

Para debutantes republicanos, os jovens que blogam e escrevem nas comunidades do FaceBook e do Orkut, a mídia liberal penas propaga um mito da crise econômica nacional. Mas são jornalistas profissionais os que ditam as regras dos debutantes, como os conservadores do sítio Townhall, os difamadores da esquerda jornalística, e suas provas geralmente advém da semântica do termo “recessão”, ou seja, uma queda sólida, em dois quartos consecutivos, na Bolsa de Valores.

O que Todd disse é o mesmo que sempre li dos intelectuais da esquerda brasileira: Discutir semântica e ortodoxia financeira é acadêmico e imprático enquanto pessoas reais enfrentam situações reais de risco cotidiano. Os atuais candidatos à presidência sabem disso, e ambos representam as clássicas vertentes, ao fim das contas da busca do “novo”, de seus partidos.

John McCain centraliza suas energias a convencer eleitores de que seu governo se preocupará a dar mais atenção aos pequenos negócios. O foco, contudo, é conservador à morte: Expansão do mercado, menos fiscalizações, e a perpetuação dos cortes de impostos (incluindo a quem ganhar mais de 250 mil dólares anuais, excluídos dos cortes pelos planos de seu rival democrata). Também oferece retribuições tributárias de milhões de dólares ao incentivo da compra de seguros de saúde, e ao estímulo consumista.

Barack Obama promete as mesmas retribuições em menores proporções, já que aumentará ou desviará impostos a áreas como o programa chamado Medicaid (ajuda médica, em tradução literal), e a inclusão de todas as crianças da nação no programa que atualmente garante a saúde pública a apenas quem se encaixa no padrão do nível da pobreza nacional. Além disso, ajudará, através de impostos, a propietários que ainda podem salvar suas casas, outra crise, a imobiliária, ainda rendendo más notícias diariamente.

Nessa estação de campanhas presidenciais, a frase que Bill Clinton usou para retirar George H. W. Bush da Casa Branca, reverberará pelos anais jornalísticos do país: “É a economia, estúpido.”

(De acordo com o Gallup, eleitores se preocupam mais com a guerra no Iraque do que com a economia. Mais sobre ambos a seguir.)

RF

Thursday, July 19, 2007

GROSSA, PÚTRIDA E FÉTIDA

Quando falam que esse país gringo é capitalista, não falam só sobre o governo. Quando falam sobre o povo, não estão brincando. Conversando com colegas de classe vejo que o conflito entre o mercado e a sociedade parece enraizado nas mentes dos alunos, ou seja, da população mediana. O mercado, geralmente, ganha em valor. A vontade de vivenciar a fantasia vence à necessidade de construir um sistema melhor para os que não podem adquiri-la. Falo de uma fantasia que se expressa e é vendida através de Hollywood, através da tecnologia na área da tele-comunicação e Internet, através da televisão e blogues, e através de luxos e lixos mais ou menos caros circundando o mercado. A sociedade perde em valor. O indivíduo passa a sentir-se obrigado a produzir. Mas, produzir o quê?

Ontem nossa classe passava pelo exame final em forma de apresentação oral e individual sobre temas optativos. Eu escolhi, conforme escrevi aqui ontem, o tema “O Pobre e a Literatura Brasileira” baseado no artigo de Halem Souza “Quelemén.” Antes de minha apresentação, uma das alunas começou com Paulo Coelho e sua vida, tratando especialmente da obra “O Alquimista” e mostrando entrevistas suas em Londres, enquanto assinava sua última publicação. O escritor está no Guiness por número de autógrafos concedidos, isso eu não sabia. Além de ser um dos mais vendidos no mundo, ainda tem uma história rica em sua vida para ludibriar a população e refletir uma boa personalidade. Não que não a tenha, mas julgar Coelho por seu papel à época da ditadura não coincide com julgá-lo por seu valor (ou falta de) literário. A classe, contudo, o adorou. Ele fala bem o Inglês, e fala bem o idioma dos Estados Unidos: dinheiro. Quem mais fala esse idioma? J.K. Rowling. Quem mais? Stephen King. Há exemplos, vários, de Grisham ao falecido Sheldon. Pessoas que realmente não têm ou tiveram muito o que dizer, mas souberam satisfazer a carente imaginação pública.

Leiam o texto de hoje na casa do Jens. Concordo que a imaginação seja uma faca de dois gumes. Se, por um lado, ajuda a vivenciar uma realidade alternativa e sofrer menos com as contundências de nossas vidas, ao mesmo tempo também ajuda a criar alternativas insustentáveis, e a anestesiar ou conformar quem imagina a ponto de que a pessoa não mais sinta a necessidade de mudar o mundo que a circunda. Isso também é Individualismo. Aliás, é mais próximo ao Individualismo original, baseado no capital. Este é o Individualismo da nação estadunidense, mas é também o que colabora com a negligência social que brasileiros e brasileiras testemunham diariamente.

Nesse sistema de valores, ou cultura, enquanto eu estiver bem, está tudo bem. Procurar culpados e até mesmo responsáveis alheios serve para justificar a ausência de minha própria responsabilidade social. Enquanto eu estiver bem, entretido, alimentado, hidratado, confortável e a par da tecnologia vigente, está tudo ótimo. Se minha companhia oferece seguro de saúde, o que me importa você não ter o mesmo? Se minha companhia não oferece o mesmo seguro, é minha tarefa, individualmente, reclamar e reivindicar o que penso ser-me justo. Mas, reclamarei à companhia, não ao governo, e em um país de capitalismo arrojado como o que moro, tenho chances – ainda que limitadas de acordo com meu sexo, religião e cor – de conquistar outro emprego em outra companhia que me ofereça os benefícios que demando. Mercado aberto… Mercado dominante.

Nos discursos dos demais alunos, alguns escritores foram melhor aceitos do que os outros. Gabriel G. Márquez, por exemplo, foi veementemente criticado por sua amizade a Fidel Castro, e por ser “comunista.” Isabel Allende, refugiada sobrinha de Salvador Allende, que vive nos Estados Unidos, foi criticada pelos alunos cubano-estadunidenses por manter pensamentos esquerdistas e morar no país. Fiquei estarrecido com as opiniões absolutistas sem sentido, emitadas por meus colegas.

Outra surpreendente afirmação ocorreu uma semana antes dessas apresentações. A crônica “A Lição” de Toni Cade Bambara fala sobre um grupo de crianças em um bairro decadente de New York que, guiados por uma professora aposentada, visitam a loja de brinquedos FAO Schwartz (aquela do filme “Esqueceram de Mim”) e aprendem que, enquanto um barquinho de brinquedo custa mil dólares, esses mesmos mil dólares são ganhos por seus pais apenas após um mês de árduo trabalho. A maioria de minha classe entendeu que a lição moral da história era: As pessoas precisam aprender a querer algo melhor e poder adquirir um barquinho de brinquedo que custe mil dólares, porque, se você trabalhar muito, você poderá adquiri-lo e não pertencer mais à classe pobre.

Claro que a lição era outra… Bambara retrata a injustiça social de um mercado que contrata pessoas por centavos para lucrar milhões de dólares com seu labouro. Uma sociedade que não nutre as mais básicas necessidades de sua nação, mas que oferece inutilidades a preços absurdamente altos. Isso é uma realidade incontestável, e quando é mencionada ditames são murmurados, como: “Isso é melhor do que o comunismo!” “A Indústria é um milagre, não a critique!” “Pelo menos essa gente tem emprego!” Quando o sistema é atacado aqui nos Estados Unidos, ainda ocorre o que provavelmente ocorria nos muitos países guiados pelas mais variadas ditaduras. O povo se agita como se atacássemos sua religião, sua convicção mais profunda, seus valores sacrossantos. O que Bambara quis ilustrar é o absurdo da comparabilidade do preço de um barquinho de brinquedo e um mês de salário mínimo, que serviria para pagar aluguel, comida, escola, saúde e entretenimento, entre outras necessidades básicas. Alunos e alunas entenderam que todos têm a chance de conquistar dinheiro suficiente para comprar esse barquinho. Por quê?

Porque todos querem acreditar que se pode, e porque vivemos em um país que pode-se conquistar o suficiente nem que seja para continuar acreditando. Todos querem acreditar que é possível, e como aqui é mais viável, a negação é muito maior. Pensam que poderão mesmo, algum dia, comprar o tal barquinho. Pensam que, matando-se de trabalhar, conquistarão a riqueza e a fama. Não sabem que é economicamente inviável garantir riquezas a toda uma população. Não consideram as necessidades dos pobres, e sim os criticam por falta de vontade de conquistar o sucesso econômico. Não calculam que, enquanto alguns poucos ganham todo o dinheiro que circula no mercado, não haveria de onde tirar o dinheiro que eles querem algum dia receber. De onde sairia? Do espaço?

Eu também gosto de festa. Também quero acreditar que não é preciso socializar mais nada e deixar que o mercado selecione quem de nós é melhor ou pior. Infelizmente, eu sei o contrário… Não pela natureza do mercado em si, mas especialmente por sua valorização nas mentes do povo estadunidense, povo que melhor adaptou o capitalismo em sua forma mais pura. Enquanto valorizam a magia desconexa de Coelho e criticam escritores e intelectuais que se preocupam com a sociedade, o que se vê é o que vemos: Uma guerra completamente falsa e conhecidamente falsa ainda sendo discutida como se não houvesse toda a informação que temos. O seguro social, a reforma imigratória, a verdadeira reforma elétrica, a socialização da saúde estão ao lado de outros inúmeros assuntos locais, que são simplesmente ignorados O motivo verdadeiro disso? A sociedade vive em negação. A sociedade vive procurando festa.

O PROBLEMA É QUE OS SALÕES ANDAM SUJOS, E FECHAR OS OLHOS NÃO MUDA O FATO DE QUE A SUJEIRA SEJA GROSSA, PÚTRIDA E FÉTIDA.

RF