Saturday, January 19, 2008

O Pasquim, Colbert, Stewart e a Grande Mídia

(Hoje: Preliminar republicana em South Carolina, onde estão John McCain e Mike Huckabee brigando pela nomeação. Mitt Romney faz sua campanha apenas em Nevada. No “caucus” misto de Nevada, Barack Obama e Hillary Clinton disputam a primeira colocação depois de um processo ligado a eleitores de Clinton que visava proibir “caucuses” nos cassinos da cidade, o que prejudicaria os eleitores culinários, cujo sindicato optou por Obama. Os “caucuses”, contudo, podem ser feitos nos cassinos, de acordo com a legislação deliberada.)

Quando pensei ser jornalista por primeira vez, tinha em minhas mãos um exemplar do Pasquim XXI, a versão moderna de seu ancestral que nasceu com a ditadura brasileira dos anos sessenta. Lia provavelmente alguma matéria de algum jornalista que já não me lembro, ou talvez a coluna de Fritz Utzeri ou o que escreveria Fausto Wolff e seu alias Nataniel Jebão. Meu maior encanto foi a sutileza, a agilidade, a sagacidade,e ao mesmo tempo o escracho, a “safanagem”, a malandragem brasileira que ali faziam ninho e davam asas à minha mente em um misto sórdido. Se hoje sou um ignorante cultural que delibera bem, antes do Pasquim XXI eu era o retardado que tanto acuso outros serem.

Além disso a crítica funcionava e “pegava”. Eis que eleitores de Lula admitindo seus verdadeiros sentimentos em relação ao governo do “cefalópode molusco” me faziam gargalhar e repensar. Os quadrinhos, as tiradas, o formato, para mim pegou. Nunca (repito, nunca) li o Estado ou a Folha como li o Miami Herald e o New York Times. Jamais (arroto)! Mas o Pasquim eu lia de cabo a rabo, cada palavra, e esperava aflito a próxima edição. Não era por acreditar em tudo o que diziam, mas sim, eu os tinha como ídolos, algo que já matei há poucas primaveras.

Era por rir, pelo humor, pelo tapa na cara bem dado por pessoas que: a-) sabiam escrever; b-) sabiam ler; c-) sabiam o que estavam falando em grande parte ou; d-) sabiam fingir que sabiam muito bem. Novamente, o escracho proposital e o desleixo dos acasos causados que o Pasquim sempre trouxe, me fizeram perceber que a mídia podia ser honesta. Verdadeira aprendi que não pode ser, mas pode ser honesta.

A mídia aqui briga com a mídia como lá. A Fox News foi criada especificamente para contrabalancear a CNN (90% democrata) e a MSNBC (sua prima mista), que narravam um lado muito “liberal” dos fatos. Mas a Fox News não só mudou a história dos Estados Unidos em 2000 declarando a vitória de Bush enquanto suas rivais declaravam a vitória de Al Gore no estado da Flórida, assim mudando a história de vários países, como também mente inescrupulosamente antes de checar os fatos de notícias menores, como a mais recente mentira de que Barack Obama tinha sido educado na primeira década de sua vida como muçulmano em uma “madrasa”. Calúnia.

A MSNBC tem um quadro e um âncora que sempre sacaneiam a Fox, inclusive chamando a Bill O’Reilly, âncora infame do canal republicano, de imbecíl em inúmeras ocasiões. A diferença é que todos esses canais são supostamente “equilibrados”, e pendem à seriedade na transmissão das notícias.

Já no Comedy Channel, apresentadores como Jon Stewart e Steve Colbert usam palavras escritas por roteiristas cômicos, e usam material programado para cada show apresentado. O intuito é fazer rir, mas nos últimos anos tem se tornado político, criticando a mídia, políticos e sociedades como só humoristas sabem fazer. Entre um programa de Colbert ou o Hard Ball com Chris Mathews, um de meus âncoras favoritos da MSNBC, fico com Mathews porque, infelizmente, é esse o estilo que realmente deveria funcionar. Opinativo, aberto, e escolhe o ângulo trasnmitido como qualquer outro veículo. O jornalismo opinativo é uma faca de dois gumes.

Digo isso porque jornalistas assim têm uma idéia muito certa de como as coisas deveriam ser, mas se for errada, poucos saberiam admitir por tamanha certidão e convicção, algo que deve ser compreendido por telespectadores atentos. Em outras palavras, a parcialidade que sempre existe e pode muito bem ser exposta como faz Howard Zinn em seus livros históricos, acaba transformando a realidade em um filme editado, que até pode ser um bom documentário e ajudar na digestão de tanta realidade e tanto acesso a diversificadas formas de conhecimento.

Se a edição for explícita, como fazem Colbert e Stewart, ou se a edição for inexistente, como fazia o Pasquim, a importância jaz justamente nos causados pensamentos, idéias e revoluções – masturbações – pensamentais que florem de mais um exemplo do que o jornalismo pode ser. Se tenho tempo, assisto Colbert e Stewart, mas se o Pasquim existisse seria leitura obrigatória para fazer algum sentido do que não faz sentido algum.

No entanto, a anedota que fecha essa paródia descabida de texto é que Colbert e Stewart estão se saindo tão brilhantes no jornalismo televisivo quanto eram os veteranos do Pasquim XXI. Pela famosa greve de roteiristas que cancelou a premiação do globo de ouro esse ano, seus programas estão a modo de “improviso”. Mas ambos são tão sagazes, que a eles criou-se uma excessão.

Ao contrário de outros apresentadores, como Jay Lenno, os comediantes estão escrevendo – ou dando a escritores que estão em greve, mas “de mentirinha” a escrever – o próprio material, que para mim não perde nenhum ponto do material que os roteiristas produziam, ou ainda produzem nas sombras. Façanha única na televisão americana atual. Além disso, muita gente votará esse ano pela bem feita tarefa desses âncoras, já que muitos jovens não assistem telejornais, mas assistem o Colbert Report e o Daily Show with Jon Stewart.

A neutralidade precisa existir, mas sem a sátira não somos completos humanos.

RF

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