Tuesday, June 12, 2007

O Segredo de Minha Irmã

Uníam-se todos pelas sombras das árvores a esconder-nos do brilho da lua às tardes dos meios de Julho, inverno sem chuva, outro milagre de Maria, a quem quase prometi jamais mencionar. Uníamo-nos todos.

Décima-Quinta Parte

O Quarto Plano – Eu e João dos Rosários

Os córregos transbordaram em Santa Maria, e junto ao exército liderado por Gonzalo, às margens viam-nos marginais. Marchávamos, mas não sem esbarrar por olhares perfidiosos. Não sem esperar o que espreitava às esquinas, balas perdidas de traíras ciumentos, desequilíbrio cultural. Éramos muitos, quase todos, mas aquela minoria acizentada, insidiosa e amarga, amargava nossas vidas. Mangáva-se de nós, por mais que os doidos fossem os mais lúcidos e a verdade estivesse exposta a qualquer vista. Ainda viam-nos marginais. Eu, sem rumo ainda que andarilho, juntei-me a João dos Rosários e dos muitos mortos, afins de terminar o que tínhamos começado.

Comecei a terminar com um nó na garganta que só se desfez com a visita de Janaína. Pensei na mãe, e por preocupação de não enterrá-la por violência, jamais descansei depois de armado nosso feito final. João avisou que, quando fosse sua vez, eu veria sangue como nunca antes, e eu jamais vira tanto sangue quanto vi àquela vez. Pensei: “Há de vir o troco...” E pensei certo, mal imaginando a espécie de vingança a mim resgüardada pelo tosco meu destino.
Reuníamos todos os marginais como podíamos, e as passeatas alargávam-se às madrugadas. Quem ainda não tinha lado, fazia-se refém dos assassinos. Decidimos acrescentar à cidadela com o dinheiro que não nos pertencia, tudo o que nela faltava ou sobrava em decadência. Decidimos sonegar impostos, investindo tudo o que era nosso em nossas próprias terras, para o bem coletivo. Se não tivéssemos terras, juramos tomar posse de muitas delas. Juramos jamais respeitar as leis locais, e apenas considerar o que era justo em nossa constituição nacional. Juramos, todos ainda guiados pelo bastão de Gonzalo e seu sotaque esnobe, todos como muitos, que jamais, jamais, sob nenhuma circunstância ou situação, seja ela ameaçadora de nossas vidas ou das vidas de quem mais amamos, obedeceríamos a Jurandir. Juramos morte a Jurandir. Alguns de nós levaram mais a sério do que outros.

João dos Rosários levou mais a sério do que ninguém. Naquele mutirão anarquista não havia mesmo nenhuma ordem. Nenhum pensamento elevado. Nenhuma alta conclusão. Apenas uma vontade enorme de não obedecer. Apenas enorme ímpeto de sair-se melhor do que o pior dos anos passados. Construir uma escola seria mais fácil do que usá-la. Pagar bons médicos significaria importá-los das grandes ou ainda menores cidades, qualquer fosse maior seria do que Santa Maria. E Maria não foi, aos bons olhos, uma Santa. Foi apenas uma mulher da vida, feliz por sua profissão, que outorgou prazeres aos eclesiásticos autoritários, e converteu mil outras putas ao catolicismo. O que ninguém conta é que Maria, em nome da Virgem, além de nada virgem converteu putas dizendo que esse era o segredo da vida eterna, prometido por Jesus, que assim lhe confessávam os clérigos quando desfaziam-se, temporariamente, do celibato: a putaria. Nossa cidade era Santa, em nome de uma prostituta chamada Maria, que jamais se arrependeu de seus pecados, e nunca obedeceu. Sumimos do mapa, é claro.

Acompanhado de meu güarda-costas João, pedi a ele seus rosários e rezei para não morrer ou matar. Quem queria sangue era meu companheiro, eu sempre fui pacífico, e senti que nossa desforra já fora mais justa do que eu lembrava. Tinha mais medo de dar errado do que vontade de dar certo, àquele ponto do conto. Desceu amargoso meu catarro e atravessou-se em minha garganta quando avistamos a mansão de Jurandir. Não havia cães nem outra güarda. A porta principal jazia escancarada. Entramos, ombro em ombro.

Jurandir ali nos esperava sereno, com o sorriso escroto que sempre mostrou ter. Tomava uísque, ou alguma outra bebida importada, marrom. Nem murmurou, nem pronunciou, nem balbuciou gratificações ou satisfações. Não éramos hóspedes, mesmo que esperados. Levantou-se em um só golpe, e ergueu da cintura suas calças entre-abertas. Levantou zíper, abotoou-se e laçou-se a cinta a ajeitá-la habilmente. Arrumou a calça sobre o untuoso estômago e deu dois passos em nossa direção, ainda sorrindo. Nós apenas fitávamos o porco-humano. Eu me sentia anestesiado, mas pressentia algo inapropriado no ar, um receio universal, grosso, penetrando minha pele. João não teve tempo de dizer o que sentia.

Foi o estampido mais próximo que ouvi em minha vida. O corpo de João recaíu-se sobre meus pés, uma poça de sangue brotou debaixo de minhas solas. Jurandir não se moveu, apenas fez dois gestos com a mão, e porta a fora vi o vulto de um sujeito sem nome carregando uma Colt .45 à mão direita. De meu ponto de vista, o dos Sete Mortos não tinha mais cabeça. Vingáram-se, aparentemente, todos de uma só vez e lhe estouraram os miolos.

Eu... Paralisado, a espera de um milagre. Paralisado como via-me com Janaína, quando veio me visitar.

5 comments:

Jens said...

PQP! Não me diz que o Jurandir vai ganhar mais esta?

R.C said...

Haha Jens! Quem dera a historia fosse tao importante! :-) Entao, se voce prestar atencao Jurandir ganhou essa, ja sabiamos disso. Vai vendo!

abraxao

RF

Ophélia said...

Essa versão do catolicismo feminino está perfeita, Bento vai amaaaaaaaaaaar.
Porque não matamos logo esse porco nojento do Jurandir? Heim? Não vai ser o fim, pode por outro em seu lugar para imprimir realidade e historicidade à trama. Vai escrevendo, vai.

bjs

Ophélia

Anonymous said...

isso é que é tentativa de aumentar a visita em um blog.

jduarte said...

Desculpa a invasão...
O teu blog está muito fixe…
Gostava que visses o meu e que comentasses
http://mygaleria-jduarte.blogspot.com