Monday, April 09, 2007

A inocência

Nunca fiz algo tão mais certo do que estudar filosofia. Todas as outras ciências exatas ou humanas, de certo modo, dependem das primeiras formas lógicas de pensamento. O problema, ao meu ver, resume-se ao fato de que somos limitados, e para pensar de um modo X, não podemos pensar de modo Y (não me aprofundo no problema porque o problema não vem ao caso). Uma das questões filosóficas que me abalaram neste final de semana foi a perda da inocência. Se entendi bem, Rousseau era da opinião que o ser humano nascia (ou melhor, nascera em termos de evolução das espécies e em termos de diferentes civilizações, como algumas indígenas, muitas vezes consideradas “selvagens”) sem maldades, sem más intenções e, especialmente sem senso de posse. Para o filósofo da Geneva do século dezoito, o senso de posse é que inicia o círculo vicioso do que chamamos de “civilização”, mas que mais bem significa a garantia de que quem mais oportunidades e possibilidades tem precisa ser protegido de quem menos oportunidades e possibilidades possui. Caso o maior valor fosse talento ou qualidade do serviço oferecido, no qual todos os seres humanos contariam, cada qual com seu talento, ainda teriamos menos bases para reclamar ou outras perspectivas em relação ao assunto. No entanto, o direito à posse (não o direito da oportunidade igual à posse) é resguardado e reservado a uma certa pequeníssima (cada vez menor) porcentagem da humanidade, enquanto os demais dividem os restos do farto banquete da injustiça social.

A inocência se perde quando a posse modela a auto-estima, o orgulho e a dignidade. Perde-se pela determinação da posição de um indivíduo em seu meio, enquanto é melhor conceituado, protegido e auxiliado por ter um carro melhor, um terno melhor, por frequentar melhores clubes, melhores boates, melhores bares, melhores restaurantes, e não pela diferença que faz à mesma sociedade que o conceitua, protege e auxilia. A inocência se perde quando a terra deixa de ser um direito inerente e natural de todos, e passa a ser vendida e revendida às custas de sangue, o sangue que produz o dinheiro que produz mais dinheiro que nunca circula e majoritarimente morre em impulsos eletrônicos nas telas dos computadores. Perde-se porque sabemos do que o animal humano é capaz de fazer, o que seu orgulho, sua baixa auto-estima, seu complexo de inferioridade, superioridade, sua expressão de agressividade inadequada, sua sexualidade mal-resolvida, sua ignorância, sua alienação são capazes de causar a outros seres humanos e a nós mesmos, por nós mesmos, sem pensar em nós mesmos.

Neste 7 de Abril Mana Maya fez aniversário e nos reunimos em sua casa para um sarau delicioso que violentou a intimidade da madrugada de Sábado para Domingo. Na festa, enquanto o rádio cantarolava músicas populares brasileiras da qualidade que gostamos de apreciar, disse a um companheiro venezuelano algo que ele deve compreender melhor através da arte de seu país: “Cada vez que ouço uma canção brasileira eu perco um pouco mais de minha inocência. Perco a virgindade novamente a cada nova música. Parece que eles sabem algo que eu não sei…” Não há mesmo outro modo de explicar. O sexo, a vida, a paixão, o prazer, a inocência de que se pode viver e sentir de modo paradoxo ao que nossos sistemas sociais geralmente nos forçam a viver e sentir…

E é isso que me deixa mais indignado. A inocência que eu perco metaforicamente é exatamente a oposta da que se perde quando o senso de posse ultrapassa, em valores, o senso de ser. É a inocência que, segundo tantos, causa a infantilidade, a falta de capacidade de adaptação nos meios conformes e comuns de nossas respectivas comunidades. Perco a inocência de que meu terno, meu carro, meu maço de notas de cem dólares significarão mais do que o que eu deixar para trás aos demais quando vermes comerem minha carne e a terra apodrecer meus ossos. Perco a inocência de que vivemos em um mundo que precisa ser como é, que não pode ou nem deve ser diferente, porque assim sempre foi e essa é nossa natureza controversa, de destruir o que nos abriga, e abrigar o que nos destrói.

Qual inocência, sempre me questiono, vale mais perder?

RF

2 comments:

Anonymous said...

é, a inocência. Coisa mais bem colocada...

bjs

Ophélia

Jens said...

Marx também cantou essa bola: tudo é questão de posse. Por isso sou socialista: abaixo a propriedade privada.