Friday, April 06, 2007

Sexta Pensamental de Feder

Um Ode à Alienação

Às vezes os detalhes mais insignificantes de nosso cotidiano não só representam analogias para os maiores problemas da sociedade e seu modus vivendi, mas também servem como ilustração à causa lógica, proporcional aos mesmos. Às vezes, a güarita do porteiro do meu condomínio serve para explicar como funcionamos em comunidade, e como isso influencia nossos hábitos comuns diretamente. O essencial obstáculo de nossa civilização é a alienação do povo, a abstração constante que, em um nível ou outro, a massa faz dos assuntos mais importantes ao nosso diário funcionamento. É fato que não se consegue explicar nem entender claramente, sem maiores complicações e complexidades, o que cada um pode fazer para obter melhorias sem prejudicar a ninguém e de quebra ainda alavancar à próxima pessoa. É também fato que isso ocorre justamente pela alienação e abstração dos assuntos mais importantes ao nosso diário funcionamento.

Falemos, por exemplo, sobre o sistema democrático eleitoral. Há pouco tempo, minha amada me perguntou, das bancas de Minas Gerais em Belo Horizonte, por que nos EUA, que se diz pai da democracia mundial, defensor de suas raízes, conseguiram eleger duas vezes a um presidente tirano como George Bush? Minha resposta veio em duas partes, em um paralelo ao sistema eleitoral brasileiro. A que se saiba, o povo estadunidense NÃO elegeu George Bush.

Nos EUA muitos votos já são eletronicamente computados, enquanto no Brasil o processo é ainda manual, com a justificativa lógica da desconfiança em computadores para uma decisão de tamanho peso. No EUA as pessoas não necessariamente elegem o presidente, apenas ganham o número de colégios eleitorais referentes ao estado em que a maioria elege determinado partido (Republicano ou Democrata, primordialmente). No Brasil o povo elege o presidente. A margem de erro em ambas eleições previne truques mais ousados de fraude eleitoral, mas não previne a compra de votos, que ocorre tanto no Brasil quanto nos EUA similarmente. A maior diferença, para quem ainda não gritou e levantou a mão dizendo “eu sei, eu sei!” é que no Brasil o voto é obrigatório (inclusive a cargos cuja eleição ninguém sabe explicar como se deu, porque ninguém se lembra de ter votado no candidato), e nos EUA o voto é eletivo. Aqui surge o primeiro problema:

No Brasil, o povo precisa votar, mas não é melhor preparado do que o estadunidense. A alienação só se difere pela obrigatoriedade da propaganda política eleitoral, enquanto nos EUA, quem quer, troca o canal, e a maioria das pessoas possúem TV a cabo. Assim, no Brasil a população mediana tem alguma vaga e sombria idéia sobre as intenções dos candidatos, enquanto nos EUA, foi constatado que mais de 60% de pessoas afiliadas ao partido Republicano não sabiam o que Bush fazia, dizia, ou como seguia sua administração tanto na primeira quanto na segunda vitória eleitoral. Esses 60% ainda pensam que a milícia estadunidense encontrou armas de destruição em massa no Iraque, e pensam que a guerra se deu por vingança ao que os iraquianos fizeram com as Torres Gêmeas no dia 11 de Setembro de 2001. Estudantes de faculdade, em muitos dos casos nas faculdades estaduais e federais, ou em particulares de menor credibilidade no mercado, não têm a menor idéia do que é um tsunami, e ainda acreditam piamente que o Brasil fica na Argentina, que por sua vez é a capital de Buenos Aires.

O segundo problema é que, nos EUA, a maioria (como foi o caso no primeiro mandato de Bush) não necessariamente elege o presidente. Como o voto é um privilégio, mas não uma obrigação, impedir potenciais eleitores antagônicos ao perfil do atual mandato se torna tarefa relativamente “fácil”. Se a pessoa tem dívidas discriminantes e berrantes, seu direito ao voto é caçado. Isso aconteceu aqui em explícitas situações ao longo do ano eleitoral, mas as consequências nunca atingiram o presidente ou sua administração. O motivo? Alienação.

E no Brasil? Será que ocorre o mesmo com os mandatos de Lula, que se esperavam reacionários ou, pelo menos, revolucionários e acabaram moderados, amedrontados, apazigüados, paliativos...? Talvez com alguma pequena mudança, mas esta também advém de um movimento oposto ao da alienação. A panela de pressão está fervendo. A criminalidade urbana aumentou em proporções que mal se podiam imaginar nos piores pesadelos. A corrupção chegou a níveis que, quando pegamos o maior dos ladrões, apenas pegamos o fantoche do verdadeiro ladrão, este incógnito até o fim de sua vida. O descaso pelos meninos da Cracolândia, Vidigal, Porto Seguro, Ceilândia, Alemão, Rocinha, Santo Amaro, Sé etc ad infinitum cresce em linha paralela à desesperança e desespero de uma classe média cada vez mais escassa.

Nos EUA não houve nenhuma situação de crise social que passou sem reivindicações por parte dos segmentos prejudicados. Desde o período anterior à guerra civil, chineses, mexicanos, índios, negros, trabalhadores de diversas áreas, mulheres, trabalhadores rurais e urbanos, todos de um modo ou outro lutaram, e não se pode negar que muito mudou (e muito retrocedeu com Bush) desde que o país foi declarado independente. A alienação existe aqui tanto quanto no Brasil, mas a maior diferença é que no Brasil muitos não são educados a conhecer mais do que a própria casa, e a cidadezinha pequena que os abriga. Nos EUA mesmo que grosseira e às vezes estupidamente, a massa equivalente ao menos lê, escreve e dispõe de ferramentas úteis ao conhecimento global. No Brasil a população chega à era da informática sem precisar passar pela alfabetização, como diria meu tio. A alienação no Brasil é tamanha, que o povo lutou poucas e raras vezes por seus direitos desde a independência do país, em algumas pequenas revoltas e outras mais memoráveis, mas poucas, quase nenhuma. Ao fim, criaram o MST e outros movimentos sociais importantes, mas os protestos efetivos e levados mais a sério não são os de quem mais precisa. Culminaram, na última ocasião, com o impeachment de Collor, que nada, absolutamente nada significou para o futuro da nação.

Nos EUA cada vez que o assunto queima à pele há protestos, mas nem sempre o assunto queima à pele. A guerra no Iraque prejudica mais a quem está envolvido diretamente, familiares de soldados, soldados e iraquianos. À não ser que o país inicie um novo conflito bélico, não haverá serviço obrigatório, e os demais não abrirão a boca. Não haverá impeachment de George Bush. Outro absurdo estadunidense é o relacionamento que o povo tem com o pagamento de impostos. Os impostos são sérios demais para negligenciá-los, e geralmente se tornam o motivo central da eleição de presidente X sobre Y. X promete que cortará impostos, e todos votam nele. Y promete que aumentará impostos, e poucos votam nele. Quem corta, corta mais aos ricos do que aos pobres. Quanto mais dinheiro se ganha, mais se declara a instituições caritárias e menos se paga impostos. Quanto menos dinheiro, menos possibilidades existem de enganar o Leão. Quando pedem que cortem impostos, aumentam a separação entre o estado e o poder popular, porque menos impostos significam menos dinheiro para pontos essenciais do orçamento, que de todos os modos permanecem secundários ao armamento frenético do país. Quando pedem para aumentar impostos, a idéia básica é aumentar o envolvimento do público nas decisões e necessidades governamentais. Ninguém reclama. Ninguém se importa. Apenas querem deixar de pagar… O sistema taxativo ainda deve ser discutido, certamente, mas impostos servem para que eu e você, individualmente, participemos da construção de um país melhor. Não… A loteria acaba sendo o imposto dos pobres, e não constrói, infelizmente, mais do que destrói.

Às vezes, são os menores detalhes os que fazem maior diferença. O portão de meu condomínio, onde fica a güarita do porteiro, apenas fecha para quem sái, e prevalesce escandalosamente escancarado a quem entra ao condomínio. Quando passo pela alavanca eletrônica que me dá passagem à saída e vejo qualquer carro adentrando o local de minha moradia, questiono-me para quê o portão serve, e por que existe. Nosso “governo” não se importa com nossa segurança, mas levanta o portão para fingir que se importa, dar-nos uma bonita ilusão de como se importa. Mas, nos barram, limitam, acoam, sem nenhum sentido, apenas para que não nos esqueçamos de que temos um governo. A barragem existe, mas não funciona, mas ninguém questiona, ninguém se importa, todos passam diariamente pelo local e não pensam que aquele portão atraente a ladrões e assassinos impediria nossa fuga ligeira caso tivéssemos a oportunidade de fugir. Quando a casa cái, sobra mais para os moradores. Assim somos muitos. Não reclamamos. Apenas dizemos: “Mas eles não arrumam isso! Que pouca vergonha! Eles não arrumam! Eles…!” As barragens só funcionam contra nós. E nunca, nada realmente muda.

Digam não à alienação, é a única solução.

Feliz Páscoa,

RF

4 comments:

Jens said...

Bela análise, Roy. Os EUA são alienados por opção. Já no Brasil a alienação se dá principalmente pelas perversidades de uma elite cruel que nega acesso à educação aos mais pobres (assim facilita a exploração) e outras cositas más. Lá os caras só pensam em ganhar mais grana. Aqui, maioria da população está preocupada com a próxima refeição. São as trapaças da sorte.
***
Mudando de assunto: finalmente vi os Infiltrados. Filmaço. Scorcese acertou a mão em cheio. O Di Caprio finalmente virou homem. Lembrei um pouco dos filmes do Tarantino. Já fizeste algum comentário sobre o filme? Em caso positivo divulga o link.
Vi também Dejavu, com o Denzel. Porra, confuso e por demais inverossímel.
Um abraço e uma boa semana.

R.C said...

Fala Lord Jens, então segue mais ou menos assim como disseste, mesmo. Aqui existe o abuso, mas já existiu maior, e aos poucos as massas fizeram estourar a panela de pressão no sentido de mudanças concretas. A elite aqui também abusa de seu status sempre que pode, mas pode menos ou mais de acordo com a época, de acordo com o Senado, o Presidente e muitos outros fatores que nem sempre entram em conflito direto com a classe média (ainda majoritária em grande parte dos estados do país). No Brasil, pela constante colonização, por ter passado e ainda passar de mãos em mãos, inclusive pelas mãos estadunidenses como é o caso mais explícito do que pode acontecer com o ethanol, cultiva uma cultura de um estima quebrantada e baixa demais, ao parecer, para realmente reivindicar. Agora, li que Lula tem interesse em diminuir o fluxo das greves constantes, e sei que isso pode parecer uma boa idéia em se tratando de certos setores funcionais, mas não me soa muito democrático… Parece que nós, em todos os tipos de comunidades “civis” (sociedade), realmente ainda nos agrupamos de modo a acomodar a posse dos que mais têm a possibilidade de ter posses, e protegê-los da reivindicação marginal dos que menos têm a possibilidade de ter. Assim, esses últimos entram em conflito com os que não têm a possibilidade de ter nada, e os que não têm nada roubam dos que pouco têm. Eita, lógica animal.

Quanto ao filme, recomendo que entre aqui, nesse link, e procure o artigo Mais Sobre Cinema de 31/10/2006.

Valeu, Jens!

Roy Frenkiel

http://www.brtvonline.com/blog/blog.asp?cod_user=12

Jens said...

Execelente a crítica aos Infiltrados.
Porra, devias ter republicado aqui ou na Reação, quando o filme foi lançado no Brasil ou quando ganhou o Oscar.
Perdeste uma excelente oportunidade jornalística (o velho e manjado gancho).
Que isso não se repita (hehehe).
Um abraço.

Jens said...

PS: aguardo ansioso tuas observações sobre a última doideira do Tarantino e do Roberto Rodriguez. (Heroína que perde a perna e coloca uma metralhadora no lugar? UAU!!!! Quero ver!!!)