Monday, March 26, 2007

Passou voando...


A notícia passou rápido, uma a mais para empanturrar espectadores de eventos que nada significam para quem não está diretamente envolvido. Um assaltante de pequeno porte roubava cobertores e outras tranqueiras de uma loja qualquer, perto de casa aqui em Miami, na cidade de Ft. Lauderdale. O segurança, ou simplesmente funcionário da loja tentou fechar o portão da garagem, mas foi atropelado antes de fazê-lo. Não disseram se morreu na hora, ou se conseguiram levá-lo ao hospital. O prisma da notícia, por incrível pareça, era outro, diferente do corriqueiro ‘pega o negão sem camisa’ que a mídia insiste em exibir.

Quando perguntaram ao sr. Ashkenazy o que sentia a respeito do ocorrido – como quando perguntam a uma mãe que acaba de perder o filho o que sente a respeito do ocorrido - pasmem, Ashkenazy não disse que aquele foi o melhor dia de sua vida. O que mais o impressionou, contudo, era o fato de que seu funcionário fosse muçulmano e ele, um israelense como esse que vos escreve. Ser israelense, muçulmano iraquiano, negro, não importam antes de unirem-se a outros contextos. Passam a representar o desejado pela edição, quando envolvem-se no contexto de criminalidade, pobreza, falta de oportunidades, excesso de oportunidades, estrutura familiar, genética, história…

Já o israelense e o muçulmano tomam outra forma, e dão outro nome à reportagem. Não é mais a história de mais um crime como qualquer, ao invés de detalhar o orçamento da cidade destinado à construção de melhores condições para a prevenção da criminalidade banal. Passa a tratar-se de algo maior, muito maior do que isso.

Quando um muçulmano morre para proteger o estabelecimento do patrão judeu, automaticamente podemos contar o ocorrido de dois modos:

A-­) Mais um muçulmano subvertido aos poderes do judeu. (Notem que, se o dito pertencer ao sionista, torna-se ofensivo ao muçulmano, mas se pertencer a um muçulmano, torna-se um protesto contra o sionismo).

B-) O modo que Ashkenazy usou para explicar o que sentia a respeito do ocorrido:

“Era o tipo de pessoa que sacrificaria a própria vida para proteger o estabelecimento de quem lhe ofereceu emprego quando precisava… Eu, um judeu… E ele muçulmano… Incrível.”

O fato é que Ashkenazy ganhou uma rara oportunidade: testemunhou o desvinculo que a raça, a genética e a história têm em um dilema moral imediato. Chegou ao ponto de precisar recorrer à ética inconclusiva de Beauvoir, e pôde aprender na própria pele o que a ambiguidade verdadeiramente significa. Ainda fosse Ashkenazy um judeu estadunidense, assimilado, sem pátria judia… Era israelense, imigrante relativamente novo pelo peso do sotaque. Seu suposto antagonista histórico recém chegara do país de sua nacionalidade árabe. Não se trata de uma richa antiga, entre distantes ancestrais de ambas partes, e sim de algo que ambos vivenciaram concretamente há anos, sequer muitos atrás.

Surge sem querer uma prova viva da possibilidade da paz, rápida, esporádica, das quais não têm repetição, porque a edição sentiu compaixão, ou ambição, ao acrescentar a notícia entre a tosa do poodle da Britney Spears e o último escândalo do BBB local, o American Idol. Claro que eu não seria tão ingênuo de querer usar essa insignificante notícia como inspiração à paz entre Israel e os estados Palestinos. Não… A que vale urrar ao avesso contra surdos ecos?

Como a morte de alguém que não merece morrer pode mudar o mundo? Paulatinamente, eu diria. Paulatinamente, e por observação…

RF



4 comments:

Jens said...

Pois é, Roy: quando achamos que não tem mais saída, que chegamos ao fundo poço, somos confrontados com episódios como esse.
Acho que é um recado de Alguém que ainda se preocupa com o futuro da raça: existe saída, seus babacas! Se liguem, sejam solidários!
Um abraço.

Pirata Z said...

Com a licença para ser redundante, te digo: há pessoas e pessoas, não importando credo, raça, nada. Por que, porém, somos (nós, espécie, digo), no mais das vezes, tão cegos ao óbvio?
Muito bem sacado o mote pra teu texto ídem.
Baita abraço

R.C said...

Existe saida sim, Jens, eu acredito piamente!

Pois eh, tio Pirata, eu e vc somos outros exemplo, eh nao ou eh?

abrax

RF

Pirata Z said...

Certamente, sobrinho. Em nosso favor, porém, penso, a ausência de grilhões dogmaticos.
Baita abraço