Tuesday, February 13, 2007

Terça Pensamental e Cinematográfica


“O Homem que Copiava” (Direção de Jorge Furtado, lançado em 2003) foi o filme que assisti em três vezes, com alguns juros e apenas uma pequena correção monetária. Comecei com meu irmão no Domingo, depois de levar minha namorada ao aeroporto, para acalmar as dores de cotovelo. Terminei ontem à noite e, depois de assisti-lo, pensei em algumas coisas chatas que ocorrem no mundo e se espelham com muita graça nas diversas nossas telas de sempre. Uma delas, a do cinema, já foi e ainda é muito bem usada para a publicidade não só de produtos, mas de idéias. Geralmente, quando se assiste qualquer filme, pode-se fazer uma análise da sociedade atual. Isto é real mesmo em filmes de época, já que o ângulo escolhido para a filmagem e edição, sem contar na atuação e formação dos personagens, é sempre um produto misto que se complementa entre a necessidade da venda em relação ao gosto do público, e a própria formação atual dos diretores, produtores, editores e atores. Do “Homem que Copiava,” fiz algumas observações sobre o Brasil, e quando observo o Brasil, enxergo nele a alma e o conceito de tudo o que se expressa pelo mundo. Para quem não assistiu, por favor, assista e depois volte ao texto. Não sou estraga-prazeres, mas não tenho como transmitir este ponto sem contar o que acontece na história da película.

Inicialmente, trata-se da saga de um personagem inteligente, mas inocente quanto ao poder de seu raciocínio. André (Lázaro Ramos) é um gaúcho bem vivido, com valores morais que cultivam a harmonia com seu ambiente humano, compreendendo seu lugar na sociedade, e cumprindo com suas obrigações familiares. Além disso, André também possui a capacidade de socializar com pessoas diferentes, apesar de sua timidez explícita. Pode ser camarada da polícia, e grande amigo de um ladrão, como é o caso de Feitosa (Júlio Andrade), seu comparsa criminoso. É “cagalhão, mas não otário,” como diz ao longo da trama. Quando chega à conclusão de que poderia ganhar dinheiro, pesa bem as consequências de seus atos, e no que faz para duplicá-lo, encontra métodos para não tirar dinheiro de quem mais o precisava. Continuamos na santa paz da ética existencial.

A ética passa à total flexibilidade quando passamos da metade do filme, entretanto. Em primeiro lugar, André quer se casar com a mulher de seus sonhos. No entanto, aconselhado e, mesmo antes de ser aconselhado, já consciente, decide que não pode se casar sem dinheiro. Não deve haver qualquer problema com a lógica, mas se ele vivia sem dinheiro e se sua pretendente vivia mais ou menos na mesma situação, porque não poderiam dar vazão aos seus sentimentos sem maiores fundos financeiros? O mesmo ocorre com Cardoso (Pedro Cardoso), apaixonado por Marinês (Luana Piovani), que jamais será aceito enquanto não tiver dinheiro, mesmo depois de seu sacrifício genuíno e bem sucedido de deixar o tabaco de lado em nome do amor. Antes dos conflitos verdadeiros começarem, André explica sua situação em narrativa aberta, e explica ainda melhor os motivos do caos brasileiro, do caos social mundial, do que o filme “Cidade de Deus.” No entanto, depois de dada a explicação, o valor máximo de todos os personagens é o mesmo valor arcaico que ostentam tantas pessoas para que o pior em nossa sociedade seja possível: Dinheiro, em primeiro lugar. E o dinheiro leva André a assaltar um banco, a dar um tiro no pé do pai de sua amada, a passar notas falsas a Feitosa, antes um amigo seu, agora seu maior inimigo no retruque e na vingança, a deixar que Feitosa saltasse à sua morte sobre espetos fatais, e a tramar o assassinato do pai de sua amada, um pedófilo insestuoso. Justamente, por pedófilo e insestuoso, a leveza com que se fala da morte do homem é impressionante. O assassinato, logo, é mais justificável do que o pecado de ‘se casar sem ter dinheiro.’

Não sou contra o humor negro, muito pelo contrário, é meu predileto. No entanto, o filme não seguia o caminho sangrento do ‘se arrumar a qualquer custo’ até passar de sua metade, quando, por dinheiro, justificam-se muitos atos injustificáveis até para o nível de consciência de André. Podemos até acreditar no filme, e portanto encontrar a diversão que este tem o intuito de proporcionar, mas não podemos negar que algo de muito estranho existe em uma sociedade que se diverte com a violência banal tanto quanto se diverte com desencontros românticos e desventuras características, como traições amorosas ou mentiras. Caso o filme fosse do estilo "Pulp Fiction," eu ainda compreenderia melhor. Mas, é uma suposta comédia romântica, como “When Harry Met Sally” ou “Pretty Woman.” Como "Sexo, Amor e Traição," (Jorge Fernando, 2004) no máximo.

O Brasil ainda se encontra entre a poeira – que abaixa a cada dia e há de abaixar até que se esqueçam do nome da vítima – do assassinato hediondo do menino, que pelas ruas teve seu corpo arrastado. Automaticamente, pensam em vingança, como os estadunidenses pensaram na vingança contra o Afeganistão e Iraque depois do 11 de Setembro.

Contudo, quando perguntamos para as pessoas da sociedade se toleram o nível de violência que elas mesmas propagam, se concordam com a morte de determinadas pessoas, se recorreriam a ‘dar porrada’ em alguém por uma palavra feia pronunciada, a maioria das pessoas tem uma linha muito fina entre o que é moral e imoral caso fossem elas as que cometessem o que em poucos países considera-se anti civilizatório. Chegam à conclusão de que matar é cura às matanças, e prender, cura às opressões. No “Homem que Copiava,” o fofo, o bonitinho demonstrado nas linhas do roteiro, não deixa de ser bonitinho ou fofo às custas da morte ou da enganação de certas pessoas, conquanto sejam elas as pessoas adequadas a se matar e enganar.

A sétima arte também serve como uma janela para assistir o que o público aceita e o que rejeita no contexto de suas próprias vidas. Com muita dificuldade assistiriam “Cidade de Deus,” mas quantos espectadores se irritaram com a violência completamente idiótica do “Homem que Copiava”? Talvez isto diga alguma coisa a respeito de nós. Certamente, deve indicar algo a respeito de nosso Individualismo nesta Terra...

RF

4 comments:

Halem Souza (Quelemém) said...

Roy, sou suspeito para falar, porque gosto muito de "O Homem que copiava". Discordo de você quando diz que o filme é uma alegoria sobre o Brasil; em minha opinião, o maior mérito do filme é se livrar dessa necessidade de ser um "filme brasileiro".

Trata-se de uma alegoria sobre o dinheiro e o uso que se faz dele, como você percebeu com propriedade. E como alegoria (insisto no termo) passível de exercício imaginativo intenso.

Talvez um filme bem mais interessado em criticar a sociedade brasileira seja "Cronicamente inviável", de Sérgio Bianchi. Mas não sou crítico de Cinema; é apenas uma opinião. Um abraço.

Roy Frenkiel said...

Duas coisas, Halem. Em primeiro lugar, como pode perceber, jamais disse que nao gostei do filme. Apenas disse que assistindo, voce pode refletir sobre nao so o Brasil, mas sobre o mundo. Qualquer cinema, em segundo lugar, Halem, seja ele qual for e por quem for feito, leva em consideracao o publico, mesmo sendo uma obra estritamente artistica, logo de potencial comercial limitado. Assim sendo, somente aquilo que for tragavel ao publico, sera assistido pelo mesmo. "O Homem que Copiava" eh um filme 'gracinha', ou seja, onde o sentimento suposto no fim eh de final feliz. Uma comedia romantica, mas que usa recursos do dia a dia do cidadao comum, o potencial espectador, para que se identifique com os personagens. Atualmente, vivemos em um mundo que tolera, sem o menor problema, qualquer tipo de violencia, desde que a violencia seja feita contra a pessoa 'permitida', 'adequada', no caso do Homem que Copiava, o ladrao, o pedofilo, etc. Tudo eh feito apenas por dinheiro, outro valor comum a sociedade, com o qual qualquer um, em qualquer pais, praticamente, pode se identificar. No entanto, quando acontece algum crime hediondo, as pessoas ficam surpresas, sem compreender que a violencia eh algo que esta enraizado em nos, e eh nosso primeiro recurso para enfrentar, elas, a violencia... Espero que o comment explique melhor a intencao do texto.

Abraxao!

Roy

Jens said...

Gande Roy, tudo bem. Na condição de grosso (como já referi em comentário anterior), tenho uma única palavra a dizer: filmaço. E ainda por cima foi filmado em POA (Yeah!, mais uma vez o Portinho conquista o mundo). Outro filme do mesmo direitor é Meu Tio Matou Um Cara. Vale dar uma olhada.
Ah sim, dinheiro, tudo é dinheiro.
Jens, assumindo sua porção bagual.

Glória Reis said...

Você coloca muito bem quando diz: "as pessoas ficam surpresas, sem compreender que a violencia eh algo que esta enraizado em nós". Falam da violência como expectadores, sem tomar ciência de que são protagonistas. Gostei muito da sua análise. Abraços.