Thursday, February 22, 2007

O Segredo de Minha Irmã

Segunda Parte

Após tratar de sua sede lastimada, sentamo-nos na varanda miúda do casebre semi abandonado que me tomei por moradia. Pertencia a um caseiro veterano de nossa humilde cidade, no interior de São Paulo. Em desdito ano, na primeira noite de Junho, enquanto a cidade se preparava para a maratona de quermeces e noites prolongadas de soltas festanças, o caseiro decidiu morrer, e morreu, assim, sem mais nem menos. Morreu neste casebre semi abandonado que me tomei por moradia. O tomei, porque ninguém mais teve coragem, e porque tornei-me dependente de seu abrigo, que me abrigou quase como qualquer outro. Não fosse por ainda sentir a vida do caseiro veterano ali vivida a assombrar-me em noites de lua nova, seria um casebre comum.

Desamarrei os cadarços de minha botina e pus-me descalço, como ela. Sempre achei difícil olhar-lhe os olhos como ela olhava os meus. Sempre senti-me tão mais menino do que ela, e ela se aproveitava deste fato consumado para ter-me sob sua rigorosa, mesmo que fraterna, observação. Podia contemplar meus movimentos mais singelos, e saborear em lentidão cada minha expressão facial. Como lambia meus lábios... Como tremiam meus olhos... Como serpenteava minha lingua... Como rangiam meus dentes...

Poucos meses antes, tive de sair da casa da mãe. Caso pudesse dizer que sinto remorso, diria, mas não sinto. Nem de abandonar a mãe, nem de deixar o lado de Janaína. Claro que as saudades apertam, e o gosto amargo de suas desilusões individuais, cada qual por motivo próprio – e bons motivos – deixou em meu peito um peso traiçoeiro. Consciência pesada não é remorso, contudo, e sim, singelamente, um arrependimento suportável. Não de sair de casa, nem de largar Janaína à solidão que nos assolava mesmo juntos.

Tive de sair da casa da mãe, por desventura da existência de um senhor Jurandir, fazendeiro abastado, dono de vasta terra do lado de cá e do de lá da fronteira interiorana. Tinha mais dinheiro no bolso do que nós possuíamos, em nossa cidade inteira, grãos de café. Era gordo como uma vaca, e o único, pelas bandas do córrego de Santa Maria, que atravessava a cidade guiado por motorista particular, e em carros importados, caros carros, a cada dois meses um novo.

Parecia sempre procurar amizades, e em eventos, encontrar conflitos. Ninguém se metia com ele, mas ele se metia com todos. Com o dono da farmácia, com o padeiro do centro da cidade, com o oftalmologista, o veterinário, os vizinhos donos das chácaras usadas nos finais de semana, os verdureiros, os jornaleiros, os peixeiros, os açougueiros... Não havia serviço oferecido a ele que não viesse com suas implicâncias vãs, manifestadas apenas por sua carência afetiva tão contundente. Queria comprar coisas que o dinheiro não compra, e ao falhar, descontava nas contas. Se recusava a pagar, pagava menos, ou, e no mínimo, fazia com que o pobre mercador de seus trabalhos trabalhasse duas, três, seis vezes até que não mais encontrasse o quê de errado a reclamar.

Conosco, vinha ter pelas costuras que precisava às barras de suas calças. Era nosso próprio negócio, movido à competência de minha mãe, e ao juízo de Janaína. Já eu, tesoureiro, secretário e agente publicitário em nossa cidadezinha quase invisível aos olhos do resto do estado, nunca tive vocação para a honestidade. Seu Jurandir despertou-me esta certeza, mas ela já jazia, isso confesso sem necessidade de falsas prudências, em meu âmago, dormente.

1 comment:

Jens said...

Beleza, beleza, Roy. Ouso dizer que acertaste a mão como escritor.