Monday, February 19, 2007

O Segredo de Minha Irmã

PRIMEIRA PARTE

Quando a vi passando pela soleira daquele portal de madeira decaída, arruinada pela chuva e pelo vento, pelos musgos gosmentos que cobriam suas dobradiças e perpetuavam o ranger de seus metais, pareceu-me tão a mesma que a de sempre. A mesma menina do sorriso calado, olhos brilhosos, lábios amorangados, morenos como a pele que nos deu nossa mãe. A mesma menina que fingia uma constante felicidade, mas que talvez escondesse em sua postura frágil, uma tristeza quieta, um segredo inimaginável.

Passeou pela estrada de terra em marcha leve, mas atenta ao rosal, ao milharal, ao canteiro dos crisântemos, girassóis e dentes-de-leão, junto ao tímido poço d’água do córrego de Santa Maria, junto à grama que crescia como capim, ao capim que se espalhava como palha, frente ao horizonte infindável que se revelava ainda mais glorioso a cada passo seu. E eu, que já a amava, sentindo também saudades suas como jamais antes senti e jamais depois, a amei então ainda mais.

Vinha descalça, o que me deu a concluir que vinha nem de tão longe, mas desmentia minha conclusão o sangue que brotava das solas de seus pés. Vinha da casa da mãe, então. Sentei-me à poltrona da sala de estar, diante da porta principal, esperando que por ela entrasse, já que em nossa família, as chaves nunca foram usadas para trancar fechaduras. Janaína saberia ser bem vinda, porque sempre fora. Se não visitava, era por motivos que aprendi a respeitar, fingindo que entendia, como ela sempre fingiu ser feliz.

Era esse, aliás, o principal sinal de nossa irmandade. Além da aparência física e de nossa semelhança cromática, nosso caráter e orgulho fortes nos obrigavam a fingir que víamos coisas que não víamos, ou que sentiamos o que não queriamos sentir. E nossa mãe, Dona Úrsula Serpicó, nos conhecia e a todos os nossos cacoetes, mas jamais penetrava, mesmo consciente das possibilidades e de nossos truques, ora maldosos, ora inocentes; jamais penetrava nossas fronteiras, nem desvendava nossas intenções.

Abriu a porta, e a fechou ainda sem olhar a minha direção. Retirou de seus cabelos a fita roxa que amarrava sua trança única e espessa, negra como a cor de seus olhos profundos e lastimados. Era doze anos mais velha. Recordo-me que, desde pequeno, ela me parecia uma senhora de idade, pausada, de movimentos paulatinos, delicados, sábios e sabidos, experientes e experimentados. Quando me viu, sorriu ternamente. Foi então, e então apenas, que me levantei da poltrona carcomida por gerações de traças, e caminhei ao seu encontro. Nossos braços e ante-braços se tocaram. O abraço ressurgiu do silêncio, acelerando nossos peitos palpitantes, e acalmando o rugido de nossos intestinos.

De boca seca e hálito forte, Janaína me beijou as bochechas, duas vezes cada uma. Pediu água, e eu busquei um copo magro para dar-lhe de beber. Trouxe a jarra toda. Dei-lhe o suficiente para saciar a sede de algumas secas, e ela precisou de cada gota. Valeu-me perguntar de seus sapatos, mas antes de que as palavras pudessem invadir o ar vazio entre minha boca e seus ouvidos, pensei duas vezes. Ela não gostava de sapatos. Não os calçava, a não ser que precisasse sair da cidade. Seus pés, no entanto, calejavam-se parcialmente. Cada nova ferida cicatrizada, tornava-se um novo calo. Foi assim, dizia a mãe, desde menina, mocinha ainda. Ainda enquanto não sangrava todo mês, já sangravam as solas de seus pés. E quando temos a resposta, não é de bom tom inventar a pergunta.

RF

3 comments:

Jens said...

Uêba! Voltaste ao terreno da ficção em alto estilo, Big Roy. Sei não, mas acho que isso é Literatura (assim, com L maiúsculo) em alto estilo. Continue. Vou acompanhar.
Um abraço.

Lilith said...

Concordo plenamente com o Jens. Precioso texto.
Beijinhos.

Santa said...

Roy, vc já publicou algum dessas textos em livro? São excelentes!

Um abraço,