Sunday, November 30, 2008

Adeus, Anjo Gavriel

Esq. a dir.: Rivka, Moshe e Gavriel Holtzberg



Aos meus treze anos de idade, vivendo conflitos que pareciam então intermináveis em minha família, encontrei na Yeshivá de Petrópolis um refúgio perfeito. O seminário, dedicado a crianças judias que, como eu, procuravam a aproximação ao judaismo, também abrigava muitos que, como eu, vinham de famílias quebradas. A maioria de nós vinha de casas não religiosas, e pude percebê-lo imediatamente ao apenas observar minha cercania.

Entre todos os alunos ali presentes, dois irmãos me chamaram a maior atenção. Pareciam rabinos formados, mas logo ouvi que tinham quase minha idade. Transmitiam, ao menos a um novato como eu, conhecimento e sabedoria, mas minhas impressões utópicas justificavam-se facilmente na inexperiência dentro de um ambiente ultra-ortodoxo.

Usavam langue-rekelech, ou ternos longos que se estendiam à altura dos joelhos, enquanto os demais rabinos formados usavam os ternos comuns em dias de semana. Não adentrarei semânticas e definições no momento, mas cada apetrecho ou vestimenta simboliza a região de cada grupo religioso. No caso dos dois irmãos, os longos ternos significavam que descendiam de Jerusalém.

Demorei a fazer amigos no internato carioca, longe e saudoso da casa dos pais, mesmo que estes estivessem em processo severo de divórcio e desentendimento. Distante, apenas observava o comportamento dos intrigantes irmãos como espectador de um filme vivo. Meir, o mais velho, era bem humorado e vivo. Às vezes tinha sacadas que me faziam duvidar da santidade imaculada da ortodoxia judaica. Entendia que a ausência de humor poderia até caracterizar a Bíblia, mas não seus mais fervorosos serviçais.

Gavriel, por sua vez, era um menino sério. Tinha minha idade, mas ao contrário de Meir, parecia ser uma pessoa no-nonsense, preocupado apenas em fazer sua parte como aluno enviado de Nova-York para fortalecer os fundamentos religiosos da Yeshivá de Petrópolis. Trazendo mais pessoas educadas e integradas no comportamento do grupo Chabad ao qual pertencia, a inspiração aos demais alunos viria certeira.

Em pouco tempo de minha permanência em Petrópolis, contudo, Meir e Gavriel viajaram à Argentina, e deixaram de me intrigar por alguns anos a vir.

Em 1996 mudei-me com minha família aos Estados Unidos. Chegamos juntos a Miami, e com a ajuda de outros emissários do Rebbe de Lubawitch, Menahem Mendel, então recentemente falecido, fui mandado a Nova-York, à Yeshiva conhecida como o seminário dos filhos do Rebbe, no Brooklyn. Estava confuso, sozinho, e não falava o idioma. Além disso, estudava em um colégio cobiçado pela maioria dos estudantes de Chabad, o máximo dos máximos a alunos que se preparariam a conquistar o diploma rabínico no futuro. E eu, ao contrário da maioria ali presente, não sentia a honra, ou compreendia a importância da instituição.

Quis fugir no primeiro dia, mas graças ao auxílio de um colega israelense, Shmulik Raskin, permaneci em Nova-York pelos próximos sete meses. No segundo dia de aula, para minha total surpresa, me deparei com Meir novamente. Nos cumprimentamos e, ele, como sempre, foi cordial e bem humorado e me deu boa companhia e algo a iniciar minha jornada turbulenta na cidade.

Minha amizade com Meir se intensificou ao ponto de que ele era meu único verdadeiro amigo. Apesar de contar com a presença de alguns brasileiros de Nova-Jersey que frequentariam, ocasionalmente, a sinagoga do Rebbe – 770 Eastern Parkway – aos finais de semana, e com a amizade de israelenses mais velhos, outros mais malandros, Meir era realmente o único confidente, o único irmão que tive no bairro de Crown Heights. Passei a frequentar sua casa imediatamente, e quase todos os Shabatot (Sábados, o Shabat no plural) possíveis, almoçava ou jantava por lá.

Gavriel, seu irmão, continuava o mesmo, no-nonsense, sério e dedicado a seus estudos. Mas era vivo, e sorria, e ria, e brincava mais do que imaginara que pudesse fazer. Elás, Gavriel era uma pessoa comum, e se preocupava com as aventuras do irmão dele comigo.

Em princípio, Gavriel me via como uma má influência ao seu irmão. Por minha causa, Meir deixava de cumprir com obrigações básicas aos jovens de Chabad, como trabalhar como missionários do Rebbe, levando o judaismo e suas tradições a judeus distantes ou simplesmente seculares, como sou hoje em dia. Ao invés de perambular pelas ruas infindáveis de Nova-York às Sextas-Feiras, Meir muitas vezes passava a tarde comigo, passeando, fumando cigarros (algo mal visto pelos rabinos mais velhos e totalmente proibido por seus pais), e equilibrando idéias absurdas em papos malabaristas.

Com o passar do tempo, os pais de Meir disseram que eu deveria ser amigo de Gavriel, pela idade, e passaram a estranhar a amizade que seu filho mais velho tinha comigo, um menino mais novo. Jamais me afastei da família de Meir, mas a amizade foi comprometida pelo protecionismo dos pais. Secretamente, Gavriel confessara que tinha mais medo da influência negativa de Meir sobre mim do que o contrário. Por minha vez, meu fetishe confessado e escrachado de usar um langue-rekel como os nascidos em Jerusalém culminou na certeza de Gavriel sobre a má influência de seu irmão.

“Quando você chegou aqui,” me dizia, “você estudava e se concentrava nas suas responsabilidades como um tomim (tomchei tmimim é o apelido carinhoso dado aos “filhos do Rebbe”, e significa “meninos puros” ou “inocentes”). Desde que você começou a andar com meu irmão, você parou de estudar, e agora se preocupa em coisas fúteis como adquirir e usar um terno longo.”

Mas, quem diria, Gavriel estava certo sobre mim. Jamais fui um crente sem questões. Sempre fui cético, de modo ou outro. Apesar de ter seguido a religião por mais alguns anos, eventualmente me aventurei ao mundo secular, e em pouco tempo deixava a espiritualidade a escanteio, tornando-me o que sou hoje, um judeu ateu.

Saí de Crown Heights levado ao aeroporto por ninguém menos que Meir Holtzberg. Ainda o vi uma única vez mais em Nova-York, já não religioso, em uma maluca viagem não planejada com dois amigos não judeus, um dos quais é hoje meu cunhado. Mas o encontro foi curto e rápido. Anos depois ouvi que tinha se casado, e me senti mal por não poder comparecer.

Meir Holtzberg, extrema esquerda, ao lado dos pais. Meir recebeu ajuda pessoal da senadora de Nova-York, Hillary Rodham Clinton, já que seu passaporte estava vencido e precisava chegar a Israel, ao enterro de Gavriel que realizar-se-á na tarde de Segunda-Feira. A família espera ansiosamente a chegada da babá, que salvou Moshe, filho de dois anos do casal, na tarde de Quinta-Feira.

Os anos se passaram e nesta última Sexta-Feira acompanhei o resgate da casa Nariman, o centro Chabad em Mumbai atacado por terroristas na Quarta-Feira. Logo anunciaram que um rabino e sua esposa estavam entre os reféns, e que nada se sabia de seu destino. Chocado, tomei conhecimento de que o rabino em questão era Gavriel Noah Holtzberg, colega de infância, irmão de um de meus melhores amigos em curta vida. Em pouco tempo, descobrimos que Gavriel fora assassinado ao lado de sua esposa na cozinha do centro Chabad. Seu filho, Moshe, de dois anos de idade, foi resgatado pela babá indiana enquanto ela e outros reféns fugiam do prédio na Quinta-Feira.

O mundo é pequeno. Muitas vezes, consumidos na realidade fria de nosso corriqueiro vai-e-vem, nos esquecemos disso. Outras, quando o pior acontece, somos bem lembrados. Poderia ser Gavriel, assistindo a televisão e acompanhando a história de minha morte, mas fui eu o “sortudo” neste acaso do destino. Imaginei o que seria de mim caso não tivesse me afastado da religião, mas sei que jamais seria eu na Índia.

Gavriel nasceu em Israel e cresceu em Crown Heights, Brooklyn. Morreu ao lado da esposa israelense Rivka, ele aos 29 anos e ela aos 28 anos de idade.

Jamais me esqueci de sua existência em minha vida. Apesar das diferenças e das personalidades quase opostas, sempre o respeitei e admirei. Gavriel jamais usou desculpas para deixar de fazer o que achava certo. Vivia em Mumbai como emissário do Rebbe (no grupo Chabad não houve outro Rebbe - rabino mor - nomeado, mas os emissários do Rebbe falecido em 1994 prevaleceram), levando o judaísmo aos israelenses turistas e judeus indianos perdidos entre 1 bilhão de pessoas. Entre 1 bilhão de pessoas, Gavriel esteve entre os aproximadamente 180 mortos dos ataques em Mumbai.

Não pude desde então deixar de pensar em Meir, e no carinho que sinto por ele. Entrarei em contato assim que o período de luto der trégua. Meus pensamentos também voam ao lado da família, das irmãs e, principalmente, de seus pais. Mais uma vez um judeu é morto por ser judeu em terras estrangeiras. Mais uma vez, o preconceito de irmãos contra irmãos esmiúça nossas esperanças. Caso pudesse, todavia, pediria à família que perdoassem. O perdão, tão raro e lastimado pelas maldades do coração animal, faz-se mais necessário do que sentimentos de vingança. Ainda que haja justiça, que venha com ela o perdão.

De minha parte, o que posso oferecer é o amor e a boa fé de espalhar aos demais que Gavriel era, foi, viveu sendo pessoa boa, adorada e eternamente lembrada a todos que sua curta vida tocou.

Mesmo ateu, hoje mais judeu do que nunca, balbucio rezas:

“Que esteja sua alma segura baixo às asas do espírito divino”. E aos demais Holtzberg, “que Deus os console entre todos os enlutados de Sion e Jerusalém.”

RF

In Memoriam Gavriel Noah Holtzberg

4 comments:

Regina Ramão said...

Comovente história, Roy. Solidarizo-me a sua tristeza e a da família. Somos todos irmãos, humanos, pena que alguns se esquecem disso.

Abraço

Dani said...

Ai que triste, Roy! Já tinha visto a história na TV e ficado com o coração partido. Um final tão horrível para um casal tão jovem e tão idealista. Agora sabendo mais sobre eles, fico ainda mais entristecida. Entre em contato com seu amigo, sim. Para ele vai ser uma surpresa boa no meio de tamanha tragédia.
Bjs

Andrea said...

Roy...a cada desfecho assim e tao comum em todos os tempos eh que percebemos a pequenez humana e que em alguns momentos me faz descrente do ser humano.
Acredito na missao pessoal e cada um a cumpre de acordo com suas escolhas. Infelizmente, os caminhos sao cruzados e outros caminhos interferem de forma assim tao tragica.
Solidarizo com sua perda e me emociono com o resgaste de sua historia. O lado positivo pode ser o reencontro com seu amigo, que fez parte da sua vida e que agora o faz relembrar momentos tao importantes...o ciclo continua.
Forca.

Andrea said...

Roy...a cada desfecho assim e tao comum em todos os tempos eh que percebemos a pequenez humana e que em alguns momentos me faz descrente do ser humano.
Acredito na missao pessoal e cada um a cumpre de acordo com suas escolhas. Infelizmente, os caminhos sao cruzados e outros caminhos interferem de forma assim tao tragica.
Solidarizo com sua perda e me emociono com o resgaste de sua historia. O lado positivo pode ser o reencontro com seu amigo, que fez parte da sua vida e que agora o faz relembrar momentos tao importantes...o ciclo continua.
Forca.