Wednesday, July 30, 2008

Pesquisas Perfidiosas

Quando da época das preliminares antecedendo New Hampshire, Barack Obama via-se com uma boa vantagem nas pesquisas, e Hillary Clinton sabia disso.

Na noite anterior, enquanto respondia perguntas de uma platéia reunida para a assembléia de sua campanha, uma senhora se levantou e perguntou, em poucas palavras: “Como você aguenta o ritmo dessa campanha?” Clinton chorou e se emocionou, mostrando seu lado “humano” (se por humano queremos dizer artístico, é claro) e, supostamente, cancelando o resultado das pesquisas e levando o estado de New Hampshire.

Foi a única vez nas primárias que as pesquisas de praticamente todos os institutos sairam-se completamente erradas. A vantagem diminuída ou a desvantagem cortada são esperados produtos equiparados às respostas colecionadas pelos condutores das estatísticas, mas quando uma vantagem de aproximadamente 5 pontos percentuais torna-se em uma desvantagem de quase 9, algo deu errado na equação.

Por isso, Chuck Todd, analista da MSNBC, pede aos seus âncoras não divulgarem as pesquisas diariamente, mas sim, se possível, apenas uma vez por semana. É óbvio que esse pedido passa inatendido. Mesmo assim, Todd explica que, especialmente esse ano, não se pode confiar no que os institutos proclamam porque a ciência pende ao inexato.

Quando Clinton venceu em New Hampshire, todos se surpreenderam, inclusive o blogueiro que vos relata. Como ainda começava a temporada eleitoral, e apenas aprendi e ainda aprendo à medida das ocorrências, não me aprofundei sobre a discussão que tomou conta da mídia. A revista Times argumentou que a mudança ocorre no eleitor, que já não mais se limita ao que diz nas pesquisas pela grande acessibilidade a informações, por exemplo.

A maioria das pesquisas às vésperas das preliminares conferiu os resultados esperados. Porém, analisando o movimento geral de todos os quadros, percebemos que quanto mais sulista o estado, menos precisas foram as pesquisas. Podemos também concluir, ou ao menos levantar a hipótese, de que o racismo enrustido tenha algo a ver com isso. Ou, talvez, justificamos a perfídia por motivos mais simples. Clinton venceu em New Hampshire, neste caso, porque atraiu a camada feminina entre os indecisos, também caracterizados nas pesquisas, de última hora.

Algo que notei expressadamente em Todd, é que o analista favorece Obama. No passado final de semana, como retratado na postagem anterior, o senador pelo Illinois finalmente mostrou-se 9 pontos acima de seu adversário John McCain segundo o Instituto Gallup. Os condutores realizaram suas pesquisas na Quinta, Sexta e Sábado passados. Para o USA Today, jornal impresso nacional mais popular dos Estados Unidos, um grupo diferente pesquisou a preferência de eleitores registrados, e outro grupo, a preferência de eleitores prováveis.

O resultado da segunda pesquisa incomodou Todd, o que ficou claro com seu conselho: “Não prestem atenção nas pesquisas entre eleitores prováveis!” Afinal, enquanto o Gallup postou em seu sítio uma vitória de Barack Obama de 49-40%, eleitores prováveis, segundo o mesmo Gallup em trabalho separado para o USA Today, preferem John McCain por 47-44% sobre Barack Obama.

Já, entre eleitores registrados, Obama ainda vence, mas por menor margem, 47-43%, diminuindo a diferença entre a pesquisa geral do Gallup e a pesquisa entre eleitores prováveis para o USA Today (12 pontos) para apenas 5 pontos.

Talvez Todd tenha razão em sua análise, mas o mais importante é lembrar que as pesquisas são conduzidas cada vez que a mídia veicula determinadas notícias de impacto. Quanto maior repercussão, mais chance essas notícias têm de influenciar o eleitorado. Porém, justamente pela maior concorrência e acesso popular a diferentes versões midiáticas, muito lixo circula fácil pelas redes sociais. E esse lixo, como em organismos vivos, também influencia a população, quase que diariamente. Logo, pesquisar hoje o que será minha opinião sobre Obama amanhã me parece um tanto quanto surreal. Divertido? Claro, mas talvez nem tão coerente.

Isso me lembra as eleições forjadas de Ehud Barack contra Biniamin Netaniahu quando vivi em Israel. Às vésperas das eleições, a âncora duramente questionou o ex Primeiro Ministro de Israel sobre seu iludido otimismo, visto que todas as pesquisas indicavam uma vantagem massiva a Netaniahu. Foi tão dura, que repetiu um clipe humorístico editado por sua equipe demonstrando quantas vezes Barack dissera, ao longo dos meses de sua campanha, que sabia que os eleitores estavam com ele, no fundo. Além disso, o interrompeu para anunciar o próximo capítulo de uma série transmitida no mesmo canal. Barack insistia: “A única pesquisa que me interessa é a que ocorrerá amanhã, nas urnas.” Pelo menos nessa frase, concordei com ele.

No dia seguinte, Netaniahu venceu as eleições. A âncora se desculpou pela suposta “grosseria” da noite anterior, e logo depois sumiu do mapa (tanto que não consigo encontrar nenhuma matéria que fale sobre isso na rede imediata).

Apenas as pesquisas do dia 4 de Novembro, as eleições, determinarão quem será o próximo presidente. Em um arco geral, no entanto, desconsiderar o Gallup e todos os competentes institutos que conduzem as pesquisas populares mesmo em Julho, me parece um tanto quanto radical. Sigamos Aristóteles, pois, e caminhemos pelo meio.
RF

3 comments:

sandra camurça said...

Oia eu aquiiiii, quem é vivo sempre aparece, rsrs. agora um pensamento zen procê:

quando tudo vai mal, muita cautela. quando tudo vai bem, muita cautela.

e vamo que vamo!
beijos, Menino.

Halem Souza said...

Roy, aí nos EUA são revelados os indivíduos e/ou instituições que encomendam as pesquisas ou cada órgão de imprensa/instituto faz sem mais esclarecimentos? Pergunto isso porque a lei eleitoral teve que mudar aqui no Brasil (na minha opinião, acertadamente) para divulgar quem solicita a pesquisa de intenção de voto. Um abraço e pau na máquina.

Jens said...

Oi Roy.
A história dos gringos tem um episódio exemplar sobre pesquisas. Foi quando da eleição de Harry S. Truman para a presiência, depois de completar o periodo de Roosvelt. Ele foi dormir derrotado, segundo as pesquisas. Acordou eleito, segundo a vontade popular. Posou para os fotografos exibindo a primeira página do jornal, fechado na noite anterior, que mancheteava a sua derrota.
Aqui nos trópicos, FHC estava eleito para a prefeitura de São Paulo até o dia em que Boris Casoy perguntou se acreditava em Deus e o scholar titubeou antes de declarar-se ateu. Jânio ganhou.
Conclusão: em disputas acirradas, nem tudo o que parece será. Nestas horas, prudência e caldo de galinha, recomenda minha mãe.
Um abraço.