Tuesday, May 27, 2008

Contagem Regressiva

À reta final das primárias democratas, aproximando-nos do sexto mês de um ano que apenas ontem nascia, John McCain ganha mais espaço na mídia. A campanha democrata descansa da tempestade, ou parcialmente, ao menos.

A disputa entre McCain e Obama é explícita e relembra que o início das eleições presidenciais ainda não aconteceu.

Se Hillary Clinton é a melhor candidata para vencer contra McCain, como clamam alguns fanáticos, encontrar um bom motivo para justificar sua derrota contra Obama tanto em estados vencidos quanto em delegados e super-delegados dentro das regras convencionais do partido liberal, torna-se ainda mais complicado.

Pelo que vejo, o partido republicano jamais perdeu seu charme. Foi o apelo do charme às massas o verdadeiro tombado. A diminuição da força republicana torna praticamente inevitável uma vitória democrata em Novembro. O desastre do governo de George W. Bush vê-se no auge do ressentimento popular, e o presidente não se aproxima fisicamente do atual candidato presidencial de seu partido, mesmo o endossando.

Sua ajuda a levantar verbas para a campanha vermelha, contudo, é imprescindível. Isso já prova o quanto a essência da base republicana ainda aprova o atual presidente. Para qualquer dos nomeados democratas, bater um candidato republicano não será tão heróico ou apocalíptico quanto seria – e foi – há oito anos atrás, mas quem antes rangia os dentes, range hoje.

E é isso o que mais me preocupa, em sinceras verdades. Não necessariamente a vantagem da representação democrata em épocas que vejo total necessidade de mudanças concretas imediatas no funcionalismo da nação, mas o passado pintado, a história das eleições de 2000 e como já nos enganamos, quaisquer de nós, em qualquer país, em passadas eleições.

Ontem pude assistir o recém lançado filme de Kevin Spacey sobre a recontagem de votos na disputa eleitoral entre Al Gore e George Bush, há oito anos. Recount (2008) traz um bom elenco de atores pesadamente democratas, procurando expôr todos os detalhes do que ocorreu atrás das cenas televisionadas nas eleições que trouxeram os Estados Unidos aonde agora jaz. Spacey faz o papel do demitido advogado do então vice-presidente Al Gore, liderando a defesa da campanha do candidato depois da antecipada projeção de todos os noticiários de sua vitória na vital Flórida, quebrada pela projeção da Fox News, então dirigida pelo primo de George W., Jeb Bush.

O filme talvez não possa pintar o mais sincero retrato do jogo político, pois seus fabricantes são democratas, logo parciais ao partido e sua causa. No entanto, aponta alguns fatos que todos conhecemos, e não deixa de demonstrar como democratas e republicanos acreditavam piamente no que faziam, e nenhum pensou por um instante que roubava a Casa Branca.

Ao mesmo tempo mostra a pressão diplomática de James Baker III (Tom Wilkinson), o então Secretário de Estado apontado a altos cargos desde Ronald Reagan, amigo íntimo de George H. W. Bush, e todos os representantes que exerceram pressão ao retardar a recontagem manual e impedir a extenção do prazo oficial à entrega do segundo resultado para que todos os distritos pudessem ter suas vozes ouvidas.

Nos lembra do claro favorecimento da explosiva, então Secretária do Estado da Flórida, Katheria Harris (Laura Dem), quando disse que só podia extender o prazo no caso de um furacão ou outro desastre natural de mesmas proporções, o que acarretaria em um “ato divino” complicando a recontagem.

A disputa legal também é mostrada. As cartelas perfuradas que eram depositadas às urnas nem sempre eram corretamente perfuradas. Os votos então não eram computados pelo sistema, que deixava de computar mesmo algumas cartelas corretamente perfuradas por ser arcaico, o que desfavorece igualmente a ambos candidatos, e priva a população de uma consistente expressão democrática. É claro que mais sofre quem mais votos tem a perder.

A feia face da política é comentada no esforço burocrático que culminou em mais de 9,000 pessoas privadas de seus votos em apenas três condados da Flórida. Mais de mil pessoas foram proibídas de votar e rejeitadas das urnas por terem os nomes “similares” aos nomes de criminosos convictos.

Menos de 10% dos rejeitados eram, de fato, convictos, e para refrescar a memória de quem mal viveu essa história americana, Bush venceu Gore, oficialmente, por uns 1,700 votos, menos de 0.3% do total. Como aqui não existe um segundo-turno, a confusão demorou e angustiou uma nação acostumada a ter tudo fácil e rápido às mãos, especialmente na política e no show business. Em um caos ordenado, tudo se resolveu pela Suprema Corte, e Bush foi eleito.

O fato é que ninguém pode garantir que todo esse esforço pio de ambas campanhas a eleger o candidato “mais justo” pode culminar no mesmo doce amargo que são atualmente obrigados a chupar os menos leais campanhistas de George Bush em 2000. Que os mais leais de ambas bases não se perderam na guerra anti-ideológica, é constatado fato. Houve vira-casacas, como Joe Lieberman, e há os vulgos “bundões” (vulgos para os democratas, claro), como o floridiano Ralph Nader, que "deportou" o menino Elian Gonzales, sobrevivente de uma barca virada perto da costa do estado. Mas a base essencial de ambos partidos prevalece ilesa.

O medo parte da constatação que, de fato, existem mais de duas Américas, como dizem os poetas esquerdistas. Existe a classe operária e pobre, e existe a elite, mas também há, no topo dos montes, em uma Casa Branca, a classe governante. Seus interesses nem todos deles sabem cada qual do próximo. Ainda resta saber por quais dos nossos, quem lutará. Pena que só saberemos quem é a pessoa certa quando for tarde demais para retirá-la do cargo.

RF

7 comments:

Jens said...

Porra, Roy, os caras roubaram uma eleição presidencial, em pleno século 21, na maior nação do planeta e ficou por isto mesmo. Putaquiuspariu. Me lembrei dos coronéis do Nordestes, manipulando os votos dos grotões. Por estas e outras a gauchada fez uma revolução sangrenta no início da década de 20, quando maragatos e picapaus se enfrentaram pela última vez. Por isto também Getúlio pegou um trem e acabou com a República Velha sem disparar um tiro (depois amarramos os cavalos no Obelisco, para constrangimento dos cariocas).
Esses gringos são uns bunda-moles.
Hoje eu tô invocado.
Um abraço.

R.C said...
This comment has been removed by the author.
R.C said...

Jens, tens que tens la tuas razoes! Mas o jogo da politica, Jens, eh complicado. O ladrao, por definicao, eh aquele que tira de alguem o que a esse alguem pertence sem permissao. Ressalve o "sem permissao". No primeiro caso, os republicanos seriam acusados de roubar as eleicoes dos democratas. Nesse caso, os vermelhos nao roubaram nada que os azuis apenas concederam, vide Al Gore a George Bush. Os motivos sao dos mais variados, mas todos culminam no maturississimo desejo intimo de vencer e ganhar e vencer e ganhar novamente que todo politico, vivo, tem. Nao houve roubo, Jens, porque esse mesmo sistema do qual tantos reclamam estava vivo na epoca do tao maravilhado Bill Clinton, que alem de gostar de licoes orais, eh um otimo e eloquente politico. Em sua epoca, as agencias responsaveis guiaram oficiais das urnas para rejeitar aqueles que tivessem nomes apenas parecidos com nomes de convictos. Os "chad", as cartelas, fazem parte de um sistema arcaico no qual nao contam os votos, mas sim as estatisticas, tao boas quanto quaisquer. Os votos do individuo pesam diferentemente em cada estado. Quem vive em Iowa nao conta o mesmo contado a quem vive na California. Os colegios eleitorais, nao o voto popular, sao o pilar do sistema eleitoral dos Estados Unidos. Entao nao houve coronelismo, nesse segundo caso, do povo ter sido roubado, Jens. Eh Estado-Unidismo.

abraxao

RF

5:41 AM

loba said...

qdo abri a caixinha eu tinha algo a dizer. mas lendo vc e o jens, emudeci. vcs sabem doque estao falando, ao contrario de mim (acho). mas de uma coisa eu sei: se existem mais de duas américas, existem ais de dois brasis. pq a classe governante sempre será um lado acima de todos os outros!
um beijo! e uma careta! rs

Lola said...

Eu gosto do Al Gore, mas, talvez, para "eles", "Ele" seja bom demais para estar na Casa Branca...
Ótimo blog.
Beijo.

Jean Scharlau said...

Estás completamente na cobertura da eleição aqui no blog. Imagino que essa escolha esteja bastante ligada ao curso de jornalismo. Não sou professor, nem conheço os Unaitedis por dentro, mas daqui de fora parece-me que fazes um bom e útil trabalho.

Bons ventos te alcancem sempre as informações de que precisas.

Cris said...

Gostei da tua presença lá no sítio, Royzito. mesmo que a falar de hamsters..rsrsr.
Gostei da reflexão sobre roubar com permissão.

beijão e parabéns. Continuas sagaz.