Friday, March 21, 2008

Respondendo

“Vamos por partes e ao todo em si:

As eleições presidenciais norte-americanas são, sem sombra de dúvida, dos eventos políticos mais importantes e complexos do mundo. Existe tanta informação disponível a respeito que é literalmente impossível não formar uma opinião sobre quem seria o melhor, e por quê.

Confesso ainda estar meio cética em relação à Barak Obama... Dei uma espiada no site
http://www.barackobama.com e existem algumas questões que faltam abordar ou levantar por assim dizer. Principalmente se procurarmos os tópicos em que os Republicanos são especialmente criticados.

O Interessante é que um padrão se repete: para cada grande problema atualmente enfrentado pelos Estados Unidos, Obama apresenta uma solução simples e idealizada. Um exemplo? O óbvio: Iraque.

Não creio nesta saída óbvia... A crise ecônomica sim, é no momento um problema a ser pensado e analisado com carinho.

Algo me diz que Barak Obama chegará até um limite x...
Hoje saiu um resultado na pesquisa Gallup.
7% (por aí tem um tanto de credibilidade, aqui pesquisa de opinião é 0) de vantagem para a Sra. Clinton...

Algumas pedras ainda irão rolar...
Seu espaço esta se tornando leitura obrigatória...muito bom...
Beijos.”

Por Tânia, 21 de Março, 2008.

Tânia, querida, bom receber comentários de pessoas novas como a Deborah e você em minha casa. A Internet serve para isso mesmo, uma reunião de pensamentos amadores. Há pouco, li um artigo do dramaturgo Gerald Thomas no Direto da Redação em que ele diz algo que me fez pensar: “Os dias de hoje são chatos. Boring. Todo mundo é “alguém”. Tem site pra tudo que é lado, muita gente importante! Uns falando dos outros. Incesto perde!” (Confiram em seu último texto lá do DR.)

A verdade é que o meu é sim mais um desses, em que queremos dar os nossos pitacos, as nossas posições, e nem sempre nos vemos tão preparados quanto os demais. Mas uma das realidades contundentes de nossos tempos é o valor da mídia, que, ao invés de reduzido, emancipado, ferido, cambaleado, é hoje em dia mais poderoso do que qualquer outro poder. Não fosse, não seria tão temido na China, no Tibete, em Mai-Lai, na Rússia, na Cuba, no Brasil e, grande estapafúrdia, nos Estados Unidos.

Falo disso porque os olhos devem sempre procurar quem controla a mídia: O estudante chinês com um celular da AT&T, ou o jornalista russo pago pelos fundos de putin? Ou o repórter bem intencionado paulistano subordinado de subordinados de malúfis? Ou o poeta amador carregando uma câmera portátil na Venezuela?

Tânia, não mudo de assunto, apenas deixo uma deixa especial ao valor desse e de qualquer outro blog, e da opinião formada que todos temos a respeito de determinado tema. É exatamente isso que “vence” e “perde” campanhas para candidatos, o que você e eu pensamos mesmo não votando nas eleições dos Estados Unidos. Talvez isso não pudesse ser dito há mais de dez anos atrás, mas as coisas mudaram desde então, e a geração YouTube mesclada à voz da blogoesfera, assimilando-se ao capitalismo profundo de idéias e mercadorias, combatendo com cada vez maior a intensidade as vozes antes solitárias pelas ondas narradas e televisionadas desde o início do século XX, fazem toda a diferença na decisão estadunidense de 2008.

E como Barack Obama fala sobre “diferenças”, há um argumento que me parece lógico em apenas elegê-lo por, como disse Geraldine Ferraro, ser quem ele é, um homem negro de mãe branca bem formado, bem educado, eloquente e inteligente de ideais diversos e até mesmo, em parte, conflituosos. Porque Tânia, Obama não tem as melhores soluções práticas sozinho. Precisará de sua base, de seu vice-presidente ainda não nomeado, de seu gabinete, do Congresso, do Senado, dos “checks and balances” (checagem e balanceamento dos poderes governamentais), e de lobbystas, multi-nacionais, sem contar na tão temida e abusada mídia.

Por isso a premissa central desse blog é que o eleito será o próximo “porteiro”, em contraste e até em sarcasmo ao sempre tão divulgado “cargo mais poderoso do planeta.” O que muitos se esquecem, infelizmente, é que todos somos em grande parte responsáveis por nossa nação, e que nenhum presidente conseguirá mudar ou revolucionar absolutamente nada sozinho. Essa é outra diferença, já que tratamos de Obama: Outros líderes tiveram a mobilização de suas massas. Outros líderes, pacíficos ou não, conseguiram que o povo ouvisse e executasse as propostas mudanças.

A voz de “todos sendo alguém”, logo todos sendo ninguém (vide O Zero, no Achei USA), pesa realmente, Tânia, mas por ser apenas voz e reverberar tantas vezes a opinião da mídia massiva, sem necessariamente recriar idéias novas – o que bem posso estar fazendo sem nem mesmo perceber – talvez ainda precise pesar mais.

Esse é o objetivo pintado pela campanha de Obama. O que ocorreu com o Rev. Wright, o anti-racismo mencionado, anti-Estados Unidos da KKK-América, é apenas um detalhe completamente irrelevante se comparado ao concreto ódio demonstrado por parte de nossos representantes nacionais a determinadas fés, a determinadas raças, a determinados modos comportamentais. Esse ódio, que existe tanto no ressentimento de negros contra brancos pelo obscuro passado do país (continente), existe em todas as camadas sociais, e geralmente o reprimido é quem tem o menor poder, atualmente melhor refletido em determinadas regiões com armas-de-fogo, e em outras com puro papel monetário.

A idéia da “mudança”, de fazer “diferença”, Tânia, a inspiração que Obama quer causar sequer precisa garanti-lo o cargo à presidência, mas essas palavras, “vocês precisam fazer,” “vocês precisam pedir,” “vocês precisam decidir,” “a voz de vocês precisa ser ouvida,” “as atitudes de vocês são as que contam,” podem até ser retóricas e sofismos políticos, mas têm sentido em si, e deveriam influenciar uma atitude menos separatista, menos segregadora, menos intolerante em eleitores democratas, republicanos, conservadores, liberais, libertários ou populistas.

Obama convence especialmente no que diz respeito à guerra do Iraque. Sua ousadia de propôr algo que não pode dar é justamente o que o eleitorado geralmente não precisa, mas é exatamente a vontade do eleitorado. Vender a guerra do Iraque como fazem os republicanos, tentar justificá-la e tentar condizer a sabedoria de John McCain com suas gafes geo-políticas copiosas no Oriente Médio, é um trabalho que já vem sendo feito há mais de meia década, uma mentira à qual nos conformamos por mais de cinco anos. Por que então, Tânia, agora pergunto, não viver uma mentira que ao menos reflita a vontade utópica da nação?

Em um sentido romântico, como pessoa romântica e nem sempre sensata, apóio o que Barack Obama representa. Em certa época, convivia com um afro-descendente que pertencia à religião adoradora de Jah Rastafari, como Bob Marley. Seu argumento para denominar o nível de profeta a Marley era sua descendência de pais de raças diferentes. Poderia comunicar-se, esse novo Messias, com pessoas de todas as cores e todas as religiões. Talvez romanticamente, é isso que as pessoas procuram em Obama.

Mas há fatos consumados: Obama não apresenta soluções tão práticas quanto as de Hillary Clinton. Apesar da poeira de campanha de Clinton, apesar de todos os seus truques sujos, ainda civilizados se comparados ao que há de vir entre republicanos e democratas antes das eleições gerais em Novembro, ela realmente oferece um plano à saúde universal melhor, maiores detalhes em seu intencionado orçamento, mais brava postura a competir pelo cargo de comandante do exército norte-americano, e ao mesmo tempo, nenhum de seus planos será concretizado como Clinton, Obama, ou eu e você queremos.

Não sairemos do Iraque tão cedo, ainda escreverão livros elogiando as atitudes de George W. Bush, e a arrogância de Dick Cheney, que respondeu “E daí?” a uma repórter que lhe disse: “Mas Senhor Vice-Presidente, a maioria do povo americano quer ver o exército fora do país,” ainda será descrita como a mais corajosa atitude do início do século XXI. Não conquistaremos o seguro de saúde universal porque essa não é a tendência prática do país, e o orçamento seguirá perdendo para temas relevantes a quem mais tem proximidade e domínio do poder washingtoniano.

Elegendo Obama, o povo envia apenas uma pequena, apesar de essencial, mensagem à Casa Branca: Nós queremos algo completamente novo. Alguém completamente virgem. Alguém até mesmo duvidoso, mas completamente diferente. Nós realmente queremos mudanças. Nós realmente queremos que nosso juízo seja nosso, não baseado nos pré-conceitos de todas as espécies que circulam impunes por escondidas por aí.

Tânia, e isso eu espero, muitas pedras realmente rolarão.

RF

3 comments:

luma said...

Roy, estou lendo o seu blogue a cada atualização, sempre tentando tirar um pouco do meu amadorismo e sugando a sua sabedoria! (rs*) Mas...esse final de frase não pegou bem: "o jornalista russo pago pelos fundos de putin" sei lá!

Michele said...

Roy, passando apenas para atualizar o endereço do blog.

www.compartilhandopensamentos.com.br

Beijo!

Tânia said...

Cheers caro amigo, esta nossa onversa duraria notes e noite...
pensan aqui num bom vinho e na trilha sonora para acompanhar...
Tom Jobim de fundo seria uma boa pedida...
Sua resposta merece uma análise mais profunda da minha parte....
como diz a letra da música "Como nossos Pais" "...O novo sempre vem...hoje eu sei que quem e deu a idéia de uma nova consciência e juventude..."
Quanto a mensagem de mudança ,não somente o povo americano, mas o povo homem cidadão do mundo espera algo novo...Nicolás Sarskozy e sua Carla que o diga ( se bem que o glamour esta falando bem mais alto nas atitudes, mas aí é outra história...)
Estamos carentes Roy de novidades, política, pintura, música, arte...Estamos carentes de pessoas que possam sim arregaçar as mangas e dar um sopro para nós.
Que venham estas pedras...