Saturday, February 16, 2008

De Olho na Mídia Alternativa

Ontem tive a oportunidade de passear pelos blogs que encontrei a pedido de Halem Souza, do R(e)ação das Letras, e apesar de não ter lido todo o conteúdo proposto, há dois dias venho tentando entender como os blogs mais populares funcionam. Isso apenas delinea que qualquer análise aqui feita pode até ser interessante, mas não pode ser considerada profunda e detalhada.

Os temas mais importantes com a aproximação das primárias de Wisconsin e do 4 de Março de Ohio e Texas são a disputa de Barack Obama e Hillary Clinton à nomeação democrata, e a persistência de Mike Huckabee em permanecer na corrida mesmo sabendo que suas chances são cem por cento nulas.


Obama v. Clinton


Dick Robinson está entre um dos muitos bloguistas profissionais (RealClearPolitics.com), ou seja, populares e bem remunerados, que dita a morte política de Hillary Clinton nestas eleições. Sua voz foi a primeira de aproximadamente quatro consecutivas que diziam o mesmo: Clinton falhou, e Obama será o próximo candidato à presidência dos Estados Unidos.

O motivo principal é o sucesso recente do senador, vencendo todos os “caucuses” e primárias da última semana. Quando analistas da MSNBC e CNN começaram a declarar que Clinton precisava vencer urgentemente para manter-se viva na disputa, New Mexico anunciou-se a seu favor, depois de uma extensa recontagem das urnas fechadas na Supertuesday. Essa vitória, contudo, lhe garante apenas um delegado a mais pelo próprio estado do que seu rival. Isso significa que a contagem continua favorecendo Obama, e nessa Sexta-Feira mais um super-delegado (o segundo em dois dias) anunciou que apoiaria o senador pelo Illinois depois de já haver declarado apoio a Clinton, baseando-se enfim nos eleitores de seu distrito vencido por Obama.

No entanto, Dan Abrams salienta em seu talk-show que Hillary Clinton ainda tem uma estrondosa vantagem em Ohio e, com a ajuda da população hispana, no Texas. Como a estratégia de descartar os menores estados e esperar a última hora para dar início às campanhas não funcionou para Rudy Giuliani ou Fred Thompson, depois de reformar seu time, Clinton decidiu considerar Wisconsin e tentar diminuir a vantagem de Obama, sólida de acordo com as últimas pesquisas.


Tortura e “Waterboarding”


Para os correspondentes frequentes e numerosos de um dos mais influentes blogs liberais dos Estados Unidos, DailyKos.com, foi importante o tema do voto do senado pela lei 327 que diria, em termos leigos declamados por leiga pessoa, que o exército dos Estados Unidos e todos seus contratores devem seguir o manual de procedimentos inquisitórios, e não usar de métodos torturosos como o “waterboarding” (simular afogamento via panos molhados e água copiosamente jorrada sobre a boca e nariz do interrogado) para obter informações de terroristas.

McCain rejeitou a emenda, mas como os próprios bloguistas salientam, o senador pelo Arizona pode se esconder atrás de regras que permitem a rejeição de determinados parágrafos de uma lei até que os mesmos não sejam adaptados ou corrigidos, e o eleitor não sabe de quais detalhes McCain discorda. Tucker Carlson, também âncora da MSNBC, diz que o veterano candidato é mais honesto do que a maioria, mas liberais e democratas acusam-no imediatamente de “vira-casaca”, termo temido por candidatos, que inclusive pesou na derrota de Mitt Romney. Carlson basea-se em discursos de McCain como o feito em Michigan, em relação aos empregos automobilísticos, e sua posição contra o etanol em um estado que dele melhor se subsidia.

Mas por falar em Mitt Romney, nenhum bloguista discordou dos grandes tubarões da mídia estadunidense quando disseram que seu apoio recente a John McCain não se tratava de mais uma de suas mudanças de opinião, nem que jucosamente. O fato é que, ao endossar McCain, nem Romney nem seu “muy-amigo” e ex-rival à nomeação pareceram muito sorrir ou bem sentir aquele doce momento. Com o apoio de Romney, o ex-prisioneiro de guerra aspirante à presidência pode ganhar até 286 novos superdelegados, o que o deixaria a menos de 100 da segura nomeação (1191 delegados).

O último endossamento a John McCain foi o de George H.W. Bush.


Rush Limbaugh e a mídia Conservadora



Quando se trata de opiniões, a minha, baseada no que vi até agora, é que conservadores muitas vezes não têm argumentos lógicos a quaisquer opiniões que não sejam estritamente econômicas. Nessas, eventualmente, eles mantém uma base racional que me convenceria se a situação mundial fosse melhor do que a sabemos ser. Mas em discursos moralistas ou bélicos não há nenhum ataque que não apele a clichês emocionais, e nenhum pensamento bem construído no que diz respeito à cultura dogmática.

Isso vale não só para os conservadores daqui, mas para todos os que eu conheci até hoje. Jamais conheci um argumento contra o aborto de cunho dogmático que realmente fizesse sentido, e outros argumentos filosóficos demonstravam uma maturidade que a população comum não tem em conhecimento, e jamais teve, pois tamanho conhecimento sempre foi privilégio das elites, que usam da informação a modos maquiavélicos, quando a usam. Afinal, nem sempre a usam, e nem sempre a conhecem, como bem se assemelha ao que testemunhamos dos tempos presentes.

Rush Limbaugh, no entanto, demonstrou sagacidade ao aceitar um convite do “inimigo” a entrevistá-lo em sua rádio. No blog pela revista Time (pesadamente democrata) publicado no portal RealClearPolitics.com, Limbaugh explica a Jim Carney que seu trabalho não consiste em informar pessoas robotizadas, e que essa não é a massa que frequenta blogs alternativos.

Entre suas palavras:

Jim Carney pergunta: “Seu plano secreto então é que você acaba sendo o maior ajudante de McCain [pela aversão da mídia e da população à palavra do conservador]?”

Rush Limbaugh: “Não é um plano secreto ... Eu não defino meu sucesso de acordo com quem vence as eleições, pois políticos vêem e vão, e eu estarei aqui pelo tempo que eu quiser. Eu joguei uma bola de efeito à midia ontem [quando disse o que Carney pergunta, que ele acaba ajudando a Romney pela aversão que a mídia liberal tem, segundo ele, por suas idéias], e eu realmente acho que há algo de verdade no que eu disse.”

J.C.: “Há algo que McCain possa fazer para que você o aceite como candidato?”

R.L.: “Ele não deve nem tentar. Eu não acho que o senador McCain deva fazer nada mais do que ser quem ele é, e deixar as fixas caírem. Pelo menos sua imagem demonstra que ele nunca desiste. Ele é um ‘ás’.”

J.C.: “Você vai criticar, certamente, o candidato democrata, mas continuará pegando no pé de McCain nas eleições gerais?”

R.L.: “Sim. Mas não é nada pessoal.”

J.C.: “O que você acha que a mídia de mainstream precisa entender em relação a você e o seu programa que eles não entendem?”

R.L.: “Eu acho que eles não entendem, em primeiro lugar, por que eu faço o que eu faço. Minha definição de sucesso não tem a ver com quem vence as eleições, e sim, a questão é ‘o programa está crescendo em nível de audiência? Há mais pessoas assistindo o programa? Podemos cobrar taxas confiscatórias [de nossos anunciantes]?’ Sim, podemos, e estamos crescendo continuamente ... Eu me divirto diariamente ... Eu tenho a vantagem de poder dizer o que eu quero dizer ... E o digo, sou honesto ... Mas também há um quê de “showbizz” nisso tudo. Há muita competição no mercado, e você precisa fazer certas coisas para sobresair-se no meio de tanto ruído.

O que a mídia também não entende .. é que a mídia não elege os candidatos ... O eleitorado pensa, não são caipiras robotizados que fazem tudo que a mídia manda.”

Há, é claro, muito mais a dizer sobre a entrevista e sobre o que responde Limbaugh, mas ele merece crédito pelas palavras lógicas e argumentos coerentes, mesmo que não se trate dos assuntos que realmente mais importam, mas mantendo-se consistente e saindo-se em ótima defesa ao ruído causado pela mídia em torno de seu apoio fracassado a Mitt Romney, e a tendência da população a escolher por si o que melhor entende por certo.

Atando a esse assunto e terminando a revisão semanal, em outro blogue, Escathon, um bloguista disse que a midia conservadora alternativa defendia o fato de ser menor em número e em crescimento proporcional à mídia alternativa liberal do seguinte modo: “Liberais têm mais tempo em mãos, porque abortam seus filhos e não precisam perder tempo criando uma família, bem como trabalhar e gerar lucro ao mercado e ao país.”

Nada mais a acrescentar. Como diriam os advogados nos filmes hollywoodianos, “I rest my case.”

RF

3 comments:

sandra camurça said...

oi, voltei. não li a postagem mas eu tb endosso Obama.
beijo.

Jens said...

Longo, mas esclarecedor. Estamos aí.

Halem Souza said...

Roy, bom panorama apresentado. Agora, se não for pedir demais (e estou me excedendo nos pedidos) o que é essa figura do superdelegado? E qual seu peso na escolha dos candidatos?