Wednesday, January 30, 2008

Eu Endosso (Uma odisséia em Muitas Vidas) Parte I

Já pensaram? Já pensei. Algum dia, ou dia nenhum, eu endosso algum candidato e o que eu digo faz sentido, e esse sentido, se certo ou sinuoso, influencia o pensamento de um eleitor ou uma eleitora, ou muitos eleitores. Refletindo sobre as futuras e atuais eleições nos Estados Unidos esse ano, penso que talvez seja esse nosso maior problema. Nosso, seu, meu, a terminologia que me perdoe, mas falo de pessoas comuns, falo de indivíduos e tento forjar essa idéia de que o coletivo existe apenas pelo engenho e pela criação constante de cada indivíduo. Então nosso problema é esse, esperamos que o outro endosse, ou queremos endossar, não podemos simplesmente ficar em cima do muro. Em cima do muro é lugar de covardes.

Então somos contra fulano e a favor de cicrano. Acreditamos que nosso eleito, nosso escolhido, merece mesmo mais do que os outros o cargo ao qual concorreu. Merece mais medalhas, fez mais, ou demonstrou maiores qualidades. Nesse momento, pessoas estranhas, pessoas outras são geralmente analisadas inescrupulosa e meticulosamente. Ou será isso algo possível?

Hoje me vejo em 2005, disputando a popularidade de outros blogues nessa esfera que realmente tem se tornado uma experiência interessante de “libertas expressões”. As eleições eram outras, em outro país, um certo país que de modo ou outro jamais me pertenceu. Falo do Brasil, que a mim não pertence. Pertence, por acaso, aos meus ex-colegas paulistanos judeus, que jamais adotaram nenhuma séria tradição brasileira, que geralmente se divertem com músicas estrangeiras e muitos nem sabem o que significa “música brasileira”, que não assistem filmes nacionais, não preferem produtos nacionais, e raramente geram lucro à nação?

Pertence aos meus companheiros árabes do Brás, que por primeira geração nem o Português falam, e cujas religiões e valores morais nada se comparam aos valores morais e às religiões brasileiras, e que construíram uma paisagem paulistana que não existiria caso não fosse sua chegada, mas que mal fazia parte da intenção de nossos constantes colonizadores? Pertence ao brasileiro que cospe no chão que pisa, ao que procura levar vantagens sobrenaturais naturalmente, e ao que aceita a zona que vê porque vive melhor do que o vizinho e apenas pretende continuar melhor vivendo do que os vizinhos?

3 comments:

sandra camurça said...

menino, pode parecer bobo o que eu vou te dizer. mas o brasil me pertence e tb pertence a um bocado de gente simples, pobre, que mal tem o que comer durante o ano, sabe quando? no carnaval, no carnaval de rua de recife e olinda, que considero o mais democrático do brasil. mas aí me lembrei do renato russo, "vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado...". talvez eu seja uma idiota mas que essa festa é linda demais, pelo menos aqui, ah isso é!

beijão pra tu.

...fiquei pensando como deve ser ver o brasil de fora...

O Idiota said...

Sandra, eu sei pouco, muito pouco mesmo. Talvez quando converse com a media, as pessoas me pensam inteligente, mas trata-se de uma ilusao comum, facil de enganar. Paradoxalmente, estudos judaicos discutem a condicao de Noe nas epocas ancestrais de nossos contos biblicos. Afinal, ele era um homem santo porque vivia entre pecadores, ou seria ele o mais santo mesmo se vivesse na epoca de Abraao? O que quero dizer e que sei muito pouco para classificar idiotas. Sou um caolho miope quando converso com analfabetos, mas sou nada nem ninguem em comparacao ao seu conhecimento especifico em sua area, nem mesmo ao conhecimento especifico de muitas pessoas das quais discordo, mas sempre leio.

Ainda nao falei de idiotas, mas falarei. Quando o fizer, na verdade refiro-me a um sentimento meu, intimo-publico, e o mesmo em se tratando dos outros muitos adjetivos similares. Mas ha tambem a tradicao psicologica de encaixar a auto-reflexao em nossos sentimentos, assim sendo eu o idiota vendo idiotas nos outros.

Comecei esse texto ontem pensando em "endossar" Barack Obama. O problema e que quando me aprofundei no segundo paragrafo, vi que nao conseguia, que nao tinha a capacidade de endossar ninguem. Vi que o texto se tornava uma viagem no tempo, a memoria do tempo em que, por escrever mais em Ingles do que em Portugues, disputava comentarios sobre a politica brasileira com pessoas que realmente sabiam o que diziam, mas que ao mesmo tempo endossavam candidato x ou y, esquerdista, direitista, mais corrupto, menos corrupto, mais correto, menos correto, bla-bla-bla. E nao conseguia, a epoca, entender absolutamente nada do que ocorria porque o mesmo tema era tratado e destratado ao avesso por todos os lados que eram bem mais do que dois, aos detalhes e farrapos muitos deles irrelevantes, a midia criticada por um grupo que atua como a midia para o bem e para o mal, uns aos outros degladiando-se em deleites que, a mim, pareceram estupidos.

Ja escrevi outro comentario-texto, Sandra, mas e que pensando no carnaval que voce menciona com tanto carinho, no Renato Russo, que eu adoro, e pensando no "me pertence" ou deixa de pertencer, vejo que devo uma explicacao aos leitores brasileiros. Esse texto salienta meus sentimentos em relacao a politica, da qual sei pouco como qualquer tema, mas pela qual venho me apaixonando. Mas nao quero que as pessoas pensem que eu favoreco a politica dos Estados Unidos porque moro aqui, e critico as posicoes dos brasileiros nas passadas ou futuras eleicoes. Nao quero que as pessoas se sintam xingadas, mesmo que o texto realmente seja bravo, e apenas comecou, acredite, o pior esta por vir. Idiota, quem disse foi Russo em suas palavras, mas essa referencia ha de vir em outro adjetivo em minhas proprias palavras na continuacao ja escrita do texto, em sua segunda parte. Nao sao voces. Sou eu, porque somos nos, manja?

PS: O carnaval eu nunca provei como voce provou, Sandra. Mas bem queria, e ainda o farei.

brigadu, abraxao

RF

Halem Souza (Quelemém) said...

Pois é, Roy, essa noção de "pertencimento" gera mesmo muita coisa pra pensar e provoca muita "paixão" . "Pertencer" a um país, uma etnia, uma raça, uma religião, uma facção política, ou mesmo a uma torcida de futebol, são "camadas" formadoras do que somos.

Por isso, esolhemos lados, definimos preferências, criamos fronteiras e estabelecemos limites (estes últimos, simbólicos, às vezes). Como você bem observou, "em cima do muro é lugar de covardes". Mas aguardemos o seguimento de sua postagem. Um abraço.