Wednesday, March 24, 2010

Os meios se Auto-Justificam


O que mais me inspirou no filme The Blind Side, nomeado ao Oscar para a categoria de melhor filme e provavelmente mal ou nem visto por espectadores que não aprovam ou criticam o consenso do moral norte-americano, foi justamente algo que pouco percebo discutido nas críticas que leio, ouço e dialogo com interlocutores dos mais variados ao longo dos anos. É tão difícil manter ideologias quando não sabemos, a maioria de nós, seguir a mesma linha pensamental, lógica e ativa (no sentido da coerência entre o que pensamos e assumimos como certo e o que fazemos de concreto) quando o mundo à nossa volta nos surpreende e transcende o que nos é tido conceitualmente como comum, e o que não nos faz o menor sentido. Clássico exemplo: Quando o sexo fala mais alto do que todo o poder existente na face desse planeta, como no caso de Bill Clinton e o boquete que recebeu de Mônica Lewinsky, seu potencial impeachment deixa de ser absurdo e fictício para tornar-se risco iminente.

Este, o mesmo que aqui miro quando volteio o pescoço e observo meu ambiente que sei que é o mesmo que você, leitor ou leitora, enxerga quando volteia seu pescoço, é um mundo pós-moderno. Se confunde nas luzes e nas sombras de nossos passos solitários ou acompanhados, bem acompanhados e mal acompanhados. É um mundo de onde as lições já não mais pertencem, exclusivamente, aos eclesiásticos ou aos iconoclásticos e aos cultos e eruditos das nações. É um planeta que não mais se comunica apenas por palavras escritas, mas por onomatopéias e realidades alternativas. É uma dimensão que abriga liberais e conservadores, religiosos e ateus igualmente, uma realidade multi-real. Portanto, se escolho aprender o rumo de minha vida no fundo de uma lata de cerveja em seu logotipo, ou no roteiro mentiroso de uma película hollywoodiana, faço bem e melhor do que muitos.

No filme, aprendi que sou racista, ao contrário do que sempre escrevi aqui. Odeio negros. O pior de tudo é que odeio judeus também, apesar de sê-lo. Nem tente falar comigo sobre brancos, porque os odeio tal qual os demais. Homossexuais são odiosos. Árabes, mais um foco de ódio. Asiáticos? Inspiram desdém, mais um sinônimo apropriado. Odeio os fracos e os fortes. Odeio os semitas e os anti-semitas. Odeio as mulheres, como odeio as mulheres. Odeio ricos, mas odeio pobres. Às vezes o ódio me basta quando quaisquer desses me cortam violentamente ou brecam subitamente no trânsito transtornado das estradas pós-modernas. Outras, quando me olham com desprezo porque tenho pinto ou como é meu pinto ou quanto uso meu pinto ou porque meu pinto vem acompanhado de um cavanhaque, porque por outros motivos não poderia ser. Ou, em alguns casos, quando projeto o ódio que sinto por mim por não encontrar outros motivos a justificar o ódio que elas tenham, ou eles, e sintam e nutram e conservem por mim.

Mas o ódio que sentem por mim pouco importa. Nasci sob o signo da lua vermelha, refletindo as luzes sombrias do planeta Marte, um taurino bufão quando as estrelas entretiam o imaginário abundante das estúpidas passadas civilizações. E não mal me compreendam, somos e continuaremos sendo tão estúpidos quanto foram nossos pais e mães, não se preocupem em honrar seus nomes. O que mais importa é que esse ódio que sinto, a raiva, o terror, a vontade de ter uma arma de fogo e atirar em quem eu julgar, naquele momento, que mereça meus disparos, advém do ódio alheio, pronunciado sem sentido, proferido por pessoas que, como eu, intensificam seus momentos de pura maldade e os extrapolam, talvez como eu, para toda uma vida.

Nesse sentido, o bem é raro e não ausente de sua própria comerciabilidade. O ódio que nutrimos pelo diferente, pelo distinto, todos nós sem a menor das exceções (o que não nos priva da culpa de sermos racistas, e se vocês não quiserem aceitar a crítica, podem deixá-la descansando em meus ombros tranquilamente) é tão natural que nos esqueçamos, vez e outra, que o mais importante é a continuidade da sobrevivência humana desnexada que ocorre apesar de nossa aceitação eternamente, e sempre ocorreu. Quiçá morramos todos algum dia, o que sem dúvida ocorrerá dentro da escala de nossa continuidade, mas quiçá morramos todos de uma vez só, o que significará nossa extinção, e nesse caso dane-se a continuidade já não havendo quem se lembre dela, ou quem a grave para o benefício histórico de futuras gerações; entretanto enquanto a continuidade existir, mantém-se indefinidamente a transcendência do espirito e da moral e da ética de todas as raças que hoje perpetuam a espécie humana.

Segundo a lógica os meios são o que mais importam, e não seus fins. Se os fins forem horrendos, as intenções malévolas e os objetivos obscuros, basicamente fluem em plena osmose com o ritmo da vida. O que é a vida se não a experiência semi meta física da influência do tempo sobre nossos corpos e mentes, seja ela positiva ou negativa, a terminar do mesmo modo que outros corpos e outras mentes terminam depois do cansaço temporal, a morte, a decomposição e o todo-poderoso caos? Destratar nossos iguais para obter maiores objetivos é uma mera e imbecíl redundância. Quem rouba sem precisar roubar ou mata sem precisar matar é apenas idiota. Quem tortura é sempre idiota. Quem estupra é sempre um energúmeno. Não importa a sua pobreza, riqueza, status minoritário ou majoritário, quando sua mente conclui que qualquer uma dessas atitudes é correta, você se torna um imbecíl, um estúpido, um idiota e um energúmeno. Adoro usar o adjetivo “retardado” para descrever você.

O racismo apoia a desumanização dessas minorias, maiorias, pobres, ricos, pretos, brancos, homossexuais, latinos, asíaticos, imigrantes, brasileiros, argentinos, tailandeses, chineses, russos ou tchecos, e portanto é o ápice da estupidez. Sendo um idiota e deixando de sê-lo, ao mesmo tempo, opto pelo vermelho sanguinário de meu planeta Marte, e digo que caçarei, sempre que puder e tiver forças, negros ou brancos, pobres ou ricos, judeus ou árabes, kurdos ou persas ou turcos, caso demonstrem o ódio que sentem pelos demais baseado estritamente em sua etnia, cor, raça ou credo. E usarei suas qualidades mais íntimas para descriminá-los sem o menor dos pudôres.

Essencialmente, no entanto, o que aprendi é que o bem deve ser feito como um meio não importando seus fins. Os meios não justificam fins, nem fins justificam meios. Os meios se auto-justificam. Os meios são a moral de nossa história. O que fazemos enquanto vivos importa muito mais do que o que dizem de nós enquanto mortos. Foda-se a morte, basicamente, e fodam-se os fins. Se você quer dar dinheiro e roupas a quem precisa de roupas e dinheiro, foda-se se você quer isenção de impostos ou que o(s) receptor(es) de suas benesses siga(m) uma carreira estelar na universidade de seus sonhos ou na empresa de seus sonhos ou no culto de seus sonhos. Dê, primeiro, roupas e dinheiro e comida e afeição a quem precisa destes. Foda-se se você quer a aceitação de sua comunidade ou de seu mundo, como quer Bill Gates, e foda-se se você quer futuros clientes. Se não o faz, foda-se se quer ser uma boa pessoa, como eu quero, ou se suas ideias são popularistas e revolucionárias. O que importa são os meios, a atitude, o caminho, não o fim, o objetivo, a inevitável morte.

O mundo pós-moderno mais do que permite que sejamos idiotas e não-idiotas ao mesmo tempo. A escolha é justamente nossa, e existencialmente não podemos fingir que não seja nossa. Mas continuarão sempre sendo os meios os mais importantes. Se seu fim é ser rico, mas você não pisa em ninguém ao longo do caminho e ainda ajuda quem é pisoteado pelo cotidiano traiçoeiro alheio, você não é um idiota. Sejam quais forem suas intenções, egocêntricas ou egoístas, como as intenções de absolutamente todos os demais, você não é um idiota. Mesmo que queira continuar sendo rico para que mais brancos, ou negros, ou corinthianos ou armênos sejam ricos do que seus opositores e os ”outros” de suas estirpes não sejam, se você ajuda mais do que atrapalha, você não é um idiota. Seus meios se auto-justificam. As galinhas bem tratadas antes do abate não são abatidas por idiotas. Os meios se auto-justificam. É o máximo que consegui encontrar para lei sagrada em minha vida. É meu lema de morte. Os meios se auto-justificam.

RF

3 comments:

Halem Souza said...

Roy, eu não saberia dizer se os meios se auto-justificam, mas concordo plenamente com uma frase da sua postagem: "o mundo pós-moderno mais do que permite que sejamos idiotas e não-idiotas ao mesmo tempo". Ela é perfeitamente adequada a esse vácuo ideológico e moral, característico da chamada "pós-modernidade".

Outro dia li uma entrevista do psicólogo Howard Gardner na qual ele dizia que, no futuro próximo, não bastará apenas ter inteleigência instrumental, operacional e lógica; será necessário (e vital)ter compromisso ético. Concordo com ele.

Preciso também adotar esse lema de morte"; só não sei se como uma espécie de lei sagrada em minha vida.

Um grande abraço.

Jens said...

Oi Roy.
Concordo, Roy: "os meios se auto-justificam. Os meios são a moral de nossa história". Diria, em outras palavras, que o importante não é chegada, mas o modo como percorremos o caminho. No fim, o que importa é o grau de idiotice que permitimos que aflore no decorrer da jornada. Nesta trilha, não existem santos ou heróis - todos merecemos chicotadas no lombo. O que varia é a intensidade e o número de chibatadas a que cada um faz jus.

Roy Frenkiel said...

Halem,
Apesar de pessimista nato como voce, irmao de blogues, ainda acredito que o maior problema nao seja a falta de compromisso etico e sim os excessos sociais em suas maiores variedades. A maioria de nos ainda fode menos com os outros do que a minoria vigente. Nao digo dos pequenos pecados que cometemos e nossas falhas diarias, pois somos imperfeitos, mas falo dos pecados que nao cometemos. Nao matamos, majoritariamente. Nao roubamos, majoritariamente, ao menos nao de quem mais precise e sinta falta do que o dinheiro possa comprar. Nao humilhamos diariamente, a maioria de nos. Nao sei se eh necessario o compromisso intelectual com fazer o simples bem ou deixar de fazer o simples mal. Sei que, mais do que nunca hoje em dia, podemos saber tudo e fazer absolutamente nada com maior facilidade e exposicao do que no passado.

Jens, todos nos merecemos mesmo chicotadas no lombo. Eu ando merecendo umas severas aqui. Sera que algum dia saio da casa do cachorro e me mudo pro sofa da boa dama?

Abrax

RF