Monday, October 20, 2008

Colin Powell, o Endossamento de Aço


Ocorreu no programa Meet the Press, ancorado pelo veterano Tom Brokaw. Sem querer tirar o mérito de Brokaw, o falecido Tim Russert, que revolucionou o programa e o tornou o mais temido e honroso de todos os talk-shows jornalísticos, faz tremenda falta.

Mesmo assim, o ex general Colin Powell, militar durante 35 anos de sua vida, filho de imigrantes jamaicanos, crescido no Bronx de Nova-York, decidiu endossar Barack Obama a presidente na NBC, às dez horas da manhã do passado Domingo. Como todos os demais analistas da MSNBC já haviam mencionado, o apoio era esperado.

Como a única figura política da administração de George W. Bush a escapar ilesa dos escândalos iniciados em 2003, e republicano que, em 2000, endossara Bush e Dick Cheney à presidência e vice-presidência, Powell é talvez a pessoa de confiança mais abrangente da nação. Admirado por brancos, negros, homens, mulheres, militares e pessoas pacíficas, Powell respondeu as perguntas de Brokaw sem titubear, sem rodeios, direto e certeiro, mesmo que algumas delas não tenham sido fáceis.

O motivo central de seu suporte a Obama é que, segundo Powell, John McCain tem se mostrado inapto a lidar com o problema mais contundente da nação, a economia. Enquanto o senador pelo Arizona expressou-se erraticamente na trilha de sua campanha, suspendendo a mesma, logo retornando, declarando não participar do primeiro debate e, logo, participando, utilizando de seu tempo de campanha para massivamente atacar Obama, o senador por Illinois comportou-se, disse Powell, “quase de modo oposto”.

Desde o início das campanhas gerais, Obama já tinha em seu sítio eletronico alguns planos delineados, recentemente detalhados, à economia. Para que por aqui não recáia o provável 1984 que recái nos Estados Unidos, relembro dois fatos:

1 – Desde a evidência da nomeação de Barack Obama à candidatura de seu partido, já escrevi que o mesmo levava vantagem em seus planos econômicos, mas que as guerras no Iraque e Afeganistão no contexto de relações externas favoreceriam a John McCain. Caso houvesse um ataque terrorista, mencionei, o mesmo seria utilizado vantajosamente pelo candidato republicano. Caso houvesse recessão, o contrário seria verdadeiro.

2 – Houve indícios severos de uma recessão popular, infelizmente apenas levados a sério pelo governo anos depois, com a falência de Fannie Mae e Freddie Mac, resgatadas pelo governo, e com a falência da Lehman Brothers e da AIG, respectivamente compradas pelos bancos poderosos de suas nações. O banco Washington Mutual também faliu, e foi logo comprado pelo Chase. Apenas então que Henry Paulson, Secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, representante da Reserva Federal (FED) alardearam a Casa Branca exigindo $750 bilhões de dólares, finalmente conquistados após três semanas de negociações.

No percurso, outros temas captaram a mente da população:

1 – O aumento de tropas no início de 2008, apoiado por John McCain e cunhado por George W. Bush, teve relativa eficiência. Resultou em uma redução concreta nas mortes de soldados estadunidenses no Iraque, mas ainda não pavimentou uma rodovia concreta à independência do país. A redução, contudo, contribuiu com a campanha de McCain.

2 – A escavação por petróleo nas costas marítimas era proibída em moratório nacional há quase duas décadas. Desde o aumento absurdo nos preços do combustível, Bush e McCain foram os primeiro e segundo, respectivamente, a pedir pelo retiro do moratório. Obama demorou um pouco para concordar, mas foi praticamente forçádo a fazê-lo. De certo modo, isto favoreceu a McCain, mas não prejudicou a Obama.

3 – Sarah Palin trouxe à base uma das maiores polarizações vistas nas últimas décadas, aproximando-se da extrema direita, e trazendo à tona os temas do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Segunda Emenda constitucional, forjada à garantia de que cidadãos pudessem possuir e usar armas para defesa própria ou caça esportiva, e o ensino do Design Inteligente e/ou Criacionismo nas mesmas aulas que ensinam ciências e história em escolas estaduais e federais. Por um lado, Palin conseguiu empolgar uma campanha que definhava. Por outro, jamais apagou a clara vantagem de Obama nas pesquisas.

Nem mesmo a guerra no Iraque distraiu a população. Os indicadores econômicos demonstram tamanha estapafúrdia que apenas o candidato que pudesse passar tranquilidade aos bolsos de norte-americanos seria bem visto, e, de fato, apesar de ter subido nas pesquisas com a escolha de Palin, McCain acabou caindo a uma média de 7-10 pontos em relação a Barack Obama. O mapa atual, caso assim permaneça, demonstra que o republicano precisa escalar uma descomunal montanha se quiser conquistar os 270 colégios eleitorais necessários.

Colin Powell confirmou o que muitos já sabiam:

McCain não tem um plano concreto para a economia. Se, por um lado, promete agir de maneira totalmente distintinta do que agiu o atual presidente, por outro oferece a perpetuação de sua política econômica. Promete congelar gastos sociais e gastar apenas com a defesa. Promete cortar mais impostos, mas ele mesmo não consegue superar o fato de que os únicos beneficiados seriam os donos de grandes empresas, já que a maioria das pequenas empresas (média de 95%) lucram menos do que 250 mil dólares anuais. O “Joe, the plumber” (João, o encanador) geralmente ganha muito menos do que isso, na faixa de 47 mil dólares anuais, segundo Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel da economia em 2008.

Krugman também endossa Barack Obama. À Sexta-Feira passada, escreveu em sua coluna que o dever do próximo presidente, que tecnicamente não tem grande controle sobre a crise, é gastar com seu país, desenvolver sua infra-estrutura, oferecer respaldo aos desempregados e desassegurados da nação, e não congelar os gastos essenciais. Sim, há corrupção, e certamente o quartagésimo-quarto presidente dos Estados Unidos tem meu total apoio a caçá-la e erradicá-la, mas isto não significa que o dinheiro que eu alegremente pago ao governo possa ser apenas investido no exército. Muito pelo contrário. Por mim, nós, como soldados desarmados, temos o dever de investir em nosso país, com nossos recursos, por nossos interesses de uma vez por todas.

Powell, por sua vez, enalteceu a escolha de Joe Biden à vice-presidência enquanto se disse “desapontado” pela escolha de Sarah Palin, a quem julga despreparada em demasia para uma eventual crise na qual deva assumir o trono da Casa Branca. Biden e sua experiência bipartidária em relações externas, segundo o ex Secretário de Estado de Bush, o fazem “pronto para o primeiro dia.”

Faltam 15 dias para as eleições que ocorrerão no dia 4 de Novembro. Por enquanto, as pesquisas favorecem a Obama com excelentes margens em estados antes garantidos aos republicanos. Podemos esperar, contudo, que a corrida fique mais emocionante daqui para frente. Os ataques de McCain e Palin, agora implorando aos eleitores a não eleger um “socialista” à presidência, ainda podem surtir efeitos inesperados (ou secretamente esperados, no caso do racismo enrustido). Contudo, acredito mais do que nunca que todos sabemos em qual cavalo devemos apostar todas as fichas.

RF

PS: Ironia

A economia sempre preocupou qualquer nação acima da maioria dos outros temas. Entretanto, foi a guerra no Iraque que causou o maior índice de impopularidade ao presidente George W. Bush. Como Powell disse ao endossar Obama, “sem as armas de destruição em massa, não havia motivo algum para entrar em guerra contra Sadam Hussein”.

Mesmo assim, a guerra acaba se tornando uma distração, ao invés de tema central destas eleições. Através dela, o candidato que mais se parece e mais próximo está à base que cometeu os erros em 2003, pode se beneficiar e ludibriar os eleitores com sua falsa segurança e tendências bélicas. O tempo passa, os temas trocam de lugar, mas nunca mudam.

3 comments:

rouxinol de Bernardim said...

Barack Obama vai ser consensual, não tenho duvidas.

Em termos económicos a «era clinton» vai chegar à américa e ao mundo espera-se.

A pacificação, os conflitos étnicos e religiosos espera-se que seja também uma das metas a atingir por Obama.

Roy Frenkiel said...

Esperemos que ele logre seus milagres rss

abraxao

RF

Jens said...

Hi, Roy.
Ao que parece a vaca já foi pro brejo, com corda e sino no pescoço. Tchau, McCain.
Um abraço.