Tuesday, October 02, 2007

The way things are going, they're gonna crucify me...

Ou: O(s) dia(s) em que o Humano Pecou


Assumi não mais falar do Brasil, ou melhor, não comentar as notícias que recebo do Brasil, estando nos Estados Unidos. O motivo principal é minha incapacidade de verificar os fatos pessoalmente, o mesmo que já justificaram em antagonia a um certo texto meu que falava de Cuba sob prisma pejorativo. Se nunca fui à Cuba, não posso dela comentar com precisão. Se não pesquisei a respeito do tema, então, minha palavra e um pedaço de papel higiênico valem a mesma coisa. Sim, porque não sou protetor de meus erros, sejam passados ou presentes, e não sou protetor da opinião de cada pessoa. Só vale quando se sabe.

Não sei o suficiente sobre Fausto Wolff para escrever sua biografia, ou basear nele meu TCC. Contudo, como leitor, sempre gostei muito do que ele escreve. Regozijei e ri de suas anedotas, e mesmo nem sempre concordando com suas opiniões, sempre apreciei sua leitura. Sempre significa sempre, incluindo atualmente, quando tenho a rara chance de ler algum artigo seu. Sei que não sou o único, e que Wolff, comunista e ateu, como ele mesmo se descreve, tem muitos fãs.

O episódio que tomou conta da minha ala da blogoesfera recentemente sobre o plágio de Marconi Leal cometido por Wolff*, talvez nos queira ensinar algo além da comum linha das broncas morais nas quais quem julga tem sempre o maior dos méritos e o julgado repentinamente se torna um monstro. Aliás, essa mesma “bronquinha” tive eu, comentando no blog de Marconi, a quem também admiro – bem acompanhado de um exército – pela escrita cotidiana. Julguei Wolff sem ter nem metade de sua idade. Pois, no fim do dia, me arrependi.

E eis que não acredito em seres divinos, nem em fadas ou gnomos, mas escolhi assistir o filme History Boys, de Nicholas Hytner (Inglaterra, 2006), que calhou ser exatamente o filme a me encorajar a voltar a escrever sobre “meu Brasil,” e meu Brasil não existe sem Wolff.

Nele, um grupo de excelentes alunos, em um colegial de uma cidade no interior da Inglaterra, é obrigado a cursar mais um termo escolar com o objetivo de entrar em Oxford ou Cambridge. Isso garantiria melhor status ao pequeno colegial, e o diretor deixa-se obsecar pela admissão de pelo menos um aluno a alguma das melhores universidades do mundo.

Seu professor de filosofia, arte e literatura, ou melhor, “Estudos Gerais,” conforme a descrição do próprio, é amado e peculiarmente respeitado por seus alunos, apesar de ser homossexual, e apesar de sempre oferecer carona a qualquer dos estudantes e, no percurso, tentar agarrar suas genitálias. O relacionamento revela-se desde o princípio, ambíguo, nada dicomotômico, e melhor resumindo, como a vida é e deve ser. O motivo da tolerância é também explícito: Mesmo que os tais de “Estudos Gerais” sejam realmente imesuráveis e às vezes até inúteis na vida prática de qualquer profissional, o professor sabia ensinar, e sabia enfatizar os mais profundos propósitos das artes, das línguas e da filosofia com um humor escrachado e afiado, o que era além de tudo bastante divertido..

De certo modo, seu humor e o humor dos alunos pode ser considerado marginal. Aquém dos bons olhos da população. Mas, o ato do professor de assediar sexualmente seus alunos seria no mínimo irritante caso fosse eu um deles. No mínimo, pediria que jamais fizesse isso, ou nunca pegaria carona com o mesmo. Mesmo assim, se eu fosse inteligente, equilibrado na medida certa, ajuizado na medida certa e com o que gosto de chamar de bons fundamentos éticos, comportaria-me exatamente como seus alunos. Iria às aulas sem precisar faltar, e tiraria boas notas em todas as matérias por adquirir, ao longo de suas aulas, a mesma sensibilidade ao conhecimento e à ambiguidade humana.

Uma frase de uma personagem cabe bem ao nosso tema: “O mais difícil a qualquer aluno é deparar-se com o fato de que seus professores são humanos.”

O mesmo pode se dizer de nossos pais, ou de qualquer outro ídolo. Sabem por que pessoas de juízo não gostam de que as tratem por ídolos? Pelo mesmo motivo que Woody Allen não aceitou a estatueta do Oscar: “Se eu aceito os elogios, tenho que aceitar as críticas.”

Ser ídolo é ser imperfeito, à não ser que a imperfeição caiba no ídolo. O maior problema, talvez, nem seja a admiração, mas sim o disparate opinativo, o mesmo que torna qualquer amor inviável e qualquer relacionamento baseado em falsas utopias, uma enorme frustração.

Portanto, se Wolff cometeu plágio, se precisou usar dos textos de outro escritor brilhante para manter sua coluna, ou se o fez por motivos inescrupulosos como muitos gostariam de saber ser a verdade, dêem a ele o mesmo desconto que vocês se dão quando vocês cometem algum absurdo. Não é quem nunca cagou, atire a primeira pedra. É “quem nunca fez uma cagada federal, que atire a primeira pedra.”

Não justifico seus atos, e se sáio à sua defesa é talvez apenas para ser original. A verdade é que às vezes uma pessoa pode destruir sua própria vida por uma estupidez. O que Wolff fez, e fez, infelizmente, foi algo que eu, atualmente jamais me imaginaria fazendo. Mas não me chamo Wolff, não tenho a vida de Wolff, não tenho a idade de Wolff nem sua experiência ou saúde, ou vícios, já que estamos deixando tudo à mesa. Não sei o que faria ou o que deixaria de fazer.

Caso seja ele um escritor de sua preferência, não deixe que o atual plágio desvalorize sua arte. Wilde e Shaekspeare, Dickens e Disney eram anti-semitas, e nem por isso deixo de considerar seus feitos e contribuições à minha própria cultura. Caso não gostem de Wolff como escritor, ou não gostem de suas opiniões, não se iludam, o plágio não garante uma excursão ao inferno a ele mais do que garante a vocês ou a qualquer pessoa. A realidade é que antes de sermos escritores, jornalistas, presidentes ou banqueiros, somos pessoas, e muitos se esquecem disso. Nasce daí a esquerda iludida, a direita iludida, o fascismo, a cegueira capitalista, a estupidez dos falsos anarquistas e a ideologia primitiva dos fanáticos, tenham ou não a razão. Essa é, contudo, apenas minha arrogante opinião.

RF

* Confiram o blog de Marconi Leal para maiores informações e atualizações sobre o caso do plágio de Fausto Wolff a um texto de Marconi Leal de meados de Abril.

4 comments:

ACANTHA said...

Admirável, ROY. O texto e sua opinião.

Again and Again said...

Royzinho... Não é uma cagada federal, é um "roubo" grotesco e grosseiro de um intelectual respeitado e mais, amigo nosso. Num momento em que vc se diz irritado com o Brasil a ponto de falar pouco ou nada das suas questões, que são como esta questão do artigo do Marconi, que relata a indiginidade e leviandade praticada por um jornalista... Não estou reconhecendo nessa reflexão, suas atitudes coerentes, seu pensamento original.
bj

R.C said...

Adrianinha (gostei do diminutivo), cagada federal e roubo, para mim, se traduzem igualmente. O mesmo com qualquer uma das questoes eticas acima citadas:

- Assedio sexual (nada a ver com homossexualismo)
- Anti-semitismo, racismo etc.

Shaekspeare eh o escritor mais respeitado do hemisferio, e era anti-semita. O mesmo com Dickens, um dos maiores, anti-semita. O outro, Disney, fez parque de diversoes para criancinhas e personagens simpatiquinhos ao mesmo tempo em que desenhava judeus enforcados pela Estrela de David, incitando o odio e legitimando-o.

Marconi foi roubado, sim. Nao ha como negar, nem quem queira negar, porque isso seria uma estupidez. Marconi tem direito de reivindicar seus direitos, sim. Se fosse com Mainardi ou qualquer outra pessoa, o mesmo.

Agora, de repente desvalorizar a vida da pessoa nao valha tanto a pena, nao sei, Adriana, mas talvez nao valha a pena. Talvez nao valha a pena de fazer isso com Mairnardi, ou qualquer outra pessoa. Talvez, valha a pena SIM olhar o arco da vida da pessoa... So talvez...

ate mais, Ophelia

PS: Eu nao escrevo para o seu reconhecimento, e nao tenho suficiente reconhecimento para me importar com o mesmo. Assim que, o problema eh seu, nao meu, se voce ve ou nao o que quer.

Jens said...

Humano, demasiadamente humano. E, como tal, sujeito a eventuais cagadas federais, estaduais ou municipais. Não vejo nenhum problema nisso. O importante é limpar, depois. Isto também é humano.