Monday, August 27, 2007

O Segredo de Minha Irmã

Mas jamais nos desentendemos novamente. A sinceridade reinava. Aprendi que antes de revoluções sociais, precisamos revolucionar o próprio corpo, a própria mente. Precisamos aprender em familia. Precisamos uns dos outros, e para isso, precisamos de nós mesmos. Assim amadurecemos. Assim, exatamente assim, amadureci.


FINAL



Dias, noites, semanas e meses se passaram. Nunca fui ter com Jurandir, e não direcionei a ele o meu perdão. Manso, ninguém ouvia falar dele. Parece que a incerteza vingou no ôco que partia suas opostas costelas. Ah, se não parece que seu vazio era mesmo repleto daquilo que preenche qualquer outro espaço interno, a partir dos pensamentos aos sentimentos de qualquer pessoa! O porco, que ao meu ver sempre foi porco, era humano para outros de seus filhos, filhas e netos. Bisnetos... Quase tataranetos, se Marisinha não cuidasse da assanhada de sua queridinha Bené. Era humano! A família de Jurandir era pomposa, virtuosa e rica, com lugar para revoltados e serviçais, idealistas e, ao parecer de patrões, ideais. Tinha espaço para a rusticez e a delicadeza, para o sexo e o celibato, para a fartura e a abstinência, como em minha família e ainda mais: lá havia de tudo, tudo e um punhado.

Ninguém sabia o que se dera de Jurandir, mas todos souberam que Joelmo abandonou Santa Maria depois da troca do prefeito. Já não restava muito a roubar de quem não aceitava ser roubado, pois se antes funcionava a ameaça do medo, agora o medo fazia-se aliado de quem precisasse tornar-se marginal. Sem tantos benefícios ou leais súditos, o gêmeo de meu Porco favorito desapareceu de nossa cidadela. Jurandir vivia em sua fazenda, onde recebia suas amantes depois do divórcio dado a sua última esposa, quando esta descobriu – à via de carta anônima – que o Porco era chovinista, e gostava de umas safadezas extra-conjugais. Lá viveu acompanhado aos relapsos esporádicos do calor de outrém, sem incomodar as almas cada vez mais pacatas às margens do córrego de Santa Maria. Ninguém sabia o que se dera de Jurandir...

Ao menos até a fatídica noite em que recebemos a notícia aliviada de sua morte. Era sinistro perceber a ironia nos rostos do pessoal mais velho, todos filhos de gerações reprimidas pela ordem vulgar. O choque parecia ensaiado, um abismo estupendo ecoado das gargantas dos mesmos que acostumados mais estavam a amaldiçoar o qual se dizia coronel. À mãe Úrsula nunca vi tão triste, nem mesmo à época da morte de seu irmão Arnaldo pelas terras gaúchas do outrora da cerne de nossa carne. Janaína ria-se de dia e chorava de noite, quando pensava estar só, sem ouvidos como os meus para captar os ruídos grotescos de seu luto.

Jurandir fora assassinado, isso nos quedara claro. Um tiro três-oitão no centro de sua testa. Jamais descobriram quem fez o feito. O calibre era e ainda é comum aqui nos interiores às margens do córrego de Santa Maria, entre dois de cada três homens e uma de cada cinco mulheres. Parecia até que a injustiça e iniqüidade nos desgastaria, como ocorria nas grandes cidades em que a violência se restringe cada vez menos e estende seus tentáculos cada vez mais. Mas o assassinato fora premeditado, quente, uma trama especial. Não foi um grito público, mas um chiado pessoal.

As impressões digitais encontradas na mansão do porco falecido eram comuns à residência. A pequena perícia encontrara poucos traços, e dos poucos encontrados entendia ainda menos, porque a profissão era ainda amadora naqueles fins mundanos do interior. Todas, menos uma impressão digital estranha, que os policiais responsáveis encontraram, mas não estranharam como eu. Estranhei, pois, por serem as de Olavo. Sabia que Olavo fugira de casa havia pelo menos seis meses. Possa que fizera as pazes com o pai, e frequentava a fazenda por compaixão, às escondidas de todos nós? Talvez estivesse mesmo de volta à casa em que se criou. Duvido... A briga de Olavo e Jurandir, aquele mistério patriarcal que nunca pude descobrir, menos ainda eu, que nunca tive pai a comparar; a briga do pródigo e seu progenitor fora séria, quiçá mais séria do que imaginara.

Mas eu... Cansei de suspeitar ou deixar de suspeitar, e passei a viver minha vida. Não construí colégio algum, mas ajudei a preencher o corpo de professores de nosso novo patrimônio público. Com a ajuda do prefeito, Santa Maria conquistou um bom posto de saúde e uma nova biblioteca, que Janaína ajudou a organizar e ainda ajuda. A mãe Úrsula viveu até o dia de sua morte, um ano dos mais tristes que vivi, e os vivi até me casar com uma bela Bela, que me deu um filho especial chamado Francisco, mas que pela vantagem exacerbada de seu queixo apelidamos de Quixão. Estes todos acontecimentos, porém, dos mais obscuros aos mais opulentos momentos de vitórias e derrotas, perdas e ganhos, compõem a uma outra, nova, velha história. A quem fica, um abrangente adeus. A quem vai, um ansioso adiante.



Roy Frenkiel

(Fevereiro a Agosto de 2007).

8 comments:

ACANTHA said...

"...perdas e ganhos, compõem a uma outra, nova, velha história. A quem fica, um abrangente adeus. A quem vai, um ansioso adiante." Adorei, ROY.
De verdade.
Vou reler o Segredo da "sua" irmã..

Camila said...

que fim verdadeiro...
Beijão
Ca

Priscila said...

Poesia em clima de mistério...Puro deleite.


beijos

Lilith said...

Me parece - e isso grita a cada linha do "Segredo" - que, ao passo que cada personagem encontrou seu destino, o autor encontrou a si mesmo. Descoberta nunca, nunca completa, mas cujo vislumbre simples - ainda que como caminho - nos enche de graça e de glória, de certezas e questionamentos, de alegria e tristeza... Dúbio, como tudo que nos surge à imagem da própria natureza humana.
Tem companhia no seu caminho... e tem, cada vez mais, caminho...
Olho nele! Olho nela! Com a certeza de que fim, de verdade, não há... mas há de haver coisas ainda muito melhores!
Beijo enorme e meus sinceros parabéns!

Jens said...

"Aprendi que antes de revoluções sociais, precisamos revolucionar o próprio corpo, a própria mente. Precisamos aprender em familia. Precisamos uns dos outros, e para isso, precisamos de nós mesmos. Assim amadurecemos".
Parabéns, Big Roy. Conclusão magistral. Clap! Clap! Clap!

Again and Again said...

Enfim, morre o Jurandir com a trama. Vai ficar um vazio para quem acompanhou essa narrativa apaixonada. Um certo "quero mais".
bjs
Ophélia

Jens said...

Tudo bem por aí?

Moita said...

Jurandir continuará vivo na mente de muita gente. final muito legal.

Abraços