Wednesday, March 14, 2007

O Segredo de Minha Irmã

Quinta Parte

Então baste a ladainha. Veja bem que, certo desses dias, o velho Jurandir entrou em casa sem precisar bater, como sempre fez, pegou minha mãe pelos braços já flácidos de boa idade, e pediu que fizesse a barra de sua calça. Na pegada, marcou sua pele. Pediu sem jeito, como de costume. Pediu em ares de soberba e grosserias. Quando a mãe Úrsula perguntou onde estaria a calça, Jurandir, bêbado, como o rotineiro, disse que a vestia. Janaína lavava roupas, pendurava calcinhas, passava cuecas... A clientela era escassa, não esperávamos ninguém, e o dia já se preparava a desembocar no sereno. Eu, que apenas cuidava das economias e despesas, observei, sem querer, o motim sexual de Jurandir. Violou, primeiro, os lábios de minha mãe. Depois pediu que ela os usasse em outras partes de seu corpo sujo. Fez com que se ajoelhasse, e eu apenas observava o motim sexual de Jurandir. Arrancou seu cinto negro, fétido do couro molhado, e abaixou as calças. “Faz a barra!” Gritou. E eu acompanhava, sem querer, o motim sexual de Jurandir.

E era naquele motim que eu me encontrava, com ela. Não duvidava, nem por um instante, que fossem as mãos do bastardo as que sentia à pele. Quando a mãe se ajoelhava, quando se prostrava como fazem as damas procurando prazer no prazer dos cavalheiros, eu me ajoelhava com ela. Pensava e chorava internamente, como ela chorava e pensava. O repulso que pulsava em minha jugular e a inflava, era o mesmo asco que sentia a mãe quando tragava o que nela nunca devia ter sido despejado.

Janaína estava bela, como naquela mesma tarde do motim. Sempre simplória, olhos chorosos, mas sempre tão bela. Às vezes, quando moleque, pensava em Janaína com carinhos diferentes. Nunca soube bem explicar... No entanto, em sua maturidade, a beleza me inspirava obediência. Então, nem bonito era... Era imaculado seu semblante, como uma santa, como uma anja, se anjos têm anjas. Sorria, e eu não discutia. Já diria a mãe que eu e ela nem parecíamos irmãos, pelo respeito que tínhamos um pelo outro. E a mãe não se enganava, porque antes eu senti um calor estremecido, depois senti o calor de um abrigo, e agora eu já nem sei mais o que sinto, só sei que não consigo ser a besta que me tornei, enquanto ainda perto dela.

Jurandir, na maldita tarde quase noite, saiu sem encontrar com Janaína. Quando minha irmã chegou em casa não lhe contamos nada. Nem eu, nem a mãe. Ficamos calados, porque sentíamos a mesma coisa, um certo e determinado nó marinheiro. Calados, nos escondíamos de nós mesmos e de Janaína. Jurandir abandonara a casa assim que terminou de “fazer a barra de sua calça.” Abandonou sem nem me enxergar, desprezando a dor de minha progenitora.

Güardei sua face de satisfação em minha mente, para usar nas madrugadas. Quando saía com meus amigos, a relembrava, e planejava. O que eu queria, sabia muito bem, só não tinha a menor idéia de como, nem quando fazê-lo. A morte de Jurandir, é claro, não seria viável enquanto a mãe e Janaína ainda vivessem. Causar-lhe um prejuízo financeiro acabaria em minha morte, ao menos sendo o prejuízo o merecido pelo que me fez, e à mãe. O problema era a vingança, a retribuição, o olho por olho. Jurandir tinha fama de fazer sofrer o que sofreu. Se respingassem álcool em seu paletó, nos botecos que frequentava, mandava espirrarem álcool no paletó do culpado. Depois mandava a conta da lavagem, e dependendo de seu humor, mandava espancar o pobre desgraçado. Claro, retribuição, em seu caso, significava tirar a mesma satisfação que tirou de mim e de minha mãe, naquela tarde quase noite de seu motim sexual. Uma satisfação insaciável.

E era esse, pois como não, meu medo. A vingança de Jurandir, que não seria contra mim, mas contra os membros de minha família. Caso o matasse, seu irmão gêmeo faria ainda pior, se alguns dos rumores falsos circulando a cidadezinha de Santa Maria fossem verdadeiros. Nas madrugadas, depois de uns tragos com os amigos, com os compadres, meus planos se tornavam mais concretos e menos mirabolantes. Mais realistas... O que fazer, era a pergunta. O que eu queria...? Já sabia.

4 comments:

Jens said...

Sem palavras: clap! clap! clap!

Jens said...

Aderi à prática do terrorismo virtual. Dá uma olhada nos comentários que postei na última crônica do Marconi. Ele deve estar se roendo de curiosidade.

R.C said...

Valeu Mr. Jens dos bons gens! haha

abrax

O ensandecido RF

Lilith said...

Muito bom. Mesmo. Inspirador... Também sem palavras. "Bravo", talvez... Beijo.